Magic Whisper

1 Não se dorme de janela aberta nessa cidade!


Ciaran Atenza acabara de se mudar de cidade. Era órfão e crescera em uma escola interna particular. Não era ruim como a maioria das histórias dizem. Seus tios ficaram responsáveis por ele desde que seus pais morreram em um acidente misterioso, foi o que lhe disseram.

Ele tinha apenas poucas lembranças de uma mulher, que achava ser sua mãe. Ele perguntou aos seus tios e as características eram similares. Ninguém sabia sobre seu pai. Provavelmente morto, sua mãe nunca falara dele para os parentes. Ela apenas chegou com um bebê em seus braços com um olhar vazio, que, segundo seus tios, não demorou para abandoná-la ao longo do meu crescimento. Ela morreu por volta dos seus três anos.

Enfim, infelizmente o mesmo destino seguiu seus tios poucos dias atrás. Mortos, em um acidente que a polícia não sabia explicar.

Ciaran já tinha dezessete, só poderia ficar no colégio mais um ano e, bem, ele não sabia o que faria depois disso. Quando soube da morte de seus tios e que tinha herdado a casa, algum dinheiro e uma livraria em sua cidade natal, Ciaran não pensou duas vezes e voltou para casa. Não é como se ele tivesse alternativas de qualquer forma.

O colégio era legal, ele tinha alguns amigos aqui e ali, mas seu passatempo favorito era descansar nos bosques ao redor da escola. A natureza lhe trazia paz e as criaturas da floresta não pareciam se importar com sua presença. Estranhamente, ele sentia como se aquilo fosse familiar, parecia que ele estava em casa.

Ele amava a cidade onde nascera, passara apenas seis anos de sua vida no local, mas lembrava que adorava a vila provinciana.

Ficou triste pela morte dos seus tios, mas eles nunca foram muito paternais com ele, nem no natal era convidado a cear com a família. Bem, ele os agradecia por terem cuidado dele, não é como se fosse realmente obrigação deles cuidar do filho de outros, mas... bem, ele entendia.

Não gostava de ter passado sua vida praticamente sozinho. Agora ele viera cuidar da única livraria da pequena cidade de Emerald Sea.

Abriu a janela para sentir a brisa morna do oceano entrar e aquecer um pouco as pareces de pedra de sua nova residência. O oceano brilhava mais abaixo e ele suspirou profundamente o cheiro da terra úmida e do mar calmo. Escutava as gaivotas na praia alguns metros abaixo.

Emerald Sea ficava em cima de uma montanha... não, era mais baixo do que uma montanha. Um morro. Mas era mais alto, mais respeitoso e firme que um morro. Enfim, no alto de um tipo de relevo. Era uma cidade antiga, grande parte das casas eram feitas de rocha maciça. A população era pequena e vivia do comercio local e do turismo. Principalmente o turismo. Tinha cerca de mil habitantes, talvez um pouco mais, algumas famílias estavam tendo mais crianças. Existiam cerca de cem carros não muito novos, sendo que algumas ruas eles não conseguiam trafegar. Era uma cidade incrustada nessa montanha, com uma floresta imensa ao redor para ser explorada.

Mas o que atraia mais os turistas era o fato de que a cidade tinha esse ar mágico.

A casa de Ciaran era pequena, existia uma sala ampla no primeiro andar, a livraria do lado direito da casa a cozinha do lado esquerdo e um cômodo com um quarto e um banheiro acessados por uma escada em caracol. A casa era bem iluminada por várias janelas. Pensando agora, talvez seus tios não o quisessem ali por falta de espaço.

Ciaran pegou alguns trocados e saiu de casa. Desceu a rua para comprar algo na padaria, ele adorava aquela padaria cheia de doces e pães deliciosos.

A rua estava calma e o rapaz pôde admirar os belos doces da vitrine, sua boca começava a salivar por antecipação. Bolos enormes cobertos com calda extra de chocolate e morangos, alguns com deliciosos granulados crocantes, bombas de chocolate e doces de coco estavam por todo lado e ele não sabia o que escolher.

Bom, era o seu almoço, então seria bom que ele o fizesse o mais breve possível. Ele entrou e o sino da porta anunciou sua presença, o chão de madeira ecoava seus passos leves e apenas uma senhora estava sentada em uma das mesas tomando um café.

O problema é que era uma senhora meio ranzinza e ficou encarando o loirinho o tempo inteiro que ele estava lá. Ciaran estava começando a se incomodar. Provavelmente era só mais alguém que o conhecia de sua infância. Pensou até que havia trazido lama para dentro. Mas não. Não era esse o problema. Então, qual era?

— Ah! Bom dia Ciaran! Meu bem, fico tão preocupada com você morando sozinho naquela casa! – Carmem era a dona da padaria, ela e seu marido eram muito simpáticos, eram umas das poucas boas pessoas que Ciaran conhecera na vida.

— Eu estou bem, Carmem. Não se preocupe. – Ciaran respondeu com seu jeito calmo.

— Já teve noticias sobre os seus tios? – a mulher debruçou-se sobre o balcão para ficar mais perto do rapaz.

— Não... nada inda.

— As mortes misteriosas por aqui não costumam ter soluções meu bem, eu sinto muito. – ela disse triste e suspirando.

— Aqueles que trazem má sorte. – a senhora disse da mesa olhando para Ciaran. Carmem já a olhou feio. A senhora andou na direção dos dois e ficou bem perto de Ciaran o encarando desafiadora. – Vocês de olhos felinos são os presságios de má sorte. Escute o que eu digo, Carmem. – disse olhando para a mulher e depois para o garoto novamente. – Você trará muito azar a essa cidade.

— Ora, deixe de bobagem, Carola. Ciaran é um menino excelente, esqueça essas crendices bobas! Não o assuste. Ele acabou de perder os tios e está a morar sozinho. Pobre criança. – ela disse com pena.

— O azar... o azar... – a mulher disse baixo e começou a sair da confeitaria. Ciaran a achou um pouco excêntrica, mas preferiu não comentar.

— Do que ela estava falando? – o rapaz perguntou a Carmem, ela apenas lhe sorriu divertida.

— O que vai querer querido?

— Uma torta e uma bomba de chocolate! – Ciaran já podia se imaginar comendo aquele doce dos deuses

— Muito bem... é só uma das crendices da cidade. Eles dizem que os seres de olhos felinos, no caso, como os seus, de duas cores, trarão má sorte a cidade. Os mais velhos acreditam firmemente nisso.

— Ah, entendo... – Ciaran nascera com uma anomalia rara, seu olho direito era azulado e o esquerdo era meio esverdeado. Ele achava estranho e isso o incomodou por um tempo, chamava muita atenção. Mas hoje vivia bem com isso e o cabelo loiro como ouro polido ajudava ainda mais a destacá-los, seus seus 1,76m eram modestos.

— Mas não ligue para isso, essa cidade é cheia de histórias bobas, mas muito interessantes.

— Hm, eu sei, por isso gosto daqui.

— Tem dormido bem? – ela perguntou enquanto empacotava a comida. Aquele era o almoço perfeito!

— Sim, o vento da noite é frio, eu gosto disso.

— Você dorme de janela aberta?! – ela perguntou tão espantada que o garoto quase teve um susto.

— Sim...

— Não, meu querido, não, não, não! Não se dorme de janela aberta nessa cidade! Os maus espíritos podem entrar!

— Mas... você acabou de dizer que são crendices.

— Não, isso é diferente! – ela disse realmente vendo diferença entre as duas coisas. – Feche as janelas! – ela disse entregando o pacote.

— Sim, senhora.

— Volte, sempre, querido. Amanhã venha almoçar conosco! Albert e eu ficaríamos muito felizes.

— Tudo bem, até amanhã.

Ciaran voltou rapidinho para casa. Azar, eim?! Talvez seja verdade mesmo, pelos acontecimentos de sua vida...

—x-

A noite veio depressa e cobriu o céu com o manto negro. Fazia apenas dois dias que havia se mudado e Ciaran estava se acostumando a sua nova casa. Ele subiu as escadas em caracol já com seu pijama.

Ele abriu a janela e ficou a avaliar a noite calma enquanto a brisa gelada entrava sem pedir licença. A lua era alta e clara, iluminando tudo na cidade, não necessitaria de luz extra para andar a noite. Era simplesmente lindo, calmo e silencioso.

Ciaran respirou fundo e olhou para suas costas.

A casa estava silenciosa e a rua também, o vento soprava na construção fria de pedra e Ciaran sentia no fundo dos seus ossos a completa solidão. Era tão silencioso, o vendo uivava quando descia as escadas e percorria a casa.

Isso lançava um pouco de desespero em sua alma. Ele iria ficar sozinho o maldito resto de sua vida? Ciaran não era pessimista, não, era uma das pessoas mais otimistas e animadas que conhecera julgando os acontecimentos de sua vida. Mas tinha dias que ele simplesmente não podia evitar em pensar que estava sozinho, sem um parente vivo... e ficar sozinho para o resto de sua vida o assustava. Ele nunca ia conhecer como era ter uma família ou alguém para partilhar qualquer coisa?

Sentou na cama de solteiro que ele fez questão de colar a parede para ficar, próximo a janela e poder ver a lua. Ele havia trocado a cama de casal por uma de solteiro de tamanho maior, parecia que alguém da vila tinha um tamanho especial. Então ele trocou. Ele não precisava mais do que isso mesmo.

Ele olhou para um ponto fixo no quarto e uma lágrima percorreu seu rosto. Bem, ele era acostumado a viver sozinho, mas é que tinha dias que eram difíceis. Porém, tudo ia ficar bem e no dia seguinte ele iria se sentir melhor e orgulhoso por conseguir cuidar de si mesmo.

Enfim, tinha sido um dia longo e curto ao mesmo tempo. Ciaran limpou as prateleiras da livraria e organizou os livros, amanhã mesmo ele conseguiria abrir e quem sabe fazer contato com alguém da vila.

— Feiy, cadê você garoto? – ele falou e uma raposa crescida saiu de baixo da cama para olhar para ele. Talvez essa fosse sua única companhia. Feiy foi encontrada na sua antiga escola e Ciaran cuidou dela como se fosse seu bichinho de estimação. Era uma ótima companhia e um excelente amigo. Logo a raposa vermelha e branca subiu na cama e deitou sua cabeça na coxa de Ciaran como se soubesse que estava triste e quisesse ajudá-lo. – Eu estou bem, é só um daqueles dias. Vamos dormir, ok? – Feiy levantou e ficou olhando para a janela e para Ciaran várias vezes. – Ela vai ficar aberta amiguinho, se você está com frio pode deitar aqui nas cobertas comigo.

Mas não, a raposa sentou na cama e ficou assistindo a lua. Devia ser algo da família canidae, foi o que o garoto pensou, enfim. Ele estava cansado e nada melhor do que o dia de amanhã.

O senhor do sono o levou rápido. Ciaran tinha um sonho frequente desde que ele se lembrava, esse sonho ia e vinha várias vezes. E era sempre do mesmo jeito.

Parecia um castelo exuberante e ele caminhava pelo corredor em direção a um homem, mas não conseguia desviar o olhar dele nem olhar para qualquer parte do seu próprio corpo, um homem cujo rosto ele não conseguia ver era encandeado pela luz do sol... mas ele sempre o desesperava. Era como se Ciaran quisesse fugir no âmago da sua alma. Mas o homem apenas estendia a sua mão esperando que Ciaran a pegasse... mas ele nunca tinha coragem de terminar o sonho ou nunca conseguia. Nunca conseguia passar dessa parte. Era um sonho que tinha sempre que seu espírito estava fraco, como hoje, quando se sentia sozinho... talvez, a solução para os seus problemas fosse apenas segurar aquela mão estendida e... pela primeira vez Ciaran viu sua própria mão no sonho sendo oferecida ao homem que o esperava no fim do corredor. E ele ia alcança-la...

Porém, acordou um barulho amedrontador no quarto, já havia se passado um tempo sim desde que tinha adormecido. Ele olhou para a janela e viu um liquido negro escorrer por ela e manchar os lençóis da cama, deixando uma trilha escura que levava a escuridão do quarto. Eca, Ciaran não tocou naquilo. Seus olhos seguiram o rastro no chão. Talvez algum bicho ferido invadira seu quarto e precisava de ajuda.

Mas ele não escutava nada. Ou melhor, ele se concentrou e estava escutando uma respiração baixa, mas ofegante.

Feiy pulou da cama e seus pelos se eriçaram, a raposa começou a mostrar os dentes e a rosnar em direção aquele local do quarto, rosnava como nunca havia feito antes. Feiy nunca rosnara antes para nada, nem para os esquilos que implicavam com tudo.

Tinha algo ali, no canto, parecia grande demais para um animal que voava, parecia tentar se levantar e estava conseguindo... e era grande, a altura do contorno escuro crescia a medida que a coisa se levantava, parecia... uma pessoa... se mexia ainda, Feiy rosnava como um cachorro valente.

Ciaran não se importava mais de ficar sozinho! Essa coisa podia sair dali porque seu coração estava batendo como um louco e suas mãos frias estavam suando. Ele estava com muito medo de se aproximar ou mesmo de fugir.

A coisa parou de se mexer no momento que Ciaran lentamente tentou escapar da cama, ficando de pé, agora só faltava a coragem para dar o primeiro passo. Mas em nenhum momento ele afastou os olhos do canto escuro.

A respiração de Ciaran ficou presa em sua garganta quando dois olhos vermelhos sangue o encararam prontamente do canto escuro, pareciam rastreá-lo. Pareciam duas luzes vermelhas. Perigosas.

O que era aquilo?! Ah, deuses, ele deveria ter fechado a janela! A coisa finalmente ficou completamente ereta, será que ele conseguiria pular a janela e era seguro?

— AHHH! – ele gritou em plenos pulmões ao ver que tinham coisas se aproximando lá fora, elas tinham asas! Eram criaturas feias, horríveis, magras até os ossos, com asas ossudas que pareciam afiadas. Pareciam demônios com desnutrição! Desfigurados, alguns eram enormes, deviam ter uns dois metros... minha nossa! E faziam sons que tocavam o âmago do desespero. Ciaran sentiu isso profundamente em sua alma. O que era aquilo?! Aquela coisa que entrou em seu quarto era um deles?! Mas essas criaturas grotescas não estavam conseguindo entrar... – SAIAM DAQUI! – ele gritou com medo puro, o medo só é melhor para que criaturas selvagens ataquem.

Elas não saíram, apenas de afastaram. Mas isso... o rosnado mais forte de Feiy fez Ciaran lembrar do perigo maior, uma daquelas coisas estava no seu quarto.

A coisa deu um passo em sua direção, soou mesmo que o chão fosse de rocha maciça. Minha nossa, era mais alto que ele... aqueles olhos vermelhos o hipnotizaram, suas pernas travaram e aquilo foi saindo de dentro da escuridão.

Ele vinha na sua direção. Quando Feiy pulou para atacar a criatura um estimulo elétrico atravessou seu corpo e ele correu desesperadamente para a escada. Mas ele ouvia os passos pesados e a respiração virem atrás de si. Ciaran chegou a porta e abriu com desespero, mas quando ele ia se por fora... aquelas coisas grotescas apareceram lá fora, bloqueando sua saída e tentavam alcançá-lo para puxá-lo para fora.

O garoto caiu de bunda no chão para impedir que seu corpo continuasse o caminho.

— Vão embora! – ele estava prestes a chorar, ele não sabia mais o que fazer e Feiy apareceu ao seu lado ainda rosnando. Pelo menos aquelas coisas não estavam passando pela porta.

Tentou recuar para chegar até a cozinha e se armar, quando sua mão tocou uma bota atrás de si. Minha nossa, ele podia se ver tremer. Ele não queria encarar o que estava atrás de si, mas a coisa não se moveu.

Olhou lentamente para cima e lá estavam eles, aqueles olhos vermelhos aterrorizantes escondidos no escuro. Ele abaixou até Ciaran no chão, onde a luz da lua o iluminava, entrando pela porta.

E ele viu um humano comum com olhos vermelhos vivos, ele estava ferido, o líquido negro era sangue. Era um homem, um rapaz, não era velho. Não, ele não era comum, ele era incrível, era muito bonito, mas transpirava perigo. Perigo esse que ele sentia nos seus ossos e em sua mente, perigo esse que sua raposa tentou alertar, mas seu corpo não respondia.

Ele tocou seu rosto e Ciaran ficou lá, petrificado no chão, a mercê do estranho. Ele não conseguia deixar aqueles olhos vermelhos irem.

Feiy o atacou, mas ele não era tão forte quanto aquele homem, foi apenas afastado rudemente, sua raposa levou um belo tapa quando foi atacá-lo, só ouviu o corpo bater na parede. Ele queria correr e ir olhar como estava o bichinho, mas seu corpo não se mexia, não saia do lugar, o rosto do desconhecido começou a se aproximar de Ciaran.

Logo os lábios de ambos estavam unidos, docemente, lentamente, a língua dele invadiu a boca do garoto, que não era lá muito experiente nessas coisas, mas seu parceiro era. Sua língua hábil vasculhou cada pedaço da boca inexperiente, até que Ciaran ficou sem ar, apenas escutando o som daquele ato íntimo, a mão alheia continuava a acariciar seu rosto até que os lábios desceram ao seu queixo e pescoço. Ciaran se ouviu gemer baixo e rouco. Seu pênis doía, não lembrava de ficar duro tão rápido assim. Tinha um cheiro especial no ar... Ele se sentia cansado, não sabia que beijar gastava tanta energia. Se sentia meio tonto, meio fraco. Lembrava que o desconhecido afastara sua blusa e sentira a mão quente acariciar seu peito, até massagear seu mamilo. Parecia que ele não tinha controle do seu próprio corpo, era como se estivesse bêbado. Ele beliscou sua orelha com o dente e um fio elétrico passou por seu corpo.

Talvez ele tivesse molhado suas calças.

E ele não sabia mais de nada.

Acordou no chão de sua sala e ficou feliz que pelo menos a porta da frente estava fechada. Tentou se lembrar do que aconteceu, mas as poças negras no chão e na sua roupa, indo em direção a escada, e saindo o seu quarto foram uma belíssima dica.

Ele sentia como se tivesse sido esmagado por um caminhão.

Ele se sentia tonto, como havia ido parar no chão mesmo?!

Olhou ao redor, o rapaz não estava ali. Teria ido embora? Ah, não... roubado! Levantou rápido e sentiu a tontura, olhou ao redor, mas não, estava tudo ali, e Feiy estava no meio da porta da cozinha.

O convidado estava muito bem sentado na mesa e tomava uma xícara de café.

Ciaran ficou ali olhando para ele, estavam ali os olhos vermelhos, as roupas sujas e um olhar sereno, ele estava lendo o jornal e tomando o seu café! Mas, o que... hã?

— Hã? – o dono da casa disse e o rapaz mais velho continuou a lhe ignorar. – Quem é você?

O convidado o encarou sério e intrigado. Ele era... lindo. Nem se comparava aquelas coisas que voavam lá fora ontem, que ainda lhe davam calafrios. O moreno parecia aqueles guerreiros dos filmes... corpo atlético e musculoso, roupa estranha e os cabelos negros como ônix, bem badboy. Tinha uma aura de perigo em volta dele, mas era algo que atraia mesmo com um aviso de ‘fique longe’ estampado na testa.

— Quem é você? – Ciaran disse assim que entrou na cozinha tanto se manter firme e ser o homem da casa.

— O que é você? – o estranho disse jogando o jornal em cima da mesa e olhando intrigado o rapaz de pé na sala.

— Como assim?

— Eu não sei dizer o que você é e isso me intriga. Eu só não fui embora até agora por causa disso... quero saber se é uma ameaça para mim.

— Eu não sou ameaça para ninguém. Só disseram que eu trago má sorte. – disse em tom de brincadeira.

— Isso é fato. Os olhos felinos dizem isso. Por isso não quero passar mais tempo do que o suficiente com você. – isso ofendeu. – Então o que você é?

— Eu perguntei primeiro.

— Eu sou um demônio. – ele disse como se fosse óbvio. – E você?

— Um d-demônio? — que ridículo!

— Um propriamente-dito é óbvio. Você deve ser muito fraco para não identificar nem isso! Não deve ser ameaça.

— Não, cara, sério, se você é um ladrão que entrou ontem na minha casa e estava fugindo de coisas horríveis... – sei lá, que estavam em sua imaginação louca. – Pode me dizer, eu não tenho muita coisa para você levar.

Ele me olhou confuso e olhou para Feiy. Sentou direito na cadeira e coçou o queixo.

— O que é isso? – ele apontou para Feiy.

— Minha raposa de estimação.

— Uma raposa comum?

— Existe outro tipo?

— Ah, merda! – ele disse batendo na própria cabeça. – Você é só um humano comum.

— Humano comum...

— Isso, esqueça, eu sou isso mesmo, um ladrão, mas não vou levar nada de você porque você me ajudou ontem. – ele levantou e ia saindo. Ciaran... queria conhecê-lo melhor, porque ele parecia tão, não sabia, aquele cara apenas o chamava.

O garoto segurou o braço do cara quando ele foi sair pela porta da cozinha e o moreno o olhou instantaneamente.

— Se precisar... você pode pedir ajuda de novo. Mas, do que você estava fugindo... eu não tenho muita certeza do que eu vi e...

O moreno segurou o braço fino de Ciaran e sentiu o cheiro, como se estivesse farejando algo, depois lambeu a pele, hm... estranho, e o lançou um olhar perigoso e excitante que o fez parar alguns segundos de respirar.

— Você não é um humano comum... o que é você?

— Eu não sei do que você está falando.

Ele revirou os olhos e sentou-se na cadeira.

— Aquilo. – ele disse apontando para Feiy. – É uma Kitsune.

— Hm... o que é isso?! – devia ser a raça dele.

— Kitsunes são espíritos que tomam a forma de raposa. Essa pelo visto está com você para protegê-lo. Mas ainda é muito nova, não desenvolveu seus poderes nem consegue mudar em sua forma humana... se ela conseguisse eu não teria me aproximado de você tão facilmente.

— Eu não acredito nisso, isso... não é...

— Ele tem duas caldas já observou isso?

— Eu achei que fosse algo genético, sei lá.

— Não. Não é. – ele disse revirando os olhos.

— Eu cuido dele desde sempre...

— Então, com certeza é um espírito guardião que você conseguiu. Isso é excelente. Ktsunes não se afeiçoam a pessoas facilmente. Você não é daqui é?!

— Por que diz isso?

— Estava dormindo com a janela aberta. Todo mundo sabe que não se deve fazer isso aqui. Nem abrir as portas para estranhos depois de escurecer.

— Agora eu sei. – Ciaran sentou na cadeira. – Eu nasci aqui e passei muito tempo longe.

— Hm. – o estranho pareceu ficar mais interessado. – Então você pode ser mesmo algo mais que um simples humano. Essa cidade costuma ter misturas de criaturas mágicas.

— Você é meio louco, não é?

— Você mesmo viu tudo noite passada. – é ele vira, mas... isso era tão. Ele sabia que tinha alguma coisa naquela cidade!

— E você estava fugindo de que?

— Não estava fugindo! – bufou como se Ciaran tivesse ferido seu ego.

— Tudo bem.

— Vampiros.

— Vamp...

— Minha missão era matar o líder de um ninho que está se formando na floresta, mas subestimei seu tamanho. Eles vão começar a atacar a cidade logo logo, o ninho está abarrotado de filhotes famintos.

— Ah. – Ciaran não sabia se estava acompanhando muito bem. – Sempre achei que eles fossem criaturas bonitas e sedutoras sei lá...

— Existem três classes deles. Esses dos quais você fala são os da primeira classe. Os da segunda já são meio grotescos e a terceira, foi o que você viu. Um deles pode subir a classe A, mas como são meio sem cérebro, se alimentar de cem humanos não é uma tarefa que eles consigam fazer com frequência. Porém, um ninho de vampiros não vem do nada, ele é posto por um vampiro de primeira classe... eu não entendo muito bem disso. Mas essa missão não é mais minha, está muito grande e agora os Hunters cuidarão deles.

— E eles não entraram aqui porque eu não os convidei?

— Você não é tão burro. – ele continuou avaliando o loirinho sentado a mesa. – Cansei, estou aqui batendo papo para ver se você me dá uma dica do que você é, mas pelo visto nem você sabe...

— E porque esse interesse em saber o que eu sou?!

— Porque sua alma transborda energia. – ele disse com uma voz mais profunda. – Se eu a devorasse passaria séculos sem fome.

Ta, agora Ciaran assustou-se um pouco. Esse cara disse que queria comer sua alma?

— Hm... eu ainda estou precisando dela.

— Não tem nada que você queira? Posso fazer muitas coisas se me der sua alma como pagamento.

— Não, obrigado.

— O meu azar é que meu contrato anterior não me deixa fazer outros com humanos... – falou como se fosse mesmo uma pena.

Tá, essa pergunta estava em sua cabeça desde que vira o seu convidado sentado a mesa e ele precisava perguntar.

— Por que você me beijou ontem?

— Acabei de dizer. Você tem muita energia. O jeito mais rápido de tirar energia de um humano sem contrato é fazendo sexo com ele. Por orgasmo, mais precisamente. – o que?! Ele fez?! Como?! Ciaran não lembrava de ter feito nada além de beijar, será que depois que desmaiara ele...

— Seu doente! — Ciaran disse abraçando o próprio peito, como se estivesse exposto.

O moreno o olhou como se o rapaz fosse louco.

— Não fiz nada depois que você desmaiou vergonhosamente, seu idiota!

— Qual é a sua?! Você ia ter sexo com alguém que você mal conhece!

— Não vejo problema nisso! Em que século você vive? Afinal, eu estava fraco, aquelas malditas criaturas não paravam de me perseguir, por mais que eu as matasse! Lá estava sua janela me convidando a entrar... faz anos que eu não como de verdade, precisava me recuperar rápido e lá estava você. Eu o beijei e o drenei mais rápido que o normal, você desmaiou, mas... mesmo em pouca quantidade, sua alma ainda estava me passando energia. Foi incrível, você deve ser um suplemento eterno de energia. Nunca experimentei isso e por isso a minha curiosidade... o que diabos é você?

— Eu não sei. – era a resposta mais certa, bom, até agora ele sempre fora humano e era só. Essas coisas aparecendo em sua vida eram novidade, completamente.

— Estou indo embora. – o visitante disse e Ciaran só concordou, estava meio pensativo será que ele era alguma outra coisa?! Quer dizer, ele tinha um... demônio na sua sala, uma kitsune como animal de estimação e vampiros estavam em sua janela ontem... minha nossa. – Não faça contrato com nenhum outro demônio. Eu o vi primeiro, entendeu?

— Quem disse que eu quero fazer contrato com algum de vocês?! – Ciaran olhou para ele, mas já tinha ido, que droga seria esse contrato?!

Ciaran passou a sua manhã pensando nisso. Para um primeiro dia ele até que abriu a loja bem tarde e por isso desmarcou seu almoço com o casal de padeiros. Dois clientes ainda vieram procurar uns livros sobre culinária e ervas e agradeceram por ele voltar a abrir a velha livraria, muitos gostavam dela.

O rapaz pensou em montar um esquema de troca de livros. Algo tipo um sebo. Quando deu umas sete da noite, as ruas foram se esvaziando mais e alguns estabelecimentos já fechavam. Ciaran os acompanhou e encerrou seu expediente também.

Alugou um livro sobre criaturas mágicas. Bom, não fora um sonho o que tivera noite passada nem tentaria negar a realidade. Estranhamente ele estava bem confortável com isso, ele só precisava se informar para não ser pego desprevenido.

Ciaran jantou cedo e passou horas lendo seu livro na sala. Leu sobre vampiros, elfos, demônios, fadas... e não havia chegado nem a metade do livro. A sua biblioteca estava abarrotada desse tipo de literatura.

Leu como manter vampiros afastados. E demônios também... embora aquele que conhecera em especial não lhe despertasse o interesse de mantê-lo longe. Ele achou engraçado na verdade: como manter um demônio longe “não o invoque, torça para não ser encontrado, não faça contrato.” São geralmente criaturas traiçoeiras, enganativas e belas... ele concordava com a ultima. Tudo para agradar e cair nas graças dos humanos, dos quais se alimentam, principalmente, já que são os seres na escala que usam menos magia, torando-se presas fáceis, e também por usarem pouco ou não saberem usar sua magia, acumulam grandes quantidades de energia.

Bem, talvez ele fosse só um humano mesmo, por isso tinha tanta energia como o... qual era o nome dele?... tinha dito.

Então, Ciaran escutou uma batida na porta de madeira. Era leve e delicada, foi tão baixa que ele preferiu que o som se repetisse para confirmar. E ela se repetiu. Ciaran ainda estava meio receoso da noite passada, ele abriu um pouco a porta e olhou para fora.

Era um homem alto e magro, tinha cabelos negros e bem lisos até um pouco abaixo dos ombros, usava uma calça justa preta com uma blusa frouxa branca de botões, parecia o dono de algum negócio, ele era muito bonito e simpático, um sorriso discreto e disfarçado, os olhos azuis cristalinos chamavam muita atenção.

— Sim? – ele disse encarando a pessoa parada do lado de fora. Ele estava sozinho na rua toda.

— Meu nome é Agis. – a voz masculina e macia veio da noite. – Eu gostaria, se possível, de um livro em especial. Por favor, preciso dele para hoje. É uma urgência.

Ciaran olhou para ele por alguns segundos e abriu a porta toda.

— Que livro gostaria?

— Eu não lembro o nome, sinto muito, mas se eu vir a capa com certeza lembrarei. Posso entrar?

— Nem o nome do autor? Sabe eu tenho muitos livros aqui... podemos levar a noite toda nisso.

— Um dos meus amigos veio a sua loja hoje. Lembra-se? Ele ficou feliz que a loja reabriu...

— Sim, um rapaz de cabelo castanho.

— Esse mesmo. Ele disse que viu o livro em uma das prateleiras, por isso estou aqui. A cidade é fria a noite não acha?

— Ah, sim... desculpe. Pode entrar.

— Obrigado.

Ciaran observou o homem entrar em sua casa e olhar ao redor, colocou as mãos na cintura e encarou sua raposa por um longo tempo, Feiy parecia petrificado ao olhar para o homem, parecia que o tal Agis estava esperando Feiy se mexer, como nada aconteceu, o homem voltou a mover-se.

— Bem... a livraria é por aqui. – Ciaran disse cruzando a sala, mas o homem não foi atrás dele, mesmo assim Ciaran começou a abrir a porta que levava ao amontoado de livros.

O cara estava agindo estranho, Ciaran já tinha se arrependido de tê-lo deixado entrar. E se ele fosse um ladrão! Se fosse um ladrão dessa vez?! O cara parecia muito interessado em sua casa.

— Está sozinho? – ele perguntou a Ciaran enquanto olhava novamente a raposa. Feiy tinha estado casado depois de ontem e estava se mexendo pouco, talvez estivesse dolorido depois de tantos maus tratos. Mas Ciaran não achou ferimento nenhum. – É sua?

— É sim. Este é Feiy. Cuido dele desde que era um filhote.

— E isso faz muito tempo?

— Hm... uns dois anos. – o sorriso do homem voltou ao seu rosto e ele voltou a fitar Ciaran.

— É jovem.

— É... assim, eu li que eles já são adultos com essa idade, quer dizer, o tempo passa diferente para eles. Acho que devemos procurar seu livro.

— Estava lendo sobre criaturas mágicas. – Agis disse erguendo o livro que o loirinho lia antes.

— É. – Ciaran não estava gostando, talvez o homem só quisesse ser agradável e puxar conversa, talvez o homem fosse um ladrão e quisesse matá-lo, talvez ele fosse só um cliente solitário que queria conversar. Tanto faz! Mas Ciaran estava incomodado, ele sentia que alguma coisa não estava certa... ele olhou para Feiy tranquilo no sofá, talvez fosse coisa de sua cabeça. Com o demônio ontem Feiy reagiu de primeira.

— Lia sobre... demônios? – o homem disse rindo e arqueando as sobrancelhas. – Conhece algum?!

— Não... essas coisas não existem.

O homem fechou o livro abruptamente a ponto do estrondo das paginas poder ser ouvido.

— Não me venha com essa, garoto. Você tem uma kitsune bem aqui no seu sofá e a sua casa cheira a sangue de demônio. – ele dizia num tom de brincadeira, sem estresse.

Os olhos de Ciaran cresceram umas três vezes.

— E você é?!

— Eu sou o vampiro dono do ninho ao qual o seu amigo causou muitos danos. Matou muitos dos meus. Sabe o quão difícil é criar um ninho? Fazer as crias crescerem para que possam venerar a mim como seu príncipe?! Onde está o demônio que entrou aqui na noite passada?

Um vampiro. Um vampiro dentro de casa! Mas... ah, claro, ele tinha convidado o estranho para entrar depois de escurecer! Burro, burro, burro! A noite passada não lhe ensinada nada?!

— Eu não sei. – Ciaran falou tentando manter o autocontrole e o vampiro nas suas vistas.

— Garoto, não vamos jogar esses joguinhos perigosos, ok? – afirmou com um falso cansaço e ar convencido.

— Eu juro que eu não sei!

— Ele não está aqui. – Agis disse avaliando toda a casa de novo. – Fugiu quando sentiu minha presença?

— Eu não acho que ele fugiria de você. – Ciaran falou sem pensar, mas era o que o rapaz da noite passada tinha passado para ele.

— Ah, não?! – o vampiro não pareceu gostar de seu comentário. Ótimo, ele devia aprender a ficar de boca fechada! — Então, me diga, onde está seu amigo?!

— Eu não sei! Ele só invadiu a minha casa como você!

— Você me convidou a entrar.

— Ele estava ferido e entrou aqui ontem... eu só fui uma vítima! – Ciaran tentava ficar o mais longe possível daquela pessoa. Sério, eu não sei nada sobre ele! Agora, por favor, se você não quer o seu livro... – e mesmo que quisesse! – pode sair?!

— Eu não acredito em você. – Agis sussurrou já sem sorriso nenhum. Ciaran assistiu o homem caminhar em sua direção.

Tentou correr para a cozinha. Ele tinha que aprender a andar armado dentro de casa! Mas acabou sendo interceptado no caminho, aquela coisa era rápida, em dois segundos ele estava do seu lado e em mais um, Ciaran estava sendo pressionado contra a parede, apenas com a ponta dos seus pés tocando o chão.

— É sério... eu não sei nem o nome dele! Por favor... mas se ele voltar eu aviso que você veio procurá-lo. – Ciaran estava beijando a parede, basicamente, seu braço estava preso em suas costas e nem parecia que o homem franzino atrás de si estava fazendo o mínimo de esforço para mantê-lo ali.

— Sabe porque eu não acredito em você, garoto? Porque eu sinto o cheiro dele em você. Fraco, é verdade... vocês não tem trocado energia corretamente. – o que?! Nem nunca! – Eu digo que você é seu meretriz.

— O que?!

— Prefere amante?! Sinto informar, humano. Mas demônios não fazem amantes. Eles fazem refeições das putas que encontram no caminho.

— Agora espere um pouco aí! – Ciaran disse abismado com as palavras do homem. – Eu sou virgem, ok?! – ele não acreditava que estava gritando isso a plenos pulmões! – Eu nem queria me meter nesse mundo louco de vocês! Feiy era apenas uma raposa que eu peguei com um problema genético e tinha duas caudas por isso! Eu dormi com a porra da janela aberta porque sou novo nessa droga de cidade e aquele maldito demônio entrou! E ai vem você agora! Porque eu burramente abri a porta para alguém depois de escurecer e dei a sorte de ser um vampiro! Eu não sei onde está nem quem é esse demônio que você procura! Já disse! Se ele voltar a aparecer...

— Mas aí é que está, meu caro. – o vampiro disse divertido. – Então, você é virgem?! – Ciaran sentiu a boca no homem em sua pele e nariz frio tocar seu pescoço. – Sim. É verdade... por baixo desse cheiro podre do demônio eu consegui perceber o sangue doce e quente que corre por você. Isso é melhor do que eu planejei.

— O que quer dizer? – ah não, Ciaran conseguiu estragar tudo de novo.

— Ele deixou apenas o cheiro dele em um virgem? Significa que ele queria disfarçar você... ele com certeza vai voltar para terminar o trabalho. Aqui está o meu plano, quero que dê a sua opinião. Eu vou sugar até a última gota de sangue do seu corpo, não é todo dia que se encontra um virgem da sua idade, é um dos sangues da melhor qualidade e, no seu caso, em enorme quantidade. Ele virá procurar você, mas infelizmente o seu corpo inerte não vai servir para nada. Um parceiro marcado e tomado por outro é uma tremenda afronta ao orgulho de qualquer ser... ele virá ter sua vingança, demônios são extremamente orgulhosos. Em vez de eu tatear no escuro atrás dele, ele virá até mim e eu estarei preparado. O que acha?

— Eu acho horrível! Principalmente porque a parte mórbida me inclui! Ele não vai atrás de você! Ele só me beijou para se curar e foi isso! O cheiro deve ter ficado daí! E não tem problema alguém da minha idade ser virgem! Foi opção minha! — bem, mais ou menos.

O vampiro ficou em silêncio um instante e Ciaran estava torcendo para que o monstro tivesse mudado de ideia.

— Bom, você falando a verdade ou não, garoto. Você não vai sair daqui vivo essa noite. Eu estou louco por uma refeição descente.

Ciaran sentiu duas pontadas afiadas no seu pescoço. Minha nossa, ele ia morrer ali e o pior... não havia ninguém que daria falta dele. Ser sozinho não era uma droga? Seu corpo ia apodrecer e ninguém estaria lá por ele. E no seu funeral, com certeza....

Pareciam que duas facas estavam entrando em seu pescoço.

Ele sentiu uma das mãos do vampiro em sua cintura e as unhas grandes chegarem perigosamente perto da sua pele, até começarem a rasgá-la.

Ciaran gritou e lágrimas vieram dos seus olhos, ele sentia o sangue ser drenado pela boca do vampiro... dois minutos depois e ele já se sentia fraco, quanto mais se mexia mais os dentes destroçavam sua carne, ele achou melhor deixar como estava...

Sua vista foi ficando meio nublada. Bem, tirando a dor lacerante de seu abdômen e do seu pescoço, morrer estava sendo bem tranquilo... era calmo e frio.

Espere, quem ia cuidar de Feiy quando ele se fosse?!

De repente Ciaran ouviu um estrondo na sua porta e três homens passaram por ela. O vampiro largou prontamente o pescoço de Ciaran e olhou para a porta. Bem, eram uns homens muito bem vestidos de azul e prata, com botas e pareciam algo do exército.

O importante é que aquele maldito monstro tinha se afastado. Ciaran deslizou pela parede até cair sobre seus joelhos. O sono estava vindo, lentamente e calmamente. Ele abraçou a si mesmo, estava muito frio, difícil de respirar...

Ele assistiu o desespero crescer nos olhos do vampiro e dois homens o imobilizarem, um deles puxou uma espada longa e afiada e cravou no peito do vampiro, Ciaran ainda via seu sangue escorrendo da boca do infeliz morto.

— Não toquem em mim, seus vermes! – o vampiro gritou com uma expressão grotesca no rosto, até animalesca. Lembrava vagamente seus filhotes.

— Acabamos de vir do seu ninho, maldito. Só sobrou você agora. Eliminem logo essa coisa repugnante da minha frente.

Ciaran não viu quem falou, parecia ser uma quarta pessoa, vinha da porta. Era um voz profunda, fria e cruel. Mas ele não viu quem era.

O vampiro brilhou como pó de ouro e virou cinzas... cinzas... cinzas sujando a sua casa.

Quem eram aqueles homens, por falar nisso? E iam mesmo invadindo assim a sua casa?!

Dois segundos depois a sua raposa deu o ar da graça pulando em cima dele e lambendo a ferida do seu pescoço. Ótimo, se ele não morresse, por algum milagre, ele pegaria uma infecção! Mas valeu a intenção. Ciaran ainda acariciou o pelo macio. Estava quente, ele sentia seus lábios tremerem, parecia que fazia 0° la fora.

— Ei... – ele conhecia a voz. – Juntou todas as suas forças e olhou um pouco para trás, lá estava o maldito demônio da noite passada, abaixado, falando com ele. Mais ao longe, um dos homens de azul saía da casa e outro homem de preto, com uma gargantilha negra no pescoço, parecia um anjo da morte... era tão belo, e estava olhando para eles. Nunca vira cabelos tão longos e negros como os daquele homem. – Há mais alguns deles por aqui?! – o demônio voltou a perguntar.

Os olhos desfocados de Ciaran procuraram a voz, ela estava ecoando mais do que o normal. O demônio olhava para ele meio preocupado.

— A... culpa... é sua... – Ciaran disse ao demônio que sorriu para ele. E aquela era hora de sorrir?! Ele estava morrendo. – Você... vai.... cuidar do Feiy.

O demônio olhou para a raposa e sorriu mais ainda.

— Ela não gostou da ideia. – o demônio o olhou bem e o sorriso sumiu tão rápido quanto apareceu.

— Tá frio...

— Certo. – o demônio cuspiu. – Eu não acredito que você seja humano, então... – ele disse olhando para trás, não tinha mais ninguém na casa. – Eu vou tentar ajudar você. Tente não morrer até lá.

Ciaran chegou a ver o moreno retirar uma capa pesada e embrulha-lo como se fosse uma lagarta em seu casulo, mas estava bom, estava quente. Ciaran finalmente fechou os olhos e sentiu seu corpo ser erguido do chão.

— Vê se não morre... não quero ter esse trabalho todo pra no...

Ciaran não lembrou do resto. Ele não escutou o resto. De repente estava tão quente. Ele tinha certeza que tinha dormido para nunca mais acordar.

Bem, era o que ele esperava.

Notas finais
Ciaran Atenza Raça: humano/??? Idade: 17 Altura: 1,76 Olhos: Azul(D) Verde(E) Cabelo: loiro Cor favorita: vermelho Comida favorita: bolo de chocolate Gosta: doces. Não gosta: peixes. Hobby: comer doces. O que mais deseja: se livrar da solidão. hm... nao sei mais o que pôr aqui. .-.