Magic Whisper
2 Instituto Sioux de assistência ao mundo mágico.
Ciaran estava ouvindo vozes e começava a sentir seu corpo de novo. Estranho. Ele pensava que morrer seria mais rápido. Não que ele tivesse experiência com isso.
Tinha uma voz feminina e ele sentia uma leve brisa em seu rosto. Devia ser o paraíso, o nirvana, valhala... É. Era isso, ele sempre fora um rapaz bom, nada mais justo do que... espere. Ele jurou ter ouvido alguém gemer de dor e a voz feminina disse para a pessoa beber algo.
Hm... não é suposto estarmos curados quando morremos?!
Ele abriu os olhos devagar, acostumando-se à luz do ambiente. Viu paredes de pedra revestidas até a metade com madeira que também compunha o chão. Algumas camas enfileiradas a sua frente, pelo menos três fileiras delas. Camas de um lado, camas do outro, camas a frente. Seriam umas trinta camas ali e um espaço para movimentação. Além dele estavam mais quatro pessoas igualmente deitadas. Mas havia janelas enormes que mostravam uma floresta, bosque... algo com plantas altas e passarinhos em ninhos, a luz do sol refletia na madeira brilhante do piso e das paredes. Que bonito.
Só podia significar uma coisa.
Uma mulher apareceu sorrindo para si, já tinha seus cinquenta anos, mas bem conservada, cabelos negros carvão em um topete, um vestido negro e solto que avantajava a silhueta e um avental incomum. Simpática e sorridente.
— Olá, querido. Como se sente?! – ela disse com a voz calma e com os lábios carmim.
— Hm... vivo. Onde eu estou?!
— Oh, sim. Você quase, quase morreu. — ela disse como muito pesar. — Passou muito perto disso. – Ciaran viu a mulher colocar um líquido verde claro de um copo, vinha de uma garrafa estranha, parecia ter uns duzentos anos, e entregou a ele. – Vamos, erga-se, você precisa beber isso. Perdeu muito sangue, seu corpo precisa de uma ajuda para se recuperar.
Ciaran ergueu-se lentamente da cama, mas estava dolorido apenas por estar deitado há um tempo. Percebeu que uma tinha umas gazes circulando seu pescoço, seu abdome e seu pulso. Tudo bem.
— Isso é? – ele disse avaliando o copo.
— Uma poção.
— Uma poção?! – repetiu olhando desconfiado a mulher. – Tudo bem. Eu conheci um demônio, um vampiro e você o que é?
— Eu sou uma feiticeira. – ela disse normalmente organizando os panos de uma cama vizinha.
— Ah. Então. Um queria minha alma, o outro meu sangue e você quer...
A mulher só riu um pouco da reação do garoto.
— Quero que você se cure e fique bem. – afirmou com orgulho.
— Aham... – gemeu ainda meio desconfiado. Ele viu um movimento pelo canto do olho, tinha algo em baixo de sua cama.
Era apenas Feiy, que parecia bem animado ao vê-lo ali.
— Bem. Ele ficou ao seu lado o tempo inteiro... devia agradecê-lo. Ele fechou a ferida do seu pescoço antes que ela expulsasse o sangue que lhe restava. – Ciaran sorriu orgulhoso para a sua raposinha que não tirava os olhos dele. — Queria um pouco da saliva dele se você não se importar.
— Para que? – Ciaran perguntou ainda segundo o copo verde.
— É ótimo para as minhas poções! Tem qualidades cicatrizantes. E para os casos que eu recebo aqui... isso seria muito útil. – ela disse olhando novamente para o garoto. – Vai bancar a criança e não vai beber isso?!
— Eu nem sei quem é você!
— Ah!!! Pelos deuses! Eu sou a enfermeira chefe dessa enfermaria! Sou uma feiticeira mestra na arte de curar! E eu salvei a sua vida! Então engula isso, rapaz! Ou não sairá daqui tão cedo! – ela disse como uma mãe diria, Ciaran imaginou. Não lembrava muito da sua...
— Não a irrite, meu jovem. Não vai gostar que ela fique contra você.
Uma voz suave veio da grande porta de madeira. Era um homem magro e alto, com cabelos castanhos, lisos e curtos, emolduravam o rosto. Ele usava uma roupa que lembrava um sobretudo negro, calças e botas da mesma cor, ao se aproximar, percebeu que seus olhos eram escuros e escondidos por óculos discretos. Tinha uma aparência jovem e simpática.
— Ele se recusa a beber a poção. – a mulher disse indignada ao homem.
— Katrina, ele passou por muita coisa nos últimos dois dias, então vamos lhe dar um crédito. – o homem disse sorrindo discreto. – Ciaran, não é?! Meu caro, você está seguro aqui. E... – o homem olhou para a porta e Ciaran seguiu seu olhar...
Então, nada apareceu na porta. Ah, ótimo, o que era esse cara?! O que aconteceu em sua vida para todas as criaturas mágicas aparecerem de uma vez na sua frente!
Mas logo o loirinho ouviu passos e o demônio causador dos seus problemas apareceu na porta, seguido por mais duas pessoas. Uma era baixinha, ele não conseguiu ver direito. De qualquer forma ele estava mais concentrado no demônio. O moreno não parecia muito feliz, estava carrancudo, pegou uma cadeira e colocou ao lado do leito de Ciaran e lá sentou de braços cruzados. Bem... agora era hora se lavar a roupa suja?!
— Você não tem nada a dizer? – Ciaran perguntou em direção ao demônio.
O moreno o olhou com os olhos negros e franziu o cenho, agora em confusão.
— O que?
— Tipo um ‘me desculpe por bagunçar a sua vida’!
— Ahm?! – ele parecia indignado.
— Olha para mim! Você invadiu meu quarto e sugou a minha energia, ou sei lá. Sem nem me consultar, depois de me dar um baita susto! Eu achei que você era um ladrão ou um bicho ou uma daquelas coisas que voavam lá fora! Depois, por sua causa, um vampiro do mal entrou na minha casa e quase acabou com a minha vida! E, e, e você ainda machucou a minha raposa! — Ciaran apontou para Feiy que genuinamente parecia concordas com ele.
— Ah! Me poupe! Você que é o idiota nessa história toda! Depois de mandarem você dormir de janela fechada você não obedeceu! Eu alertei para que você não abrisse a merda da porta depois de escurecer. Você ouviu? Nãããão! Você tinha que abrir a porta pro primeiro que apareceu! Tive sorte que não foi um demônio! Se não a minha preciosa alma já era! Já que tapado como você é, a teria servido junto com o café!
— MINHA alma você quer dizer! E eu nunca a daria para você ou qualquer coisa assim!
— Agora rapazes, acalmem-se. – o homem disse para nós dois, mas até a enfermeira parecia interessada na briga. – Ciaran, beba a poção, por favor, assim podemos continuar, eu queria...
— Sinceramente, os melhores perfumes estão nos piores frascos mesmo! Nunca disseram nada mais correto! – o demônio falou revirando os olhos.
— É nos menores frascos, idiota!
— Você é muito mal agradecido...
— Eu? Para começar, se não fosse por você eu não precisaria estar passando por isso, nem bebendo essa água cor de lodo que eu não sei se vai me matar também...
— Ei! – a enfermeira comentou indignada.
— Então, não espere que eu agradeça por você ter salvo a minha vida! – todos os presentes olharam para o demônio instantaneamente. Hm. Intrigante. – Não fez mais que a sua obrigação!
— Ora, seu moleque... – o demônio disse prestes a explodir, já levantando da cadeira.
— Agora, calma, Deimos.
— Deimos? – Ciaran disse de novo. – Deimos. Esse é seu nome?! Tipo Deimos, o Demônio?!
Ciaran não se conteve e caiu na gargalhada, não só ele, mas a enfermeira tentava conter um sorriso e um dos presentes ria tanto quanto ele, o homem de óculos também o acompanhava.
Já Deimos. Bom, Deimos estava prestes a arrancar a cabeça de Ciaran ali mesmo. Estava em um tom de vermelho e com os punhos serrados. Parecia que ele ia apanhar e Deimos não era do tipo de se apiedar porque ele estava de cama.
— Então. Deimos, o Demônio salvou um humano de um fim trágico?!
Ciaran não havia prestado atenção nas outras duas pessoas que seguiram Deimos quando ele entrou. Esse rapaz que falou tinha mais ou menos a sua altura, cabelos vermelhos cor de outono, pele branca, corpo magro e esguio, orelhas pontudas e olhos verde folha. Agora tinha passado o braço sobre o ombro de Deimos e implicava com o demônio sem paciência.
— Eu só o salvei para saldar uma dívida. Ele me ajudou e eu o ajudei. Mas já me arrependi... – Deimos bufou respirando fundo e se controlando.
— Eu sou Natane. – o ruivo disse estendendo a mão a Ciaran, que segurou o copo com uma mão e apertou a mão do rapaz com a outra.
— Sou Ciaran... você é um elfo?! – bem, Ciaran tinha que começar a adivinhar as coisas que o cercavam antes que essas se tornassem hostis.
— Eu sou. Da tribo de Windyfall nas montanhas de Larggàs. – o rapaz disse sorridente e enérgico. Dava para ver que era um espírito cheio de energia.
— Entendi. – Ciaran não fazia ideia de onde aquilo ficava. Enquanto isso, aquele copo deslizava entre suas mãos.
— Por que eu estou aqui, maldito? – Deimos disse ao homem de óculos. Ciaran notava que o cara de cabelos castanho trazia um papel e um livro, mas Ciaran não sabia nem onde estava em primeiro lugar! – E por que me mandou chamar esses dois?!
Os três: o elfo ruivo, Natane, Deimos, o demônio... não, sério, ele não sabia se ia se acostumar com esse nome. Faltava um. O homem de óculos olhou para trás, como se procurasse uma criança e depois sorriu. Ele trouxe um rapaz para frente e Ciaran ficou chocado, seu queixo caiu discretamente.
Era um garoto, garoto mesmo, com seus, no máximo, 1,68. Ele parecia algo meio... ele não sabia nem como dizer aquilo. Ele era magro e pálido, tinha um cabelo liso longo e branco como leite, era branco! Olhos prata vivos, um sorriso tímido e usava algo que parecia um roupão, com alguns detalhes pretos, mas de tecido mais fino e justo, só as mangas eram bem frouxas. Tinha um rosto angelical. Na verdade, ele parecia uma criatura muito pura, tipo um anjo, era algo com o que ele passava. Era difícil de dizer. Ciaran achou que nunca tinha visto ninguém mais belo. Nem o idiota do Deimos ganhava, nem o vampiro da noite passada... ele era diferente, bonito.
Ele aproximou-se da cama e sorriu bem mais. Ciaran acompanhou como um bobo. Mas o garoto aprecia não olhar para ele.
— A gente é do mesmo dormitório. – Natane disse olhando com carinho para o garoto.
— Ah, eu sou Ciaran. – Ciaran não era muito promissor, o garoto estava lá o tempo inteiro, lógico que ele tinha ouvido que seu nome era esse! Burro! Mas mesmo assim ele estendeu a mão para cumprimentá-lo.
O anjinho ergueu as duas mãos e devagar ele apertou a mão de Ciaran. Bem, agora ele parecia estar olhando para o seu braço. O garoto se aproximou mais da cama e suas mãos foram subindo pelo braço, tocaram o ombro... sim, não que Ciaran estivesse achando ruim ser tocado por aquela beleza, mas isso era estranho. As mãos finalmente chegaram no seu rosto e alguma coisa estalou em sua cabeça... não podia ser.
— Ele é cego, idiota. Ele não está te assediando. — Deimos falou ainda raivoso.
— Muito prazer, Ciaran. Eu sou Aisha. – o garoto falou docemente.
— O prazer é meu, Aisha. – ele disse ainda muito chocado. O destino era cruel, as vezes.
— Ainda assim enxergo melhor que você Deimos, o Demônio. – Aisha disse ainda olhando na direção de Ciaran e sorrindo. – É seguro, Ciaran, garanto. É melhor beber logo antes que as propriedades se dispersem.
Ciaran concordou e finalmente começou a beber o líquido estranho.
— Woww!!! Até Aisha está implicando com você! Isso é tão raro! – Natane disse surpreso e Deimos apenas fechou ainda mais a cara.
— Cuidado, Aisha, você não deveria arrumar confusão agora. – Deimos disse sério. Ciaran achou um absurdo Deimos conseguir ameaçar aquele garoto.
Parecia que Ciaran ficara mais fascinado do que deveria.
— Agora ele já pode. – Natane disse olhando para a porta sorrindo e sentando na cama do loirinho. Folgado. E Ciaran quase cuspiu o restinho da poção aguada do copo, tinha gosto de água com cheiro de hortelão, sei lá.
— Termine a sua bebida. – Aisha disse mais baixo. Ele era mesmo cego?!
Ciaran estava de olho no homem que entrou. Aquele sim era um cara que Ciaran não ousaria nem tirar uma brincadeira. Ele era alto. Tinha um pouco mais de dois metros, ele tinha certeza. Era mais forte e mais musculoso que Deimos, bem mais sério também. Loiro, com fios desfiados até os ombros, não, eram mal cortados mesmo. Alguns caiam sobre seus olhos de um azul cristal diferente. E ele tinha... um anel negro no pescoço. Ciaran já vira aquilo... fora ontem, no homem que parecia um anjo da morte.
— Está bem atrasado. – Deimos falou para o homem que passava atrás de si. – Aisha já passeou por esse castelo inteiro! Ele podia ter sido assassinado em um desses corredores.
O homem olhou ameaçadoramente para Deimos que apenas retribuiu o olhar. Esse demônio gostava de arrumar confusão pelo visto.
— Não diga isso! – Aisha falou meio incomodado caminhando até o homem que chegara. Ele não parecia cego mesmo! Caminhava com tanta segurança! – Não tem problema ele sair e se divertir. Você conseguiu tudo o que precisava? — o homem apenas olhou para ele. Sério como ele estava, sério ele ficou. Qual é. O garoto fez uma pergunta. – Bom, então. – ele falou de novo mais para si. – Esse é Ciaran. – o homem olhou para Ciaran. – Ciaran este é Haziel.
— E ele é mudo?! – sério. Ciaran não planejava bancar o idiota nem nada. Era realmente uma pergunta genuína, mas o homem apenas franziu o cenho e o fitou firme.
— É mais um engraçadinho?! – Haziel disse com a voz profunda e séria. Opa, ele não era mudo e tinha... presas. Ele tinha presas enormes. Ciaran ficou olhando para aquilo como se fossem coisas de outro mundo.
Sua mão foi ao seu pescoço e ficou acariciando o local por cima da gaze enquanto continuava fitando as presas. Aquele homem era um vampiro. Ele não queria passar pelo que passou ontem de novo.
— Ele foi atacado por um vampiro na noite passada. – Aisha disse baixo ao tal Haziel que pareceu relaxar mais. – Ele foi quase drenado.
— E se não tomar cuidado vai ser de novo. – o loiro disse olhando no fundo os olhos de Ciaran e um calafrio percorreu sua coluna, do início ao fim.
Ele não estava confortável ali. Ele queria ir para casa e queria ir embora.
— Não diga isso. – Aisha falou sério ao homem, mas ele nem lhe deu ouvidos. – Devia se desculpar. – mais uma vez, o homem só ficou lá calado e sério. Ciaran não queria provocá-lo mais. Ele queria ir embora.
— Ninguém vai ferir ninguém aqui dentro. Entendido?! – o homem de óculos falou autoritário e fez um gesto com a mão para que Deimos levantasse da cadeira. O demônio obedeceu muito a contra gosto.
— Para a sorte dele, não estou com fome. – Haziel completou.
— Haziel! – Aisha falou em tom de alerta. – Desculpe, Ciaran, é o modo dele de pedir desculpas.
Ciaran viu o homem apenas rir do que Aisha disse, ele sabia que o enorme vampiro não se desculpara, mas ele entendia a intenção de Aisha, só não sabia porque o garoto estava tão preocupado com as ações ariscas do outro.
— Então. Voltando para mim. – o homem de óculos se pronunciou, suspirando cansado. – Ciaran, eu sou Ário Sioux. Eu sou um médium astral. É um poder parecido com o dos anjos celestes. Eu escuto preces, desejos... mas não os passo a ninguém, ao contrario dos anjos celestes. Isso é diferente de ler mentes, porque ler mentes é bem mais simples, as preces e os pedidos, eles vem com mais energia sabe e eu posso senti-los atravessando o véu, entende? Eu...
— Senhor. – Aisha disse lhe chamando a atenção discretamente. – Mantenha o foco.
— Ah, sim desculpe... então... está entendendo, Ciaran?! – Ário perguntou meio preocupado.
— Hmmmm... – Ciaran não sabia que expressão estava fazendo, mas ele parou de acompanhar depois de ‘Ário Sioux’ ele achava que estava lento depois de perder o sangue do corpo todo. – Pode repetir a parte da energia e me dizer onde estou.
— Ah, eu ia chegar lá. Bom, é... eu sou um médium astral. Escuto pedidos, desejos entre o véu.
— O véu seria...
— É uma barreira que separa esse mundo do mágico. Os Primeiros Senhores fizeram essa separação para proteger os seres mais fracos, no caso humanos... existem outros véus, mas esses estão um pouco longe e inacessíveis. Esperamos que os humanos evoluam um pouco para que o véu suma... ele já está mais fraco. Hoje temos criaturas mágicas vivendo no mundo humano, sabe?!
— Certo. – não era difícil de imaginar que algo assim existia... com todos eles ali na sua frente. Ele só não sabia se corria ou se ficava. – Onde eu estou?
O homem abriu o maior sorriso.
— Eu fui designado pelos Seis Reis do mundo mágico a montar algo como uma instituição independente, com todas as raças e seres que quisessem se juntar a mim e, claro, que tivessem certas habilidades que fossem úteis. Estou nesse negócio há pelo menos quinhentos anos. A instituição ganhou prestígio, muitos seres se inscrevem e temos que fazer uma filtragem. – ele falava com muito orgulho. – Aqui entra você.
— Eu.
— Você. Bem, o mundo humano já possui várias criaturas mágicas vivendo nele, por isso a instituição está nesse plano. Aqui é mais calmo, menos arriscado e mais fácil de detectar os problemas entre seres mágicos e humanos.
— Uhum.
— Aqui. – ele disse jogando o livro grande e grosso em cima da cama. Ciaran encolheu as pernas para que não fosse jogado em cima delas. O homem parecia procurar alguma coisa, o livro tinha muitas palavrinhas, parecia um dicionário, com muitas e muitas páginas. – Aqui! – ele disse abruptamente. – Deimos achou que você não era um humano normal.
— E eu estava certo, naturalmente. – Deimos disse curioso.
— Sim, você estava, nas raras vezes que você está certo. Ciaran. – o homem disse olhando para o garoto e sorrindo. – Aqui está seu nome. Sua data de nascimento, dezessete anos, Ciaran Atenza. Filho de Seren Atenza... eu conheci sua mãe. – ele disse com um sorriso tristonho.
— Conheceu?! Eu não me lembro dela muito bem, eu era uma criança...
— Ela trabalhava para nós. Mas nunca me falou de você. E aqui não diz quem é seu pai. Deve ser um humano... o que não é exatamente permitido. Mas aqui diz que você puxou a ela e é um mago Elemental. – ele anunciou alegremente. — Temo também não poder lhe dar maiores informações sobre ela, não éramos próximos.
— Eu sabia que você não era uma criatura normal, mas não pensava que era tão anormal assim. Combina com você. – Deimos comentou desnecessariamente ganhando uma careta de Ciaran.
— Isso é ruim?! – o loirinho perguntou ao homem que ainda lia o livro.
— Sim e não. Sua classe é muito rara... vocês são fortes, mas temo que você precise de um professor já que não sabe de nada sobre seus poderes. – Ário falou olhando para o garoto surpreso.
— Eu realmente não sei de nada. – ele precisava de um tempo para digerir tudo isso.
Ele devia acreditar em tudo isso? Ele não lembrava de fazer mágica na vida! Olhou ao redor e viu uma pequena coisa brilhante passar por ele e olhou para todas as diferentes criaturas nas camas... é, por que não?
— Bom, aqui no instituto, você vai poder treinar, aprender e ficar forte para cuidar de si.
— Você disse que a minha mãe trabalhava para você. – o que ela fazia então?!
O homem o olhou sério como se estivesse tentando lembrar de quando tinha dito aquilo.
— Oh, sim, sim, sim... – ele lembrou. — Esqueci do detalhe mais importante. Os desejos dos quais falei são mais pedidos sabe, encomendas de serviço. Somos contratados para resolvermos problemas no mundo humano e mágico.
— Ah...
— Trabalhamos em duplas. – ele disse olhando para as pessoas ao seu redor. – Aisha e Haziel são uma dupla, Natane e... onde está seu parceiro Natane?! – o homem disse sério perdendo o sorriso.
— Bem, sobre isso... ele vai passar na sua sala mais tarde. – o rapaz disse meio sem jeito.
— Espero que não seja o que eu estou pensando.
— Temo que sim, senhor.
— Pelo amor dos reis, Natane, ele é o sexto! – Ário subiu uns tons em sua voz. E Natane só se encolheu um pouco. – Não acho que existam mais parceiros disponíveis, mas vou ver o que posso fazer.
— Sim, senhor.
— Como eu ia dizendo, Ciaran... e se você resolver ficar conosco, você terá um também e ficará no dormitório desses aqui presentes, por isso os chamei, trabalhará resolvendo esses problemas que chegam até mim... e então, o que quer fazer.
Ciaran realmente precisava de tempo para digerir aquilo. Quer dizer, ontem ele era apenas o novo dono da livraria de uma pequena cidade nas montanhas, morros... e agora ele estava ali, sendo um mago Elemental, que era raro?! Era o que sua mãe fazia?! O que ela fazia? Ciaran queria descobrir, ele lembrava de uma mulher morena sorrindo docemente para si, ele esperava que fosse sua mãe.
Bem, de qualquer forma. Ele ia voltar para aquela casa e morar sozinho eternamente?! Até sua única companhia, Feiy, morrer?!
Bem essas eram suas opções: ficar aqui e aprender a ser um mago e se sentir mais próximo de sua mãe e tipo, desfrutar de uma herança de família, esse foi o primeiro fato que o fez sentir que já tivera uma família de verdade. Era herdeiro de alguma coisa! E supostamente ajudar pessoas... ou, ele podia voltar para casa, comer doces maravilhosos, viver sozinho e independente e vender livros todos os dias da sua vida.
Bem, ele ainda podia ir até a vila e comer doces.
Ele decidiu ficar. Era óbvio que ele queria ficar, pelo menos ali ele teria com quem conversar e faria amizades de verdade.
— Eu vou ficar.
Aisha, Natane e o senhor sorriram amplamente para ele, todos satisfeitos e bem animados. Ciaran se sentiu bem com isso. Eles o queriam ali. Isso era legal. Que legal!
— Bem, eu posso ser parceiro dele. – Natane disse sorrindo para Ciaran. Ele não ia se opor.
— Não, não. Nós ainda vamos tentar salvar a sua dupla. – o homem disse suspirando e pegando um papel amarelado. Era um pergaminho, colocou em cima do livro e sorriu para Ciaran. – Sua dupla será Deimos.
— O QUE?! – Deimos disse junto a Ciaran.
— Agora espere ai, seu velho trapaceiro! – Deimos disse ao homem puxando-o pela blusa, parecia um valentão de escola, ele ia mesmo bater no homem.
— Calma, Deimos! – Ário falou baixo e calmo.
— Ajude-o! – Aisha disse a Haziel, mas o vampiro apenas sorria ao assistir a cena. Mais uma vez... aquele anjinho era cego mesmo?!
— O meu contrato com você era para fazer o que você mandasse a fim de manter a ordem, em troca eu podia passar para o mundo humano e resolver o meu problema.
— Que você ainda não resolveu. – o homem disse ainda calmo e tentando mover-se do demônio.
— Ainda não! E vai ficar pior de resolver se esse moleque começar a mandar em mim! – ele disse apontando para Ciaran.
— Ele não vai mandar em você, é um trabalho em equipe! E, a fim de manter a ordem, como tem em nosso contrato, eu vou colocar uma pessoa responsável com você para me evitar uma dor de cabeça.
— Você é muito espertinho. Vai me vigiar. – Deimos parecia mais chateado com o tempo. – Eu já trabalho para você. Sozinho!
— Estou pensando em você, meu rapaz. – e parecia que Ário estava cada vez mais nervoso. – Preste atenção, você me disse que queria passar para o mundo mágico de novo. Para relaxar, sei lá... mas se você voltasse por conta própria, o contrato se desmancharia e você não poderia voltar ao mundo humano, não foi isso?!
— Ham.
— Com Ciaran você irá sob minhas ordens. Nosso contrato não se romperá e você vai poder visitar sua terra natal.
— Eu posso visitar minha terra natal, sob as suas ordens, sozinho. Sem ter um verme para me atrapalhar.
— E você acha que eu sou idiota de lhe dar tanta liberdade? – Ário falou, mas num tom bem mais sério. – Não me tome por tolo, Deimos. Será assim. É pegar ou largar.
O demônio olhou do homem a Ciaran várias vezes e por fim soltou a roupa do mais velho.
— Se é o único jeito. – Deimos disse contrariado e derrotado.
— Ótimo! – Ário festejou como uma criança. – Agora, os dois assinem aqui.
— Sinto que você está me dando um problema, senhor. – Ciaran se pronunciou olhando para Deimos.
— Ora, não! Você parece lidar bem com ele. Só não o deixe fazer muita besteira. Assine aqui.
Ciaran pegou a pena que lhe foi oferecida. Bem, ele não era costumado a usar penas nem nada, então sua letra ficou horrível. Depois foi a vez de Deimos, o papel brilhou dourado e voltou ao amarelado original. Pronto?
— Está tudo acertado, meu caro. – Ário sorriu. – Cada um de nós tem uma capa que deveria ser usada. – ele olhou para Haziel, ele não usava a dele, mas Natane sim. Era o único ali que a usava. – É o nosso símbolo. É assim que nos identificam. Que cor gostaria da sua?
— Vermelha.
— Vermelha. Vou providenciá-la. Bem vindo ao Instituto Sioux de assistência ao mundo mágico.
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