Magic Whisper
16 Então, finalmente a raposa aprendeu a mudar?
Haziel assistia o sol nascer lentamente, era como uma tortura. Ele observou Aisha finalmente adormecer depois de muito tempo rolando na cama.
O garoto não tinha dito uma palavra e assim também tinha feito Haziel. Ele tinha passado as ultimas horas tentando achar um jeito menos duro de dizer a Aisha que na realidade seu irmão mais velho queria, ver sua cabeça rolando e não uma reunião familiar para se despedir do antigo líder.
Mas ele não tinha chegado a nenhuma solução plausível. Não era tão simples, Aisha passou a vida inteira esperando finalmente voltar para casa e ser aceito, fora que ele duvidava que o garoto acreditasse nele agora, Haziel queria evitar qualquer conflito e qualquer ordem que o mantivesse no instituto e longe de Aisha.
De qualquer modo, Aisha só iria acreditar quando ele visse... ouvisse com os próprios ouvidos o que significava ter o irmão que ele tinha. Essa era uma tática extremamente perigosa. Haziel sabia que não conseguiria lutar contra um clã todo, mas ele com certeza conseguiria tirar Aisha de lá antes que a coisa saísse do controle. Estava bastante confiante nisso.
Mas ele precisava ter um plano B, caso tudo desse errado.
E era isso que vinha comendo seu juízo por toda a noite, que se foda! Ele tinha que passar por isso, era bom que valesse a pena, seu orgulho não merecia ser ferido por nada.
Haziel levantou e saiu lentamente do quarto, com passos e sons praticamente inaudíveis, ele esperava que assim fosse para Aisha.
Quando o garoto não se mexeu, ele prosseguiu, parou na porta a frente do seu quarto e respirou fundo, sacudiu a cabeça e se convenceu que era o melhor. Ele abriu a porta com o menor dos ruídos.
Deimos estava sentado na cama, vigil e o encarando direto na porta com uma cara de poucos amigos, pelo leve movimento das cobertas, Haziel pode perceber que Deimos acabara de cobrir Ciaran, ele não tinha o mínimo interesse no mago de qualquer forma.
O vampiro fez um gesto com a mão, chamando Deimos que levantou e seguiu para a porta.
Agora vinha a pior parte, Haziel olhou para a porta do lado da sua, ele não acreditava que ia fazer isso. Do mesmo modo, sem bater, ele apenas parou na porta e a abriu um pouco. Denver já o observava deitado em sua cama e Haziel o chamou para fora do quarto.
Ele olhou para Deimos e Denver quando os dois estavam de pé na sala silenciosa e em seguida foi para o corredor do castelo, a conversa era para ser privada e o mínimo som poderia acordar Aisha.
– Qual o problema? – Deimos perguntou de mau humor assanhando ainda mais os cabelos negros brilhantes, os olhos negros como ônix brilhando, o maldito ser estava cheio de energia. Isso era bom.
– Eu... – as palavras empacaram na garganta de Haziel e ele respirou fundo. – Preciso da ajuda de vocês.
Os outros dois ficaram em silêncio, antes de Deimos estalar a língua e Denver o olhar um tanto confuso.
– Você foi o único a cavar sua cova com Aisha, até eu sei que a maioria dos seres passam por uma tristeza infinita com a perda de um ente querido. – Deimos disse cutucando o ouvido. – Nada esperto esconder isso dele. Embora eu também faria de tudo para não ir para aquele lugar.
– Teria dado certo se o maldito elfo não tivesse se metido.
– Não ponha a culpa nele. – Denver disse com a voz uniforme.
– Não foi por isso que eu os chamei aqui. – ele tinha que se apressar, a porcaria do sol ia nascer e com ele Aisha ia acordar. – Há algumas semanas, eu fui em uma missão com Aisha e descobri que Axis instituiu um ritual para os iniciantes de hunters que inclui algo como um massacre daqueles como Aisha, ele sai recolhendo os shames que consegue encontrar pelas cidades, não importam se são crianças ou idosos, mulheres ou homens.
– Não é possível. – Denver falou em um tom baixo.
– Eu vi com meus próprios olhos. – Haziel continuou.
– E os celestes não fazem nada?
Deimos deixou um riso curto sair.
– Eles não dão a merda para seres que sejam minimamente manchados pelo sangue da escuridão. Aisha, você, Haziel e eu não somos nada mais do que sujeira a ser eliminada do mundo, por que você acha que os humanos são tão protegidos por eles? Por eles, ninguém ultrapassava o véu. Jamais.
– Eu concordo com o Deimos, eles provavelmente vão alegar que não sabem nada da situação. Mas o problema no momento não é esse. Descobri que Aisha é dono de todo o ódio de Áxis e seu pai também não gostava dele... Aisha só está vivo porque a mãe dele fez Zonda prometer que não mataria o próprio filho e que o protegeria quando ela morresse. Porém, agora ele morreu e Áxis não fez promessa nenhuma para ninguém. – Haziel respirou fundo, mesmo que o ar não tivesse utilidade em seu corpo, a sensação de alivio ainda ajudava. — Eu temo que esteja levando Aisha para o matadouro.
– Não leve. – Deimos disse como se fosse óbvio e fácil.
– Ele quer ir.
– O impeça. – Denver completou.
– É uma maldita ordem! Ele quer ir e ele vai comigo ou sem mim. Eu preciso ir com ele.
– Conte pra ele que corre perigo! – Deimos falou como se fosse óbvio.
– Ele não vai acreditar! Aisha passou a vida toda querendo ir para casa! Ele não vai me escutar, principalmente depois que eu menti sobre a carta. Enfim, eu os chamei aqui fora porque... eu não sei o que vai acontecer. Aisha precisa entender que seu irmão não é o que parece, eu pretendo tirá-lo de lá antes que as coisas fique bem ruins. Áxis não vai macular a imagem de seu pai com um assassinato de Aisha tão recente. Os funerais de líderes de hunters duram no mínimo uma semana, se eu não voltar em sete dias, por favor, vão atrás de Aisha.
Os dois concordaram e um silêncio se formou.
– As chances são quase zero de você sair de lá vivo. – Denver disse quebrando o silêncio.
– Eu já lutei contra eles antes, acho que consigo lidar com uma fuga. Tenho o elemento surpresa, ele não sabe que eu sei dessas intenções.
– Vamos estar lá. – Deimos respondeu. – Mas se você sobreviver, você me deve uma. – Haziel o olhou frio como sempre. – Eu sou um demônio, não faço serviços de graça.
Haziel suspirou e revirou os olhos.
– Tudo bem. — e então ele pegou um movimento pelo canto do olho, uma jovem elfa estava olhando para eles em um dos cantos. Sangue de elfo era excelente, embora ele tivesse acabado de se alimentar, mas sangue nunca era demais, ainda mais pelo que estava prestes a enfrentar. – Com licença, senhores, vou conseguir alguma força extra.
Haziel foi em direção a elfa enquanto os outros dois voltavam para os seus quartos. Ele não via a hora disso tudo acabar, e ele esperava que terminasse da melhor forma possível... a elfa lhe enviou um sorriso indecente.
Ele esperava que Aisha voltasse a cama do instituto o mais rápido possível.
–x-
Deimos finalmente chegara a encosta da montanha e observou o caminho estreito e pedregoso que levava ao interior da mesma. Provavelmente eles não iam encontrar uma alma viva sequer no caminho, o sol logo ia se esconder e as pessoas da cidade estavam apavoradas demais para sair nas ruas a noite e ainda mais medrosas para virem para esses lados.
Mais uma missão, dessa vez, jovens estavam sumindo e dados como mortos, pois nenhum deles havia retornado as suas casas. No começo, eles desapareciam mais a noite, mas logo alguns sumiram durante a tarde e durante o dia, a vila decidiu contatar o instituto depois de uma grande perda, agora os jovens eram guardados a sete chaves. O número estava muito reduzido.
Segundo relatos, muitos jovens sumiram ao virem para essa região e o lugar que Deimos achava mais suspeito era essa montanha. Parecia que era comum entre os mais novos desafiarem uns aos outros a percorrerem esse caminho entre as rochas e chegar até uma antiga mina. Aparentemente, ninguém tinha coragem de entrar nela.
Os instintos de Deimos gritavam por esse lugar. Um dos mais velhos lhe contou que as explorações foram abandonadas depois que alguns homens sumiram e outros ficaram severamente feridos. Lentamente, os homens deixaram de trabalhar no local, por medo, e o lugar ficou abandonado, parece que era uma estrutura extremamente instável.
O que poderia ser? O lugar estava mortalmente silencioso, e a poeira que levantava com o vento e com seus passos faziam desenhos abstratos no ar. E então, Deimos viu a entrada escura para a antiga mina, pelos deuses, parecia que com um sopro aquela entrada desabaria.
Ele cheirou o ar, inferno, nessas horas o focinho do lobo ia ser bem útil. Deimos tentou não fazer barulho ao se aproximar.
E então ele sentiu algo grosso e firme agarrar seu braço, rapidamente sacou e espada e virou pronto para atacar, quando... era apenas algo como um cipó, bem forte. Ele puxou com força e a coisa quebrou.
Ele estreitou os olhos e olhou para trás. Ciaran estava morrendo de rir.
– Você está ficando melhor nisso. – Isi falou sentada no ombro de Ciaran, a pequena fada sorria desdenhosa para Deimos.
– Que merda, Ciaran, isso não é hora de brincar! Seja lá o que for, essa droga não pode saber que estamos aqui.
– Desculpe. – ele disse, enxugando os olhos. – Não é todo dia que você se assusta assim. Deimos resolveu ignorá-lo, Ciaran estava feliz com o progresso de seus poderes, parecia que ele aprendia rápido, ele estava dormindo com um mini gênio em magia.
– De qualquer forma. Você não planeja entrar aí, não é? Nesse breu e prestes a escurecer. Nós nem abemos o que enfrentamos. – Isi, a fada metida, falou para Deimos.
– Talvez devêssemos trazer o que quer que seja para fora. – Ciaran sugeriu.
– Brilhante e como faríamos isso? – Deimos perguntou avaliando os arredores, eles estariam sendo observados ou algo assim? Eles teriam que entrar com alguma luz, ele não poderia guiar Ciaran segurando na mão do garoto, humanos não enxergavam bem no escuro, e levá-los para o ninho do inimigo não era uma opção. Talvez devesse deixá-lo aqui. Mas aí aqui sozinho estaria vulnerável. Então...
– Bem, eu sou um lindo jovem, uma hora ou outra essa coisa vai vir me buscar. – Ciaran sentou em uma pedra. Isso é serio? Tanto Deimos quando Feiy rosnaram.
– Não é má ideia, rapazes. Até para um demônio, lutar com um pouco de luz é melhor do que zero.
– Devo cantar? – Ciaran perguntou enquanto olhava ao redor.
– Não, por favor. – Deimos falou procurando alguma pista ao redor. – Ele vai saber que estamos aqui sem isso.
– Pelo meu cheiro, eu sei, o vento está entrando na mina. – bom, pelo menos Ciaran estava aprendendo algumas coisas. – Mas eu não canto tão ruim.
Ele era péssimo, mas Deimos já tinha desistido de tentar convencê-lo do contrário. Deimos observou Feiy caminhar em direção a entrada da mina. É, ele também estava afim de entrar, mas... a raposa parou alguns metros antes de entrar e ficou andando de um lado para o outro, sem ultrapassar uma linha imaginária.
– Feiy, vem pra cá. Não vamos entrar. – Ciaran falou para a raposa que o ignorou. – Ele tem me ignorado muito ultimamente. Acho que ainda está chateado comigo.
Deimos caminhou até lá, uma linha imaginária era o que ele imaginava, mas na verdade tinha uma linha, como um fio que cruzava de um lado a outro da entrada. Era brilhante e quase invisível. Bem, eles não iam quebrar esse fio.
– Vamos entrar. – Deimos disse passando pelo fio com muito cuidado. – Anda, Ciaran.
– Mas...
– Cuidado com esse fio aqui.
Deimos começou a entrar seguido por Feiy, Ciaran seguiu logo em seguida.
– Posso acender uma luz? – Ciaran perguntou baixo.
– Pode. – Deimos falou. Os passos deles ecoavam para dentro, sendo assim, era melhor que Ciaran visse se algo o atacasse.
O cristal de Ciaran começou a brilhar e ele tinha que admitir que era bem legal. O lugar era muito escuro e mesmo que a luz de Ciaran fosse legal, não era suficiente. Mas até agora nada de novo.
Tudo parecia normal e o chão começava a declinar, que ótimo, eles iam descer?
Eles continuaram andando por mais alguns minutos, Deimos já não via a saída, e sua atenção estava dobrada.
– O que é isso? – Isi disse mais a frente, ela tinha voado mais adiante. Deimos e Ciaran se aproximaram de um monte de fios prateados. O moreno se aproximou e tocou, não parecia cabelo ou linhas de tecido ou cordas, tinha consistência de algodão.
– Está por toda parte. – Ciaran disse mostrando o teto e mais adiante. – O que é isso? – loirinho puxou um pouco com o dedo e grudou em sua mão. – Que nojo. – mais alguns passos para trás e Ciaran pisou em uma poça de água. Ou pelo menos ele achava que era água. – Isso é sangue?
Deimos olhou prontamente para o chão. Água e sangue, com certeza.
– Que nojo. – Isi disse.
– Isso não é bom. – Ciaran comentou dando mais alguns passos adiante.
Deimos olhou de novo para o estranho bolo de algodão. Estava parecendo... o demônio percebeu um movimento no escuro.
– Ciaran, fique perto. – Deimos comentou porque o garoto estava muito animado para ir para dentro.
– Vamos, antes que descubra a gente! – Ciaran comentou e Deimos viu, logo acima do loirinho, uma cabeça apareceu ao lado da de Ciaran em uma posição nada normal, parecia que o corpo estava no teto.
O rosto era banco e sem vida, os olhos pareciam duas bolas negras que brilhavam e o cabelo prata parecia reduzido, mal cortado e liso, com uma boca que revelou um sorriso de dentes afiados, caninos enormes e finos como agulhas.
Deimos não foi rápido o suficiente, ele atirou sua espada na coisa, mas parece que ela acertou um espaço vazio quando a luz que Ciaran produzia se apagou. Isi começou a brilhar e Deimos seguiu sua luz, era muito ruim de enxergar, ele conseguia apenas distinguir formas. Isi brilhou sua arma presa no teto e Deimos a puxou de lá.
– Ciaran! – ele gritou para o vazio.
– O nome dele é Ciaran? – uma voz que parecia leve e sussurrada soou do interior do túnel escuro.
– Você é muito covarde para lutar comigo?
– Oh, não... estou esperando você, demônio. Venha conhecer a minha casa.
– Cuida... – Isi começou a dizer, mas Deimos estava muito perto dela.
O moreno sentiu o chão faltar e suas costas baterem em terra livre. Ele estava caindo em uma espécie de buraco, merda! Mas pelo menos aqui tinha a luz da lua, ela conseguia entrar por um buraco no teto.
Deimos viu um mar de ossos abaixo de si, todos dentro de um enorme buraco repleto de fios prata brilhantes, e uma água negra que, ao ser iluminada pela lua, brilhava vermelho, sangue e água, Deimos torceu o nariz para o cheiro pútrido de morte.
Bem no meio do monte, no seu topo, estava uma figura alta e magra, com a fronte encoberta pela sombra. Era o mesmo que levara Ciaran.
– Fazia muito tempo que eu precisava de tão pouco esforço para conseguir comida. – a figura falou novamente com a voz fraca.
– Você tem comido muito. – Deimos disse chutando um dos crânios que formavam o chão.
– Os filhotes precisam de comida.
Deimos viu aranhas do tamanho de um punho descerem do teto alto e se juntarem ao seu... pai? Ele não queria acreditar, mas ele veio mesmo parar em um ninho de aranhas. E parece que a rainha estava bem a sua frente.
– Você pegou algo que me pertence. — Deimos falou.
– O garoto? – o homem esguio perguntou fazendo carinho em um de seus filhos.
– É, você o responsável pelos sumiços dos jovens da cidade? – Deimos sabia que era, ele aproveitou a pouca conversa para olhar ao redor, onde estava Ciaran? Tinha algo preso no teto, muitas coisas presas na realidade.
– Qual delas?
– Tem viajado muito?
– Esse túnel leva a muitos lugares.
– O que você esconde lá em cima? – Deimos percebeu que era um inimigo bem cooperativo, ele estava respondendo a todas as suas perguntas, mas ao mesmo tempo, os filhotes não paravam de descer. Deimos observou Feiy, Isi, estava sentada em cima dele, se essas aranhas pegam ela...
– Você quer ver?
Algo começou a desabar logo acima da cabeça de Deimos, mas ele foi rápido o suficiente para escapar. Um casulo enorme e pesado amassou os ossos depois do impacto e parecia que a coisa não sofrera danos.
Deimos cortou a coisa toda com um pouco de dificuldade. Isso era uma merda!
Ele viu uma jovem, uma mulher com alguns pedaços de carne faltando e o sangue já seco pelo corpo, estava morta, Deimos conseguia ver algumas partes internas da garota, mas o que mais o chamou a atenção era que o estômago do cadáver se mexia. Não passava de uma incubadora para os filhotes de aranha.
– Bonito, não é? São boas mães para os filhotes, essa em especial tinha lindas unhas... estão na minha coleção. – Deimos notou que as pontas dos dedos da moça estavam faltando. Isso queria dizer que... ele olhou para cima. Quantos filhotes tinham la em cima?
– Você tem muitos filhos.
– Vamos lutar juntos no grande dia.
– Grande dia?
– Nosso rei precisa de um exército. Não é?
– Do que está falando?
O homem o olhou de longe.
– Então você não sabe?
– Sobre o que exatamente?
– Logo nós, criaturas da escuridão, governaremos essas terras. Nem mesmo os celestes serão capazes de nos deter. Ou você não notou que as coisas estão mudando?
– Você é um maluco de pedra. É isso o que acontece quando insetos são possuídos.
– Essa é minha recompensa por conseguir viver quatrocentos anos como aranha. Finalmente conseguir uma forma humana. Você não sabe o quanto é difícil, todos serem maiores e mais fortes que você. Mas eu darei o troco, nós daremos, meu amigo.
– Não sou seu amigo.
– Oh, o pequeno mago é seu amigo? Achei que estava te fazendo um favor o retirando de você. Serão nossos inimigos, com certeza.
– Onde ele está?
– Agora eu tenho uma pergunta, você está conosco ou está contra nós?
Deimos olhou para o corpo pútrido perto de si e sacou sua espada, ele cortou o cadáver em dois, as larvas jorrando de dentro da barriga da garota, era no mínimo nojento. O homem gritou como um monstro quando viu as larvas se contorcendo no chão.
– O que pensa que está fazendo? São meus bebês. Meus bebês... – o homem falou com a voz suave como antes, mas cheia de agonia.
– Eu não sei o que você planeja, inseto, mas eu não sou seu amigo e nem estou com você ou com esse rei que você tanto fala. Só o que eu sei é que de hoje, você não passa.
– É uma pena. É uma pena. Mas por outro lado, seu sangue vai fazer muito bem as minhas crianças.
Pelo menos o dobro de aranhas começou as vir do teto. Feiy começou a afastá-las com as patas. Onde estava Isi? Deimos esperava que estivesse procurando Ciaran.
Deimos balançou a espada uma, duas vezes, e matou pelo menos dez daquelas coisas que não paravam de vir do teto.
– Pare de matar meus filhos! Você invade a minha casa, meu ninho e me afronta... – o homem disse começando a se mexer e indo para a escuridão.
– Se você não vier me enfrentar eu vou massacrar esses insetos nojentos. – Deimos falou pisando em mais duas que vieram em sua direção. Ele sabia que estava irritando o inimigo, mas essa era a intenção. – Feiy. – Deimos disse mais baixo. – Tente achar o Ciaran.
Deimos percebeu segundos antes do ataque, a criatura se jogou encima dele com os dentes enormes se projetando pela boca e os olhos negros assustadores. Deimos conseguiu se defender e atacar, mas a coisa era rápida e ele errou.
Deimos se escondeu nas sombras, era melhor do que ficar exposto na luz, pelo menos era o que ele achava, os filhotes pararam de cair do teto, o que já era esplêndido. Agora era só esperar o ataque e eliminá-lo o mais rápido possível.
Deimos escutou e esperou, quando a coisa se jogou em cima dele de novo, ele cortou um dos braços. Um urro estranho saiu da garganta da criatura que se afastou, jorrando sangue negro do ferimento. Feiy estava ocupado, as mini aranhas estavam indo para cima dele.
– Você é mais perigoso do que eu pensei. – o homem disse em direção a Deimos.
– Ainda nem comecei.
– Vai precisar mais do que isso!
Deimos assistiu as finas costas do homem abrirem em dois e seis pernas finas e longas saírem de dentro dele. Agora ele era quatro vezes mais alto. E Deimos gemeu, ele sabia que seria um pouco mais complicado agora.
–x-
Ciaran ouviu sons e lentamente abriu os olhos, seu corpo estava imobilizado, mas ele podia sentir o seu cajado junto a si, ótimo isso é bom. Agora, onde ele estava? Ele estava com a boca amordaçada. Parecia um tipo de tecido. E era algo forte.
Não importa o quanto ele mexesse, seu corpo não se movia e o que o envolvia não cedia nem um pouco!
Ele olhou para baixo e puro medo o encheu. Aquilo no chão eram crânios e ossos... e aquilo era uma aranha gigante? Deimos saiu de baixo da aranha gigante, ele estava um pouco ferido, mas não parecia nada demais, a aranha estava sem um braço, ele tinha que descer e ajudar!
Ciaran olhou para o lado e para o outro, tinham mais casulos ao lado dele. E alguém estava dormindo ao seu lado, ele tentou gemer para acordar a pessoa do seu lado direito, mas não estava ajudando. Ele realmente se desesperou quando uma aranha saiu de dentro do olho da pessoa que dormia ao seu lado.
Minha nossa! Onde ele tinha se metido? Mais uma vez ele tentou se mexer quando ouviu um urro de dor da criatura lutando com Deimos já embaixo, o moreno estava coberto de vários cortes, como se tivesse sofrido ataques de facas, Ciaran julgou ser obra da criatura com as pernas finas. Vamos lá.
Ciaran se assustou quando Isi apareceu na frente dele.
– Finalmente achei você. – ela disse parecendo desesperada. – Eu vou falar com Damir, eu não sirvo pra esse tipo de coisa! – no momento a pequena fada tentava arrancar o tecido ao redor da boca de Ciaran. Não estava conseguindo. – Parece que a porcaria dessa teia é mais forte que aço! Espera aqui.
Não se preocupe! Ele ia esperar sim. Ciaran sentiu sua cabeça rodar, ele estava ficando tonto. Mas passou, foi só por um instante. Isi voltou com uma... pata de aranha filhote e começou a cortar a teia ao redor da boca de Ciaran, não estava rápido o suficiente, mas estava funcionando!
Ciaran viu Feiy lutando com os pequenos insetos, ele estava indo muito bem. Já Deimos, Ciaran viu quando o corpo do demônio foi atirado na parede deixando um buraco e, pelos deuses, Deimos nem parecia sentir. Mas ele estava, Deimos já estava com os joelhos meio flexionados e ofegante.
Finalmente a teia que cobria a boca de Ciaran caiu.
– Obrigado, Isi. – Ciaran disse tentando se mexer de novo, ele tentou fazer movimentos de cima para baixo com o seu cajado, tentando cortar a droga do casulo, mas estava difícil.
Mais uma vez Ciaran sentiu sua cabeça girar. Droga. O que estava errado?
Ele precisava se concentrar, talvez se ele se concentrasse com força, o que ele podia usar aqui? A terra? Muito improvável. O fogo? Não. O vento... ele não era muito bom com vento ainda. Sobrou a água que circulava ao redor do abismo.
Ciaran olhou como estava Deimos, ele estava deitado sobre o monte de ossos, balançando a cabeça e provavelmente se recuperando se um choque. A aranha ergueu uma de suas petas e falou alguma coisa, mas Ciaran estava muito longe para ouvir. Ela ia espetar Deimos.
– Posso controlar a água daqui? – Ciaran perguntou a Isi.
– Sim! Concentre-se no que Damir o ensinou.
Ciaran se concentrou e tentou sentir a água a sua volta, no meio de toda a energia negativa. Lá estava, primeiro uma gota depois duas. Ele suspirou e liberou sua energia.
Qual foi sua surpresa ao ver um chicote de água vermelha empurrar-se sobre a aranha gigante, desequilibrando-a. Ta, parecia mais um homem com pernas de aranha, mas ainda assim.
Ele estava feliz. A coisa tinha caído e Deimos pulou para o ataque e por muito pouco a luta não acabou ali, o problema foi que teias de aranha prenderam os pulsos, a cintura e os calcanhares de Deimos, segurando-o firme a encosta do abismo.
O coração de Ciaran pulou uma batida quando os olhos negros e redondos da criatura fitaram exatamente a ele.
Com os enormes dentes pontudos. Sua garganta latejou prontamente.
– Ciaran, recomponha-se! – Isi gritou com ele, mas Ciaran só conseguia ver os enormes dentes da criatura, eram piores do que os do vampiro que dilacerou seu pescoço da outra vez. – Ah, não.
Ciaran sentiu o casulo em que estava preso descer. Ele olhou para Deimos, mas ele não estava tendo sucesso em fugir de suas amarras. Era o fim?
–x-
Deimos puxou e puxou mais uma vez as cordas de teia que o prendiam. A merda era forte o suficiente para detê-lo! Mas não por muito tempo, ele não ia deixar um maldito inseto derrotá-lo.
Ele encarou a criatura que agora dava atenção ao teto. O homem tinha o cabelo prata, mas agora, tanto o corpo quanto seu cabelo estavam em vermelho vivo. Ele tinha ficado impressionado com o chicote de água, ele sabia que era coisa de Ciaran, o que significava que ele estava vivo. Era um alívio.
Mas não por muito tempo.
O casulo de Ciaran estava agora diante do aracnídeo. Merda, merda, merda. Deimos forçou de novo para sair, forçou até seus pulsos sangrarem e a teia se alojar em seu abdomem. Ele seria desmembrado antes que se libertasse.
– De todas as minha vitimas eu guardo algo de que gosto. – o homem disse. – De você provavelmente serão os olhos. – a aranha segurou o rosto de Ciaran com a mão que lhe restava.
Deimos puxou mais uma vez os braços. Não toque. Ciaran não devia ser tocado por um ser tão imundo, não por esse, ele estava apavorado. Deimos sabia o porque. Eram os dentes. Ciaran não lidava bem com dentes afiados.
– Sua luta é comigo! – Deimos gritou para o ser que lhe deu atenção.
– Não acho que você me ofereça mais riscos.
Ele ia se arrepender por pensar isso, e ele não imaginava como. Deimos começou a puxar de novo, ele sentia sua pele rasgar, mas não importava a dor o fazia se sentir vivo.
– Isso vai te desmembrar! – Isi disse ao lado dele. — Eu vou tentar te soltar la em cima.
Deimos não deu atenção, ele estava focado e finalmente ele sentiu um progresso, alguns fios soltaram, e mais se seguiram. Mas logo um feixe estava mantendo firme o seu pescoço.
– Nunca imaginei que um simples demônio como você conseguiria rasgar os meus fios... agora, aproveite o show daí, quieto.
O monstro se aproximou de Ciaran com as presas a mostra, Deimos viu o sangue sumir do rosto do loirinho, Ciaran estava tão apavorado que não conseguia falar. Ele ia chorar e Deimos não podia fazer nada.
Ele podia sim. Deimos puxou e puxou mais uma vez. Ele não ia se soltar a tempo!
E então ele viu Feiy pular entre Ciaran e o monstro que o olhou curioso.
– Você também vai me enfrentar, raposinha? – o homem disse encarando Feiy, ele ia ser esmagado. Que ótimo!
– Sai daí Feiy! – Ciaran disse para ele, mas a raposa nem se mexeu.
Feiy rosnou alto para a aranha que apenas riu dele.
– Vou chamar os meus filhotes para cuidarem de você, quem sabe...
Deimos assistiu um enorme tornado de fogo surgir ao redor de Feiy e queimar dois dos nove membros da criatura. Quando o fogo se extinguiu, um homem estava no lugar de Feiy, olhando para as suas próprias mãos.
Então, finalmente a raposa aprendeu a mudar?
– Uma kitsune? – a aranha perguntou.
– Ah, sim... uma kitsune. – Feiy falou com a voz grave e sorriu para a criatura.
– Feiy? – Ciaran perguntou atrás dele, meio confuso.
– Eu vou proteger você. – ele disse a Ciaran e Deimos se incomodou. Ele precisava sair dali, essa luta era dele.
Feiy jogou duas bolas de fogo no monstro, que apenas desviou. A criatura estava muito focada nele, Feiy precisava de uma distração.
Ele jogou fogo para o teto, os casulos começaram a queimar inacreditavelmente rápido. O monstro não gostou, seu urro foi desesperador, e Deimos só teve noção de quantos casulos tinha ali após o fogo se espalhar, eram centenas deles.
– Você vai pagar por machucar os meus bebês. – a aranha disse e se jogou contra Feiy, mas a raposa parecia saber o que fazer, seus punhos estavam flamejantes e ele se movia bem para quem acabara de adquirir pernas.
Feiy conseguiu queimar o rosto da criatura, que acabou recuando um pouco, foi ai que Feiy foi até Ciaran e derreteu a teia que o prendia, eles falaram alguma coisa e Feiy voltou a luta.
Ciaran correu para onde Deimos estava e começou a puxar os fios.
– Você não vai conseguir assim. – Deimos disse a Ciaran.
– Você ta sangrando.
– Não pode controlar o fogo e queimar isso?
– Ainda não domino bem o fogo, ele é muito arisco.
Deimos avaliou o garoto de cima abaixo, nem um arranhão, isso era bom. Ciaran tentou levantar uma das lâminas de Deimos, era difícil, elas eram pesadas para a maioria. Ele tentou usar para cortar, estava funcionando,mas muito lentamente. Vamos lá, vamos lá!
Deimos viu Feiy voar de um lado a outro, a criatura monstruosa estava muito debilitada e estava vindo em direção aos dois.
– Mova-se, Ciaran!
– Está quase lá!
– Saia daqui!
– O sangue de demônio vai me ajudar! – a criatura balbuciava, estava cega, o rosto queimado. Ele ergueu uma das patas afiadas e Deimos viu as lâminas fisiológicas nas pontas das patas, ia atravessar Ciaran para chegar nele.
Não, não ia não. Deimos sentia a pulsação em seus ouvidos. Ele só tinha um desejo, matar e estripar aquele inseto miserável. Deimos não sentia mais medo, nem dor, ele apenas se puxou livre, e as únicas coisas que ele conseguia ver eram suas lâminas e o monstro gigante que parecia recuar.
Ele apanhou suas armas e caminhou até a criatura, ele ouviu vagamente o comando para que as crias o atacassem, mas nenhuma se moveu, o monstro parecia recuar. Qual é o problema? De repente o inseto ficou com medo? Pois ele deveria, ele ia ser esmagado com tudo o que Deimos tinha.
Deimos sentia o cheiro do medo, a coisa tentou acertá-lo, mas estava muito lenta para ele, Deimos correu e cortou as duas primeiras pernas forçando a criatura a ceder e colocar os pés de volta ao chão.
Deimos percebeu que a criatura implorou por clemência, mas foi algo tão vago. Ele sentiu em todos os seus músculos quando a cabeça da criatura voou, em seguida Deimos perfurou o coração e assistiu o sangue jorrar, era uma sensação maravilhosa. Pena que durou pouco. Ele rasgou a barriga, como a criatura tinha feito com as jovens. Os rapazes provavelmente foram comidos.
Deimos viu uma sombra escura deixar o corpo e agarrou antes que a coisa escapasse. Ele estava com fome, e a sombra lutava para se libertar.
– Para sua sorte, não tenho interesse em almas imundas. – ele disse e liberou a sombra que sumiu diante dos seus olhos.
Seus músculos estavam tensos, ele precisava lutar mais, onde estavam os inimigos?
– Acabou, já acabou! – Deimos sentiu um toque em seu braço e levou todo o seu auto controle para não virar com sua lâmina prestes a atacar. Ele viu Ciaran ao lado dele, o encarando estranho. – Está tudo bem?
– Ótimo. – Deimos respondeu e era como se a adrenalina tivesse passado, a dor dos ferimentos voltou como uma cadela.
– Eu duvido muito. – Ciaran disse com o rosto preocupado. – Está sangrando muito.
Deimos tinha certeza que tinha quebrado um dedo ou dois, e alguma costela. Ele olhou para os seus pulsos e conseguia ver o osso através dos machucados. Ótimo.
– Estou bem. – Deimos disse puxando o pulso para si, sua barriga doía como o inferno! Dois pés pararam a frente de Deimos e ele olhou para cima. Feiy tinha um olhar bem arrogante quando virava humano. Na verdade, ele não parecia gostar muito de Deimos. – Acho que devia queimar esse lugar. – Deimos disse encarando a raposa.
– Assim que Ciaran estiver fora e em segurança. O que eu duvido que vá acontecer se você ficar ai sentado.
Deimos rosnou, mas levantou. Isi jogou um feixe de teia para que pudessem escalar e foi o que eles fizeram. Lá de cima Feiy queimou o que restou, todos os corpos mortos e todos os filhotes gigantes daquela aranha.
Eles chegaram fora da mina. Deimos estava respirando pesado e estava bem debilitado, Feiy tinha apenas uns arranhões. O pó das fadas podia ajuda-lo, mas a fada tinha se prontificado? Claro que não!
– Feiy... – Ciaran disse e o rapaz parou prontamente. Eles tinham que parar logo agora? Deimos estava precisando de um pouco de descanso, quem sabe um pouco de energia. – Você está nu. – o loirinho disse corando verdadeiramente e retirando sua capa. — Deixe-me ajudá-lo. — Ciaran deu um jeito de fazer uma saia improvisada, enrolando de alguma forma, Feiy mantinha um sorriso divertido e muito íntimo na opinião de Deimos. Olhava para Ciaran com uma devoção desconcertante. – Acho que ficou bom. Então, eu estou feliz que você finalmente conseguiu se transfigurar. Isso é muito legal! – podem deixar o papo pra outra hora?
Feiy sorriu e colocou uma das mãos no rosto de Ciaran e o beijou... isso. Deimos podia sentir o sentimento e isso o enjoou.
– Eu amo você. Eu amo você. Eu amo você, Ciaran. – Feiy disse encostando sua testa na testa de Ciaran.
– Eu... – Ciaran estava tenso, Deimos podia notar. – Também amo você.
– Acho que não estamos falando da mesma forma. – Feiy disse sorrindo. – Eu queria dizer isso há tanto tempo.
Ciaran olhou para Deimos e esperou que ele dissesse alguma coisa.
– Podemos ir? Eu quero descansar. – Deimos falou casualmente. – Eu preciso curar. Vocês podem se amar o quanto quiserem depois.
Ele começou a fazer o caminho de volta sozinho.
– Por que está tão frio? – Feiy perguntou e Deimos virou para responder, mas obviamente a pergunta não foi dirigida a ele. – Está suando também. – Feiy olhou rapidamente para Deimos que fez o caminho de volta.
– Acho que eu estou com fome. – Ciaran disse piscando lentamente.
Feiy virou a palma da mão de Ciaran onde tinha um corte e o lambeu.
– Tem veneno no seu corpo. – Feiy disse com um olhar preocupado.
– Eu sabia que ele não estava normal – Isi falou. – Vamos voltar logo.
– Você está se sentindo bem? – Deimos perguntou avaliando a situação.
– Sim... só fico tonto de vez em quando.
– Vamos indo. – Feiy disse acompanhando Ciaran.
Deimos foi andando mais a frente, ele não era muito fã de casaisinhos felizes e definitivamente não estava afim de assistir Feiy e Ciaran juntos.
–x-
Ainda bem que eles vieram logo. Deimos tinha uma enfermeira fazendo as ataduras em seus pulsos e abdomem, mas ele só conseguia prestar atenção em Ciaran deitado na cama a frente da sua.
Ele tinha desmaiado antes de chegarem ao portal e chegou a enfermaria inconsciente, Katrina já havia dado o antídoto a ele e parece que a dose do veneno injetada tinha sido muito pequena, provavelmente a aranha não queria destruir o gosto do sangue de Ciaran.
Agora ele dormia e Feiy estava sentado em uma cadeira ao lado da cama de Ciaran, parecia tremer e suar também. Ele tinha sido muito elogiado pelas damas locais. Como seu corpo atlético era incrível e como os cabelos longos desgrenhados tinham a mesma cor vermelha de seu pelo e como os olhos cor de ouro eram expressivos.
Feiy tinha escutado tudo, mas sem tirar os olhos de Ciaran nem um minuto. O mesmo bichinho de estimação mesmo depois de conseguir sua forma humana. Agora ele podia ir embora e deixar se ser um pet, mas não, ele estava amando Ciaran e ia ficar.
Deimos foi retirado de seus devaneios quando Feiy se aproximou da sua cama, braços cruzados e o encarando. Agora ele vestia calças vermelhas com elástico branco. Melhor do que a capa de Ciaran.
– Estou ficando sem energia. – Feiy disse encarando Deimos.
– E você quer que eu faça o que? – Deimos respondeu encarando os olhos âmbar.
– Eu não gostei de você ter brincado com os sentimentos do Ciaran.
– Eu não brinquei com os sentimentos dele. Ele é bem crescidinho, Feiy, ele se entregou a mim porque quis.
– Ele é muito inocente e caiu na sua lábia cínica.
– Você está com dor de cotovelo por eu ter sido o primeiro com quem ele... – Feiy apertou um punho sobre o pescoço machucado de Deimos, mas o moreno só riu. – Deve ter sido muito difícil pra você assistir o Ciaran por aí, com todos esses sentimentos reprimidos, cuidando dele, protegendo, e no fim, a recompensa pelo seu esforço, ser perder para outro. Para alguém como eu.
Feiy soltou o pescoço de Deimos e o encarou.
– Eu faria tudo de novo, mesmo que no fim ele ficasse com alguém como você. Porque eu o amo e isso é uma coisa que você não sabe nem nunca vai saber o que é. Eu vou conquistar o Ciaran e abrir os olhos dele para o que você é de verdade. Você só quer a alma dele. Acima dos seus desejos egoístas, você não acha que ele merece ficar com alguém que o valorize, que não o olhe como se ele fosse comida, que se preocupe com ele?
– Eu me importo com ele! – Deimos falou, percebendo que agora ele estava cara a cara com Feiy. Mas que merda, ele apenas voltou a relaxar. – Você pode tentar. Só não se decepcione se perder.
– Eu digo o mesmo. – Feiy falou com um tom de confiança impressionante. – Agora, eu preciso descansar.
Deimos assistiu o tornado de fogo envolver Feiy de novo e a raposa aparecer no lugar do homem, Feiy se colocou embaixo da cama de Ciaran e dormiu. Ótimo, porque era ainda mais irritante como homem do que como animal.
O dia passou lento, Deimos comeu alguma comida do refeitório, somente porque gostava do sabor e fazia bem aos músculos. Depois voltou a enfermaria para trocar as ataduras e foi convidado a passar a noite, mesmo que não precisasse necessariamente dormir. Bloquear os sentidos ajudava a concentrar as forças, mas ele estava muito agitado para fazer isso.
A madrugada estava silenciosa e Ciaran ainda não tinha acordado nenhuma vez, Feiy estava desmaiado debaixo da cama. Graças aos deuses.
Deimos observou a enfermeira dormir na cadeira, fora eles mais três pacientes estavam por lá. Todos piores que eles. Levantou da cama e sentou de frente a cama de Fiero, observando o garoto dormir.
Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos. Ele pensou na batalha, no que a aranha tinha falado, sobre uma guerra, ele tinha que reportar isso ao Ário, e todos os acontecimentos seguintes. Ele estava se sentindo incomodado.
– Nossa, você está pensando longe, eim? – Ciaran sussurrou e o moreno viu o garoto acordado, olhando para ele, como os olhos ainda sonolentos.
– Todos os acontecimentos do dia.
– Aconteceu muita coisa. – ele disse sussurrando.
– Muita. Como se sente? – Deimos disse se aproximando mais de Ciaran e recebendo um sorriso, por algum motivo isso o acalmou um pouco, a inquietação deu um tempo.
– Estou meio lento, eu acho, mas fora isso tudo bem. E com um pouco de dor de cabeça.
– A próxima dose do antídoto deve curá-lo completamente.
Ciaran concordou.
– Onde está Feiy?
– Embaixo da cama. – era natural Ciaran querer saber. Claro.
– Mesmo humano ele insiste em ficar embaixo da cama?
– Não, bobão, ele estava esgotado e voltou a forma de raposa.
– Não me chame de bobão, isso é novo para mim. Ele vai voltar a ser humano de novo?
– Você quer que ele volte?
– Seria legal, ele é forte, pode nos ajudar nas missões.
Deimos pensava diferente, ele achava que ele era o suficiente, ele e Ciaran, principalmente quando o garoto dominasse a magia. Eles não precisavam de um kitsune metido a besta.
– Eu... fiquei preocupado com você. – Deimos falou e se achou um idiota por falar tamanha besteira.
– Jura? Eu estava tão mal assim?
– Não, é só que você desmaiou e ninguém sabia qual era a extensão dos danos.
– Hmm, estou bem. – ele falou encarando Diemos por uns instantes.
Deimos se aproximou, desejando só um beijo rápido da boca de Ciaran, ele só queria limpar a boca da raposa dos lábios macios. Ele queria, mas Ciaran desviou. Por algum motivo ele se sentiu mais patético ainda, aquilo não era ele, esse não era ele.
– Seus olhos estão vermelhos de novo. – Ciaran disse em uma visível tentativa de mudar de assunto.
– É porque eu estou com fome. – Deimos disse levantando da cadeira e se preparando para sair.
Ciaran segurou seu pulso por um instante.
– Você nem se importa, não é? – Deimos queria perguntar ‘com o que?’ mas ele sabia a que Ciaran se referia. Ele era livre pra ir e vir.
– Não, não me importo, só cuide bem da sua alma. Agora vá dormir, amanhã você deve estar melhor.
Deimos saiu da enfermaria a passos largos, ele não se importava mesmo, ele podia ficar com quem quisesse, amar quem ele quisesse. Contando que não viesse qualquer idiota e roubasse sua alma... tudo certo. Agora, ele precisava de energia e queria consegui-la agora.
Deimos vagou pelos corredores meio sem rumo, para uma noite de serviço, os malditos corredores estavam bem vazios.
Até que ele encontrou alguém, um garoto voltava da biblioteca com um livro sobre criaturas do gelo, talvez estudando para uma missão. Deimos o encarou e o dono dos olhos verdes corou levemente, o moreno colocou um braço entre a passagem do garoto o obrigando a parar.
– Vai fazer alguma coisa agora? – ele perguntou e o garoto sorriu, um misto de timidez e nenhuma inocência.
– Parece que sim.
Deimos o puxou para um dos becos escuros e o virou para a parede... o garoto tinha uma cauda. Deimos acariciou o apêndice e mordeu a orelha alheia. Ele ouviu um leve ronronar, um descentende de felinos talvez.
Deimos não estava a fim de demorar, ele apenas acariciou o membro já duro do garoto que pingava pré-semem com poucas carícias e alguns beijos e lambidas em seu pescoço e orelhas.
– Seu parceiro não cuida de você? – Deimos perguntou com a voz sedutora e o garoto gemeu um pouco.
– É uma garota e, visivelmente, ela não me agrada.
– Eu posso ver.
Deimos colocou um dedo na entrada apertada, definitivamente fazia um tempo que esse cara não recebia um pau, estava apertado e parecia delicioso. Deimos o preparou como pôde, mas o rapaz parecia bem apressado.
– Pode colocar, eu gosto com um pouco de dor.
Deimos colocou seu pênis na entrada pulsante e empurrou até a cabeça entrar, ele sabia que um pouco de dor não significava que ele podia entrar todo o caminho, e ele precisava de um orgasmo magnífico para conseguir a mesma quantidade de energia que Ciaran fornecia. Ninguém ia conseguir a mesma quantidade. Mas esse garoto estava bom o suficiente. O garoto gemeu um pouco e contraiu os músculos, Deimos ia esperar ele relaxar.
– Eu já tinha visto você pelos corredores. Você era o meu tipo...
– Hmm, você sonhou comigo? – Deimos empurrou um pouco mais fundo e as pernas do garoto tremeram, ele não ia cair, Deimos estava segurando contra a parede.
– Muitas vezes. – isso era bom, amaciava o ego. – Mas me diziam que você só estava interessado no seu parceiro.
– Mentiram para você. Agora pare de falar. – Deimos sussurrou e empurrou o resto do caminho para dentro. O rapaz se inclinou ainda mais contra a parede, oferecendo o corpo de bom grado para o moreno. Mais algumas estocadas e Deimos se inclinou sobre o corpo menor. – O que eu fazia com você nos seus sonhos?
– Prendia os meus braços... – Deimos puxou o corpo para colar-se no seu e prendeu os pulsos do rapaz sobre sua cabeça, com uma das mãos.
– Assim? Por acaso eu falava como você era um gatinho levado por ter tesão por mim? Como a sua bundinha era apertada e perfeita para comer?
– Sim... – o rapaz gemeu e seu corpo ficou tenso, segundos depois o felino gozou. Deimos sentiu a energia. Bom, o suficiente para ajudar a curá-lo. O moreno saiu de dentro do garoto que estava ofegante contra a parede. – Mas... você não terminou.
– Está bem, gatinho. Não se preocupe com isso. – quanto menos energia desperdiçada melhor. – Agora, onde é o seu dormitório?- Deimos perguntou quando o garoto parecia adormecer contra a parede.
– 1812..
O garoto dormiu e Deimos o levou até seu quarto, bateu na porta e uma garota abriu, parecia uma elfa.
– Acho que é seu parceiro, ele desmaiou no corredor. – Deimos falou e entregou o garoto gato a ela, a jovem só concordou e Deimos deu meia volta.
O sol ia nascer logo, Deimos ficou em uma das janelas enquanto esperava o sol surgir. Talvez ele precisasse ir em uma viagem de novo ao reino humano e encontrar o que ele procurava, Ciaran conseguiria se virar com Feiy.
Não, ele ia ficar.
– O que? – Deimos disse para o nada.
– Eu vi o seu showsinho no corredor.
– Você é um lobo voyeur? – Deimos perguntou olhando para Denver que se aproximava dele. – Porque eu não me importo.
– Na verdade não. Ciaran sabe disso? Não acho que ele vá gostar.
– Ele não precisa gostar. Você veio só me julgar? – Deimos olhou de novo para o horizonte.
– Deuses, o que te mordeu?
– Nada. Na verdade, algumas aranhas.
– Só vim lembrá-lo... que hoje faz sete dias. – Deimos encarou Denver. – E nenhuma notícia deles.
Que ótimo, pelo meno Haziel ia lhe dar algo para ocupar a cabeça.
– Então saímos ao noitecer.
Fale com o autor