Magic Whisper

19 Ele estava perdendo a cabeça.


Haziel estava sangrando profusamente em alguns lugares e estava extremamente dolorido. Ele sabia que enfrentar seu líder ia ser difícil, mas ele não esperava que tivesse que chegar a isso. Não queria matar seu príncipe, seu amigo, isso tinha destruído uma parte dele, era igualmente doloroso ao dia que perdeu sua casa e seu clã.

Esses malditos Hunters tinham fodido a sua vida de todas as maneiras possíveis.

Dorian olhou para ele, seu corpo em leves espasmos, assim que todo o sangue escorresse para fora pelas feridas abertas em seu pescoço e barriga, o coração de Dorian iria parar e ele estaria morto, até que o sol viesse para queimar o resto de seu corpo.

Haziel simplesmente não podia deixar isso acontecer. Ele sabia que Dorian tinha ordens explicitas para matá-lo, mas ele não podia deixar o príncipe de seu coven morrer. Haziel era de sua guarda pessoal no passado, quão irônico era isso. Era difícil cortar os laços completamente. Isso era considerado traição, eles não eram como os lobos selvagens eu lutavam frequentemente para tornarem-se alfas, no coven a linhagem de um príncipe deveria ser seguida e respeitada.

Foda-se essa merda.

Haziel mordeu seu próprio pulso e o levou aos lábios de seu príncipe, Dorian apenas recusou, como se a visão do sangue o enojasse.

— Vamos, beba...

— Você já está fraco. Poupe-o para você.

— Sei muito bem o que estou fazendo, eu...

— Seu sangue não vai adiantar para mim! – Dorian disse ríspido, com um certo tom de raiva. – Eu sou alimentado com... um tipo de sangue especial. Você ganhou, Haziel, acabou, se eu me recuperar vou atacá-lo de novo. Vá agora!

Dorian piscou lentamente, parecia que tentava adaptar sua visão ou tê-la sob controle, suas presas cresceram em suas gengivas, o corpo pedia por sangue tentando sobreviver. Haziel ouviu os Hunters se aproximarem aos poucos. Já estavam perigosamente perto e em seu estado atual ele não podia fazer muita coisa.

Ele podia lutar.

E morrer agora como um guerreiro. Seus olhos desceram sobre o circulo negro ao redor do pescoço de seu príncipe e ele lembrou-se do seu próprio. As imagens do estado deplorável de Aisha surgiram em sua mente. Isso era tudo culpa daquele maldito Axis.

Os Hunters se aproximavam mais e mais, mas pareciam não chegar nunca. Haziel tinha que decidir. Lutar e morrer como o guerreiro que era? Isso não seria ignorar seu mestre, ele estaria lutando para mate-lo vivo. Aisha iria entender. Não, provavelmente não ia. Ainda que quisesse dizimar o maior número de homens aqui, Aisha não saia de sua cabeça.

— Ele precisa de você. Sabe disso. – Dorian falou com uma voz grave e fraca. – Vai precisar ainda mais agora que Axis controla todo esse clã. Não lute contra isso, Haziel, você gosta dele.

— Tudo culpa desse maldito vínculo de escravos.

— Isso não controla sentimentos, meu amigo... é porque aquele garoto é muito especial. E para mantê-lo seguro você vai ter que matar Axis uma hora ou outra. Eu daria tudo para ver isso. A queda desse homem confuso e perturbado. – Dorian suspirou e fechou os olhos. – Eu me pergunto se Axis tivesse nascido em outro clã ele se seria diferente. – Haziel pensava que seu príncipe começava a delirar, ele olhou ao redor e viu uma casa, talvez se ele deixasse Dorian dentro de uma casa e longe do sol, algum milagre acontecesse e ele sobrevivesse.

Haziel ergueu o moreno em seus braços, seu corpo inteiro reclamou do peso, mesmo Dorian sendo bem mais esguio que ele. Haziel estava sentindo o peso da batalha contra seu príncipe.

— Ele seria esse demônio em qualquer lugar que estivesse. – Haziel sibilou colocando o corpo delicadamente dentro de uma das casas.

— Você deve ter sentido o cheiro dele em mim. – o corpo de Haziel ficou tenso imediatamente. Não, ele nunca tinha sentido isso e ele ficou chocado só de ouvir as palavras. Ele não conseguia imaginar os dois... seu príncipe e Áxis juntos. Dorian só podia estar delirando. – Eu me sentia extremamente envergonhado em sua presença. – Haziel nunca tinha sentido nada, por que ele estava dizendo esse tipo de coisa? Talvez Haziel tivesse interpretado errado as palavras, o olfato dos vampiros era bom, mas não era como o dos shifters. Além disso, Axel nunca iria se sujar dessa forma com um vampiro.

Quer dizer, todo esse problema foi porque a linhagem da mãe de Aisha tinha se envolvido com a de um vampiro. Ele não conseguia imaginar Áxis mantendo esse tipo de relação com seu príncipe.

O que se passava na cabeça daquele louco?

— Meu príncipe. Não entendo o que está falando, acho que a perda de sangue está levando a melhor sobre você...

— Eu não estive com Áxis o tempo todo que Aisha esteve com ele... Aisha é muito parecido com a mãe e Áxis a amava desesperadamente.

— Aonde quer chegar?

Ele tinha que ir, sair dali. As vozes estavam perigosamente perto, apenas a uma rua dali e isso tomou toda a atenção de Haziel.

— Espero que algum milagre aconteça, que Axis o encontre e o salve. — disse ao seu príncipe. — Eu tenho que ir agora. – Haziel tentou manter as emoções sob controle.

— Você vai entender mais cedo ou mais tarde. — ele disse abafando um urro de dor. — Finalmente. – Dorian falou em um suspiro. – E eu não sou mais seu príncipe, Haziel, você é o líder do coven agora, você me derrotou, espero que assuma essa função quando a oportunidade surgir.

Que oportunidade? O coven de Dorian estava disperso e realmente apenas poucas centenas deles haviam sobrevivido. Além do mais, como Haziel seria capaz de liderar estando preso a Aisha pelo resto de sua existência?

— Foi uma honra, meu príncipe.

Haziel sentiu suas pernas o levarem para longe dali, descendo as ruas, ele continuava escutando apenas vozes, como se estivessem se aproximando, mas nunca chegavam. Em um dos becos ele viu o brilho de luz do fogo cintilar. Algo estava incendiando, provavelmente Feiy tinha posto algo em chamas.

Suas pernas o levaram rapidamente pelo beco de fogo e, de repente, ele estava na praça central, o que era impossível, ele sabia que a praça ficara para trás. Ninguém estava presente era apenas ele e a enorme fogueira com suas labaredas dançando ferozmente.

E então ele se forçou a enxergar o que queimava. E era Aisha. Ele correu sentindo o desespero crescer mais e mais dentro dele, não havia como resgatá-lo agora, as chamas estavam altas, não havia como alguém como Aisha sobreviver a esse tipo de queimadura.

Aisha o olhou no meio das chamas e gritou. Mas o que Haziel escutou foi centenas de vozes desesperadas no dia que seu coven foi massacrado pelos hunters.

O vampiro abriu os olhos no ambiente frio e escuro, estava tudo calmo e um pouco de vento mexia a fina cortina que se projetava para dentro do quarto, uma fraca luz do sol entrava pela fresta, acompanhando a brisa e Haziel sentiu seu corpo pesado na cadeira. Pesadelos tinham sido frequentes nos últimos três dias. Eles pareciam tão vivos e tão malditamente fortes que ele se sentia sufocar dentro deles.

Seus olhos pousaram sobre o corpo adormecido. Aisha estava imóvel em cima da cama, Haziel se aproximou e observou o corpo pequeno meio escondido pelos lençóis, o garoto tinha os pés, parte da perna, coxas, pescoço, mãos e braços envoltos por bandagens que serviam para melhorar o estrago das queimaduras e escoriações no corpo delicado. Não que seu dorso ou peito estivessem melhores.

Haziel se concentrou nas batidas leves do coração e esperou até que Aisha suspirou e pôde confirmar que o pequeno estava vivo. Haziel sentou-se no canto da cama e passou a mão por seu próprio rosto, o sol brilhando na janela fazia seus olhos queimarem, ele precisava se alimentar. Por enquanto, alguém nesse lugar tinha que servir, não havia chance de Haziel deixar Aisha aqui sozinho.

O garoto chutou a cama e seu corpo teve um pequeno espasmo, um som fino deixou a garganta de Aisha e sua respiração mudou. Pelo visto Haziel não era o único a ser perturbado em seu sono. Aliás, Aisha ainda não tinha tido uma noite tranquila de sono.

— Aisha. – Haziel disse em uma voz calma, mas Aisha continuava dormindo e agora começava a suar. – Aisha! – Haziel tentou de novo sacudindo um pouco seu braço.

Aisha abriu os olhos tentando livrar seu braço do aperto de Haziel, mas sem sucesso.

— Me solta! – o garoto gritou enquanto lutava para se manter longe de Haziel.

— Sou eu Aisha, fique calmo!

Mas lágrimas começaram a jorrar no rosto avermelhado de Aisha, isso era péssimo e Haziel rosnou de frustração.

— Não faça isso... por favor. – Aisha choramingou enquanto parava lentamente de lutar. Era difícil Aisha acreditar em Haziel, sem suas mãos era como se o garoto tivesse perdido seus olhos, de novo, e Axis com certeza tinha feito um bom trabalho em danificá-las.

— Shh, está tudo bem. Nós já voltamos para o Instituto. Os caras ajudaram a gente, lembra? – Haziel levou sua mão até o rosto de Aisha para impedir que a lágrima percorresse um caminho maior.

Aisha levou os dedos enfaixados para até a mão de Haziel e seu rosto reclinou sobre a mão meio fria do vampiro.

— Desculpe... – Aisha disse suspirando e fechando os olhos, enquanto seu rosto descansava na mão maior.

— Não tem porque se desculpar. Já faz alguns dias que você não dorme bem.

— Eu fico ouvindo coisas. É como se elas estivessem aqui, me cercando. É como se eu nunca tivesse saído de lá.

— Mas você saiu de lá Aisha, está seguro.

— Eu não me sinto seguro.

Não que Haziel costumasse se importar, mas ele se sentia incomodado agora, era como se ele tivesse falhado com o seu dever. Aisha não confiava mais nele e olhando agora o péssimo estado de Aisha, Haziel entendia totalmente e isso o fazia chateado consigo mesmo.

— Venha aqui. – Haziel disse encostando-se na cabeceira da cama e guiando Aisha para o seu colo, lentamente, Haziel não perdeu a fáceis de dor que cruzou o rosto de seu mestre. O garoto pareceu meio surpreso e um tanto incomodado. – O que foi?

— O que está fazendo?

— Quero que você se sinta mais seguro.

— Não entendi.

— Assim. – Haziel guiou as mãos de Aisha até seu peito e fez com que as mãos envoltas em panos sentissem seu peito largo e estrutura forte. O loiro não pode deixar de sorrir um pouco quando o rosto já rosado de Aisha assumiu um tom mais forte de vermelho.

— E-eu, bem...

— Imagine que isso é uma parede. Ninguém consegue transpor e chegar até você. – Haziel soltou as mãos de Aisha e o garoto as manteve lá enquanto tentava compreender aonde Haziel queria chegar. – E isso. – Haziel enfatizou envolvendo o pequeno corpo sensível e arrastando o garoto para mais perto. – Essa é a parte da frente da sua muralha pessoal. Aqui você está seguro e pode relaxar. Eu dou a minha palavra.

Haziel pronunciou a ultima frase com mais ênfase no que ele planejava. Isso era uma certeza para Aisha e uma promessa para si.

Aisha deitou sua cabeça em seu peito e o queixo de Haziel alcançava o topo da cabeça do garoto. Ele assistiu Aisha respirar fundo e relaxar contra seu corpo.

— Não precisa fazer isso. Você não queria me levar lá porque sabia que não era seguro.

— Eu devia ter avisado a você.

— Eu não iria acreditar... eu não queria acreditar. Embora, eu sempre soubesse que algo não estava certo. Só não esperava tanto... — Aisha calou-se por um instante. — Obrigado. Mas você não precisa fazer isso. Não quero ninguém quebrando esse muro que você fala.

— Com o que tem sonhado?

Haziel já havia imaginado as diversas situações as quais Axis tinha posto Aisha enquanto ele estava longe. Ele queria viver tempo suficiente para fazer o idiota passar pelas mesmas crueldades, só que acrescentando alguma porcentagem a mais de dor.

— Coisas ruins. As vezes lembranças de casa misturadas com as vozes. Com meu irmão ou alguém falando como eu sou uma vergonha para o clã, o desespero de não saber onde estava, sozinho, estava tão escuro que eu sentia o frio, as grades me queimavam... Eles não me queriam lá, eu achei que finalmente ia poder voltar para casa. Eles me odeiam.

— Eu sei.

— Mas, por que não tentou me dizer nada?

— Porque eu já sabia que você não ia acreditar em mim. Foi por isso que eu joguei aquela droga de carta no lixo e os seus amiguinhos a leram para você. Eu sabia que isso ia acontecer, pelo menos você não me impediu de segui-lo para aquele inferno. Axis bancava o bom irmão para você, mas ele só o desprezava, sempre o olhava como se você fosse um verme que precisava ser eliminado, você só não conseguia ver... e não consegue ver, literalmente, graças a Axis! Ele tentou envenená-lo quando criança, mas graças a sua mãe você não morreu, mas ficou cego. Ele tenta se livrar de você desde sempre! Foi por isso que a sua mãe me entregou a você, para protege-lo dele. Desde o começo. Ela fez seu pai prometer não mata-lo. Mas Axis não fez promessa nenhuma. Foi só seu pai morrer e ele tomou as providencias para colocar as mãos em você. Aquele filho da... – foi quando Haziel escutou um pequeno fungado e viu o rosto de Aisha encharcado e lágrimas. Ótimo, ele tinha estado chafurdando tão fundo no ódio ao novo líder dos hunters do norte que esqueceu apenas um detalhe importante: Aisha costumava amar o seu irmão. Ele podia ter escolhido algumas palavras mais suaves ou um melhor momento para contar toda a história de como Axis era uma cobra traiçoeira. Mas Haziel nunca tinha sido um poço de suavidade. – Sinto muito, Aisha, eu não queria...

— Tudo bem. – o garoto disse, visivelmente não estava tudo bem. – Eu... o mais triste de tudo é que eu notava que tinha algo errado, mas...

— Eu entendo.

— Eu acho que não queria acreditar que estava sozinho e que a minha família não se importava comigo. Mas estava começando a faltar explicações do porque não me convidavam nos aniversários e dadas especiais... eu sentia falta de visitar a minha mãe. A ultima e única vez foi quando ela foi enterrada. Você se lembra?

— Claro. – na verdade, Haziel não lembrava. Nessa época ele estava se conformando com seu estado de escravo de alguém como Aisha, um Shame, uma vergonha. Ele não lembrava muito do inicio de sua vida como servente, o ódio pela destruição do seu clã e a vontade de escapar de seu destino era no que ele passava os dias absorto.

— Eu não pude ir ao enterro dela. — disso Haziel lembrava. Aisha não pode ir para a cerimonia formal, Haziel lembrava que achou aquilo estranho, só ficaram na casa Aisha e os poucos escravos vampiros. – Eu só pude ir visitá-la no dia seguinte... me disseram que ela não me queria lá, não queria que eu a visse sendo enterrada. O que não faz sentido porque eu já era cego naquela época. – Aisha deixou um riso sem graça sair.

— Não se preocupe. Você não é o único sem família nesse mundo.

— Você lutou contra Dorian?

— Ele está morto agora.

Aisha endureceu entre sobre o colo de Haziel.

— Eu sinto muito.

— Não foi culpa sua. Axis destruiu minha família, não foi você.

— Mas você ainda tem alguns membros do seu coven vivos. Você é o líder agora. E você não pode reuni-los porque está preso a mim.

— Eu não quero ser líder de coven.

— Você não pode ser, nem que quisesse. – Aisha falou afastando-se um pouco de Haziel. — Axis me disse que eu só trago desgraça para quem se envolve comigo. E como resposta natural, aqueles que são atingidos pelo mal que sou eu, só podem me odiar. – o garoto parou para pensar e seu tom ficou mais firme e sério. — Estou começando a achar que é verdade.

— Não acredite em nada do que aquele desgraçado diz! Ele vive para destruir você de todas as formas que conseguir.

— Acho que essa é a conversa mais longa e franca que nós tivemos desde que você foi preso a mim.

— Não posso negar.

— Eu sei... – Aisha disse como se estivesse reunindo a coragem para dizer alguma coisa. – Eu sei que você me odeia Haziel.

— Não odeio você, Aisha. – Haziel disse firme. Mas então ele mesmo se pegou desprevenido. Desde quando ele tinha parado de odiar Aisha?

Aisha suspirou, frustrado e meio irritado.

— Por favor, Haziel, eu gostaria de um pouco de sinceridade, para variar. Eu sei que você não gosta de mim e eu entendo. Eu tentei te deixar o mais confortável possível ao meu redor. Eu sempre entendi quando você explodia comigo e Axis deixou ainda mais claro nesses últimos dias...

— Pare.

— Você é um vampiro de classe elevada, além de ser muito forte e respeitado, o próprio Dorian reconhecia a sua força. Imagine alguém como você sendo derrotado por um grupo de hunters, ter seu lar destruído e, no fim, ser preso a alguém como eu. Sujo, a vergonha da sua raça, além de ficar com essa marca preta no pescoço, sendo estigmatizado para que todos saibam e vejam que está preso a mim, isso põe em dúvida a sua força e orgulho. Axis...

— Vejo que conversaram muito sobre mim nessa sua breve estadia. E Axis tem uma língua muito grande. Vou ter a certeza de arranca-la antes de mata-lo quando ele aparecer na minha frente.

— Não vá brigar com ele, por favor.

— Não acredito que ainda o está defendendo.

— Não quero que você se machuque.

Haziel apreciou os sentimentos de Aisha, mas porra se isso não era mais um risco no seu ego.

— Eu posso lidar com ele, Aisha. – Haziel disse um pouco mais ríspido do que pretendia. – Já está na hora de trocar seus curativos.

Haziel levantou e se dirigiu a cômoda para pegar a caixa de curativos. Ele estava pensando em um modo de dizer a Aisha que tudo aquilo que Axis lhe disse costumava ser verdade, da vergonha que ele sentia de estar com alguém como Aisha. Mas não era mais verdade.

Ele sabia o que dizer, era exatamente isso, costumava ser verdade que ele odiava Aisha, mas não mais, agora ele só queria que aquele sorriso bobo e feliz voltasse aos lábios do pequeno, queria ver Aisha explorando os locais novos de novo, era como ver uma criança descobrindo o mundo toda vez, a passos curtos, suas mãos sempre a frente.

E sempre confiando que Haziel estaria lá para ele o livrando dos problemas.

Mas o problema de dizer que ele não pensava mais em Aisha como um estorvo era admitir que sua cabeça uma vez funcionou igual a de Axis. Ouvir de Aisha a descrição dos seus sentimentos sendo ditos por Axis só mostrava como o maldito homem o entendia, como ele conseguia lê-lo facilmente. E esse seu lado ressentido foi totalmente exposto em um momento de vulnerabilidade de Aisha.

Haziel voltou para observar o rapaz desenfaixando suas mãos, as pernas já haviam ido e agora só faltava algumas dos braços.

Haziel nunca havia trocado as ataduras de Aisha pela manhã, ele podia ver melhor o estrago agora e estavam ainda mais feias, pois estavam curando, mas não era uma visão bonita. Aisha ainda tinha poucos pedaços de pele macia, o resto se recuperava lentamente.

— Podemos pular a parte da água? — Aisha perguntou esperançoso.

— Temo que não. As recomendações são que você precisa disso uma vez por dia.

Haziel entrou no banheiro onde uma banheira de água fria estava pronta. ele despejou um pó que as enfermeiras mandaram e voltou a encarar Aisha na cama.

O garoto tentava levantar, mas a expressão de dor estava ali. Haziel não podia ajudar muito, já que o rapaz tinha pouca pele sã. Mesmo assim, ele foi até Aisha e com cuidado o levantou da cama em direção ao banheiro.

— Eu já pensei assim, Aisha. Eu já o odiei. – Haziel disse colocando o garoto de pé cuidadosamente ao lado da banheira e terminando de despir o pequeno corpo. Esperou que Aisha falasse algo, mas nada aconteceu. Sua mão parecia engolir a panturrilha avermelhada, com algumas bolhas já secando. Ele lembrou de como Aisha era antes, extremamente atraente. Não que ele não fosse ainda, mas as bolhas manchavam o belo corpo. – Mas isso não é verdade hoje. – Aisha reagiu um pouco a suas palavras. Haziel terminou de desenfaixar as coxas do garoto. – Eu não o culpo pelo que aconteceu, você era uma criança na época e ninguém precisaria mais de proteção do que alguém como você em um clã como aquele.

— Como soube daquelas histórias do Axis? Sobre o veneno...

— Dorian me contou. Seu irmão costuma fazer um jogo sangrento com Shames. Dorian me chamou para assistir e eu prometi a mim mesmo que aquilo não ia acontecer com você.

— Que tipo de jogo?

— Não é importante saber. Eu costumava pensar que eu estaria melhor aproveitado sendo acoplado ao seu irmão. Ele era um verdadeiro guerreiro, eu seria visto como herói por ter salvo meu príncipe de um futuro vergonhoso... mas ai, veio você e foi exatamente aquilo que seu irmão disse por um tempo. – Haziel ergueu Aisha novamente com cuidado. Ele encarou a água com ressentimento. Isso tinha mesmo que ser feito? – Hoje não, hoje eu me preocupo com você verdadeiramente, você não merece como o merda do seu irmão te trata e não merece o destino que o desgraçado reserva para você. Para azar o dele, antes de chegar em você, ele precisa passar por mim... sabe, a coisa de muro e tudo mais. – Haziel viu um leve sorriso no canto da boca de Aisha. – Você é bom, Aisha. Não deixe que seu irmão lhe diga o contrario. Ele não merece a merda que come.

— Acho que você não gosta do meu irmão. – Aisha falou com um leve tom brincalhão. Isso era bom. Ele precisava relaxar.

— Quando você percebeu? — o leve riso de haziel morreu e ele suspirou. — Vou colocá-lo na água agora, Aisha.

O corpo do rapaz se enrijeceu prontamente.

— O-Ok.

Haziel colocou Aisha lentamente na água, ao primeiro contato Aisha gritou e chorou, tentou escalar o corpo de Haziel para se livrar do seu destino, mas não funcionou. Aisha travou sua mandíbula quando metade do corpo estava dentro da água e gemia, um sofrimento extremo, seu corpo tremia, algumas das peles soltavam e as lágrimas não paravam de cair.

As enfermeiras tinham dado uma poção analgésica, mas ela deixava Aisha muito sedado, o que não era bom para alguém dentro da água. Era para ser usada após o banho.

Haziel tentava ignorar as suplicas de Aisha para sair dali, mas eles precisavam de pelo menos quinze minutos.

— Só mais um pouco, Aisha. — Haziel disse banhando a cabeça e o rosto de Aisha e ganhando maiores lamentos do garoto. Ele imaginava que isso devia doer como o inferno. E então ele percebeu as mãos de Aisha segurando na borda da banheira. Suspirou. — Elas precisam entrar. — parecia que Axis havia passado uma lixa nas palmas de Aisha.

Aisha respirou e afundou o resto dos braços na água. Mais um grito veio após isso.

Esses quinze minutos pareciam a eternidade, mas finalmente acabaram.

Haziel colocou Aisha de pé e esperou o rapaz conseguir equilíbrio em uma expressão vazia e cansada. Haziel o enxugou como podia e o retornou a cama.

Ofereceu a poção a Aisha e o garoto agarrou aquilo como se fosse sua vida e bebeu tudo em dois segundos. A segunda parte era o gel que devia ser passado nos ferimentos para ajudar na regeneração, ele fazia milagres.

Ele começou pelos pés e pernas, a consciência de Aisha parecia já está se esvaindo por causa da poção.

Foi quando Haziel percebeu quatro caminhos vermelhos na parte interna da coxa de Aisha, estavam cicatrizando mais rápido do que as outras feridas, significavam que não eram queimaduras. Isso parecia... Não, Haziel tinha certeza do que era. Seu sangue borbulhou nas veias e qualquer animo leve se esvaiu.

— Que bom que finalmente está sendo honesto comigo. — Aisha balbuciou.

— Sempre fui honesto com você, Aisha. Como você mesmo disse, você sabia que eu não gostava de você. Por isso você não tem motivo nenhum para não confiar em mim. – Haziel disse voltando ao seu tom frio de sempre, Aisha notou mesmo sob seu torpor, porque o corpo do rapaz entrou na defensiva. Foda-se isso! Haziel queria explicações e queria agora.

— O que houve? — Aisha perguntou inseguro.

— O que é isso?

— O que exatamente?

— Isso. – Haziel disse seguindo com os dedos os caminhos vermelhos. Aisha bateu sua mão longe e se afastou alguns centímetros, um tanto assustado e surpreso. Haziel não ia deixar que fugisse. – Vai de dizer ou vou ter que adivinhar?

— Não aconteceu nada.

Mentiroso.

— Eu reconheço marcas de unhas quando vejo, Aisha! E não venha me dizer que foi você que se feriu porque não é possível!

— Nada aconteceu!

— Eles tentaram... violar você? – por favor que só tenham tentado. Aisha não parecia muito confortável com a pergunta e a espera estava queimando a toda velocidade a ansiedade de Haziel. – Eles foderam você?

— Não! – Aisha gritou escondendo o rosto. – Eles não chegaram a fazer nada! Axis não deixou porque...

— Um bando de hipócritas é o que eles são! Vivem falando da pureza deles, mas quando tem a chance, se aproveitam! Eu imaginei isso por alguns segundos enquanto eu esperava naquela cela imunda! – Haziel tinha levantado da cama e andava de um lado para outro do quarto, procurando alguma coisa que pudesse quebrar ou socar ou qualquer coisa! Ele podia sempre chamar Denver e socar o homem cachorro! – Mas não deixei isso tomar conta da minha cabeça, pensei que eram arrogantes o suficiente para não olharem para você dessa forma!

Ele sabia que estava se enganando. Aisha era tentador, qualquer um que colocasse suas mãos nele...

— H-Haziel...

O Vampiro voltou de novo para cima da cama e encurralou Aisha entre seu corpo e a cabeceira da cama.

— O que eles fizeram? Fale detalhadamente.

— O que há com você?! Eu já disse que nada aconteceu! – Aisha tinha as mãos ásperas e danificadas a frente do seu rosto, como se para manter Haziel a distância.

— Vai falando!

Aisha parecia procurar as palavras, enquanto seu rosto ficava sob uma máscara sem emoções.

— Eu estava em algum lugar, não sei onde era, o chão era frio e eu sei que era cercado por grades, elas queimavam minhas mãos e pele quando eu encostava nelas. Achei um local seguro e decidi ficar sentado lá até Axis vir me ver... ou você.

— Eu?

— Eles faziam esse jogo comigo, conseguiam me confundir. Eles andavam na minha direção e parecia você ou quando falavam seu timbre era o mesmo, eu não sei como eles conseguiam, eu sou muito bom nisso. Você... eles falavam coisas horríveis por você e sobre você, me incitavam a lhe dar ordens para você parar. Mas eu sabia que se não fosse o verdadeiro Haziel ali, você ia sofrer por não conseguir cumprir. Além do mais, nunca gostei de dar ordens para você. Eles começaram a falar coisas mais agressivas, não me deixavam dormir, o barulho estava sempre ali, eu estava esgotado e eles continuavam brincando comigo. Até que um dia eu consegui identificar, eram quatro deles. Falavam baixo uns com os outros, não consegui ouvir bem, eu estava tão cansado. Alguém segurou meus braços e a sua voz voltou. Eu sabia que não era você, eu só sabia. Depois mais um conjunto de mãos e eu ouvi alguém rasgar um tecido e percebi que eram minhas próprias roupas. Eles... eu tentei resistir, mas eles me deram um tapa e eu vi estrelas, quando eu senti uma mão na minha coxa eu me afastei e foi ai que as unhas dele deixaram uma marca. Por favor, não me peça para repetir o que eles diziam. Era muito desrespeitoso. Nada aconteceu, não deu tempo, a porta abriu, Axis entrou e mandou que se afastassem. Depois disso, Axis passou o dia comigo. — Aisha juntou as mãos, enquanto lembrava. — E doeu muito física e psicologicamente. Depois, eu estava tostando no sol todos os dias.

— Foi isso?

— Foi isso. Eu juro. Agora pare de agir assim. – o garoto falou suplicante. – Não gosto quando fica...

Haziel só percebeu tarde demais que seu corpo moveu-se sozinho e sua boca estava colada na do rapaz a sua frente, os lábios ainda secos de Aisha não chegaram a ser nem um pequeno problema para o desejo que corria por Haziel agora. Aisha mal abriu para ele, mas quando relaxou, Haziel pôde explorar um pouco mais. A boca de Aisha tinha um gosto espetacular e a inexperiência do pequeno estava em cada pequeno movimento tímido que ele fazia. Haziel achou isso fenomenal. Ele era o primeiro a experimentar Aisha, a beleza que era Aisha. Isso era alguma coisa.

Só quando os dedos delicados do rapaz tocaram o rosto de Haziel que o vampiro percebeu o que fizera. Haziel afastou-se aparentando tão chocado quanto conseguia, graças aos céus Aisha não conseguia vê-lo. Que merda tinha acontecido aqui?

Haziel afastou-se um pouco e sentou na beirada da cama. Que merda. Ele estava perdendo a cabeça. Só havia essa explicação. Só. Essa. Ou fome.

Haziel ouviu alguém bater na porta e logo entrar, devagar. Era Ciaran, como sempre muito cauteloso ao seu redor. Esse moleque tinha que superar os vampiros. Sério. Mas no momento, Haziel estava aliviado que o loirinho aparecera.

— Hm... vim saber se está tudo bem. Ouvi gritaria do lado de fora.

Bom, talvez Haziel tivesse se exaltado um pouco demais.

— Eu vou pegar alguma coisa para você comer. – Haziel disse na direção de Aisha e se apressou para sair. – Ajude-o a terminar os curativos. – ele deu a ordem e Ciaran prontamente obedeceu andando a um metro de distância dele.

Haziel se pôs para fora e fechou a porta. Que porra ele ia fazer agora? Quais as chances dele convencer Aisha que tudo fora um sonho? Ele ia pensar nisso enquanto buscava a comida e enquanto procurava uma refeição descente para si mesmo.

Esse comportamento só podia ser fome. Só podia ser fome.