Magic Mystery Theatre
20 Capítulo 20 - Lances inocentes.
– Eu fico agradecido por ter aceitado o meu convite. Afinal, são poucos neste mundo que gostam e jogam de forma decente este jogo. – diz o Gorila God com uma simpatia desconhecida pela investigadora.
Louise Burker fica instalada numa confortável poltrona num alojamento iluminado e cercada de plantas para todos os lados. O ambiente é fresco e muito bem arejado. Um tabuleiro e peças de madeira do xadrez são muito bem envernizados e brilhantes. O Gorila God está vestido com um jaleco branco e sentado como um humano naquela poltrona idêntica o da investigadora.
Os dois ficam de lados opostos.
Louise é uma exímia jogadora de Xadrez na Academia. Foi campeã seis vezes, considerada grande mestre para alguns. A investigadora não costuma divulgar as suas proezas para os outros. Mas se existe uma jogadora de Xadrez, em Arton, esse alguém é ela.
Ninguém sabe de onde veio o Gorila God, mas acredita-se que seja de outro mundo. Apesar de que conheça muitas tradições e culturas de Arton. O Gorila é de uma inteligência incomum.
– Eu fiquei surpresa que conheça o jogo, Sr. God. Imagino que tenha aprendido com algum professor ou algum membro dos inúmeros clubes da Academia Arcana. – comenta Louise olhando fixamente nos olhos daquele símio negro e com sua face inumana e misteriosamente maléfica.
O Gorila pega duas peças do tabuleiro, um peão branco e outro negro. Esconde ambos e depois mostra dois punhos fechados para a mulher de rosa.
– Pode escolher, Detetive. –diz o símio.
– Investigadora. – corrige e escolhe a mão esquerda.
– Pena, jogará com as negras. – e revela a peça negra na palma da mão esquerda. Eu vou ter que tomar a iniciativa.
– Não acredito em vantagens na teoria enxadrística, mas sou boa na defesa. – retruca à investigadora.
– Espero que sim. Tenho esperança que resista, pelo menos, vinte lances. – diz o Gorila God recolocando as peças no lugar.
– Acha que vai me derrotar em menos de vinte lances? Não acha muita pretensão de sua parte? – questiona a mulher de rosa.
– Pelo contrário. É a média que lances que utilizo para vencer a maioria dos meus oponentes. – e o Gorila faz o seu primeiro movimento.
1-P4R...
Logo a tenente responde com o movimento seguinte e completando o primeiro lance.
1-...; P3BD
– Defesa Caro-Kann, Tenente? Já está considerando um empate? Seria uma boa posição para uma fêmea como você. – e ri.
Louise não gosta do termo “fêmea” e ainda mais vinda de um macaco.
– Poderia se concentrar no jogo? Não quero desculpas, caso eu vença. – desafia a investigadora.
– Não se preocupe com isso. Não sou humano. Tenho uma percepção diferente e posso fazer duas coisas ao mesmo tempo. Pode perguntar o que quiser, Tenente. – e o Gorila faz o seu movimento e que é respondido em seguida pela mulher.
2- P4D; P4D
3- C3BD; PxP
4- CxP; CD2D
– Huum... Variante Ninzowitch! Eu estou surpreso. Gostei do seu estilo de jogar. – comenta o Gorila coçando o queixo.
– Por que fez aquilo com os professores? Trocando-os por clones. O que planeja? – interroga a mulher esperando uma confissão do símio.
Sem tirar os olhos do tabuleiro, o Gorila retruca com rapidez:
– O que é dito aqui, morre aqui. Portanto, não adianta tentar extrair uma confissão de minha parte, Tenente. Mas posso dizer que busco uma forma de conhecimento que não está na Magia. –e o símio faz o seu movimento no tabuleiro.
5- C5C; CR3B
6- B3D; P3R
7- CR3B; P3TR
– Sabe, Tenente... Na Vida, para conseguirmos o que queremos, temos que fazer sacrifícios altos e inesperados. – diz o símio antes de realizar o seu estranho movimento.
8- CxPR...
Louise fica chocada com o movimento inesperado. Ninguém é louco em sacrificar o seu Cavalo naquela altura do jogo.
– O que está fazendo?! Está querendo perder o jogo? – diz a investigadora um pouco surpresa com a jogada.
– Não Tenente. O que quero mostrar que ações estranhas e aparentemente sem sentido pode ter conseqüências poderosas. Acha mesmo que conseguiu deter o vilão malvado só porque impediu os seus planos? A questão é: Será que essa derrota faz parte dos seus planos no futuro? – comenta esperando a próxima jogada da investigadora.
8- ...; D2R
9- O-O; PxC
10- B6C+; R1D
Louise entende que aquele sacrifício serviu para impedir o seu roque e limitar o movimento do seu Rei na casa de segurança. O símio conseguiu uma posição importante sacrificando o seu Cavalo limitando a proteção do seu Rei. A mulher pragueja internamente o brilhantismo da jogada do seu adversário.
11- B4B; P4CD
12- P4TD; B2C
13- T1R; C1R
– De onde vim existem dois filósofos que tinham opiniões discordantes a respeito do conhecimento. – diz do nada o símio.
– Hum... – balbucia a investigadora tensa com a sua posição no tabuleiro.
– O primeiro é Immanuel Kant. Ele dizia que o conhecimento humano era limitante, não só por causa de sua percepção de sua realidade como também o seu raciocínio que não capaz de compreender toda Verdade do Universo e, por conseguinte a Grande Mente Universal que alguns dizem que é Deus. O Deus que me refiro, não é como esses deusinhos de Arton que eu tripudio e desprezo, mas sim uma entidade que é uma especulação metafísica muito mais poderosa e teórica.
– E daí? – pergunta um pouco irritada a investigadora.
– Daí que tenho a crença no outro filósofo que comungo com as suas idéias, Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Ele crê que tudo pode ser descortinado utilizando à dialética. E os três princípios fundamentais e Universais que são a Tese, Antítese e a Síntese. O Espírito mental é capaz de interpretar todos os conceitos do Universo, inclusive Deus. Para Kant, o incognoscível é de fato imutável, para Hegel, era uma questão de tempo para deixar de ser.
14- B3C; R1B
15- PxP; PxP
16- D3D; B3B
– Não gosto da diversidade excessiva de seres inteligentes neste mundo, Tenente. O que planejo fazer o que Hegel diz... Tornar tudo uma grande Síntese. Humanóides sim, mas não necessariamente humanos. – diz o símio depois de completar o movimento. Quero fazê-los a minha imagem e semelhança... – completa.
– O QUE?! – a investigadora fica chocada.
– O que houve? A minha aparência a choca?! – diz o Gorila com um sorriso cínico nos lábios. Para mim, vocês são horrendos, mesmo assim não demonstro o meu asco com a aparência dos da sua espécie. Com a experiência que tive com este incidente foi que o poder mágico faz uma segregação limitante para uns povos em detrimento de outros. Quero acabar com isso. Pretendo dar uma chance de justiça ética e social para todos os povos pensantes de Arton. Como tive a idéia, pretendo usar o meu biótipo como padrão para todos. – e abre os braços.
– Como um Deus... –balbucia Louise.
– O Deus! – corrige. Um Deus que veio para salvar Arton dos seus Deuses escravocratas e opressores. De onde vim, existe uma entidade assim e todos o servem. Pena que a diversidade provoca conflitos, coisa que pretendo sanar aqui. – e sorri com aquela face inumana.
Louise fica com ódio e perde a concentração no jogo e comete um erro crasso no seu lance seguinte.
17- B5B; PxB
18- TxD...
– Pelos Deuses! O que eu fiz?! – lamenta a mulher.
– O que a maioria dos humanos fazem... Se deixar levar pela emoção e o preconceito. Eu sou o futuro, fêmea. Não há como negar isso, aceite o seu destino e se entregue. Resistir é inútil. – diz o Gorila.
O jogo continua, mas foi para aumentar a agonia e o sofrimento daquela batalha perdida.
18-...; BxT
19- P4B; PxP
20- DxPBD; R2C
21- D6TD++
O jogo acaba. Gorila God vence Louise Burker.
– Bem... Pelo menos foi mais de vinte lances. – completa o símio.
– Você trapaceou... – reclama irritada.
– Não, Tenente. Foram os seus sentimentos te traíram. Se fosse uma inteligência analítica nunca teria caído no truque da prostituta élfica e não teria perdido o seu marido. Infelizmente, as suas ações dependem da Sorte. E numa batalha mental não pode ter momentos de fraqueza, pois o seu inimigo vai usar todos os recursos disponíveis para destruí-la. Não espere condescendência deles...
A investigadora se levanta, com o seu orgulho ferido e furiosa.
– Já que sabe que sou a sua inimiga, por que os conselhos? – interroga.
– Porque não te considero uma adversária a altura para me deter. Mas é a melhor que este mundo pode me oferecer. Preciso de uma Antítese, é isso que estou à procura. – responde o símio.
– Louco... – Louise vomita a palavra com ódio.
– Que seja... – diz isso um pouco decepcionado.
A mulher de rosa sai do recinto, deixando o Gorila sozinho. Então ele pega o Rei negro e comenta simulando uma conversa com a peça.
– Você poderia ter a ajudando um pouco mais, não acha?
(Conclui)
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