Magic Mystery Theatre

18 Capítulo 18 - Tribo da Lua.


Os olhos de Bruce se abrem com uma visão peculiar de estar sendo conduzido e imobilizado com a sua namorada, Catarina Ling e sua amiga, Illuana, numa espécie de veículo que lembra mais uma carroça. A corda é feita de palha, mas muito resistente. A sua namorada dorme no ombro do seu amado e a bárbara já estava desperta.

– Oi, Bruce... – diz a sua companheira.

– Olá, Illuana. É ótimo saber que está bem. Sabe de alguma coisa dos outros? – pergunta o líder do quinteto.

– Não sei muito. Eles falaram de uma coisa de selo de propriedade ou algo assim. Por isso que não mataram o Vampiro, mas estiveram perto disso. – disse a garota de cabelos negros e encaracolados.

– Matar? Vladimir está morto. – corrige o rapaz.

– Muito engraçado, Bruce... Aqueles sujeitos estavam a um passo de apresentar a Luz do Sol para o nosso amigo. Se não fosse esse tal de “Selo de Propriedade”, Vladimir estaria em cinzas. – diz séria a bárbara.

– E o Tasso? – pergunta o rapaz.

– Não o vi. A maior discussão foi em relação do vampiro, mas não disseram nada do Tapista. Ouvi um comentário sobre uma boa caçada e estão de bom humor. – reporta a garota.

– Hum. – murmura o líder do grupo. Ei! – grita. Pode conversar conosco? – pergunta Bruce para o rapaz que conduz a carroça.

O membro da tribo vira-se na direção do trio amarrado e olha por cima do ombro.

– O que foi? – pergunta na língua dos prisioneiros.

– Para onde estão nos levando? – pergunta.

– Devolvendo ao seu proprietário. Vocês são escravos dos Castanheira. É isso que significa este símbolo que estão em suas nucas. – explica o rapaz.

Quando Bruce ouve o sobrenome de seu mestre e a palavra “escravo” provoca uma espécie de revolta e magoa tão grande que o rapaz fica em silêncio na hora. A sensação de traição percorre todo o seu corpo.

“Eu estou enfrentando tudo isso pelo meu mestre e é isso que sou para ele? Um escravo?!” Estas palavras ecoam em sua mente como um golpe violento. Percebendo a falta de ação de seu amigo, Illuana continua a conversa para obter mais informações.

– O que aconteceu com os outros dois? Os nossos companheiros. – questiona a bárbara.

– O vampiro vai ser entregue ao seu dono e vai responder por seus atos. Não se pode escravizar vampiros ou mortos-vivos. Pode ser que ele seja punido caso não tenha uma boa explicação para isso, mas a carne será devolvida ao clã. É tradição! Ainda mais uma carne tão deliciosa e boa daquela. – explica o nativo com uma articulação lingüística invejável.

“Carne?!” Pensa a bárbara.

– Carne? Que carne? – pergunta a garota.

– O minotauro. Viajamos quilômetros a procura daquela espécie. Se vocês tem informações sobre onde estão essas maravilhas a nossa tribo será eternamente agradecida por sua informação. – diz o nativo lambendo os beiços.

“Espere ai! Eles querem COMER o Tasso?!” Pensa Illuana.

– Vocês comem minotauros?! – pergunta a garota incrédula.

O rapaz que conduz a carroça sorri e responde:

– Garota. Nós viajamos para este mundo para localizar-los. Não há iguaria melhor! Quando capturamos o primeiro e o provamos, foi à melhor coisa que saboreamos em nossas existências. Comemos todos que encontramos. Provamos outras espécies deste mundo, inclusive os humanos. São deliciosos... Resolvemos ficar. Nunca mais passamos fome novamente. – e sorri com orgulho.

“Pelos Deuses! São canibais!” Pensa a garota com horror.

Depois dessas palavras a dupla ficou em silêncio por mais umas horas e acabaram chegando ao acampamento da tribo dos seus captores. É um típico acampamento indígena do meio oeste americano em nosso mundo, mas os seus símbolos e esculturas lembram os Astecas ou Incas.

A carroça pára diante da maior tenda do acampamento e todos os prisioneiros são retirados do veículo. Colocados em fila indiana, o trio entra do interior da imensa tenda que se revela muito maior por dentro. Parece um teatro ou um circo. O trio é colocado no “picadeiro” e postos numa posição de submissão, ajoelhados e de cabeça baixa.

Momentos depois, o local vai enchendo de pessoas até que todo o auditório fique lotado. São duzentas pessoas ou mais. Illuana fica com medo com a possibilidade de ser devorada por aquela multidão de canibais. Catarina Ling não pensa em muita coisa só como sair dali, como ela não ouviu a conversa, mas sabe que está presa e deseja a sua liberdade e de seus companheiros. Bruce quer explicações sobre ser escravo.

Por fim, entra uma senhora de idade. Uma anciã. Deve ter uns noventa anos, instalada confortavelmente numa cadeira de rodas e conduzida por uma linda mulher de cabelos verdes e longos. Os seus olhos também são verdes, como as da anciã, que, apesar de sua idade avançada, outrora foi uma mulher bela.

– Quem são esses montes de lixo que estão na minha frente? – pergunta a idosa apontando para o trio.

– Nós os capturamos, Vovó. – explica a garota de cabelos verdes e longos. Eles são propriedade do seu bisneto, Carlos.

– Ele é um idiota! Onde já se viu ter escravos? Sou contra! Isso é comida. Tudo é para comer! Este mundo é um pomar e nós, os consumidores! Assim é a ordem natural das coisas! Não se perde tempo conversando com a comida, come-se e pronto! – reclama a velha mal-humorada. Olha só os seios dessa garota de cabelos negros! – aponta para Illuana. São enormes! Dá para fazer uma peitada assada recheada com carne de goblin ralada com ervas picadas. Aposto que dá para duas porções só com um dos seios... – e ri.

A bárbara não acha nada engraçado.

– Ô terceira idade?! Será que pode explicar o motivo de estarmos vivos? Já que diz que servimos só para jantar? – pergunta Catarina Ling com raiva e estar numa situação similar anteriormente.

A velha faz uma cara feia e responde a garota.

– O único motivo são as regras. Temos REGRAS aqui! Até uma velha como eu, sabe respeitá-las. Por mais poder que eu tenha, tenho que obedecer. E as regras dizem que devo esperar o seu dono decidir o que vai fazer com vocês. Essa é a LEI! – decreta.

– Mas o professor Carlos está morto. – diz Catarina Ling.

– Quem disse? – diz uma voz masculina num lado escuro da tenda.

– Olá, Carlos. – cumprimenta a garota de cabelos verdes.

– Olá, tia Mione. – retribui o cumprimento com um beijo em sua bochecha. O que vocês estão fazendo aqui? – intriga-se Carlos Castanheira que surge vivo e saudável na frente de todos.

Os olhos do trio ficam esbugalhados.

– O que houve? Parecem que viram um fantasma? – pergunta inocente o mestre deles.

Bruce balbucia, Catarina começa a chorar e Illuana toma coragem para dizer alguma coisa.

– Nós vimos o seu corpo... Você morreu! – diz a bárbara emocionada.

Sem entender muito, o mestre deles começa questionar.

– Eu estou curioso de saber o que fazem aqui? Sai da Academia Arcana por um ano. Eu expliquei para o Talude sobre o Hop How do meu povo e tive que sair às presas. Ninguém explicou a nenhum de vocês? – pergunta o mestre deles.

Bruce fica atordoado.

– O que está acontecendo? Você foi morto por um atentado místico. Eu vi o seu corpo no necrotério. – diz o líder do quinteto.

– Problemas no seu trabalho, bisneto? – debocha a velha. Isso que dá dar aulas de Magia ao nosso jantar. – e ri.

– Senhora Sonozagi, gostaria que ficasse em silêncio. Acho que está havendo algo muito mais sério na Academia. – diz o professor. Eu fui “morto”, por quem? – pergunta.

– Não sabemos professor. A sua ex-esposa, Louise Burker, está investigando a sua morte. – explica a monja. Tanto que viemos aqui para revivê-lo para nos contar o que aconteceu.

O professor faz uma cara de espanto.

– Louise... Putz! Aquela mulher é maluca! Ela me odeia por uma coisa que eu não fiz! Não tem nada que me reviver! Eu estou aqui e vou voltar para a Academia Arcana imediatamente. Só vieram vocês? – pergunta o professor sem camisa e todo pintado.

– Tasso e Vladimir vieram conosco, mas a sua tribo disse que iria matá-los.. – responde à bárbara.

O mestre começa a dizer umas palavras incompreensíveis e olha para cima.

– Não podia ser pior... – balbucia.

– Escravos mortos-vivos é uma punição grave, bisneto. – e a velha dá uma risadinha típica de bruxa.

O mestre fica em silêncio, de braços cruzados, o seu corpo musculoso e brilhante faz que as garotas fiquem arrepiadas. Carlos Castanheira é um homem bonito, tipo galã de novela, os seus cabelos curtos e sua expressão máscula o deixa mais interessante aos membros do sexo feminino.

– Vamos fazer o seguinte. Vou requisitar o julgamento tribal e vou levá-los daqui. Em troca, vou mostrá-los o caminho para o Império Tapista. – propõe o mestre a sua bisavó.

– Império Tapista? O que é isso? – questiona a velha.

– Um Império de Minotauros. Um reino cheio deles... – explica o mestre.

– Carne... Muita carne... – e a boca da velha começa a salivar. Eu TOPO! Leve os seus escravos daqui! Mione! Traga-me as minhas roupas cerimoniais quero fazer o ritual de agradecimento aos antepassados. – mais risadas de bruxa velha.

– Sim, vovó. – obedece a linda mulher de cabelos verdes conduzindo a idosa para um destino ignorado.

O professor pede para outros membros da tribo que trouxessem os seus alunos para a sua presença. De preferência, libertos. Qual não foi a surpresa de ambos a presença do seu mestre vivo e bem. Tasso e Vladimir ficam felizes em estarem libertos, pois para o vampiro, o clima é de ameaça de ser destruído a qualquer momento. Já para o Tapista, o seu corpo é alvo de cobiça e desejo para todos os membros da tribo.

Ambos tiveram momentos traumáticos.

– Gente... Eu me senti como carne no açougue. Tinha um pai que mostrava as minhas “partes nobres” do meu corpo ao seu filho. “Aqui é a picanha, ali é o contrafilé, chã de dentro, lagarto e etc.” Foi horrível!!! – e o minotauro choraminga.

– Não temos tempo para isso. – diz Bruce. Temos que voltar para a Academia Arcana! A questão é como...

Em poucos momentos, aparece o professor com as suas roupas tradicionais de aventureiro e com uma chave na sua mão.

– Olha, o diretor me deu esta chave que permite que estejamos na Academia Arcana em qualquer lugar de Arton. É um portal mágico. – explica.

Sem delongas, o mestre faz um gesto com a chave para abrir alguma coisa e pede para que todos entrem na tenda a qual simulou a abertura da fechadura virtual.

Como num encanto, todos voltam para a Academia Arcana.

– Eu não acredito! O senhor está VIVO!? – grita Valéria que passava no local por acaso.

– Eu estou, mas alguém vai me dar muitas explicações por aqui... – diz o professor Carlos Castanheira com uma expressão de poucos amigos com os seus cinco alunos que saíram à procura dele.

Notas finais
(Continua.)