Magic Mystery Theatre

8 Capítulo 8 - Estranha no ninho.


Diante daquela acusação, Jennifer se desespera. A ruiva se levanta da cadeira e começa a dizer duras palavras para a investigadora como um trovão anunciando uma terrível tempestade elétrica.

– Como ousa?! Eu não teria motivos para matar o professor Castanheira! Éramos amigos! Quem é você para me acusar?! Nem sei de onde veio ou para que veio?! Só sei que quero encontrar o responsável por este crime e não sou uma criatura que acusa os outros só porque pegou duas garotas trocando carícias e tira uma conclusão absurda que tive que matar o nosso Mestre e AMIGO para manter um “segredo”?! Eu não conto para os outros por causa do constrangimento e a mágoa que iria causar há muita gente e dos garotos que dispensei e da Vida pessoal de Cordélia. Eu GOSTO demais dela para humilhá-la daquela maneira! – brada.

Imóvel e mastigando a sua vareta de madeira, Louise Burker olha para os brados histéricos da Lefou ruiva. Depois de um tempo, a garota dá uma pausa no seu discurso e só aí que a investigadora começa a falar.

– Acabou? Ótimo. Vamos ao que interessa. Sim, eu suspeito de você. Não adianta dar o seu espetáculo circense de senhora da ética e da amizade absoluta com a vítima que foi o meu ex-marido. Eu poderia te dar inúmeros motivos que teria para matá-lo, mesmo assim, eu seria uma suspeita e não o real criminoso. Além do mais, os seus talentos em engenharia mágica são extraordinários. Poderia ser uma potencial assassina, mesmo que seja inconscientemente.

A ruiva fica surpresa.

– Inconscientemente? Como assim? – questiona a Lefou.

– A sua “maldição” de ser uma “contaminada da Tormenta” pode ser o motivo de tudo isso que estar acontecendo. Eu andei estudando sobre as teorias sobre a área de Tormenta e aqueles seres extra-dimensionais. Principalmente aquelas que os contaminados pela Tormenta são pessoas controladas por alguma criatura telepática que controlam as suas ações. Seria perfeito, só que tem um porém... – diz a investigadora.

– Qual? – pergunta à ruiva.

– O seu envolvimento com a Cordélia. Noto que são amigas, acima de tudo. Mesmo quando brigavam, sinta essa amizade. Sou uma observadora, sabia? Tenho que ser, pois é a minha profissão. Tenho que ter sensibilidade para apertar os pontos e afrouxá-los no momento certo. Sinto e racionalizo o seu comportamento. Eu tenho que ser uma empata e não só um detetive que quer descobrir um criminoso. Um monstro extra-planar não ia perder tempo com os sentimentos de uma marionete. Além do mais, que utilidade a morte do Carlos seria útil para os planos de uma criatura que pretende dominar Arton? Existem criaturas muito mais poderosas que ele. Sem menosprezar-lo, é claro. – cogita a investigadora.

Neste momento, Jennifer se senta e acalma-se.

– Sabe... Eu nasci de uma família nobre de Valkaria. Eu era a única ruiva de uma família de um mar de cabelos negros como a noite. A minha mãe foi quase deserdada e acusada de adúltera. – narra à ruiva Lefou. Quando o meu pai disse que ia me aceitar como eu fosse e do jeito que fosse e ninguém ousaria acusar a mulher que ama daquela maneira, senti tanto orgulho de ser filha dele... – e as lágrimas escorriam dos seus olhos verdes. Mas como posso ser filha dele se sou assim?

Neste momento, a ruiva se levanta e mostra o seu abdômen anelado como de um inseto, só a barriga e nada mais além. É como uma carapaça e não tira a beleza do seu corpo feminino, mas é estranho ver aquela “pele” ou “casca” avermelhada.

– Deuses... Eu tenho essa condição não porque quero... Sou humana... Não sou um monstro... Não sou controlada por um ente alienígena... Eu... – e a ruiva desaba em prantos.

Então a investigadora se ajeita na cadeira e segura carinhosamente as mãos da ruiva e começa a falar calmamente para a garota de cabeça baixa.

– Não adianta, garota. Chorar não vai mudar nada em sua Vida. Sabe por quê? Ninguém vai te apoiar ou te servir de “muleta”. Sei que sofreu muito pelo fato de ser diferente, uma “estranha no ninho”. Eu vou te explicar umas coisinhas sobre exclusão... – explica à investigadora.

– Atualmente, as pessoas não querem se mostrar que são preconceituosas. Porque não querem ser excluídas. A retirada de um grupo é o pior tipo de punição que as pessoas podem sofrer. Ainda mais quando as mesmas são diferentes. Fica mais fácil de inventar mentiras e intrigas, por causa de suas diferenças. As pessoas temem o diferente, pois é fácil a sua identificação e podem ser “contaminadas” por essa diferença. – diz Louise.

Jennifer levanta levemente a sua cabeça.

– Eu sofri muito pelo fato de ter o meu cabelo e íris cor de rosa. As outras meninas me chamavam de “Algodão doce” e disseram coisas horrorosas só por causa disso. Eu tentava mostrar que eu era uma menina legal e etc. Adiantou? Nada. Não era a minha bondade ou prestação que ajudava a melhorar a minha reputação. Era a minha diferença que provocava mais e mais o ódio das pessoas. Chegava um ponto, que inventavam mentiras ao meu respeito e repetiam a si mesmas exaustivamente na esperança que transformassem em verdades. Como um mantra maligno de ódio, inveja e preconceito. Tentei quebrar isso com todas as minhas forças e ninguém ligava. E as coisas só pioravam... Até que um dia, decidi parar. – conclui a investigadora.

Interessada, a ruiva pergunta:

– O que fez?

– Decidi que não seria mais vítima. Tratei de ignorar, desprezar a sociedade e aceitar o que sou. Sou a garota de rosa. Dane-se! Sou o que sou! Queimei todas as minhas roupas e comecei a comprar roupas cor-de-rosa. Ninguém tem mais o DIREITO de me julgar ou em apontar o que sou! Gosto disso e daquilo! Dane-se! Não quero ser igual aos outros! Não quero mais mostrar que tenho talentos! Não quero mais ser reconhecida! Não quero mais que os outros gostem de mim! Eu ME AMO! – e a mulher de rosa bate com a palma aberta de sua mão direita no seu peito. Se quiserem entrar no mundo, que sejam DIGNOS de entrar nele! Não por interesses ou por vantagens de qualquer espécie! No meu círculo de amizades, só entram quem EU QUERO! Não quero mais migalhas, QUERO TUDO! Se estiver errada, que eu sofra pelo que EU FIZ e não pelo que outros disserem.

Emocionada, Jennifer abraça a investigadora. Não por agradecimento, mas reconhecimento que está diante de uma igual...

Depois as duas saem da sala, abraçadas e caminham em direção a cantina do alojamento dos estudantes. Louise indica a cadeira para Jennifer e a garota se senta. Então aparece Tensey curioso e pede, educadamente, para que se sente com as garotas. Convite prontamente aceito. Logo, rapaz puxa conversa, enquanto a ruiva enxuga as suas lágrimas.

– Não sei que aconteceu com a Cordélia? Ela entrou na garrafa dela e pediu que não queria ver mais ninguém. – comenta o elfo.

– Garotas são sensíveis... – ironiza Louise.

Jennifer ri um pouco envergonhada.

– Pode ser... Alguma novidade no caso? – pergunta o elfo.

– Não muito. Estou esperando o resultado do inventário dos objetos da Academia Arcana. Se a minha teoria estiver correta, vai faltar alguma coisa. – diz a mulher de rosa.

– Se não tiver? – pergunta Tensey.

A mulher esbugalha os seus olhos.

– Eu estou diante um gênio do crime... Aí que as coisas vão ficar realmente complicadas. Pois vou ter que cogitar a possibilidade de você ser o criminoso, Tensey. – e olha séria para o rapaz.

– Está brincando, não é? – diz o rapaz.

– Não. Não estou. Ou isso, ou o senhor Carlos Castanheira está elaborando um plano maligno que quer utilizar todos os seus alunos e os seus amigos que foram ressuscitá-lo estão correndo um grave perigo. – decreta a investigadora.

O elfo fica um pouco receoso, mas tenta transparecer tranqüilidade diante do comentário da investigadora, já Jennifer recebe o seu pedido de uma vitamina qualquer e a investigadora olha para os dois esperando alguma coisa ou reação deles. No interior de sua mente, a mulher de rosa pensa: “Será que isso vai dar certo?”

Em outro lugar, ou mais precisamente, no interior da garrafa de Cordélia, envolta dos seus lençóis e travesseiros a Qareen chora copiosamente de vergonha e culpa. A garota nunca imaginou que poderia se entregar aos seus desejos e pensamentos tão estranhos. Aquilo não era natural. Sentir uma atração por outra mulher? Ela gosta de homens. Quer e deseja ser mãe e mulher. Por que essa atração tão forte por aquela garota de cabelos ruivos, olhos verdes e hálito quente. Cordélia gosta do prazer dos encontros ocultos e proibidos Por que os sussurros e gemidos que ambas dão estão sozinhas a excitam tanto?

“O que há de errado comigo?” Pergunta-se a loira de olhos de íris amarelos.

De súbito, Cordélia lembra-se de sua boneca que está esquecida no fundo dos seus travesseiros. Uma criatura mágica que o professor Carlos Castanheira te deu quando tiver dúvidas e quiser aconselhamentos. Kokopele, o palhaço sagrado.

Kokopele é o nome de uma flauta que os antigos povos costumam invocar um dos mais curiosos espíritos da Natureza o “Embusteiro”, conhecido como Heyokah ou Trickster. O professor diz que o trapaceiro não é inimigo da ordem ou agente do caos, mas é para nos mostrar que temos outra visão de todas as coisas. Mesmo brincando, há sabedoria em suas palavras e alenta os corações com as suas brincadeiras, mesmo que seja de uma forma cruel e extremo mau gosto...

Sinceramente, Cordélia não está disposta de ser mais humilhada, porém...

– Você e a ruiva? Um caso?! – o boneco de pano exclama. Essa é boa! – e gargalha.

– Pare! Se for para me humilhar, volte para onde veio! – reclama a Qareen.

– Idiota! Esse é o único momento que se sentiu livre e se sente culpada por isso? – diz o boneco de pano e parecido com uma zebra com as suas listras pretas e brancas. E daí que transou com outra garota?! Você é livre para fazer o que quiser! Ninguém tem o direito de rotular de coisa alguma! Bi, hetero, homossexual ou qualquer coisa sexual. Dane-se! Tudo isso é uma idiotice social que imbecis usam para rotular os outros para controlar as pessoas. O que importa é ser feliz no que quiser ser. O que não pode é impor a sua liberdade ou seus desejos contra os outros, pois a liberdade do próximo é o seu limite e as escolhas do outro devem ser respeitadas. Se gostarem do que fizeram e quiserem continuar com isso, é uma escolha de cada um. E NINGUÉM tem o direito de impor coisa alguma. Ninguém pode dizer que você é lésbica, pois é o que quiser ser!

– Mas as pessoas... – balbucia Cordélia.

– Danam-se as pessoas! O mundo é essa merda por causa delas! Com as suas hipocrisias, reputações e determinações do que é certo ou errado. Você tem que ser assim ou assado! Tem que se assumir, tem que ingressar em uma cruzada, temos que lutar pela liberdade... Idiotice! A sua Liberdade e a verdadeira Liberdade está dentro do seu coração. Se quiser ter um caso com essa garota e ficar com o seu amo, é um direito seu. Mas recomendo que conte a verdade para ambos. – e o boneco pisca o olho para a garota. A menos que o segredo seja mais divertido... – e dá uma risadinha sapeca.

Cordélia morde o seu lábio, excitada...

No dia seguinte, Cordélia continua a seguir o seu amo por toda a Academia Arcana, com o seu vôo característico e na direção oposta, vem Luiza e Jennifer. De uma forma inesperada, Cordélia voa em direção de Jennifer e diz na frente de todos:

– De hoje em diante, não vamos mais brigar. Somos amigas. E quero que seja assim de hoje em diante. – e a Qareen segura à mão da ruiva.

Todos ficam surpresos. Luiza e Tensey dão comentários de aprovação e dizem que estão felizes. Afinal, todos estavam cansados com essa briga sem sentido entre as duas. Nesse momento, as duas se abraçam e Cordélia sussurra no ouvido da ruiva:

– Eu te quero... Quero saiba disso. Vou manter o nosso segredo, pois é muito mais gostoso assim, Delícia... – e dá um gemidinho erótico.

– Safada. Também te quero. Conversamos isso depois... – e a ruiva dá um beijinho na orelha da loira.

As duas se separam como duas garotas comportadas e amigas.

“Dane-se que isso pareça falso! Dane-se que sou hipócrita! Eu quero isso! O segredo do proibido é muito mais excitante...” Pensa Cordélia enquanto os dedos mindinhos de ambas se entrelaçam formando um pacto de Amor e Amizade.

Notas finais
(Continua.)