Magic Mystery Theatre

1 Capítulo 1 - Pássaro Morto.


O corpo daquele professor estava estirado no chão. Um pequeno tumulto se forma no lado de fora do salão de treinamento. Nunca na História da Academia Arcana houve um caso de uma morte envolvendo o professor de Magia. Ainda mais alguém tão habilidoso como o Professor Carlos Castanheira, um renomado pesquisador de Magia Xamãnica e invocador espiritual. Muitos diziam que ele era um lutador excepcional, além de ser grande e forte.

Porém o seu corpo jaz inerte no chão.

Ouvem-se os gritos femininos e grande parte dos seus colegas estão em torno dele. Magos e feiticeiros de grande poder como o falecido. Todos estão chocados. Inclusive o chamado diretor Talude, o mais respeitado mago de toda Arton. A sua expressão era mais de raiva do que de medo, este sentimento que os outros membros do corpo docente demonstram quando pensam quem seria capaz de matar um mestre tão poderoso quanto o professor Carlos.

— Chamem, Raschid! – brada Talude. Será que pode me explicar que insanidade é essa? – berra com fúria pouco se importando da presença ou não do gênio zelador da instituição.

O zelador surge do nada como num encanto. A sua expressão é de surpresa como todos os outros.

— Como isso pôde acontecer? – balbucia o gênio. Ele está aberto... DEUSES!

Outros professores se aglomeram em torno do corpo.

-Como não previ isso?! – exclama a poderosíssima Madame Blavatsky e famosa por suas previsões certeiras.

Todos se entreolham com suspeita e espanto. O diretor da instituição se ajoelha diante o corpo e faz uns gestos místicos. Aos poucos, entoa uma canção antiga e melodiosa. O mesmo se concentra profundamente. Um círculo de Luz circunda o corpo do professor morto. O diretor fecha os olhos para facilitar a visualização do que seja que esteja fazendo. Então...

— Nada. – decreta taxativo. É antimagia. Ele foi morto por envenenamento por antimagia. Por causa do veneno não consigo utilizar as magias cronológicas. Quem o matou sabia como matar um mago e evitar que outros o descubram.

— Eu posso anular o efeito da antimagia, mas recomendo que o senhor se afaste do corpo, pois vejo que tem um Axis espiral dentro do corpo dele. – diz o professor Grativo, mestre em venenos e poções. Quem o matou sabia utilizaríamos magia cronal.

— Axis espiral!? Isso não é altamente contaminador? – conclui Lady Esplenda linda até com medo. Quem fez isso queria mesmo que ele fosse morto.

— Contaminador e letal. – conclui o diretor.

O famoso e conceituadíssimo necromante, Vladslav Tpish, entra às pressas e obriga a todos a saírem imediatamente do local. Aquele axis que o professor de poções suspeitava é uma bomba mística de antimagia para atingir todos os magos da Academia Arcana.
Neste momento, o diretor Talude faz outros gestos e uma tela mística envolve o corpo e o gênio usa os seus poderes para abrir um portal e jogar, literalmente, o corpo do professor morto num subplano dimensional.

Mesmo com este gesto desesperado de se preservarem, os magos sentem a explosão naquela distante dimensão. Um distúrbio atinge todo o campus, muitos alunos muito mais sensíveis, sentem os seus poderes sendo parcialmente anulados.

Depois de alguns minutos, todos os membros do corpo docente se sentem assustados e aliviados por não terem sido atingidos por aquele atentado. O diretor olha para o seu zelador e comenta:

— Qual é o louco que deseja a morte de todos os professores da Academia Arcana? – questiona.

— Não sei... Mas precisamos de toda ajuda possível para descobrirmos isso, pois a nossas vidas dependem disso. – conclui o necromante convidado e assustado Vladslav Tpish.

O clima de tensão não está só entre os professores, os alunos estão igualmente nervosos e preocupados. Todos os alunos de todos os grêmios estudantis da Academia Arcana estão isolados e confinados em suas respectivas casas.

Não é diferente no antigo grêmio do Falcão, a qual era a responsabilidade do Professor Castanheira. Os seus membros estão confinados devidos do risco de atentado contra as suas vidas. Coisa que não é bem aceita pela maioria, mas o perigo era real e contido pelo necromante Vladslav Tpish.

No interior do Santuário, o que é chamado o lar dos membros internos do grêmio do Falcão, os alunos ficam esperando mais notícias do acontecido. Todavia é óbvio o clima de tristeza e dor. Afinal, todos perderam o seu mentor, mestre e amigo.

Os olhos cheios de lágrimas e suas expressões de abatimento não abrandam o sentimento de raiva e vingança de muitos ali. Tanto que a vontade de alguns ali é sair daquele confinamento e descobrir o que aconteceu com o seu amado professor.

Olhando fixo para o Totem Sagrado esculpido por ele e os chamados “Os cinco antigos”, Bruce Estarque é o líder do grêmio. Foi nomeado e escolhido por próprio Carlos Castanheira para liderar e premiar os mais aplicados dentro do grêmio. O professor tinha um orgulho e carinho especial por Bruce, pois ele era um aluno rebelde e indisciplinado, mas a fé do seu Mestre o transformou. Tanto que é um líder admirado e competente.

Abraçado no braço direito dele, está uma garota de cabelos curtos e escuros. A chamada monja de Yuden, Catarina Ling, a atual medalha de ouro de Artes Marciais da Academia Arcana. Se não fossem as aulas do Professor Castanheira, ela nunca poderia ter vencido a competição. As suas lágrimas escorrem dos seus olhos puxados e umedecem o colete de couro que o seu namorado usa. Ling sente tanta dor quanto o seu amado.

Encolhida num canto, Illuana Celum, a bárbara do Norte, observa o casal de namorados abraçados. Como ela veio a Academia Arcana para aprender todas as magias de cura possíveis e ela é a melhor no que faz. Todavia, dessa vez, a mulher de longos cabelos negros encaracolados fica impotente. Se ela tivesse um poder para curar a dor de todos, a aplicada estudante faria.

Isolado, como sempre. Está o vampiro de cabelos vermelhos, Vladimir Marcus. O simples fato de ter um predador entre os magos foi motivo para muitos problemas e preconceitos entre os membros da instituição. Todavia, o Professor Castanheira confiou, acreditou e investiu no ser. Tanto que conquistou o seu lugar no grêmio e a confiança de todos. Como os seus colegas, chora a perda do seu amigo e mestre.

Para completar “Os cinco antigos”, está o ilusionista minotauro Tasso Atripas. O mais esforçado estudante do Grêmio, como o vampiro, sentiu o peso do preconceito depois da invasão da cidade de Valkaria por parte do seu Império natal. Mesmo sendo um dos mais antigos estudantes da Academia Arcana, o rapaz sofreu dura criticas por seus colegas humanos. Porém o professor Castanheira estava ao seu lado e mostrando que podia ajudar e contar com o Tapista.

Vendo o seu sofrimento, um dos seus colegas chegou perto do Tapista e deu um abraço forte e amistoso. Este colega é um elfo de cabelo prateados, chamado Tensey. O seu nome real é Tenseyolliraltemeved, mas todos o chamam de “Tensey”. Ele é o mais genial aluno da Academia Arcana. O professor lutou muito para tê-lo em seu Grêmio. Todos os outros professores ficaram com ciúmes depois que o próprio elfo o escolheu para ser o seu tutor e mestre no seu grêmio. Seria uma escolha natural se o mesmo pedisse que fosse o líder do grêmio como outros tentaram “comprá-lo”. O único que não o fez foi o professor Castanheira. O elfo tem um prazer imenso em ser tratado como todos os outros e não um objeto de exibição acadêmico.

Flutuando ao seu lado, está a Qareen de cabelos loiros chamada de Cordelia Stellun ou auto-apelidada Estigmad. Normalmente, a alegre, poderosa e incontrolável feiticeira, foi aceita pelo professor em seu Grêmio, por justamente ser o oposto de Tensey. Estigmad é perigosa, destrutiva e irresponsável. Para piorar, ela é a mais poderosa feiticeira da Academia Arcana, às vezes, um espirro pode destruir um prédio inteiro. Como a mesma o fez na sua terra natal, destruindo completamente a sua vila de origem. A Qareen tenta esquecer isso estudando e treinado para poder controlar os seus poderes. O seu sorriso largo e rosto belo, a faz uma pessoa simpática. Hoje ela não está disposta a dar sorrisos.

Dando umas leves tapinhas nas costas do seu colega Tapista, Jeniffer Nice é considerada a segunda mais brilhante aluna na Academia Arcana. Todavia, ao contrário do seu colega elfo, a oculta Lefou possui uma extraordinária habilidade de ocultar a sua deformidade dedicando a criação de um exoesqueleto que acumula uma quantidade colossal de poder mágico. Como os membros de sua raça, corrompe a magia em impulsos elétricos e dispara contra os seus inimigos ou adversários.

Luiza Blue olha a todos os presentes com muita tristeza. Observa o aperto sincero de apoio de Tensey para o seu colega Tapista, a tentativa carinhosa da ruiva Lefou de consolar o seu amigo e colega e ainda o costumeiro ciúme de Estigmad tem por Jeniffer em relação do seu amado elfo de cabelos prateados. Mesmo sendo a única cadeirante da instituição. Luiza não se deixou se abater por sua condição limitadora. Mesmo estudando necromancia e poções, a jovem garota paralitica procura um meio de reverter a sua condição para se curar da terrível maldição que corrói a sua coluna cervical. A sua cadeira foi construída por Jeniffer, a sua amiga e confidente. Todos gostam demais da cadeirante e é tratada como uma princesa. Mimos e afetos. Todavia o seu poder necromante há faz um pouco perigosa, pois a irmã gêmea natimorta, Elisa, a segue e lhe conta tudo que os outros não vêem.

Isolada e não dada a manifestações de solidariedade, Mercury é uma das criaturas mais antipáticas de todo o Grêmio. Porém o professor Castanheira a chama de “Garra do Falcão”. Pois o seu talento é criar armas mágicas com o seu toque. Qualquer objeto se torna mágico ou encantado por certo tempo. O seu mau-humor é lendário. Bruta e estúpida, ninguém faz questão de conversar com ela. Porém, a sua fidelidade ao grêmio é inquestionável. Ela mesma salvou cada um dos membros de situações constrangedoras. Dentro do grêmio existe um ditado sobre ela: “Nenhum cão é mais fiel do que a Mercury, mesmo que morda a sua mão.”

Chorando muito, uma garota dos seus onze anos, chamada Valéria Crowley é a caçula do grêmio. Talentosa alquimista e explosiva. É um pouco desastrada, mas é a melhor no que faz. Afinal, as suas notas a fazem um prodígio rivalizando com Tensey. Como os seus cabelos castanhos encaracolados e óculos de lentes enormes que quase cobrem o seu rosto, a menina é acompanhada por sete Sprites, chamadas respectivamente, Solis, Lunes, Martis, Hermis, Jovis, Venis e Saturnia. Todas moram dentro uma espécie de esfera esburacada que a menina usa de amuleto. Orfã, a garota foi adotada pelo Professor Castanheira e mora junto com os outros alunos. Mesmo com pouca idade, é brilhante e disciplinada. As suas Sprites fazem quase tudo para ela. As más línguas dizem que a garota é uma maga multiplicada por sete.

João Magnífico é o mais atlético mago do grêmio. Os seus talentos são voltados para o seu corpo tanto que tatua o seu grimório em sua pele com uma misteriosa tinta que ele mesmo criou. Dando lhe poderes místicos consideráveis. O professor Carlos Castanheira tinha uma relação complicada com João. Achava perigoso usar o seu próprio corpo como grimório, pois havia o risco que a Magia “roubasse” o controle do seu corpo com o passar dos anos. As discussões dos dois eram homéricas...

Infelizmente, o professor está morto.

O grêmio está de luto. Depois de alguns minutos, Bruce, o líder do grêmio, se vira em direção dos seus colegas e começa o seu discurso.

— Amigos! Este é um momento de dor. Pois não perdemos um professor, um mestre ou responsável de nosso grêmio. Perdemos um amigo... Não! Um irmão! Todos nós sentimos essa partida rumo aos Antigos cedo demais. Ficamos desnorteados. Sentimos o golpe. O nosso professor sempre nos ensinou que a Morte não é o fim, mas uma passagem para outro plano de existência. Como fossemos transmutados de sólidos para líquidos. E como líquidos, devemos seguir o curso dos rios rumo ao mar. – Bruce soluça de emoção. Todavia, eu não acredito que este era tempo do corpo dele se separar de seu espírito. Por isso, vou propor que pretendo reviver-lo utilizando tudo àquilo que aprendemos com o nosso mestre.

Um murmuro surge imediatamente. Antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa, Mercury comenta com a sua “característica” simpatia.

— Você é maluco ou doente mental, Bruce? O professor está MORTO! Não entendo essa historinha de reviver e continhos de fada de espíritos em rumo ao mar... Acho que devemos procurar o responsável que fez isso com o professor e dar-lhe o que merece. – e dá uma cuspida no chão.

— Desculpa, Bruce. Infelizmente, terei que concordar com a “Senhora da guerra” de rabo de cavalo. O corpo de nosso professor foi vaporizado por uma bomba antimagia. Não sei quantas pessoas seriam capazes de sequer chegar perto de nosso mestre sem que ele soubesse, imagina matá-lo?! – indigna-se Tensey. Se quiser revivê-lo, ótimo. Espero que não seja como um morto-vivo. Sem ofensas, Vladimir! — desculpa-se.

O vampiro acena afirmativamente em silêncio.

— Concordo, Tensey. Revivê-lo, pode ser até possível, mas será que ele quer voltar a Vida? Nós somos testemunhas de coisas incríveis todos os dias. Esta é uma instituição que o impossível é algo corriqueiro. Porém temos que pensar quem queria vê-lo morto, senão nós mesmos poderemos ser as próximas vítimas. – decreta a Lefou Jeniffer.

Bruce respira fundo e decreta:

— Vou revivê-lo! Um dia conversei com o nosso mestre e disse que nunca partiria sem que todos nós fossemos formados magos. O professor sempre dizia que somos as jóias dele. O seu tesouro e legado. Não posso aceitar que um desgraçado roube a única coisa boa que tivemos em nossas vidas. Vou trazê-lo de volta e terminar o que ele começou! Quem vai fazer o ritual comigo? – pergunta.

De todos os presentes, só os “Cinco Antigos” levantaram as mãos.

— Cinco é um bom número... – comenta o líder.

Tensey se levanta e entrega um livro para o líder.

— Este é um caderno de rituais necromanticos. Acho que é melhor que conheço. Eu ia emprestar para Luiza, mas acho que ela não vai se importar. Tudo bem, Luiza? – pergunta o elfo para a cadeirante.

— Não tem problema. Elisa disse que vai ajudá-lo, Bruce. Se ela achar o espírito de nosso mestre, ela irá avisá-lo... – comenta a cadeirante.

O líder do grêmio do Falcão fica surpreso.

— Elisa não o encontrou?! – exclama.

— Não. Deveria estar vagando nos planos, mas ela não o achou. – explica.

— Acho que sei o que aconteceu... – e devolve o caderno para o elfo. Esqueça o ritual. Os Cinco Antigos irão para Ixtlam, a Terra da Tribo da Lua... A terra dos ancestrais de nosso mestre.

Notas finais
(Continua.)