Magic Mirror

2 O Inimaginável


Notas iniciais
Chegaaay~ Não tenho muito o que dizer sobre esse capítulo, apenas que é aqui que a história realmente começa. Por favor, leiam as notas finais. Boa leitura c; ♥

Era um sótão pequeno, apertado. Ninguém imaginaria que alguém pudesse morar ali.

O teto era extremamente baixo, alguns pontos mais que outros devido ao formato do telhado da casa. Apesar do monte objetos entulhados, não havia nada que pudesse ser usado como cama e, caso houvesse, sua superfície seria tão áspera e desagradável que mesmo o chão seria preferível a ela. Havia no local apenas uma única janela circular, que dava para a rua em frente à casa e de lá era possível observar as outras moradias ali em frente, todas parecidas umas com as outras. Mesmo assim, era pouca a luz do sol que por ali passava. Numa avaliação superficial, o sótão pareceria uma caixa fechada, por não continha portas – a única maneira de entrar ou sair de lá era por uma portinhola escondida debaixo de um tapete velho e empoeirado.

A única coisa agradável de ser ver naquele lugar eram as várias bonecas que ali eram guardadas. Eram cerca de quinze bonecas, grandes, do tamanho de uma criança de dez anos, aproximadamente. Todas tinham a pele da mais bela porcelana, uma mais encantadora que a outra. Os cabelos eram feitos da mais sedosa fibra, que variava entre vários tons de amarelo, marrom e laranja. Os lábios, uns finos, outros mais grossos, eram coloridos com uma tinta rosada absolutamente adorável, sem falar nos lindos olhos das bonecas – todos feitos de vidro. Suas cores eram desde o azul até o negro, mas eram todos tão bem feitos e fascinantes que poderiam deixar em transe aquele que se demorasse demais naquela bela visão.

E suas roupas – ah, as roupas daquelas bonecas. Todas únicas, feitas de lã. Era cada vestido bem elaborado, cada maravilhosa combinação de cachecol, boina e sapatinhos que deixaria qualquer menina roendo as unhas de inveja. As bonecas mais bonitas, ainda, eram colocadas em apoios para que pudessem se manter em pé e exibir ainda mais sua beleza e produção de qualidade.

Havia uma, no entanto, que era indescritivelmente mais bela que as outras, realmente de tirar o fôlego. Tinha cabelos dourados, curtos na altura dos ombros, que refletiam a luz de modo a fazê-los parecerem feitos de fios de ouro, olhos do mais belo azul, contornados por cílios longos, e a pele do mais claro tom. Isso, ainda, em contraste com as bochechas levemente rosadas e os finos lábios avermelhados, deixavam-na com uma aparência realmente adorável. Seu vestido era bem simples, entretanto: de cor azul marinha, tinha o busto justo, que destacava os poucos seios, e saia um pouco bufante, que era separada da parte superior por uma faixa de cor branca presa por um laço aparentemente perfeito nas costas da boneca. O tecido que cobria o colo, pescoço e ombros também era branco, enfeitado por uma pequena joia falsa prateada entre as clavículas. As mangas eram compridas, ainda no tom escuro de azul, e cobriam toda a extensão de seus braços até os pulsos. Os sapatinhos, brancos, completavam o enxoval.

Aquela boneca, porém, era muito estranha. Às vezes, quando fora deixada sentada com as pernas escondidas sob a saia do vestido, aparecia com elas estendidas. De vez em quando, sua boca era vista aberta, enquanto normalmente estava fechada. Mas, mais importante que tudo isso, era o seguinte detalhe: por vezes ela era flagrada com o peito subindo e descendo, como se estivesse respirando e realmente fosse uma criatura viva.

E, de fato, ela era.

Seu nome era Rin. Tinha quatorze anos de idade quando começara a se fazer de boneca para que pudesse sobreviver à guerra. Nascida judia, sendo assim considerada não-ariana, Rin e sua família começaram e ser perseguidos desde 1939, o início da chamada Segunda Guerra Mundial, em que nazistas perseguiam todos os que considerassem humanos “imperfeitos” – fossem judeus, negros, homossexuais, deficientes físicos ou mentais. Qualquer um que não fosse “perfeito” diante a ideologia nazista seria executado ou mandado para campos de concentração para trabalhar forçadamente e, cedo ou tarde, morrer.

Por isso, depois de muito tempo fugindo, tendo de superar inúmeras perdas, os pais de Rin tiveram de utilizar-se de sua última alternativa para mantê-la a salvo: fazer com que fosse adotada por uma família considerada ariana e rezar pela segurança de sua filha. Foi uma busca difícil e arriscada, mas, quando finalmente encontraram uma família disposta a ajuda-los, seus pais mal se despediram da filha e desapareceram na calada da noite.

Ela não pôde nem mesmo dar-lhes um abraço de adeus.

Desde então, Rin vivia no sótão da família Shion, disfarçada de boneca, já que o chefe da família, o Sr. Kaito, trabalhava vendendo esse tipo de brinquedo, que ele mesmo produzia.

Era uma vida realmente desconfortável. Recebia comida apenas de manhã bem cedo, entre cinco e seis horas, e, depois, tarde da noite, entre dez e onze horas. Quando se tratava de ir ao banheiro, ela deveria se segurar até a hora de suas refeições, pois aí seria seguro que ela saísse de seu esconderijo sem ser notada por ninguém de fora. Como dito antes, não havia onde dormir, então a menina passava noites em claro, chorando ou apenas observando o nada e ouvindo o silêncio, dormitando ou adormecida sentada ou apoiada em algumas bonecas. Às vezes, quando o Sr. Kaito conseguia vender alguma delas, Rin conseguia deitar-se. Por já ser uma moça, ficava indisposta todos os meses, durante mais ou menos uma semana, assim como qualquer mulher. Mas isso não era motivo para que ela “deixasse seu posto” ou alterasse sua expressão de serena para dolorosa. Por causa disso, teve de aprender a controlar suas próprias expressões faciais e usava sempre uma espécie de fralda feita de pano, assim não haveria risco de sujar o chão ou o vestido. Ela tomava banho apenas quatro vezes ao mês.

Rin não gostava daquela vida que levava, sempre com medo, suja e infeliz. Mas recusava-se a desistir. Sabia que havia muitas outras crianças em estados ainda piores que o seu, realmente miseráveis. Além disso, seus pais haviam sacrificado muito pelo bem dela, perdido quase todo seu dinheiro. Seus tios haviam sido levados para campos de concentração enquanto ajudavam Rin e seus pais a fugirem. Rin não podia fazer com que tudo aquilo tivesse sido em vão. Mesmo que detestasse aquele mundo e o que ele a fazia sofrer, não agiria como uma garotinha mimada e egoísta e poria tudo a perder. A família Shion, apesar de deixa-la numa situação lastimável, era muito carinhosa e Rin sabia que eles queriam o seu bem. E, caso ela se entregasse a algum oficial nazista, não só ela, mas também toda sua família adotiva seria morta a sangue frio. Ela não queria isso. E não deixaria que acontecesse.

Assim, ela passava dias sozinha naquele sótão, sentada com a postura ereta e rosto inexpressivo, encarando o nada e sonhando com o dia que finalmente encontraria a felicidade. Às vezes, quando havia visitas de comprador ali em cima, ela chegava até a prender a respiração com medo de ser percebida. Mas, felizmente, isso nunca acontecia.

Certa vez, quando ela já não sabia mais há quantos meses – ou até mesmo anos – já haviam se passado, algo terrível aconteceu.

Era manhã. Rin já havia comido sua refeição fazia algumas horas e obedientemente encarava o outro canto do sótão, em silêncio, evitando qualquer tipo de pensamento que a fizesse se recordar de sua família e, consequentemente, a fizesse chorar. Seus olhos azuis acabaram por fixar-se nos milhares grãos de pó que flutuavam no ar parado, refletindo a luz do sol de modo a brilharem dourados.

Quando o sol foi tapado uma vez, ela não se importou. Nuvens cobriam o céu a toda a hora.

Quando foi tapado pela segunda vez, menos de um minuto depois, ela achou estranho.

Quando o chão começou a tremer e ela começou a ouvir o som de enormes explosões, soube que estavam bombardeando sua cidade.

Um desespero sem igual tomou conta do corpo de Rin. Por um aterrorizante momento, ela viu-se incapaz de mover o próprio corpo enquanto lágrimas quentes de medo escorriam por suas bochechas. Ela simplesmente não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Os aviões inimigos tinham sequer noção de quantas vidas inocentes estariam pondo em perigo e mesmo matando várias outras? Era tudo tão injusto! Por que aquela guerra deveria estar acontecendo, afinal de contas? Por que ela teve que ter sido separada de seus pais para poder continuar vivendo com “segurança”? Por quê?, ela gritava em sua própria mente. Por quê?!

Uma bomba caiu perigosamente próxima à casa dos Shion. O chão e as paredes tremeram e janela do sótão acabou explodindo com a onda de calor, fazendo um dos estilhaços cortar a delicada pele da mão de Rin. Ela ouviu gritos vindos dos andares inferiores da casa, mais vidro se partindo. E isso foi o suficiente para que ela conseguisse se mover mais uma vez.

Desesperada, tudo o que Rin conseguiu fazer foi se levantar e andar em direção à portinhola de acesso ao resto da casa, que estava à mostra, pois o tapete que a cobria estava dobrado nos cantos. As pernas dela, porém, estavam bambas devido às bombas, que não paravam de cair a cada instante, e à tremedeira de seu próprio corpo tomado pelo medo. Ela chutava as bonecas que obstruíam seu caminho sem nenhum toque de delicadeza, querendo apenas sair daquele lugar detestável e ajudar sua família adotiva nos andares inferiores da casa, de onde ainda ouvia gritos.

Mas, quando ela estava quase chegando, uma bomba atingiu a casa vizinha à dos Shion, o que fez com que vários destroços voassem e atingissem o sótão. O telhado foi danificado em vários pontos, mas o pior foi quando um grande pedaço de cimento, de aproximadamente três metros de diâmetro, o atingiu e acabou abrindo um buraco no teto.

O destroço caiu bem em cima de Rin, deixando-a presa pela perna.

Depois de tanto tempo mantendo-se quieta, ela nunca imaginou que poderia gritar tão alto do jeito que fez. A dor era indescritível. Ela sentia sua perna direita ser esmagada cada vez mais enquanto se contorcia, tentando livrar-se daquele pedaço de pedra infernal, sem sucesso. Ela sentia sua garganta sendo desgastada cada vez mais enquanto gritava por ajuda, mas sua voz não era nada comparada ao som das inúmeras explosões ao redor. Rin gritava e chorava descontroladamente, desamparada, fazendo de tudo para não acreditar que aquele seria seu fim, mas era uma tarefa difícil. O que seria de sua perna? Será que ela ainda conseguiria andar? E se sua perna tivesse de ser amputada? Lágrimas rolavam descontroladamente por seu rosto.

Tentando se arrastar para fora do sótão, cravando as unhas no chão de madeira, Rin acabou por agarrar um lençol acizentado. Ela puxou-o com força, rezando para que estivesse preso a algo que pudesse ajuda-la, mas foi inútil.

– Droga! – ela gritou, para todos e para ninguém. – Eu não posso morrer aqui! Não assim, não agora! Não posso, não posso!

– Você não vai – disse-lhe uma voz gentil que ela nunca havia ouvido antes.

Espantada, ela olhou ao redor, procurando o dono da voz. Era impossível alguém estar ali, ainda mais naquela situação! Não poderia ser um nazista... poderia? Não é ninguém, ela forçou-se a acreditar.

Mas sua resposta veio logo. Ela encontrou o dono da voz assim que cravou seus olhos num espelho alto, que poderia mostrar Rin em pé e mais um pouco, encaixado num ponto em que o teto era mais alto. À primeira vista, Rin achou que o garoto estivesse em frente ao espelho, sorrindo ternamente para ela, apoiado em um dos joelhos. Mas, quando sua visão se focalizou, Rin percebeu que o garoto estava realmente dentro do espelho. Ele era bem parecido com ela, com belos olhos azuis e cabelos dourados. A maior diferença era o sorriso no rosto.

– Vamos, Rin – apressou ele. – Você não vai morrer aqui. Só é preciso algo muito simples da sua parte.

Estou delirando, pensou Rin consigo mesma. Com certeza estou delirando... Morrerei louca, então.

– O que preciso fazer? – ela perguntou, incrédula, com a voz trêmula e fraca.

O sorriso do garoto se alargou.

– Desejar.

Notas finais
Hey yo! Gostaram? Mandem reviews, ok? Mesmo que seja um "gostei e tô acompanhando" ou um "não gostei, melhore tal coisa", tá? Por favor, mesmo sendo pouco, ajuda e muito ;w; Não esqueçam que vocês podem recomendar, divulgar para os amigos também, essas coisas~ heheheheh Tá bom, parei de ser chata. Ah, e uma coisa realmente importante: 2ª Guerra Mundial é um tema delicado, sabemos. Caso você tenha encontrado algum erro, queira dar alguma sugestão sobre o assunto, por favor me diga, pois eu já estudei sobre o assunto, etc, mas posso cometer erros e duas cabeças pensam melhor que uma. Obrigada. Espero vocês no próximo, viu? c; Até~ ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.