Magic
35 Capitulo 35
Notas iniciais
Daungher ergueu os braços, fazendo tudo ao seu redor, ser jogado para longe. Uma parte das nuvens se abriu, revelando a lua, que pareceu emitir um brilho avermelhado, sobre a clareira.
Mantive os pés firmes no chão. Meu olhar estava fixo nele, meu coração batia tão forte, que me perguntei se ele poderia parar a qualquer momento. Olhei para o lado, Andrew balançou a cabeça.
A primeira flecha cruzou o céu, tão rápido, que eu mal consegui vê-la. Ela atravessou aquilo que devia ser o peito de Daungher, e se cravou no chão. Milhares de flechas cruzaram o ar, atingindo tudo e todos que encontravam pelo caminho. Rolei pro lado, puxando Marck e Mael pra baixo.
— Fiquem abaixados. – disse Mael. – Elas não vão nos atingir.
Coloquei as mãos sobre a cabeça. Enquanto o barulho das flechas cortando ar, parava.
— Crianças idiotas. – a voz de Daungher me atingiu, me causando outra onda de arrepios. – Acham mesmo que podem me deter? Mal conseguiram resistir a uma lutinha. – ele levantou a mão, que começava a se tornar humanoide.
Senti meu corpo sendo jogado para trás, quando tudo ao meu redor explodiu. O calor das chamas fez meu rosto arder.
— Vamos meus filhos. Temos um mundo para massacrar. – Daungher sumiu em meio ao ar, deixando apenas uma nuvem de fumaça e fogo.
...
Daungher parou em meio à rua deserta. As arvores secaram, restando apenas seu tronco nu. Ele deu um passo, e tudo ao seu redor foi jogado para o lado, carros explodiram, os postes caíram, fazendo fagulhas saírem de seus fios. Arvores foram arrancadas do solo e jogadas para o alto, caindo sobre casas.
— Então foi nisso que o mundo se tornou. – Daungher soltou uma longa gargalhada, que fez todo o chão tremer, e o asfalto rachar. – Vou adorar ver os corpos pegando fogo. Vou amar ouvir os gritos de desespero.
Os lábios de Évora se abriram em um sorriso perfeito. Ela passou uma das mãos no cabelo e ajeitou o vestido.
— O mundo se curvara aos seus pés, querido. – disse ela dando uma piscadela perfeita.
Daungher a ignorou, apenas caminhando, enquanto seu pequeno exército o seguia.
...
— Segura. – a voz de Nathy me fez abrir os olhos. Senti a imensidão que se estendia abaixo de mim. O vento frio agitou meu cabelo, enquanto eu encarava o enorme precipício. – Não solta. — gritou Nathy fazendo força pra me segurar.
Apoiei meus pés, e me impulsionei para cima o ajudando. Cai de barriga para cima, encarando o céu. As nuvens pareciam próximas demais. E foi ai que me lembrei. Levantei em um salto e corri até o corpo imóvel de Vini. Seus olhos ainda estavam abertos, encarando o infinito. Sua pele já estava fria, o corte em seu pescoço parecia mais profundo do que devia ser.
— Paul... – não consegui entender o resto do que Marck disse. Ele se aproximou e fechou os olhos de Vini. – Viu agora ele só esta dormindo.
Levantei os olhos e o encarei.
— Cuida dele pra mim. – sussurrei me levantando. – Eu já volto.
— Aonde você vai?
Ignorei as palavras de Marck. Na verdade, seus gritos ficaram longe demais, enquanto eu corria o mais rápido que eu podia. Não precisei virar lobo, minhas pernas corriam mais rápido do que o normal. Eu não sei o que estou fazendo, apenas estou deixando a raiva me guiar. Avistei a destruição na cidade, assim que sai do bosque. Segui o rastro, até avistar Daungher ao longe. Talvez seja burrice, ta, eu sei que isso é muita burrice da minha parte, mas eu vou mata-lo com minhas próprias mãos.
Senti as trevas aumentando, assim que eu me aproximava dele e de seu exército de monstros. Coloquei o máximo de impulso nas pernas e saltei sobre eles, caindo na frente de Daungher e Évora. Soltei um rosnado, enquanto os fuzilava com os olhos.
— Olhem só, se não é o escolhido. – disse Évora sorrindo. – Venho aqui se sacrificar, de novo?
A ignorei, apenas avancei na direção dos dois. Minhas unhas se transformaram em garras. Estava a poucos centímetros do rosto de Évora, quando algo me atingiu no estomago, me fazendo voar pra trás.
— Garoto tolo. – disse Daungher dando um passo em minha direção. – Você acreditou mesmo que seria capaz de nos atingir.
Cai de joelhos. As mãos apoiadas no chão. Levantei a cabeça lentamente. Meus olhos doíam, assim como meu corpo inteiro. A adrenalina percorreu cada veia, fazendo a dor sumir, e uma sensação boa surgir. Senti minhas forças voltando.
“ Você possui o poder das quatros alcatéias. Use-o” A voz ecoou dentro da minha cabeça.
Me levantei, dando um passo para trás. Estralei os dedos e olhei por sobre Daungher, encarando os monstros atrás dele.
— Não. Mas posso tentar. – minha voz saiu grossa, quase bestial.
Corri, tão rápido que tudo ao meu redor se transformou em borrão. Saltei , girando sobre Évora, a segurando pela cabeça. Tudo ao nosso redor explodiu, quando seu corpo se chocou contra o chão. Os monstros foram jogados para longe. Cai ao lado da enorme cratera que se formou no chão.
Passei a língua nos lábios, sentindo o gosto do sangue. Me transformei em lobo, e corri na direção dos monstros. Atingindo e arrancando membros de todos eles. Parei no final da rua e encarei o cenário atrás de mim. Os corpos caiam no chão, formando enormes poças de sangue.
O vento veio do leste, trazendo a chuva consigo. Os raios caiam violentamente, iluminando tudo a nossa volta. Encarei Daungher, enquanto eu voltava à forma humana. Vi meu reflexo, naqueles olhos prateados. Seu corpo fumacento tremeu, assim como o chão.
Raspei o pé no chão e corri em sua direção. Mas meu caminho foi bloqueado por Évora. Metade de seu vestido estava destruído, mostrando um de seus seios. Um enorme corte cruzava sua bochecha, mas ele se fechou conforme eu me aproximava.
— Você me paga garoto. – ela levantou a mão e me atingiu no peito, me fazendo recuar alguns metros.
Levantei, apenas dando uma mexida nas sobrancelhas.
— Só isso? Perguntei avançando novamente.
— Chega disso. – disse Daungher se colocando entre mim e Évora. – Você já tirou toda a minha paciência garoto.
Senti algo se quebrando dentro de mim. A dor se alastrou por minhas pernas. Cai de joelhos, arfando.
— Você consegue. – repeti fechando os olhos. A dor foi substituída por um calor agradável. Me levantei e encarei Daungher. – É, hoje eu to difícil de ser morto.
— E quem disse que eu quero te matar? Perguntou ele, enquanto o chão parecia derreter sobre meus pés.
Me senti afundando, como se eu estivesse em uma areia movediça.
— Tenta não me atrapalhar novamente, garoto. – Daungher disse aquilo como um desafio. Então ele se transformou em um borrão. Tudo se iluminou, uma luz roxa, que pressionou meu corpo contra o chão.
Minha mente se foi lentamente, tudo se tornou escuro, e eu apaguei.
...
Marck sentiu algo esmagar seu coração, ao ver a cena de destruição, que se seguia pela cidade. Metades das pessoas estavam do lado de fora daquilo que restou de suas casas, alguns de seus amigos o encaravam, montado em cima do enorme lobo cinza, mas ele os ignorou. Seus olhos percorriam os corpos caídos, a procura de apenas um. Ele avistou seu irmão caído, ao lado de uma enorme cratera. Sua roupa estava em frangalhos, metade do seu corpo estava cortado, o sangue escorria, formando uma poça de sangue ao seu redor.
Marck saltou de cima do lobo e correu até o corpo de Paul. Seu coração batia loucamente, enquanto ele o segurava em seus braços. Ele ignorou o sangue que manchava sua pele, e apertou seu irmão contra seu peito. Sua lagrimas caiam sem parar, se misturando aos pingos de chuva. O corpo de Paul estava sem vida, seu coração não estava batendo. Seus olhos estavam fechados.
...
Encarei a enorme passagem que se seguia a minha frente, ela se estendia, como um longo corredor, que terminava em um bosque. Tudo era lindo, os chão verdejante, o sol brilhando em meio ao céu azul, limpo. Os pássaros cantavam alegremente em meio as arvores. Senti o vento dançar ao meu redor, balançando a roupa branca, de algodão, que eu usava.
Vini estava sentado embaixo de uma arvore. Sua cabeça estava tombada para trás, os olhos fechados. Ele parecia dormir tranquilamente, como se toda a paz do mundo estivesse ali, ao seu redor.
Me aproximei, sentindo as lagrimas caindo.
— Você faz barulhos demais. – sussurrou ele abrindo os olhos.
Mordi os lábios enquanto ele se levantava. Seus braços me envolveram, quase me esmagando. Senti o cheiro de seu perfume invadindo meus sentidos, enquanto eu afundava o rosto em seu peito.
— Vai ficar tudo bem. – sussurrou ele mexendo em meu cabelo. – Eu to aqui. Eu sempre estarei aqui.
— Eu te amo. – sussurrei. – Desculpa, eu devia ter te protegido, eu devia ter corrido mais rápido.
— Não foi sua culpa. – Vini me afastou um pouco, seus olhos encontraram os meus. – Isso já estava predestinado. – ele sorriu e beijou minha testa. – Eu te amo, e obrigado pelos momentos felizes que tivemos.
— Vini... — deixei as palavras se perderem no ar.
— Eu sei. — Vini abriu um largo sorriso. — Mas você não pode ficar aqui.
— Como assim? Perguntei o encarando.
— Paul, Daungher esta solto. O mundo ainda corre perigo. Você não pode estar morto. – Vini se afastou lentamente. – Você precisa voltar. Eles não vão te deixar aqui por muito tempo.
Senti mãos invisíveis me segurando, elas me puxavam para trás, me arrastando em direção ao túnel.
— Vini. Espera. – gritei, tentando me debater.
— Eu amo você Paul Monters. Nunca se esqueça disso, em nenhum segundo. – Vini sorriu. – Eu sempre vou estar aqui. – ele apontou pro próprio coração. – Vamos nos encontrar novamente, não se preocupe. Isso ta apenas começando.
Tudo começou a escurecer. Vini se sentou novamente e continuou a sorrir.
Abri os olhos, tossindo loucamente, meus pulmões exigiam oxigênio. As gotas de chuva batiam violentamente contra meu rosto. Os braços de Marck me envolviam com força. Seus olhos encontraram os meus.
— Como? Perguntou ele me encarando.
Balancei a cabeça, a afundando em seu peito. Eu só queria que o mundo parasse por alguns minutos. E deste a morte de meus pais, aquela foi à primeira vez que eu realmente chorei, um choro carregado de dor. Eu sabia que todos estavam ali, mas eu estava aonde realmente queria estar.
...
2 De Novembro
Encarei meu reflexo no espelho. Meus olhos estavam vazios e profundos. O terno preto havia caído perfeitamente em mim. Passei a mão no cabelo, e evitei que as lagrimas caíssem.
Eu não conseguia ter mais do que duas horas de sono, todas as vezes que eu fechava os olhos, meus sonhos eram tomados por pesadelos horríveis. Muitos envolvendo Daungher ou Vini, ou milhares de corpos caídos sobre as ruas da cidade.
Caminhei pela casa silenciosa. Todos estavam na cozinha, às roupas pretas, os olhares baixos. Talvez seja loucura, mas tivemos que esperar pra poder enterra-lo. O corpo de Vini ainda estava normal, o corte em seu pescoço havia se fechado, graças a um dos feitiços de Mael, seus olhos estavam fechados e ele apenas parecia estar dormindo.
O sol brilhava em meio ao céu azul, algumas nuvens se formando. Segurei o braço de Marck, enquanto caminhávamos pelo caminho de cascalho. As arvoes balançavam lentamente, produzindo um som calmo e agradável de ouvir.
Havia algumas pessoas da escola, no enterro, me perguntei como elas tinham descoberto. A mãe de Vini não estava entre as pessoas presentes, e acho que ela nem havia ficado sabendo da morte do próprio filho. Jack estava lá também, ele estava de cabeça baixa, mas eu reconheci seu cabelo castanho, totalmente bagunçado. Me sentei nas cadeiras da frente, ao lado de Jack, Marck e Mael, ficamos observando o caixão. Ele estava fechado, as rosas brancas e negras, as que Vini mais amava, decoravam sua lateral, a camisa do time estava por cima, ao lado de nossa foto, em um dos jogos.
Os minutos se arrastaram, enquanto o padre dizia algumas coisas. Me perguntei se Vini estaria do outro lado, rindo de nossa cara e dizendo: — Isso é tão patético, que me faz rir. Vocês realmente tão deixando esse povo e esse cara falarem isso no meu funeral? Eu mato você Monters.
Achei que seria digno da minha parte não dizer nada. Afinal, eu odiaria que Vini falasse coisas no meu funeral, que eu sempre imaginei sendo antes do dele. Ta, mentira, eu levantei da merda daquela cadeira, caminhei até perto do caixão e comecei a contar coisas sobre nós, dizendo como Vini tinha sido o garoto mais incrível que eu havia conhecido, que nos amávamos, e que não estávamos nem ai para o que as pessoas iriam pensar de nós, e tudo mais. Só percebi que estava chorando novamente, quando as lagrimas caíram sobre minhas mãos. Marck se levantou, mas balancei a cabeça, dizendo que estava tudo bem. Terminei meu pequeno discurso fúnebre e fiquei parado ao lado do caixão, enquanto o abaixavam. Peguei uma das rosas e a joguei sobre ele.
Muitas pessoas ficam esperando que suas histórias tenham finais felizes, mas elas mal sabem que eles não existem , todo final é constituído de lagrimas, e nem sempre elas serão de alegria. A dor e o vazio que se instalam dentro de você, quando alguém parte, é tão insuportável, que parece que nunca ira passar.
...
O sol começava a se por atrás das enormes cadeias de montanhas. Estávamos todos ali, sentados na beira do precipício, encarando a cidade logo abaixo de nós. O vento soprava em uma brisa calma. O cheiro de rosas preenchia o ar.
— Então é assim que vai acabar? Perguntou Jack sentando ao meu lado. – Vocês podiam ter me ligado, sabiam?
— Eu não queria que você corresse nenhum risco. – resmunguei encarando o céu, agora completamente laranja. – Já morreu gente demais, já perdi muitos que eu amava. Não iria perder você também.
— Isso foi lindo, mas eu ainda acho que vocês deviam ter me ligado.
— Jackson, apenas cala a boca ta. – disse Ismael, sentado ao lado de Andrew. – Ou juro que te empurro daqui.
Revirei os olhos, deixando um sorriso escapar.
— Temos muita coisa pra fazer. – disse, encarando o horizonte. – Daungher ainda esta solto, boa parte da cidade esta destruída. Somos uma família agora, um sempre irá lutar pelo outro. Perdemos pessoas, ganhamos outras. Podemos ter perdido a batalha, mas nós iremos ganhar essa guerra, e iremos vingar a morte de todos aqueles que Daungher e Évora tiraram de nós.
Ouvi meus amigos concordando em pequenos murmúrios.
O ultimo raio de sol se lançou no céu, deixando uma linha alaranjada, que se dirigiu em nossa direção. Eu sei que esse não é um final, é apenas um novo começo.
...
Ele dormia tranquilamente, o som da chuva batendo em sua janela, não o incomodava. Mas seus sonhos se tornaram pesadelos. O garoto abriu os olhos, respirando com dificuldade. Algo parecia tê-lo sufocado.
Ele se sentou na cama, uma das mãos cobrindo o peito, tentando acalmar o coração. Seus olhos procuravam tentar se acostumar à escuridão do quarto. Um raio cruzou o céu, revelando a silhueta de uma pessoa, parada perto a sua porta. Seu corpo estava sujo de lama. O barulho de seus passos parecia mais alto que o barulho da chuva. Seus olhos brilharam em meio à escuridão, em um tom prateado.
— Quem é você? Perguntou o garoto saltando a cama. Seus braços indo pra posição de defesa. – Dia errado pra invadir meu quarto cara. – disse ele, pronto para se defender.
Outro raio cruzou o céu, revelando o rosto daquele que estava a sua frente. Era um rapaz, e ele o conhecia bem demais.
— Impossível. – disse o garoto, seus braços se baixando. – Vo...Você
Suas palavras se perderam no ar, quando as mãos do rapaz encontraram seu pescoço, o cortando. O corpo do garoto se debateu no chão, enquanto ele se engasgava no próprio sangue.
O rapaz caminhou até a porta, a abrindo lentamente. Os gritos da família ecoaram pela noite vazia e chuvosa.
Fim da primeira Temporada
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