Magia da Morte.
1 Único.
- Tem certeza de que devemos fazer isso? – Louize perguntou novamente, olhando para o céu escuro de uma noite de eclipse.
- Você sabe que é nossa última chance. Esse espírito não pode ficar perseguindo o Trevor. Além do mais, eu já concordei. Só você ainda está resistindo. – Stella falou, abrindo a porta da casinha abandonada, próxima a um bosque na estrada de saída da cidade, e entrando. A casa tinha teias de aranhas por todos os lados. As paredes, que um dia foram brancas, estavam quase beges de tão amareladas de velhice. A porta rangeu quando foi aberta, e nossas vozes começaram a ecoar sinistramente. Estremeci enquanto ouvia o chão ranger aos passos de Stella.
- Não vai acontecer nada. Eu vou fazer a posse, a Stella vai fazer a leitura, e a Kalie vai fazer o ritual em si. Você só completa. — Trevor comentou, tentando acalmá-la.
- É, além do mais, não é como se fosse a primeira vez que fazemos isso. – Falei, entrando depois de Stella na casinha estranha.
- Só não gosto disso, ok? – Louize disse, levantando os ombros.
- Só vamos repassar. Vela, Trevor? – Falei olhando para Louize, que passava nervosamente os dedos pelos cabelos castanhos lisos.
- Ok. – Respondeu Trevor, erguendo a vela preta. Observei-o: olhos pretos intensos, cabelos espetados da mesma cor e pele morena de sol. Corpo em forma da academia e sorriso de lado convencido.
- Túnicas?
- Ok. Trevor está de túnica azul marinho, você com a branca, eu de roxo e Louize de bordô. – Stella falou, ajeitando algumas coisas no chão, seu cabelo preto-azulado cacheado caindo por seus ombros, o corpo magro curvado sobre uma caixinha em que ela mexia.
- Manta?
- Sim, já está no chão. – Louize me respondeu, apontando para a manta preta que estava no chão.
- Livro, Stella?
- Aqui. – Respondeu, erguendo o livro distraída, enquanto procurava o encanto, seus olhos azuis passando rapidamente pelo mesmo.
- Adagas ok. – Falei pra mim mesma, olhando elas presas em minha cintura.
- Er... Adagas, manta, vela, livro, túnicas... Sal?
- Aqui, Kalie. — Trevor balançou o vidro.
- Hm, isqueiro ok também. Só isso. Ah, espera, e a madeira, Stella? – A mesma só me apontou a cintura, onde tinha um palito parecido com de churrasco, mas que tinha uma ponta branca e outra preta.
- Vamos começar. – Falei suspirando e mordendo o lábio, nervosa, olhando para o teto preto.
Trevor olhou para cada uma de nós, e erguemos juntos os capuzes das túnicas. Ele abriu o vidro de sal e fez um círculo em volta da manta. Em seguida, entregou o saleiro para Louize, que fez um ‘x’ no meio do círculo, foi até Stella e o passou. Stella fez quatro desenhos, um em cada parte dividida pelo ‘x’, e me entregou o vidro de sal. Fiz um reforço na letra e o devolvi para Trevor, que me olhou apreensivo, mexendo nos cabelos pretos arrepiados. Sorri, mas foi um sorriso triste. Eu estava com um péssimo pressentimento.
Peguei o isqueiro no bolso do meu jeans e a vela com Trevor. Fui até o centro do círculo e acendi a vela, a deixando bem no meio do mesmo. Saí dele e me ajoelhei de frente para Trevor, que pegou a vela e virou a chama no sal. Pegou fogo instantaneamente, uma chama tão alta que tampou minha visão dele. Estremeci, a luz era mais cegante que o escuro que estava antes.
- Askar, taimará... – Começou a recitar Stella, ajoelhada do mesmo modo que eu, ao lado de Trevor. Louize só olhava o fogo roxo, de frente para Stella, separadas pela chama.
Olhei para as adagas em minha cintura e cortei a palma das minhas mãos. Três cortes. Em cada uma.
Sangue começou a escorrer. Juntei as mãos e comecei a recitar também, andando em volta do círculo. Três voltas. Quatro versos. Parei onde tinha começado e peguei as adagas. Cortei um pedaço da túnica e passei nos cortes da minha mão. Joguei no fogo, e sua cor começou a oscilar entre o roxo e o verde escuro. Voltei a recitar junto de Stella, e a chama começou a abaixar. Olhei para Trevor, deitado no meio do círculo, mas sabendo que já não era mais ele ali. Trevor, ou o espírito que o possuiu, se levantou e olhou em volta, até que seus olhos pousaram em mim, me assustando. Sua pupila estava branca, sua íris, vermelha, e o branco do olho estava preto.
- Você. – Falou com uma voz estranha, vindo em minha direção.
- Stella, é um mal! – Falei com a voz falhando.
- Não o deixe te tocar! – Berrou, tentando chegar até a adaga suja de sangue que usei para me cortar, enquanto eu andava para trás, tentando me afastar de Trevor. Esse que me olhava fixamente com um sorriso macabro e as mãos nos bolsos da túnica, como se estivesse despreocupado.
- Você. É de você que eu preciso. – Falou com sua voz estranha, me fazendo estremecer.
- Louize, ajude-a! Você é a única que não corre risco com ele! – Stella exclamou.
- Eu não posso, é o Trevor! – Louize chorou.
- Me ajudem! – Falei, tentando desviar dele, que se aproximava mais de mim, já tentando me prender.
- Não é o Trevor, é um espírito! E ele vai matar a todos se você não me alcançar essas adagas, Louize! – Stella berrou, tentando passar e sendo impedida pelo círculo.
- Não adianta. Vocês são fracas. – Riu Trevor, jogando a cabeça para trás e observando o teto, logo em seguida me olhando de novo.
- Você não vai tomar conta do corpo do Trevor. – Falei o olhando e parando de desviar.
- E por que não, Sacerdotisa? Eu só preciso tocar em você, sua alma se esvairá e prenderá a minha nesse corpo. Simples. – Falou irônico.
- Porque você não vai. Eu não vou deixar. Aliás, por que você quer isso? Por que começou a perseguir Trevor? Por quê? – Falei, olhando para Stella, que havia quebrado o círculo e estava correndo até a adaga com meu sangue.
- Como pretende me impedir, minha cara? E bem, eu quero porque cansei de vagar por aí como um espírito, sem ninguém me ver. Eu gostei da vida desse menino. Três amigas inseparáveis, uma delas bem alegre e animada, a tal de Louize, não é? Uma inteligente e confiável, Stella, certo? E a menina que ele gosta: você, Kalie. Bonita, esperta, amigável... Sempre pondo os outros como prioridade. Eu quero a vida dele. Eu quero a vida que ele tinha. A que eu perdi há muito tempo. – Respondeu, dando passos lentos em minha direção, enquanto eu andava para trás.
- Você teve a sua chance, não tire a vida dele. – Respondi fraca, quase chorando.
- Ele teve a chance dele. – Respondeu, estendendo a mão para encostar em meu pulso.
- Agora, Stella! – Berrei e me abaixei. Stella jogou a adaga que estava marcada com meu sangue, mas quando essa ia bater em seu braço, ele desviou. A lâmina cravou na parede, manchando-a de vermelho. Trevor balançou a cabeça, rindo irônico.
- Tentando me enganar? Bem que o Trevor tem o conceito de que vocês são espertas. Mas não o bastante. – Falou, pegando meu pulso, onde acendeu uma chama e apareceu um símbolo estranho, que formigou.
- Não, não, não! – Sussurrei, me soltando dele.
- Um toque e sua alma começa a se esvair, certo, querida? – Perguntou, sorrindo de lado como Trevor costumava fazer.
- Certo... – Confirmei, me sentindo tonta. – Mas se minha alma se esvair, você vai junto. – Terminei, sorrindo fraco.
- O quê? – Exclamou, quebrando o sorriso.
- Feitiço de quebra de almas. Conhece? – Stella falou, chegando perto e me olhando apreensiva.
- Não tem outra maneira, Telly? – Perguntei, escorrendo pela parede até o chão, me sentando.
- Tem, mas assim ele fica também... – Falou pegando em minha mão.
- Quebra de almas? Espere... Askar, taimará... União eterna? – Perguntou Trevor.
- Sim. – Falou Stella o olhando curiosa.
- Ele a amava tanto assim? – Perguntou olhando para mim, que estava quase fechando os olhos.
- Você não imagina o quanto. – Telly falou, passando a mão em meus cabelos longos.
- Me desculpem. – Falou, e eu observei que os olhos de Trevor começavam a ficar totalmente pretos.
Então, fez algo que eu não entendi. Me beijou. Senti minha alma retornando. E quando eu olhei novamente nos olhos de Trevor, apenas suas pupilas eram pretas. Ele estava de volta.
- O quê? – Exclamei surpresa, olhando para ele, que sorria.
- Ele se arrependeu? – Perguntou confuso e olhando para Louize, no chão do outro lado da sala, chorando e tremendo.
- Não. – Olhamos para onde a voz vinha e não vimos nada, só uma luz trêmula na forma de uma pessoa.
- Oh, não. Nunca me arrependo. Só que eu não podia ficar num corpo assim. A alma dele ia sempre ficar me atormentando. – A voz falou sarcástica.
- O que você fará então? – Falou Trevor, ficando na minha frente.
- Simples. Matarei todos. – Respondeu, fazendo a adaga que estava limpa voar no pescoço de Louize. Sem dar-lhe chance de desviar.
- Louize. – Stella sussurrou, com lágrimas escorrendo no rosto.
- Pare! – Exclamei chorando, enquanto me apoiava em Trevor para não cair de novo.
- Não. Isso é divertido, sabe. – Falou friamente a voz do espírito, que era um atormentado. Era a única explicação.
Trevor olhou Stella, apontando para o palito em sua cintura e fazendo um sinal de quebrar na mão. Ela assentiu e pegou o palito, dizendo:
- Se você vai nos matar, nós o mataremos. — Quebrou o palito, fazendo a voz do espírito gritar. Ajoelhou-se no chão e cravou a metade do palito de ponta branca nele, começando a recitar outro feitiço.
Abracei Trevor, e ele me deu um beijo, dizendo logo após:
- Queria que tivesse sido diferente. – Pegou minha mão e nos ajoelhamos ao lado de Stella, que terminou de recitar o poema e enfiou o outro pedaço do palito na jugular, se matando. Assim que ela fez isso, correntes começaram a aparecer em volta da sala, fazendo a voz do espírito berrar mais e mais alto. Peguei a adaga da parede que estava atrás de mim e recitei outro feitiço que sabia: Prisão de Almas.
- Sabe, seu espírito vai ser preso. – Trevor comentou como se não estivesse prestes a ser morto.
- Vocês não têm o direito! – Berrou em meio à dor causada pelas correntes. Espíritos como esse têm fraqueza com correntes em dias de eclipse. Mas, infelizmente, para o feitiço das correntes funcionar, tem que haver sacrifício. Stella se matou para tentar isso.
- Temos sim. Nós morremos, mas te levamos. – Falei, finalizando o feitiço e encostando a adaga em meu pescoço.
- Espera. – Trevor pegou-a de minha mão. – Eu primeiro. – Terminou olhando nos meus olhos e colocando a adaga em seu coração. – Se lembre daquilo que prometemos. – Falou e apertou a lâmina para se matar. Lembrei-me do que ele quis dizer. Anos atrás, tínhamos feito uma promessa. Quando morrêssemos, não iria ser para nada. Nos lembraríamos dos outros. Lágrimas escorreram, mas eu peguei a adaga de seu coração e fechei seus olhos.
- Você vai se arrepender. – Falei baixinho e recitei mais um verso, um que mudava tudo, fazendo não só o espírito morrer de verdade, mas também sofrer para sempre. Passei a adaga em meu pulso, e o sangue escorreu. Peguei um pouco em minha mão e joguei na parede, fazendo um sinal de coração e falando a última palavra. Quando o fiz, suspirei chorando e cravei-a em meu coração.
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