Magia Negra

3 Minha Cidade É Mágica - Parte final


Notas iniciais
Boa leitura!

– Eu sabia que esse dia chegaria. Só quero que saiba que tudo que fiz foi pra te proteger. Não me surpreende que tenha desvendado tudo sozinha, uma hora ou outra iria saber... E você é tão inteligente... – ela deu um passo a frente.

– Por que me escondeu todo esse tempo? Não acha que eu tinha o direito de saber?

– Eu só estava esperando o momento certo. Eu nunca quis te esconder, mas não queria que você visse esse mundo louco. É conhecimento demais pra uma cabeça só. Sabe, fadas, bruxas, centauros, elfos, sereias e tudo mais... E você era só uma criança até pouco tempo.

Stefani jogou tudas as respostas de uma vez só.

– Eu descobri tudo com os livros. Nem todos explicam só o básico.

– Eu devia saber que você iria ir mais a fundo, afinal é uma Kimonno.

– Kimonno... Nunca foi um grande nome pra mim, mas eu vi na internet o que significa. Uma família de bruxos, poderosíssima.

– Sim, o seu pai era um grande homem, filha, um bruxo muito poderoso.

– Você nunca me contou... Nem o nome dele.

– Oh, Sunori... Não precisa saber agora.

– É Dante não é?

– Como... Sabe?

Não respondi.

– Olha, ele tinha muitos recursos. Ele preparou tudo há anos. Deixou uma vaga para a sua filha na melhor Academia para criaturas mágicas. Com tudo pago. Tudo pronto pra quando ela fizesse 15 anos. E agora você tem, está preparada.

Levantei do chão ficando de frente à minha mãe, de pé. Agora já era demais pra minha mente processar. Tudo que eu sabia da Academia era que ficava do outro lado da cidade e que era como uma fortaleza, além de ser em período integral só entrava lá quem tinha status social.

– Como assim...? Eu vou estudar na Mystique Campus... Aquela escola rica? – Tudo mudou. O meu pai, que eu nem conhecia, tinha pago um colégio caríssimo pra mim, onde iria aprender mágica e bruxaria? Eu nunca fiz magia nenhuma!

– O seu pai tem o dinheiro dele. É o que ele quis te dar alguma coisa, uma herança, pra você ser alguém na vida, Su. – Ela se aproximou de mim, me tocando e acariciando meus cabelos – Não sabia que você agora mexia com internet. Está tão crescida. Eu não queria que tomasse um susto, como eu tomei, quando conheci a magia. É tudo tão absurdo, tão fora do normal. Eu nasci na Terra. Em outra Terra, onde magia não existe. Quando o seu pai me conheceu, e me trouxe pra cá, tudo mudou, eu descobri coisas que nem imaginava. Eu o amava. Daí eu engravidei de você, e ele teve de partir. Seu pai era um bom homem... Ah, ele sabia que você era menina bem antes de nascer.

– Por que ele partiu? Ele está vivo?

– Está... Mas eu não faço idéia de onde ele esteja. Filha... É melhor não saber ainda o porquê de ele ter partido. – Mamãe me olhou com ternura. – Eu tive que trabalhar fora todo esse tempo, o seu pai sumiu, e não mandava mais dinheiro como no começo. Acho que ele deve ter seus próprios problemas. Desculpa por ter estado tão ausente na sua vida por causa disso. E de ter jogado a casa como sua responsabilidade, eu não podia mais pagar empregada como antes. Mas agora você vai poder estudar finalmente, e ter um futuro, longe desta cidade eu espero.

Então, era isso. Ele sabe quem eu sou, e segundo minha mãe, me ama.

– Mãe... Lembra da minha babá, dos tempos que o papai mandava dinheiro?

– Sim, ela era a sua professora particular também. Você sempre teve que estudar em casa. O que tem ela?

– Várias vezes eu perguntei pra ela se duendes e centauros existiam de verdade, e ela sempre me negou, e escondia de mim os livros que falavam deles. Não deixava nem eu ver TV...

– Filha... Eu tive que impedir ela de te expor a esse mundo, não era o que eu queria.

– Você... Pagou ela pra me esconder a verdade?!

– Sunori, eu...

– Eu era só uma criança, mãe!

Na minha infância, as únicas fontes de conhecimento e percepções do mundo que eu tinha eram a televisão, os livros (eu estudava em casa) e a minha babá. Eu dei toda a confiança que tinha nela, e fui traída, assim como fui pela minha mãe.

A TV falava o tempo todo em duendes, gnomos, elfos e tudo mais, mas fui levada a acreditar que era ficção, o que fazia sentido e para minha inocência era suficiente.

– Por que simplesmente não sondou minha mente como fez com meu melhor amigo? – falei já aos prantos de tanto chorar, transparecendo isso na voz

– Acha que eu queria bagunçar sua mente, querida? Você é a minha filha, eu nunca faria isso. E eu ainda sou a sua mãe, não sou nenhuma megera como está parecendo. – eu a encarei sem saber mais se ela ainda era a minha mãe – e seu pai não iria querer que eu fizesse isso.

– Não faria isso comigo, beleza. Mas fez com Ricardo. Sabe, você precisa rever os seus conceitos, não pode simplesmente brincar com as pessoas como se fossem marionetes. – discursei soluçando em choros – ele também é um ser humano.

– Ele é um elfo, ele vai viver mais de 100 anos, não viu isso na internet? – Stefani agora estava com a mão pousada em meu ombro – minha menina tem 15 anos agora, está na hora de receber uma educação de verdade. Vai estudar na Academia e vai começar amanhã.

– Eu não sei nem tirar um coelho da cartola.

Disse com o máximo de ironia possível, mas com o olhar sério. Não obtive resposta; na verdade tudo se escureceu em minha volta e permaneceu assim por um tempo. Acho que dormi.

*

Lentamente eu recuperei a visão, minha mão tocava uma superfície áspera, feita de couro. À minha frente estavam dois bancos e o espelho do carro. Eu estava no Mustang da minha mãe, deitada no banco de trás. Ela estava sentada no lugar do motorista.

– Não! Você fez de novo!

– Eu quero que veja uma coisa, filha.

– E eu quero que me escute. Não pode fazer o que bem entende com as pessoas! – falei já me sentando no automóvel enquanto encarava o rosto amargo dela.

Seu dedo indicador apontava para a janela do lado do passageiro – lá fora estava o pseudo-castelo feito de pedras e rodeado por cercas fortalecidas, Mystique Campus, a Academia que “era” pra eu estudar.

– Dirigiu até aqui? – pigarreei – não adiantou nada, eu não vou estudar lá.

– Ah vai sim. E vai descobrir que sabe fazer mais coisas do que imagina.

Fiquei um tempo observando o campus, vez ou outra um ou dois alunos passeavam pelo gramado; meu reflexo na janela do carro não estava 100%, meus longos cabelos louros estavam desarrumados e as pontas pintadas de azul já estavam desbotando.

Abri a porta e saí, atravessando a rua e indo até a frente da escola. Era imensa e eu me senti tão pequena em comparação a ela...

– Você começa amanhã.

– Me deixa sozinha.

– O quê disse?

–Eu preciso ficar sozinha, entende? – elevei o tom de voz me virando e olhando minha mãe nos olhos.

– Preciso que entenda que não posso abrir mão dos seus estudos. Era o que seu pai queria.

– Eu já entendi isso, mas agora eu quero que vá embora! Saia! – gritei extrapolando comigo mesma. Stefani veio até mim, descansou as mãos uma em cada lado da minha cabeça e beijou minha testa bem demorado. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Por fim acatou-me dando a partida no carro.

Desejei que eu tivesse um celular, ligasse pro Ricardo e fosse correndo pra ele. Ou ele correndo pra mim. Mas a realidade não era essa, eu nunca tive telefone e nem luxo nenhum.

Duas garotas bem vestidas passaram por mim, provavelmente estudantes, uma loira e outra morena. Me olharam de cima abaixo, eu sabia o que estavam pensanso: “Olha aquelas roupas velhas, de segunda mão...tão feias e ultrapassadas!”, eu não estava muito arrumada e com pouca roupa afinal estava um calor daqueles.

– Olha pra isso Daiane... Parece que o Halloween chegou mais cedo!

A moça loira e a morena, que se chamava Daiane, riram. Ah não, as mechas azuis, elas estavam falando disso!

– Se lavar desbota não é querida, usou tinta da liquidação?

Provocou Daiane, a garota de maria-chiquinha. As duas riram de novo. Pronto, era isso que me faltava. A motivação final para a minha vida acadêmica.

Notas finais
Digam o que acharam please??