Magia Negra
2 Minha Cidade É Mágica - Parte I
Notas iniciais
Em frente à minha casa está a praça da cidade. É a mesma praça, a mesma fonte d’água, mas banhada pela escuridão da noite e as luzes da cidade. Ah, as luzes. Ela dá vida a tudo, de dia parecia tudo muito opaco, mas agora está tudo vivo. Como pude ficar tanto tempo sem ver isso?
Mamãe nunca me deixou sair de noite, e hoje eu descobri o porquê. Se eu estiver certa, é quando escurece que os moradores daqui mostram quem são de verdade. Eu sempre estive desconfiada disso, mas só de uns tempos pra cá que as informações certas chegaram até mim.
Estava um pouco frio, então me abracei tentando me aquecer um pouquinho, efeito que o casaquinho que eu vestia não surtia. Tinha que chegar à casa de Ricardo, meu melhor amigo, antes que minha mãe chegasse do trabalho.
A praça estava cheia de tendas de comércio, mas eu não notei nenhuma carroça quando um cavalo apareceu de súbito na minha frente. Colidi com ele e caí com tudo no chão, minha bunda amortecendo a queda e recebendo toda a dor. O animal permaneceu imóvel, mas eu nem pude ver seu cavaleiro. Agora que estava no chão, me ocorreu que não era um cavalo, porque o cavaleiro montado nele não tinha pernas, estava unido a ele, e o animal não tinha cabeça, era um ser só. Da cabeça até a cintura, um homem. Deste ponto pra baixo, um equino. Era um centauro, coisa que eu já li em livros, mas nunca havia visto ao vivo.
— É melhor olhar por onde anda, mocinha! – Disse o centauro, de patas arreadas. Sem mais delongas, tomou seu caminho.
Foi quando avistei na multidão-que por sinal era gigantesca- um rapaz muito alto de óculos, boina e um cabelo que descia até o pescoço.
— Ricardo! – Gritei, correndo até ele. Mas havia algo de diferente nele, como em todos os outros. Não tinha mudado muito, só as orelhas, eram maiores do que o normal, e mais pontudas. Eu sabia o que ele era: um elfo.
— Sunori?! O que está fazendo aqui? Pensei que não saísse pela cidade à noite. – como era meu melhor amigo, compartilhávamos tudo, incluindo a minha obediência ás ordens de minha mãe.
— É que... Aconteceu uma coisa. – Eu não podia deixar de encarar as orelhas dele. – Então você é um elfo? – Ricardo ficou um pouco sem jeito, corando as bochechas.
— Sim... Espero que não te incomode. Eu não te contei porque você não quis.
— Não, não me incomoda de forma alguma. – Um silêncio se fez por uns segundos. – Bem, sobre as nossas pesquisas, eu queria dizer...
— Vamos, é melhor não falarmos disso por aqui. –Ricardo depois de olhar em volta, pegou na minha mão e me levou por algumas ruas, até chegar a um apartamento pequeno e simples, onde entramos.
Ele fechou a porta e ficou parado de frente a mim em um corredor estreito. – É aqui que você mora? – Perguntei.
— Sim, Su. Aqui estamos seguros. Não dá pra confiar naquela gente. – Ele largou suas coisas em prateleiras e se dirigiu até outra porta, que parecia ser seu quarto. – Venha. Agora diga o que aconteceu?
Entrei devagar, um pouco constrangida por estar na casa dele, onde nunca fora convidada a estar. – Depois de descobrir tudo com os textos que você me passou e indo várias vezes na biblioteca, eu pensei que quero perguntar à minha mãe o porquê de ela ter me escondido tudo isso e esclarecer que eu já sei sobre a nossa família.
— Sim, como eu te mostrei nas pesquisas quando você me pediu. A família Kimonno é uma das principais famílias de bruxos, do mundo, sabe. São muito poderosos.
— Eu sei, mas eu nunca conheci o meu pai. Esse sobrenome não significa nada pra mim, Ricardo. – disse o olhando nos olhos.
Ele só me respondeu com o silêncio.
— Tem outra coisa que eu quero saber. Por que em todo esse tempo que nos conhecemos, nunca falou em magia até eu te perguntar? – suas pupilas negras me encararam com atenção. Eu só o conhecia há um ano, não tínhamos nenhuma amizade de infância nem nada, mas ele é meu único amigo.
Seus lábios se abriram, porém não formaram nenhuma palavra, só sussurros, então ele apagou na minha frente e caiu no chão da sala.
—Ricardo! – gritei já exaltada correndo até ele e segurando seu corpo caído – acorda! – sacudi seus ombros largos, no entanto não obtive nenhuma reação. Lágrimas já surgiam no canto de meus olhos quando a porta do apartamento de meu amigo se abriu em um sonoro estrondo.
Ergui meu olhar para o hall de entrada da residência, tudo que eu via na escuridão da noite e precária iluminação do local foi um vulto se aproximando de mim.
—Q-quem é? – gaguejei. Parecia que um nó se formava em minha garganta.
— Olá, filha. – a voz feminina se aproximou mais, e lá estava ela. Minha mãe. Sua aparência nunca esteve melhor, aparentava até ser mais jovem do que eu. Sempre quando ela voltava do trabalho o cabelo estava impecável, resultado de salão de beleza. A maquiagem, nem se fala. Acho que é o que rejuvenesce ela. Uma morena bonita tenho que reconhecer.
Agora as roupas, eu simplesmente não faço ideia de onde vem, já que não parece nenhum pouco simples. A mulher que nunca tinha dinheiro, senhora Kimonno. Até hoje não sei qual é o trabalho de minha mãe.
— Mãe? O que você fez? Por que Ricardo não se mexe?
— Fique calma, Su. Eu só o coloquei pra dormir, ele está bem. Só que é melhor pra ele não escutar a nossa conversa.
Claro que minha mãe só pôde fazer aquilo com meu amigo porque é uma bruxa, assim como meu pai. Lá no fundo eu sabia que era meio bruxa também, mas tinha medo de confirmar isso.
Bruxos, fadas, sereias, centauros... Nada disso era real pra mim até agora, eu cresci acreditando que eram apenas mitos. Acontece que nos últimos anos eu estava cada vez mais desconfiada e resolvi ir atrás de informações. Depois de muita pesquisa finalmente tive a certeza de que não eram apenas mitologia e sim parte do meu mundo, até do meu bairro e da minha cidade.
Acho que só fiquei tanto tempo sem saber disso tudo por causa desta cidade. Satterford Town tem uma espécie de código, os cidadãos precisam viver suas vidas normais de dia e não usar poderes tem até leis segundo meus estudos. As pessoas só podem mostrar quem são realmente à noite. E é por isso que Stefani, minha mãe, nunca me deixou sair de casa depois do pôr-do-sol.
— Eu tive que sondar a mente dele desde que soube que você se aproximou tanto deste garoto. Só pra garantir que ele não colocasse minhoquinhas na sua cabeça. Nada demais.
Eu não acredito que ela estava admitindo isso. Que manipulou meu amigo e ainda sorri. Essa não é a mãe que eu conheço.
— Como pôde fazer isso?! – exclamei já às lágrimas enquanto apertava o corpo imóvel de Ricardo – eu não sei mais quem você é.
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