Magia
2 Introdução - O novo professor de história
Notas iniciais
Alícia caminhava para a odiosa escola, enquanto desmanchava um penteado que a mãe fizera. Com seus dedos longos e incrivelmente ágeis logo estava livre daquela prisão de tranças.
Observou um carro ultrapassar o sinal vermelho em alta velocidade. Seus pensamentos foram direcionados a carros caindo de pontes, colisões violentas e sangue, muito sangue. Balançou com força sua cabeça e retornou a caminhar, atravessando duas quadras e chegando na escola.
A escola era um lugar grande, na fachada havia um jardim enorme, todo florido desde a entrada do verão. Crianças da quinta série estavam abrindo caminho assustadas, enquanto Alícia passava. Notou um movimento no final do corredor e reconheceu os movimentos furtivos.
— Rick! – Exclamou ao garoto se aproximava. Era alto, em parte por suas longas pernas, herança genética de sua mãe, jogadora de basquete. Seu típico sorriso travesso e o cabelo estilo ninho de rato emolduravam seu rosto. Observou ele tentar esconder um celular.
– Quem foi a vítima de hoje, hein?
— Katie – Sorriu o garoto – Será que os pais dela não a ensinaram que não se pode deixar coisas valiosas à vista? Tsc tsc. As crianças hoje em dia são muito relaxadas.
Eles entraram na sala de aula e Alícia o observou em seu “ritual” de rotina. Rick abriu uma conta qualquer de Katie e começou a digitar agilmente no pequeno teclado.
— “Irei fazer uma festa em minha casa na noite de sexta-feira. Todos estarão convidados!” – Narrou com uma imitação de voz feminina irritante enquanto postava.
Deu uma gargalhada para si mesmo admirando seu trabalho e saiu correndo para provavelmente devolver o celular antes que a garota desse por falta. Alícia revirou os olhos para a infantilidade do amigo e suspirou, de novo sozinha.
Todos os dias era a mesma coisa, sempre novas pessoas.
Da mesma forma que havia ido, Rick voltara como um raio e deu um sorriso travesso.
— Essa escola é rápida. As garotas já estão se questionando com que roupa ir, haha.
xXx
Todos estavam sentados à espera do professor. Alícia batia com impaciência suas unhas perfeitamente pintadas de rosa na mesa, batucando em um ritmo rápido o que imaginava ser os intervalos de batimento cardíaco de um beija-flor.
Tum-tum, tum-tum, tum-tum... Era realmente irritante, mas quando bate o tédio... Tudo vale.
Katie a encarou com raiva ao seu lado.
— Pare.
Alícia se limitou a olhar para a garota ao seu lado. Quem era ela afinal para lhe dar ordens? Uma garota completamente mimada pelos pais, ricos empresários franceses. Os cachos loiríssimos, faziam reflexos idiotas com o sol. Então parou de batucar os dedos, mas não por ordens de Katie, mas por que começou a pensar involuntariamente em pessoas cegas... E em como poderiam facilmente serem atropeladas por um carro. Katie, que antes a encarava, escondeu o rosto atrás das cortinas de seu cabelo loiro, mas Alícia sabia muito bem que a garota estava escondendo um olhar de horror. Típico.
Rick já estava virando para trás para contar uma piada quando um homem adentrou a sala.
Não era bem quem eles esperavam.
Era um homem completamente relaxado em relação à aparência. Cachinhos castanhos de cabelo escapavam de um chapéu de cowboy que Rick achou “maneiro” e uma grande barriga aparecia em meio a uma camisa aparentemente abotoada errado.
Lentamente, ele chegou ao centro da sala se apoiando em muletas e foi olhando para o rosto de cada aluno.
Estavam todos boquiabertos para o homem postado à frente deles, menos Rick, que resolveu logo se manifestar:
— Onde comprou esse chapéu?
Alícia bateu na própria testa. Claro. Era aquilo que todos estavam se questionando. Note o sarcasmo.
O homem observou Rick calado.
— O que aconteceu com a professora Juliana? – Perguntou Rick de volta, tentando corrigir o erro.
— Creio que tenha saído por problemas familiares, amigo. Quanto ao chapéu... É uma herança de família – mentiu — Qual o seu nome, espertinho?
— Rick. Richard Monroe. – Respondeu ele, sorrindo.
— Igual a Marylin? Bons tempos... – Disse o homem olhando sonhador para o nada.
A garota que sentava-se na primeira carteira pulou quando este pegou o caderno dela. Brincando, o homem avançou a mão com o caderno em sua direção e riu quando ela pulou novamente para trás.
– Ok, estou aqui para ensinar história – Começou, e recobrando a postura completou – E não sou venenoso.
Os outros alunos sentiram o clima de descontração e relaxaram em uma risada tímida, obviamente quebrada pela gargalhada de hiena de Rick.
O novo professor virou-se para escrever na lousa e Rick se virou para Alícia ao o foco finalmente sair dele.
— Ele me chamou de espertinho – Sorriu – Nunca nenhum professor me chamou de espertinho. Gostei desse cara.
Sorriu mais uma vez antes de virar-se para frente.
“Paul Coleman
Professor de história
Não perguntem minha idade, por favor.
*Ps: Não sou venenoso.”
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