Maga, Bruxa ou Semideusa? - 2
5 Capítulo 5 - O caminho dos deuses
Notas iniciais
Assim que chegamos à sala onde Zia estava eu me senti um pouco mais calma. Não que eu não gostasse de Carter, mas ele não parecia ser alguém que compreendia as pessoas e Sadie parecia uma boa pessoa, porém ela me assustava.
Não tive um contato maior com Walt, mas não me senti a vontade com ele, ao contrário do que me senti com Zia.
Havia um grupo de garotos e garotas do lado de fora da porta e todos olharam para nós quatro quando paramos derrapando próximos a eles.
– Ufa, conseguimos! – Exclamou Michelle, mas por azar ela esbarrou em outra garota ao tentar frear.
– EI! Olha por onde anda! – A outra se queixou ao se virar para nos olhar.
Admito que fiquei surpresa com as características dela, pois a garota tinha cabelos prateados, quase brancos, com mechas azuis e pretas. Era alguns centímetros mais alta que Michelle e estimei que tivesse entre 14 ou 15 anos. Usava o mesmo pijama preto que Rosalie, então supus que seguisse o mesmo caminho que ela, ou seja, Anúbis.
Seus olhos cintilavam perigosamente e notei que eram de cores diferentes, um era azul e o outro castanho, ou preto talvez.
– O que está olhando garota? – Ela falou quando viu que eu a encarava.
– Nada. – Respondi depressa demais e ela estreitou os olhos para mim.
Com o canto do olho percebi que Rosalie e Aaron olhavam alarmados para mim e para a outra garota enquanto ajudavam Michelle.
– Certo, então fique fora do meu caminho. – Ela disse bruscamente e voltou seu olhar para onde meus novos amigos estavam e ergueu uma das mãos na direção deles.
Por um instante nada aconteceu, então faixas do que parecia ser papel higiênico começaram a brotar das sombras atrás deles, Michelle guinchou quando uma das faixas encostou nela e deu um salto triplo que deixaria qualquer ginasta com inveja ao parar do outro lado do corredor.
Olhei para Aaron, o pobre garoto parecia uma múmia, apenas sua cabeça estava do lado de fora e ele parecia em pânico, Rosalie não parecia ser afetada pelo papel higiênico estranho, mas quando tentava ajudar Aaron levava uma chicotada na mão.
Então de repente o papel pegou fogo, consumindo o corpo de Aaron junto. Todo mundo gritou.
– Acalmem-se. – Uma voz familiar falou atrás de mim. – Richard sabe o que está fazendo.
Olhei para a dona da voz, Zia parecia tranquila, mas olhava perigosamente para nossos rostos, principalmente para a estranha garota com cabelos prateados.
– Victoria. – Zia falou em voz baixa, mas em sua voz a reprovação claramente estampada. – Já avisei que não se deve enrolar os outros iniciados em faixas de linho.
A garota deu de ombros como se não fosse nada demais.
– Tudo bem. – Falou.
– Richard, acho que já chega. – Ela falou olhando para o lado e foi quando reparei no garoto que estava ao lado dela.
Ele tinha a minha idade, talvez um ano mais velho, com cabelos um pouco compridos e castanhos, seus olhos eram quase da mesma cor que os de Zia, um castanho-dourado intenso e um pouco assustador, ele tinha a pele bronzeada e porte atlético, e também usava um pijama de linho branco.
– Tudo bem Zia. – Ele respondeu tranquilamente e fechou a mão que trazia aberta.
Olhei para Aaron, o fogo que cintilava ao redor dele havia se extinguido.
– Você está bem? – Rosalie perguntou se aproximando dele rapidamente.
– Não, mas vou ficar. – O ouvi murmurar e parecia estar contendo uma onda de náusea.
Olhei novamente para o garoto que acompanhava Zia e dessa vez nossos olhos se encontraram, por um momento estranho pareceu que ele era uma espécie de imã que me atraía para perto dele, então essa atração sumiu.
– Para dentro. – Zia falou e eu despertei de vez. – E Richard, mais cautela antes de lançar magias dessa maneira.
– Tudo bem. – O garoto murmurou ainda mandando olhares para mim. – Vou para a biblioteca está bem?
Enquanto dizia começou a se afastar e todos entraram na sala de onde ele e Zia deviam ter saído. Assim que todos entraram eu olhei para trás, ele estava a vários passos e de costas para mim, sem ter opção entrei na sala também.
Era um lugar amplo, o piso era de mármore negro polido e não havia carteiras, nem mesas, só uma série de colchonetes com uma tigela colocada na frente de cada um.
Houve um gemido coletivo dos magos ao meu redor mediante essa visão.
– Sem resmungos, quero cada um diante de uma tigela de vidência rapidamente. – Zia mandou, mas não parecia irritada. – A tarefa é simples, cada um de vocês deve buscar um objeto que pertence a vocês e que está escondido em algum lugar da mansão, para isso pedi a Sadie que adaptasse o feitiço de ocultamento, então não quero desculpas do tipo “eu não consigo porque a casa tem proteção”, estão entendendo?
– Sim Zia. – Foi a resposta coletiva quando todos já haviam tomado seus lugares.
Havia sobrado um colchonete com uma tigela e eu me dirigi na direção de ambos quando Zia me chamou:
– Nat? Você pode vir aqui?
Olhei para onde ela estava, Zia estava parada perto da porta, onde havia um enorme mosaico cobrindo toda a parede.
– Sim Zia? – Perguntei quando cheguei perto o suficiente.
– Carter não é muito bom em explicar os caminhos divinos, não é mesmo? – Ela perguntou com um sorriso, sua voz um pouco acima de um sussurro.
– Hum, acho que ele não consegue encontrar as palavras certas. – Sussurrei também e sorri de volta.
– Eu sei, por isso ele me pediu que explicasse e mostrasse para você quais caminhos você pode escolher, claro que existe uma infinidade de deuses e deusas, mas os caminhos mais escolhidos foram representados aqui. – Ela apontou para o mosaico.
– E quais são? – Perguntei em voz baixa.
– Há o caminho de Geb, naturalmente ligado à terra e a tudo que a envolve. – Ela falou calmamente e apontou para a imagem marrom de um homem gigante na parte debaixo do mosaico, rios e florestas cortando todo seu corpo. – Então temos o caminho de Nut, esposa de Geb e deusa do céu.
Segui o olhar dela e vi a imagem de uma mulher com o corpo pontilhado por milhares de estrelas logo acima, representando o céu do mosaico.
– Ela parece ser linda. – Comentei e Zia meio que fez uma careta. – O que foi?
– Nada demais. – Ela falou. – Outro caminho bastante popular é o caminho de Hórus.
– O Vingador. – Completei lembrando de algumas coisas que Liz havia me contado.
– Sim. – Zia sorriu aprovando e seus olhos se voltaram para a imagem de um guerreiro com corpo de homem com cabeça de falcão espremido entre outras duas imagens. – Esse caminho normalmente gera muitos guerreiros. Ísis é outra com uma boa quantidade de seguidores.
– Liz segue o caminho dela. – Comentei.
Zia apenas concordou, sua atenção se voltando para a imagem de uma mulher em um vestido branco e asas coloridas atrás dela.
– Também tem os seguidores de Néftis, deusa dos rios. – Olhei para a imagem da deusa ao lado de Ísis, ela era igual a outra, porém não possuía as mesmas asas coloridas. – E de seu marido, Set, senhor do Caos.
– Espera, tem um caminho para o Caos? – Interrompi, surpresa de repente.
– Hum, Set não é o Caos em si, ele só é, hum, um pouco revoltado com o irmão, Osíris. – Zia tentou explicar, mas parecia não saber como.
O mais engraçado era que eu entendi, bom, mais ou menos. Ela apontou para as duas imagens seguintes, uma mostrava um homem careca e completamente vermelho com o que parecia um cão muito bizarro ao lado dele.
Na extremidade, ao lado da imagem do deus Hórus estava o desenho de um homem com o que parecia um pino de boliche na cabeça, Set estava ao lado de Hórus, entre o deus e Ísis e fechando a fila estava Néftis.
– Esses são os caminhos mais comuns, fora o de Tot, o inventor da escrita. Bastet, deusa dos gatos. – Com esse nome ela deu um discreto sorriso e foi me mostrando cada imagem separadamente. – Shu, deus dos ventos. Sekhmet, a deusa leoa. Neith, a caçadora.
– E quanto a Rá? – Perguntei olhando para a imagem do deus sentado em seu trono, que parecia estar envolto em chamas.
Zia pareceu ter levado um choque com as minhas palavras e seu dedo pairou no ar a poucos milímetros do mosaico.
– O que tem? – Sua voz não parecia exatamente despreocupada, mas distante.
– É um caminho disponível?
– Tecnicamente sim. – Ela respondeu cuidadosamente medindo as palavras, percebi. – Porém não são muitos os que seguem esse caminho.
– Hum, eu ouvi dizer que apenas dois magos em toda Casa da Vida seguem o caminho de Rá. – Comentei e ela assentiu.
– Sim, mas isso é assunto para a próxima aula, quando você escolher um caminho, está bem?
Apenas concordei com a cabeça.
– Mas não se sinta pressionada, o caminho também vai te escolher quando for o momento certo, então não se preocupe, agora vamos prestar atenção nos outros, está bem?
Sem ter outra opção eu assenti e a segui pela sala, observando os outros concentrados nas tigelas posicionadas diante de si.
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