Madness Returns

1 As ruas de New Orleans


Notas iniciais
Essa história ocorre em 1985, em New Orleans.

Era incrível o quanto as ruas de New Orleans* conseguiam ser sombrias durante o inverno. O céu, as pessoas andando pelas ruas sem ao menos olhar para o lado, o frio congelante, mercadores de rua, crianças brincando na calçada, homens bêbados saindo de dentro dos bares... Tudo aquilo já fazia parte do meu dia a dia. Procurei a pracinha mais próxima , e me sentei em um dos bancos cobertos com um pouco de neve. A última sessão de hipnose com o Sr. Angus havia me deixado com um pouco de dor de cabeça. As sessões costumavam ser tranquilos, com o único objetivo de me fazer lembrar o que havia acontecido a alguns anos atrás. Mas de uns tempos pra cá, as sessões passaram a ser mais profundas. O Dr. Angus arranjou um novo método de hipnose para me fazer esquecer os traumas da minha infância, ou como ele dizia: “Esconder as memórias, e guarda-las para o futuro!”. Ele sempre dizia que eu não estava preparada. Os métodos pareciam funcionar, até porque, não me lembro de nada o que aconteceu.

-Srta. Lancaster, aonde esteve esse tempo todo?! O Dr. Angus nos disse que você saiu correndo depois da última sessão!- A Sra. Diana apareceu de repente, e não maneirou no tom de voz- Quantas vezes nós já dissemos que isso é o melhor pra você? Volte já para o orfanato! Eu não deveria estar aqui, e nem você!

Me levantei do banco, limpei a neve que havia em meu vestido, e obedeci as ordens da Sra.Diana sem pestanejar. Ela sempre foi a “manda-chuva” do orfanato em que eu morava, e sempre pegava no meu pé, me obrigando a ir a essas sessões ridículas com o psicólogo do orfanato, Dr.Angus. Após uma caminhada de 5 minutos com a Sra.Diana, cheguei ao orfanato, e subi direto para o meu quarto, sem dar atenção aos "orfãozinhos" que brincavam até tarde da noite no saguão. O meu quarto era o único lugar em que eu poderia ficar sozinha naquele lugar. Ficar sozinha era umas das poucas coisas que não me faziam chegar a insanidade. Ainda bem que a Annie, minha colega de quarto, completou 18 anos e foi obrigada a sair do orfanato, me deixando com um quarto inteiro só pra mim. Pena, que amanhã serei obrigada a seguir o mesmo destino...

[...] Acordei com batidas frenéticas em minha porta. Me levantei o mais rápido possível, e corri em direção a porta! A abri, e encontrei a Sra.Diana com um sorriso enorme naquela cara enrugada:

-Ei, não precisa disso tudo! Eu sei que você está animada pra eu ir embora daqui!- Pestanejei, e larguei a porta sem dar muita atenção a Sra.Diana- Só me dê um tempo para arrumar as minha coisas...

-Tudo bem! E... Parabéns!- Disse um pouco tímida- Lembre-se Grace, esteja pronta até às 10:00!

Ela saiu, mas o cheiro insuportável de café que havia nela continuou em meu quarto! Como eu odiava aquele cheiro! Abri a janela para dispersar o cheiro, e reparei no quanto o dia estava ensolarado. O que era estranho, até ontem estava congelando, e hoje o sol, ainda tímido, pairava sobre New Orleans. Isso era comum, já que o tempo da cidade sempre foi imprevisível. Talvez hoje, o dia não seja tão ruim assim. E talvez agora, que tenho 18 anos, posso mandar em minha própria vida, e ir embora desse lugar! [...] Não demorei muito para arrumar minha mala. Tudo o que tinha, era algumas roupas velhas, meu singelo vestido azul e branco, e um colar antigo, que tenho desde... sempre! Não lembro como, e nem de quem ganhei. Talvez as sessões com o Dr. Angus tenham me feito esquecer isso também! Droga! Esses hipócritas me fizeram esquecer até o que eu não queria! Isso é tão angustiante. Sempre soube que houve algo muito ruim em minha infância. Talvez seja por isso que não tenho família. Pelo menos, era tudo o que os funcionários desse orfanato me diziam. Peguei minha mala e desci as escadas, e sem querer, ouvi a conversa de dois funcionários do orfanato:

-Então, aquela pobre garota sairá hoje do orfanato?

- É, infelizmente essa é a regra para quem completa 18 anos!

-Pobre garota! Sempre tive pena dela!

-Eu também, ela não aguentaria se soubesse de tudo.

- E você soube o que aconteceu? Eu sempre achei que... Nesse momento passei pelos dois, que subitamente pararam de conversar e se entreolharam assustados. Olhei bem para cada um e segui o meu caminho. Fui para a recepção e esperei a Sra.Diana aparecer para me despedir e me entregar os papéis que comprovavam a minha saída legal do orfanato. Pus a minha mala no chão e me esgueirei no balcão a espera da Sra.Diana. Depois de tanto esperar, fui atrás dela em seu escritório, e a encontrei conversando com o Dr.Angus:

-... Não importa se ela já é maior de idade! Você sabe que ela ainda não esta preparada para parar agora com as sessões! Nós temos que ajuda-la a terminar o processo de hipnose! Ainda há muitas memórias daquele dia a espreita, e a qualquer momento podem vir a tona!

-E porque isso é tão ruim?! Ela deveria ao menos saber o que causou a morte de sua família!

-Ela ainda era muito pequena quando isso aconteceu, você se lembra bem de como ela chegou aqui?

-Não, faz muito tempo e... -Pois eu me lembro muito bem! Você tem que entender, que após uma experiência de dor e sofrimento emocional pode causar medo excessivo, depressão, comportamentos obsessivos, compulsivos e outras fobias ou transtornos , como o de pânico.

-É, agora estou me lembrando... Ela sempre acordava no meio do noite gritando, e acordava todos no orfanato...

- Quando eu vi aquela garotinha, sabia que havia algo de errado. Até agora, eu foi um dos casos mais difíceis de hipnose que já fiz em toda a minha carreira!- Dr.Angus chacoalhava sua mão no ar- O problema é, depois de tantos anos de sessões de hipnose, e técnicas para fazê-la esquecer os traumas psicológico, e pelo fato de tanto reprimir aquelas memórias por tantos anos, qualquer coisa relacionada diretamente com aquele dia pode trazer tudo a tona! Imagine tudo ao mesmo tempo! Séria terrível!

Não quis ouvir o resto da conversa, e corri de volta para o saguão. Se eles falam tanto dessas memórias traumáticas, e desse “dia terrível”, talvez o melhor seja esquecer! Não me lembro de muito o que aconteceu desde que vim para esse orfanato. A única coisa que resta em minha memória, são todos os anos que passei reclusa dentro do meu quarto. Depois de um tempo, o máximo que eu ia era até a sala do Dr.Angus para as sessões. Aos poucos, é que consegui fugir por algum tempo do orfanato, mas a Sra.Diana sempre me encontrava! Acontece que estou muito bem como estou agora! Somente um louco procuraria lembrar de desastres no passado... Finalmente a Sra.Diana veio em minha direção com vários papéis nas mãos. Não demorei muito para assina-los, rapidamente me despedi e saí em direção as agitadas ruas de New Orleans. Andei sem rumo por alguns minutos. Não conhecia ninguém, não tinha para onde ir e muito menos onde ficar. O meu plano era encontrar um emprego de meio período e alugar um apartamento em algum hotel meia-boca. Não era um dos meus melhores planos, mas era o melhor que eu poderia arranjar por enquanto. As ruas de New Orleans estão muito agitadas ultimamente, por várias vezes topei em várias pessoas, e quase derrubava a minha mala no chão. Decidi ir para algum lugar menos movimentado e ir a procura de emprego, tentei atravessar a avenida após o sinal ter aberto, mas muitas pessoas também estavam tentando atravessar, uma multidão de pessoas me empurrava no meio das outras, e acabei derrubando minha mala no chão, gritei para as pessoas pararem, mas todos fingiam não me ouvir. Comecei a se empurrada para o outro lado da calçada, enquanto via minha mala ser pisoteado e as roupas que estavam dentro começar a sair. A multidão se apressou ainda mais, pois o sinal seria aberto e fileiras de carros prontos para acelerar. Cada vez mais tentava voltar ao meio da avenida, mas o tumulto estava muito grande, e cada vez mais as pessoas me empurravam para a direção contrária da minha mala esparramada no chão. O sinal foi aberto, e no mesmo instante que os carros aceleravam eu corri para o meio da avenida em busca das minha roupas pisoteadas no chão. Por pouco não fui atropelada. Enquanto alguns carros aceleravam, outros paravam, e consequentemente causou um tumulto no trânsito. Corri para o meio da avenida e tentei junter meus vestidos e roupas jogadas no chão. Buzinas, gritos, xingamentos e reclamações. Todos em cima de mim, por ter causado tão grande tumulto por causa de poucas e velhas roupas jogadas no meio da avenida. Para a minha sorte um homem desceu de seu carro, pegou algumas roupas do chão e me ajudou a levantar. Me levou até o seu carro, e rapidamente deu partida, acabando assim com a confusão e liberando o fluxo de carros. Não sei para onde ele estava me levando, mas decidi ficar calada. Juntei as minhas roupas e as pus em meu colo. Ele não deu uma palavra, e eu, decidi não contestar. Olhei para ele com mais calma, e o observei. Aparentava ter mais ou menos 40 anos, usava roupas finas e uma peculiar cartola, que cobria o seu cabelo e uma parte de seu rosto. Ele olhava fixamente para o frente, e parecia muito calmo para quem deu carona para uma estranha.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.