Madness
7 Eros está atrasado
Notas iniciais
Enquanto o trio ria e brincava enquanto comia suas batatas, uma comoção tomava conta da lanchonete. Os olhares dos presentes se voltavam para a mesa onde os gêmeos loiros de cabelos compridos e seu companheiro de olhos dourados e cabelo cinzento se encontravam, todos encarando a mesma figura.
Um silêncio mortal se fez quando Eros percebeu que era observado e lentamente virou-se para observar aqueles que o cercavam. Um rubor esquisito subiu em suas faces. Raiva. Sem dizer uma palavra, o garoto lentamente se levantou da cadeira e deu um soco na mesa a sua frente, os olhos dourados tremendo levemente nos cantos.
– Olhem um pouco mais. Falem um pouco mais do que já falam, afinal eu sempre fui odiado por ser diferente não é?
Os presentes imediatamente baixaram as cabeças, porém ainda sem desviar os olhos do garoto trêmulo e raivoso. Os gêmeos Wess soltaram um suspiro leve enquanto levantavam e puxavam um exaltado coelho branco para sua cadeira.
– Deixe suas explosões para quando estivermos em outro lugar, Eros. – Allen repreendeu rispidamente o outro rapaz. – Já chega por hoje.
– O que raios você fez para chamar tanta atenção? — Hime passou os olhos verdes pela multidão e levantou uma sobrancelha para Eros.
– Nada! – O garoto gritou raivosamente, tentando se livrar os braços dos gêmeos. – É só... Esse cabelo. E esses olhos.
Foi nesse exato momento que o mundo de Eros começou a girar, e sua vista tingiu-se de preto. Quando o garoto acordou, se deparou com duas feições femininas idênticas encarando-o. Allen e Hime. Os gêmeos encararam o amigo com reprovação, e Eros fechou os olhos novamente, esperando o esporro.
– Nunca mais faça aquilo de novo. – Allen falou, por fim. – Nós sabemos o quão... Explosivo você pode ser, mas não em uma lanchonete. Por favor.
–Eu me recuso a dar qualquer parecer a este idiota. — Hime suspirou, balançando a cabeça. – Porém... A situação foi realmente estranha. Como fez aquilo?
– Eu não fiz. – Eros explodiu novamente. – Eu não fiz absolutamente nada!
– Eros... Eu não sei o que foi, mas você fez sim. Até sua figura estava... Diferente. — Os gêmeos se entreolharam antes de falar. – Era um você que não era.
– Mas... – Eros finalmente olhou em volta, tentando entender onde estava. – Posso saber para onde me trouxeram?
– Adivinhe. – Allen respondeu pelos dois.
Enquanto Eros assimilava o que via, abriu um lento sorriso.
– Ah, a casa de vocês.
Os gêmeos Alice sorriram largamente, enquanto o garoto de cabelos cinzentos apenas balançava a cabeça. Os pais dos Wess viviam viajando a trabalho, ou trancados em seus próprios escritórios fazendo contas infinitas, logo Allen e Hime tinham toda a liberdade de usar a casa como bem entendessem.
Ou quase isso.
– Agora Coelho idiota, nos explique exatamente como fez aquilo. – Hime apoiou as mãos nos quadris, os olhos verdes levemente apertados enquanto observava o Coelho Branco.
– Coelho? – Tanto Allen quanto Eros voltaram os olhos para a garota, que pareceu um tanto quanto surpresa.
– Eu... É... – Ela simplesmente não sabia como responder. Para falar a verdade, Hime não havia percebido o momento em que chamara Eros de Coelho.
– Bom, não importa. –Eros deu de ombros. – Eu não sei. Realmente não sei.
– Seus olhos ficaram... Desfocados. – Allen constatou lentamente. – Como se sua mente não estivesse mais ali.
– Embora a raiva fosse uma das suas costumeiras explosões de idiotice. – Hime acusou. – Isso para não te chamar de outras coisas.
– Perdão Alice, mas eu estou atrasado e quero ir para casa. — Eros bufou, os olhos dourados brilhando malignamente enquanto ele se levantava e seguia rumo a porta.
– Eros... — Allen agarrou o braço do garoto dos cabelos cinzentos e ergueu uma sobrancelha.
– Desde quando estamos brincando de Alice no País das Maravilhas? – Hime perguntou.
– Desde que Eros descobriu os poderes do Coelho Branco. – Allen respondeu repentinamente.
– Mas... O que? – Hime pareceu confusa por um segundo, para então assentir.
– Do que... Vocês estão falando? – O rapaz dos olhos dourados perguntou baixinho.
– Eu... Não sei. – O garoto Wess respondeu, segurando as têmporas. – Mas eu simplesmente sei. Entendeu?
– Obviamente não.
– Allen... Eu consigo ouvir. – A garota encarou o irmão, levemente incrédula. – Eu consigo te ouvir.
– Eu sei. – Ele respondeu baixinho. – Eu também ouço. E ouço... Não, eu o correto seria dizer que eu sinto ele.
Allen apontava para Eros, que ficava cada vez mais perdido com o diálogo.
– Me expliquem o que está acontecendo. Agora. – Ele exigiu.
– Nós somos Alice. – Hime respondeu. – Você é o Coelho. E é assim que funciona. Ainda existem outros. Alguns já se descobriram. Outros não. E nós acabaremos jogando.
– Jogando? – Eros perguntou.
– Sim. – Allen respondeu pela irmã. – Não sabemos como sabemos, mas sabemos que sabemos.
– Você mais confunde do que explica. – O garoto acusou.
– Eu sei. – O outro respondeu baixinho. – Eu também queria entender, eu juro. Mas... É só.
Enquanto Eros tentava entender o que se passava com os gêmeos e com ele mesmo, Ace e Connaweir estavam de volta ao hospital.
– Ela vai ficar bem. – O médico respondeu aos dois. – Embora eu definitivamente não consiga entender o que aconteceu. Poderia ser alguma reação a algum tipo de remédio? Talvez o choque por ver você fora do coma? Eu não posso dizer. Mas ela voltará ao normal logo.
Conn assentiu, perturbado. Ele nunca poderia admitir, mas havia sido tudo culpa dele. Ace instintivamente sabia, porém se recusara a fazer qualquer comentário que passasse de “Não é culpa sua. Vamos levá-la ao hospital.”.
O ruivo sentou-se em uma das confortáveis poltronas negras e abraçou os próprios joelhos, entregando-se ao desespero.
– Por que eu? – Ele perguntou, sem se dirigir a ninguém em especial.
– O Chapeleiro não é maluco. Ele enlouquece aos outros. – Ace riu baixinho. – É ironicamente engraçado.
Connaweir levantou os olhos por um segundo, somente o suficiente para ver que as memórias do Gato haviam tomado conta do garoto dos cabelos negros.
– O gato risonho é um garoto deprimido e isolado que não acha graça em absolutamente nada, mas mesmo assim ri como se fosse a melhor piada do mundo. Não somos quem deveríamos ser não é? – O ruivo respondeu amargamente.
– Bem verdade. – Ace respondeu, o riso perdendo-se em seus lábios. – Pode-se dizer que somos aleijados.
– Sim. – Connaweir concordou. – E provavelmente acabaremos pagando por isso. Mas quem liga?
– Sinto que realmente vamos. — O Gato imediatamente começou a rir. – Mas, pelo menos para mim, está se tornando impossível não ter atitudes que não são minhas.
– Eu entendo. – O Chapeleiro respondeu, deixando escapar um suspiro. – E estou passando a odiar aquela história.
– E qual de nós não está? — O riso alto e perturbador ecoou no corredor do hospital, atraindo alguns olhares horrorizados.
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