Made to Suffer
10 Capítulo 10: Atitudes Insanas.
Notas iniciais
WILLIE ROBERTSON
Quando tudo ainda estava por debaixo dos tapetes, eu vi um comunicado do governo interromper o jogo de futebol que eu assistia para nos alertar sobre uma onda de vírus que ocorria nas cidades. Para mim isso não passava de uma grande merda, o governo com sua preocupação elevada, portanto, continuei com minha vida. Fora preciso um espetáculo de carnificina ao vivo para minha ficha cair.
As coisas foram piorando cada vez mais e os comunicados do governo tornavam-se constantes nas televisões. Recomendavam que ficássemos em casa, estocássemos o máximo de comida possível e que jamais saíssemos na rua diversas vezes, mas a sangria vontade de manter meu filho a salvo me fez sair pelas ruas movimentadas e infectadas de East Point atrás do garoto. Ele cursava a universidade e estava no campus quando o encontrei. Não fora preciso explicar para ele minha estranha aparição, pois os boatos já tinham se alastrado.
Jack e eu nos mantemos dentro de casa durante semanas. Era um lugar seguro comparando ao show que víamos do lado de fora. Pessoas saqueavam, matavam e deixavam outras pessoas para trás. E a crueldade era tamanha que mantínhamos nossas portas fechadas para todos. A casa era segura, as janelas, portas e tubulações estavam fechadas, usávamos pouco da energia e mantínhamos um gerador sempre ao nosso lado. Porém, uma hora fora preciso deixar toda aquela segurança garantida para arriscarmos nossas vidas.
Jogar a sorte na estrada era perigoso e bem crucial. Ficamos dentro de casa até quando o governo recomendava ir para Atlanta. E quando finalmente decidimos partir era tarde demais. Atlanta estava infectada assim como os quatro cantos dos Estados Unidos e do mundo. Sabíamos poucos, porém o bastante para que sobrevivêssemos.
— Você acha que ela está viva?
Não era preciso muito para saber de quem meu filho falava. Lorraine era um verdadeiro peso em minha vida e resultava na vida de meu filho. A mulher que o abandonara nunca saiu de seus sonhos e por pior que pudesse ser; passou anos acreditando que sua mãe voltaria. Contudo, o mundo mudou e Jack mudou junto com ele.
Antes de a bomba estourar, eu mantinha meu negocio de reconstruir carros na ativa. Ele começava a ter um bom lucro e eu pensava em expandi-lo para a cidade vizinha. Aos sábados, eu juntava alguns amigos e íamos todos caçar patos terminando a noite em alguns goles de cervejas. Eu ia aos domingos a igreja e fazia minha oração diária. Ligava para Jack em todas as partidas do 49ers e lembrava-me de sua mãe; da sua partida e sua negligencia.
— Eu não sei — respondi. — Talvez ela tenha encontrado um abrigo, um acampamento ou talvez...
— Ela esteja morta! — ele completou quando percebeu que eu não conseguiria terminar.
— É por isso que você quer voltar a East Point? Você quer saber se Lorr...sua mãe fora te procurar?
Jack ficou em silêncio apenas encarando a janela e tudo que passava através dela. A estrada estava coberta por neblina por conta do temporal que sofrera há três dias. Em uma de nossas paradas, em um posto qualquer de gasolina, Daniels pediu que voltássemos. Eu temia muito, as metrópoles e cidades eram verdadeiros campos minados e arriscar nossas vidas seria perigoso demais, mas não consegui negar um pedido a ele – como nunca neguei em anos.
— Pai, eu só quero voltar lá pela última vez!
Respirei fundo para não prolongar uma briga indesejável no momento. A estrada estava perigosa e ao chegarmos à principal entrada da cidade, precisávamos seguir o plano traçado para que não acabássemos na boca de alguma horta. A neblina ainda pairava sobre a estrada e eu começava a me preocupar com a localização, se estivéssemos próximos demais os mortos nos notariam e todo o plano iria por água a baixo.
Mantínhamos os faróis acessos, porém os desligamos assim que chegamos à cidade. Como imaginei, ela estava bem pior desde o último dia em que estivemos aqui. As ruas desertas repletas de carcaças, carros e lojas saqueadas; era algo assustador. Algumas raízes brotavam do cimento velho e matos cobriam alguns carros. Uma cidade que um dia fora habitada; hoje está um caos e recheada com o cheiro de morte.
As ruas pareciam desertas e assim podíamos passar com o carro. Eu estava soando frio, mas continuei concentrado com meu objetivo. A cidade era pequena, a casa não ficava tão longe, mas era preciso passar pela praça principal e esse, com certeza, era o maior problema. Se de fato como eu imaginava, ela deve estar com uma boa concentração de mortos, complicando as coisas. Jack estava tenso ao meu lado, em diversas vezes o vi segurar firme a arma em sua mão.
Felizmente a praça estava livre assim como seus arredores. Estacionei o caminhão em frente a nossa casa e suspirei aliviado e cansado. Descemos do carro e corremos para o fundo na intenção de não atrair muitos mortos. A porta principal estava trancada à chave e muito bem protegida com madeiras e um sofá. Passei a mão na maçaneta e antes de abri-la respirei fundo, sabendo que seria estranho e até difícil entrar naquela casa novamente.
A cozinha, assim como a sala, estava do mesmo jeito que deixamos. Os armários estavam revirados, dezenas de latas vazias estavam jogadas pelo balcão e no chão. O pó era visível quando passava pelo fecho de luz que escapava das cortinas. Jack deu alguns passos a frente passando o dedo sobre a mesinha com flores murchas. As janelas estavam protegidas com cobertores e madeiras, a casa estava escura e cheirando a mofo.
— Ergam as mãos ou eu atiro! — ordenou uma voz desconhecida, vinda do escuro da escada.
Fizemos o ordenado e nos viramos. Não era possível enxergar o homem, o que me deixava mais tenso. Olhei com o canto dos olhos Jack, assustado e assombrado ao meu lado. Seu peito subia e descia numa velocidade frenética e por mais que eu também estivesse a sentir tais emoções, não conseguia demonstrá-las. Então algo na mão do cara acendeu e ele a tomou a frente de seu rosto, ao encara-lo fiquei aliviado e raivoso com a situação.
— Willie?! Cara, você está vivo!
O rapaz da voz não era ninguém menos que meu vizinho, Tommy. Eu deveria ser um tolo por não reconhecer a voz sobressaltada, mas isso não era motivo para me questionar. Eu gostaria de saber o que esse homem está fazendo dentro da minha casa.
— Digo o mesmo de você! — falei animado assim que Tommy desligou o que tinha em mãos e caminhou até nós.
Jack ao meu lado respiraou aliviado como se acabasse de escapar de uma bronca. Nos cumprimentamos brevemente enquanto algumas frases ecoavam pela sala. ‘’Eu não sabia que você estava vivo’’; ‘’Achei que era o último nesse inferno’’. Tommy estava bem mudado desde o último dia em que o vi. Os cabelos e bigode estavam grandes, o rosto estava fino apesar de sofrido.
— Papai? São zumbis?! — outra voz ecoou pela sala, porém desta não precisávamos temer.
— Não... Somos nós pequeno Crash. — Jack subia os degraus da escada e pegava o garoto no topo dela.
O garotinho também mudara com o tempo. Deveria estar com mais 2cm ou até mais, os cabelos em completa desordem, possuindo também um rosto mais magro. Ele estava mais que alegre quando nos viu.
— Desculpe Jack, mas eu peguei o seu capitão America. — Crash falou erguendo o boneco velho em mãos.
— Se você cuidou dele direito estamos resolvidos... — peguei metade da conversa antes de voltar-me para Tommy.
— E então?! O que está fazendo dentro de casa? — perguntei um pouco sério.
— Eu estava seguro em minha casa, mas... eles conseguiram entrar. Eu não tinha alternativa cara, tudo está perdido. Não tínhamos segurança e sua casa fora a melhor coisa que imaginei. — ele esclareceu.
— Desde quando estão aqui?
— Faz uma semana que chegamos. — ele respondeu.
— Tem comida? Água? Ou algo do tipo? — eu não estava mais tão revoltado com a situação, Tommy me parecia mais um desgraçado nessa vida, sofrendo da pior maneira possível.
— Os enlatados acabaram ontem e águas só têm da sua caixa.
Fiquei alguns segundos em silêncio a fitar o rosto de Tommy. Além de meu vizinho, Tommy trabalhava para mim na loja. Ele tinha variadas funções e com isso conseguia um cargo importante para criar o filho. Desde que nos conhecemos, Tommy tinha a expressão cabisbaixa. A perda da mulher com o nascimento do filho, a falta de visão de Crash, só aumentara mais para tamanha expressão. Porém, desta vez as coisas estavam bem piores.
— Você deveria ter me acompanhando quando o chamei! — eu sussurrava bravo e recebia dele um abaixar de cabeça levemente culpado. Isso para mim era estranho, pois Tommy tinha praticamente minha idade e vê-lo assim me deixava bem incomodado. — Vamos! Vou buscar os enlatados e água que tenho no caminhão.
— Filho, fique com Jack! — Tommy pediu antes de sairmos pela porta.
Matamos alguns zumbis antes de subirmos no caminhão e recolhermos as mochilas espalhadas na parte de trás. Pelo que entendi; Tommy não sabia como se defender ao encontrar um zumbi, como ocorreu quando descemos e encontramos três mortos. Tive eu que matá-los e correr o mais depressa possível para não atrair mais.
Quando voltamos, tratei de fechar a porta e reforçar a segurança com a mesa. Tommy nos falou sobre a água que ainda caia do chuveiro e Jack e eu tratamos de tomar um banho. A água caia fria, mas não me impedia de poder aproveitar disso – nosso último banho fora há três semanas e o cheiro não era lá agradável -. Enquanto eu percorria o velho corretor, pude ver a porta de meu quarto aberta e fora quase impossível não entrar lá.
A cama em desordem, o guarda-roupa aberto e as roupas reviradas. Algumas cenas passaram na minha cabeça quando entrei. Lorraine estava em diversas delas. As fotografias na parede, as imagens de Jack segurando um troféu, outra na sua beca de formatura. Eram tantas lembranças daqueles quadros e ao decorrer do corredor. Jack estava em seu quarto, procurando algo nas roupas reviradas no chão quando ergueu a cabeça e me encarou.
— Não dá para acreditar que depois de semanas, estamos novamente aqui! — ele comentou entre um suspiro.
— É... seu quarto está igualzinho, com o mesmo cheiro de meia velha — caçoei olhando para a bagunça em sua cama, no chão.
Saiu de seu quarto depois de ser acertado com duas meias velhas e fedorentas. Eu e Jack somos bons amigos, mas com toda a preocupação em saber se vamos ou não viver, momentos como esse eram raros entre nós. Tommy e Crash estavam juntos na sala com alguns brinquedos de Jack.
Eles devem ter passado por tempos horríveis, assim que os enlatados foram servidos, Tommy o atacava e seu filho ansiava cada vez por mais. Preferi deixar mais alguns enlatados à disposição e Jack fez o mesmo, estávamos contentes com um para cada. Quando eles finalmente mataram a fome, suspiraram exaustos. Eu e meu filho já tínhamos terminado o nosso fazia um tempo.
— Vocês vão ficar aqui, sobrevivendo conosco? — Tommy perguntou.
— Não, amanhã partiremos para o sul. Está ficando cada vez mais difícil sobreviver nas estradas e cidades — esclareci. — Vocês deveriam vir conosco. Essa casa, essa rua, essa cidade não é segura para vocês. E principalmente para Crash.
Ele se calou por alguns segundos, olhando para mim e depois para o filho. Eu não o entendia, não sabia qual era o motivo que o prendia nesse lugar, tão inseguro. Pelo menos no caminhão estamos mais seguros do que dentro desta casa.
— Eu não sei, Crash poderá ser um empecilho para vocês — ele se lamentou em voz baixa, aproximando mais seu rosto.
— Empecilhos são os mortos. Nem você nem Crash serão um empecilho, aliás, nos ajudaram bastante.
— Um garoto cego e um pai sem habilidades nenhuma ajudarão com o que?
— A lavar as roupas sujas.
Tommy se descontraiu um pouco, se deixando rir. Crash estava entretido numa brincadeira com Jack quando o olhei. De fato, o garoto precisará de mais atenção e dificultaria algumas coisas, mas salvar pessoas é a questão. E não importa qual é a dificuldade, ajudar pessoas nos fazem lembrar que ainda somos humanos.
— Ah cara, eu não sei... ainda acho que seremos um empecilho para vocês.
— Crash, o que você acha melhor? Ficar trancando dentro dessa casa ou sair por ali, indo de cidade em cidade? Como um aventureiro — perguntei ao garoto que levantou a cabeça ao ouvir o som de minha voz.
— Viver como um aventureiro. — ele rebateu animado.
— A última palavra foi dele, não podemos contesta-la — me virei para Tommy.
Ele não pareceu muito satisfeito, porém descansou a cabeça. Continuamos a conversa sobre diversos assuntos por longas horas e só cessamos quando todos estavam com os corpos à beira da exaustão. Deitar novamente na minha cama confortável, encarar o teto branco, tudo isso parecia gritar comigo. Era algo complexo demais para um caipira como eu. Esfreguei as pálpebras e suspirei alto para tirar toda essa maluquice que estava em minha mente antes de me virar e deixar os olhos pesar pelo sono.
Acordei quando os raios de luz reluziam no espelho. As janelas superiores nunca foram cobertas nós apenas evitávamos andar pelos quartos. Levantei ainda tonto e espionei a rua parcialmente vazia e completamente bagunçada. As lixeiras estavam jogadas, havia papeis para todos os lados.
Deixei a beira da janela antes que meu corpo chamasse a atenção de alguém. Passei no quarto de Jack para acordá-lo e desci. Tommy e Crash já estavam acordados, ele preferiu passar a noite na sala. Jack desceu pouco tempo depois trazendo um mapa em mãos. Ele o abriu sobre a mesa e chamou-me.
— Por onde deveríamos começar? — questionou observando o pedaço de papel sobre a mesa.
— Deveríamos pegar a rota leste e sairmos da cidade. Depois, pegamos a rodovia e partimos para o Sul — enquanto falava, apontava com o dedo para cada lugar que fora citado.
— Assim vai ser bem mais perigoso. Poderíamos pegar a estrada de terra que rodeia a cidade, seria mais fácil chegarmos e evitaríamos os mortos pelo caminho. — para minha surpresa, era Tommy quem opinava.
— Estou feliz por sua decisão cara! — eu o abracei brevemente e então nos viramos para o mapa.
— A estrada fica nessa parte, nós podemos ir com o caminhão e evitarmos uma horta. Podemos encontrar algumas dificuldades no caminho até a estrada, mas depois ele será totalmente livre.
— Está decidido. — Jack finalizou fechando o mapa.
— E como você decidiu que iria conosco cara? — indaguei a Tommy assim que Jack se afastou.
— Eu estava pensando e de fato é melhor conquistarmos nossa sobrevivência e não depender da casa. — ele respondeu. — E também, eu tive a concordância de um garotinho; não é Crash?
Não havia ninguém onde Tommy estava olhando. Ele olhou para todos os lados da casa e gritou uma vez por Crash. Não obteve resposta e então ele começou a se desesperar, eu e meu filho também estávamos atordoados e então nos deparamos com a porta aberta. Tommy começou a sofrer, estava indeciso se ia ou não a porta e com passos trêmulos saiu.
O grito ecoou e Jack e eu saímos também. Crash estava rodeado por alguns zumbis e sua perna estava sendo comida pelos mortos. Tommy tentou alcançar o filho enquanto eu e Jack não fazíamos nada além de atirarmos nos zumbis. As armas que conquistamos eram minhas. Cada vez que atirávamos, mais zumbis apareciam. Tommy mantinha os filhos no braço enquanto acariciava seu cabelo e o ouvia gemer.

— Jack, pegue as mochilas! — ordenei em um grito e vi meu filho se afastar. Rapidamente me virei para os dois e olhei o estado da perna do garoto. — Vamos, nós precisamos leva-los!
— Não cara, nós não podemos... — ele falou destruído.
— Nós podemos tratar isso, suba no caminhão — alguns zumbis começavam a se aproximar e nossas balas estavam acabando. Não tínhamos como nos livrar no número.
— Nós estamos mortos cara, mortos — ele retrucou estranho, talvez lúcido.
Fiquei sem entendê-lo por alguns segundos, mas continuei a encará-lo e insisti para que viesse conosco. Jack já tinha colocado as mochilas dentro do carro e gritava chamando-me. O pequeno Crash cada vez mais perdia a cor e a firmeza no olhar. Ele estava morrendo. Os zumbis começavam a se aproximar cada vez mias. Eu não sabia o que fazer, não podia deixar meu amigo para trás, mas queria ficar vivo.
Senti algo me puxar e num olhar rápido, vi Jack. Ele gritava enquanto vi Tommy se afastar, zumbis aparecerem tudo em câmera lenta. Alguns corpos cobriram a figura dos dois e eu não pude mais vê-los. Jack me colocara dentro do caminhão e partira com ele no mesmo instante. Eu não conseguia acreditar no que acabava de fazer. Eu deixava alguém para trás. Eu deixei alguém para morrer.
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