Made to Suffer
5 Capítulo 5: Doce Vingança.
Notas iniciais
No último mês sinto ter vivido uma década. Se me perguntassem como estou eis aqui à resposta: fortalecida. O fato era quê aprendi a suportar coisas horríveis, continuando em pé sem desabar nenhum momento. Mas claro isso custou muitos e muitos pontos, mas, ao me erguer, eu trazia algo. A mesma esperança de fugir desse lugar voltava com mais força.
Olhando-me no espelho oval que Scott trouxera outra vez, não me reconheço. Meu corpo perdeu peso, me deixou visivelmente fraca, meu rosto está fino, oleiras cercam meus olhos além de alguns arranhões e cicatrizes. Era espantoso me ver nesse pesadelo e o pior de tudo, sobrevivendo.
A sede por vingança me dominou. Não existe um único dia em que eu acorde fazendo planos e calculando coisas. Não existe um único momento que eu estou pensando em outra coisa, perdendo meus pensamentos em lembranças boas. Eu perdia horas do dia pensando em como escapar daqui.
Uma canção antiga escapava dos meus lábios num murmuro baixo. O vento frio invadia o quarto pela tubulação. A imagem de Scott deitado sobre a cama me excitava em acorda-lo. O pouco barulho era causado pela faca afiada em minhas mãos, arranhando a mesa de madeira.
— Angelina... — a voz de Scott ecoou ainda sonolenta pelo quarto. Ele estava sentado, com cabelos bagunçados e o rosto bem abatido.
— Para quê me chamar de Angelina? — perguntei encarando-o nos olhos. — Alguém tão íntimo pode me chamar de Angel.
— Angel... — ele sorriu. Os olhos furtavam a doce imagem da garota de cabelos parcialmente bagunçados, sentada sobre uma cadeira velha, formidavelmente sexy. Os olhos azuis pervertidos como somente ele gostava de chama-los. — Eu sinto uma enorme dor em ter que deixa-la.
— Não sinta senhor... — levantei, caminhando em sua direção entre passos lentos. — À noite, estarei aguardando-o com tamanha ansiedade.
Ele sorri caindo num jogo que aprendi ao decorrer dessa tragédia. Restituo com uma mordia em seu lábio inferior.
— Hoje à noite você terá uma surpresa. — completo.
Scott avança seus lábios nos meus, cercando-me com suas mãos nojentas. Tento me convencer de que isto é algo bom e fecho meus olhos, engolindo a vontade de vomitar. Como um verdadeiro tolo, Scott caia nos meus planos. Mantê-lo cada vez mais envolvido nos meus jogos era só mais uma das minhas vinganças. Ele não sabia como era um patinho abobado.
Assim que Scott saiu, me levantei e procurei por minhas sacolas com tudo o que Abigail havia me dado. Ao decorrer desse mês, ela conseguiu armas, enlatados, um mero kit de primeiro socorros e roupas quente para o frio que fazia lá fora. Eu precisava de botas grandes e um casaco, o mais pesado possível.
Na parede atrás do guarda-roupa estavam todos os planos baseados em rabiscos. Abigail dizia que era louca, paranoia, eu digo que é coragem. Era a coisa mais absurda e louca que eu estou fazendo, foi crescendo sem que eu pudesse notar, em questão de segundos, metade da parede estava rabiscada.
Era chegada a hora. Hoje seria o dia em que todo o sofrimento que àquele maldito me causou seria restituído. Joguei a mochila preta sobre a mesa deixando que duas armas caíssem sobre a própria. Comecei a recarrega-las como aprendi em uma das vezes que o casarão sofreu ataque de zumbis. Scott estava aqui e, ouvindo os gritos, carregou sua arma diante de mim. Eram pequenos detalhes que me formavam. Detalhes irrelevantes que me mudarem.
Era um dia quente e bem ensolarado. Hershel, encostado sobre a parede, observava suas preciosas garotas lerem um livro de conto de fadas, com os pés paralelos no ar e os corpos jogados no chão. Ao lado de cada, um enorme copo de limonada e sorvete.
— A princesa deveria se vingar da rainha, isso sim! — comentou Maggie ao final da história.
—Não... Ela era uma princesa e princesas não fazem isso. — respondeu a mais nova convicta de tudo que falava.
— Você fala isso porque ainda é bobinha. Você se vingar de alguém é fortalecer o espírito.
— Não é nada disso! — a voz grave e rouca de Hershel invadiu o quarto. A mais velha em resposta sujeitou-se em revirar os olhos enquanto Angie sorria ao ver seu pai sentar-se ao lado das duas. — A vingança nem sempre é a melhor saída.
— Como não?!
— A vingança é um ato desesperado. Saiba se controlar e, acima de tudo, perdoar alguém que te machucou. Isso é um ato de nobreza! E eu quero que vocês duas me prometam que nunca vão se vingar de alguém. Nunca!
— Nunca é muito tempo, senhor Hershel! — Maggie retrucou com sacarmos.
— Eu estou falando sério, senhorita Margareth! Eu quero que vocês me prometam nunca deixarem se levar pelo ódio ou vingança. Nunca!
—Eu prometo. — certificou-se Angel. — Ande Maggie... — sussurrou, cutucando a irmã.
— Eu prometo também!
— Nós prometemos!
— Desculpe papai... — sussurrei pensativa.
A porta se abriu e Abigail vinha com tudo o faltavam além do meu café da manhã. A velha jogou tudo sobre a mesa e sentou-se diante de mim. Agradeci sua boa vontade com um mero sorriso e comecei a guardar minhas coisas. Quanto mais estivesse arrumado, mais tempo eu teria.
— E quando você fará essa loucura? — ela me perguntou.
— Hoje. Hoje à noite! — esclareci.
— Você não acha que ainda não se recuperou?
— Não aconteceu nada para quê eu tivesse de me recurar, nada! — gritei.
— Por quanto tempo vai esconder isso de você? — ela me encarou. — Você está carregando um bebê, deve tomar mais cuidado para os dois!
Respirei fundo e me encostei a pia sem esboçar reação alguma. Eu não sabia o que fazer, mas só o fato de saber que esse bebê me remete a momentos horríveis, me faz repudiar com essa criança. Ela não merecia viver num mundo assim.
— Você sabe muito bem o que eu penso. — respondi por fim, depois de longos minutos de silêncio. — E a última decisão é minha.
— Você vai viver com isso? Com a culpa de matar seu próprio filho?
— Isso não é viver, é sobreviver.
Ela ficou em silêncio e assim permaneceu pelo restante do tempo que passou comigo. Era difícil pensar em um plano, sabendo que uma criança está crescendo dentro de você, pensar que ele vai me fazer lembrar de tudo que passei, não me dá chances. Eu não o quero crescendo só para me trazer dor, isso, se ele nascesse. Antes de fugir da UC, nós sabíamos que era preciso um simples arranhão para transformar você em um infectado.
Obvio que não é fácil pensar assim, ele é um inocente nessa história, mas eu não o quero e estou decidida. Como o tirarei dali, eu não sei, só não quero isso. Preciso me desligar de sentimentos que vão me fazer desistir de tudo que consegui até agora, tenho que garantir que sairá tudo perfeito.
Balanço a cabeça ao ver que já estava escuro lá fora. Tratei de esconder as duas mochilas atrás do guarda-roupa com o máximo de acesso possível. Assim, quando Scott fosse arrebatado, nada iria me atrapalhar.
As coisas que Abigail trouxe para eu me arrumar já estavam fora do quarto. A única coisa que estava comigo era uma cartela de remédio. Através do espelho eu encarava àquela pequena caixa já utilizada em minhas mãos, às noves pílulas já foram todas embora, restando somente uma. Respirei fundo e, encarando minha imagem tempestuosa no espelho, engoli a seco, rezando para que desta vez desse certo.
Eu caminhava ansiosa e nervosa de um lado para o outro no quarto, esperando pela volta de Scott. Tudo estava arrumado, aguardando sua chegada, os óleos e acima de tudo, meu corpo imundo. Imaginar que eu estava usando-o para algo tão pecaminoso, me provocava enjoos. Eu não queria, mas era preciso para a minha liberdade.
Nervosa e com vertigem nas pernas, acabei me sentando. Meu coração estava pulando e continuou a pular freneticamente assim que ouvi a porta se abrir. Scott demonstrava seu cansaço, mas conseguiu sorrir ao ver-me esperando por ele. Abri um sorriso por alguns segundos e o vi deitar na cama, exalando o cheiro do cansaço.
— Muito cansado, senhor? — pergunto, me aproximando e sentando-me atrás dele. — Acho que precisa urgentemente de uma massagem. — coloquei as mãos sobre seu ombro e iniciei meus movimentos calmos.
— Meu doce anjo... — ele suspirou no embalo da massagem. Eu poderia sentir como ele estava extasiado e podia usar isso em meu favor, mas eu queria algo a mais e, necessitava descobrir onde ele guardara a chave.
— Não fale senhor, apenas relaxe... Vai ser uma longa noite. — murmurei por fim próximo a seu ouvido.
Respirei fundo ao vê-lo se mover, me puxando para ficar em seu colo. Ele sorri, percorrendo seus olhos imundos por todo meu colo, voltando a sorrir satisfeito. Comecei a provoca-lo como nunca o provoquei durante um mês. Ele morde os lábios, envolvido, e eu o beijo. Enquanto nos beijávamos, procurei pelas chaves. Scott não é esperto o bastante pra escondê-la em algum local, ele sempre a trás com ele.
Intensifico o beijo, roçando cada vez meu corpo ao dele. Aos poucos procuro nos bolsos da calça e finalmente a encontro, jogo-a para longe sem que Scott perceba e sorrio. As coisas começaram a esquentar, tento me manter sã, mas algo vai me cativando aos poucos. Uma chama vai se instalando em cada canto do meu corpo.
— Você gosta de sexo? — sussurro, encarando os olhos azuis e fatigados dele. — Quero dizer, o coito... — aproximo meus lábios do seu ouvido. — Os homens acham que as prisioneiras detestam sexo, mas é uma atividade... — seguro seu rosto em minhas mãos. — Natural e excitante que todas as mulheres adoram!
Ele sorri e por algum motivo acabo sorrindo também. Senti sua mão roçar por minha coxa, fazendo um enorme caminho e deixando um arrepio frio em minha espinha. Tento respirar calma, mas a respiração ofegante de Scott me confunde, sinto meu peito arfar e acabo embalando o ritmo da sua. Meu corpo se contrai assim que o sinto, ereto e firme, dentro de mim. Acabo caindo em seus embalos, deixando meu corpo se deliciar com aquilo.
Corpos suados roçando com força um no outro. Respiração que arfa sobre meu pescoço, provocando variados arrepios em mim. Sinto que devo para, mas ao mesmo tempo, aquela sujeira me faz querer mais. Minhas mãos cravam na costas de Scott quando ele começa a beijar meu pescoço, ele desabotoou o vestido em questão de segundos. Ele me mantêm sobre seu joguinho fajuto de sedução. Ele me prende perfeitamente bem.
Nossos corpos se contraíram assim que seu liquido me invade. Inclino a cabeça para trás, procurando por ar e retomando minha consciente. Eu não poderia ter me entregado naquela maneira. Me levantei e sem que Scott percebesse, escondi uma arma. Ele estava distraído, se relaxando após o coito que só notou minha aproximação quando eu já estava bem diante dele.
— Gostou senhor? — insinuei sorrindo.
— A melhor foda de todas. — ele respondeu.
— Ótimo! Porque agora vem o gran finale! — e sem hesitar, saquei a arma e disparei, acertando o tórax de Scott. Atirei mais uma vez, acertando bem próximo dali.
O sangue começou a escorrer, sujando o lençol e seu corpo branco. Eu sorri, me deliciando com a cena. Ele tentou pronunciar alguma coisa, mas a voz parecia ter escapado dele. Joguei a arma no chão e peguei tudo o que estava guardado. A porta se abriu com dificuldade, Scott ainda germinava sangue, mas não conseguiu me alcançar escada a cima.
Estava muito frio e ventava bastante. No meio da escuridão e pressa, consegui colocar um casaco e uma bota, não me importava com as pernas nuas. Eu corria na direção em que Abigail dizia ser segura, direção norte. Os infectados eram poucos, mas eu conseguiria inverter a situação. Eu olhava algumas vezes para trás, tentando me certificar de que ninguém estava me vendo, quando me deparei com galões de enlatados.
Numa vontade súbita eu parei de correr e voltei, pegando alguns galões e jogando tudo sobre as cercas em que os infectados estavam. O isqueiro que ganhei de Abigail finalmente viera servir para algo. Com os olhos brilhando pelo fogo, eu ataquei gerando assim um grande rebuliço de fogo e pessoas gritando.
— Luke, olha! Uma garota! — o grito me fez desligar daquela imagem lúcida e me fez olhar para trás. No máximo três caras começaram a correr atrás de mim e não em direção ao fogo.
Minhas pernas se moveram sozinhas, fazendo-me correr contra a floresta escura. A cena se repetia e desta vez, eu temia que ninguém voasse contra meu corpo. A floresta era densa e assustadora, o vento frio era a sensação de liberdade batendo contra meu rosto. Em alguns segundos, eu procurava olhar para trás, tentando me certificar de que eles estavam longe, mas era tudo frustrados. Eles estavam próximos e suas risadas me debelavam.
De repente me senti sem chão e todo meu corpo batendo contra troncos. O chão frio foi ao encontro do meu rosto por diversas vezes até a pressão gelada fazer meu corpo se retrancar. Quando abri meus olhos, pouca coisa enxerguei, apenas a água gelada e marrom de algum lago. Voltei em segundos para a superfície, tremendo por conta do gelo da água. Comecei a ouvir as vozes cada vez mais próximas e tentar sair do lago seria totalmente equivocado. Prendi minha respiração e me escondi embaixo d’água.
Mesmo com a visão confusa – por conta da água – consegui enxergar os caras analisando o lago. Eles ficaram lá por alguns segundos até que foram embora. Quando voltei a superfície, minha respiração era frenética. Meu peito descia e subia no ritmo mais acelerado possível.
Procurei por minha bolsa que felizmente, havia caído fora do lago. Meu corpo todo tremia por com o frio, eu continuei a caminhar, desta vez mais me sentindo totalmente livre. Meus ossos pareciam atrofiar a cada passo, sinto meu corpo ficar pesado e, em segundos, batendo contra o chão.
Eu corria sem parar pra respirar. Estava claro, tudo era bem nítido, mas mesmo assim, minha visão me enganava. Um riso grosso me fazia correr mais, eu estava com medo, precisava me manter longe daquilo.
A floresta não ajudava nessa loucura. Os galhos fortes batiam contra meu rosto. A altura da risada fora enorme quando algo bateu contra meu corpo. Meu corpo atingiu o chão de forma brusca. Entre tapas e tentativas de me soltar, o rosto de Scott foi relevado. Ele estava rindo, eu tentei me reprimir, mas era inútil.
—Achando que ia escapar? — ele falou. Sua voz soou mais misteriosa e ameaçadora do que o normal. Engoli tudo a seco e continuei a observa-lo. — Você nunca estará livre de mim. — ele sorri. — E agora, você pagara pelo erro cometido.
Scott ergueu as mãos e cravou uma enorme faca na minha barriga. Eu sentia uma dor inenarrável, vi o sangue germinar e sem poder gritar, um choro invadiu minha cabeça. Era de bebê, estava com medo, perdido. Fiquei desesperada. Lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto e o rosto de Scott saciava-se do meu sofrimento.
— Meu bebê... não! — foi a ultima coisa que sussurei.
Eu tentei gritar, mas não consegui. Acordei com uma dor insuportável na cabeça, a luz clara incomodava meus olhos. As árvores passavam com rapidez diante de mim, me fazendo deduzir que eu estava em um carro em movimento. Sem entender nada, observei a confusão de coisas que estavam diante dos meus pés.

Aquilo que parecia ser um caminhão tinha a parte de trás livre. A cobertura era feita de pano o que me levava a ter a impressão de que estava em um daqueles caminhões usados em guerra, porém, era bem mais novo.
Eu estava desesperada em pensar na possibilidade de que estivessem me levando para o casarão, mesmo que ele pudesse ter ficado em péssimo estado. Olhei novamente para as mochilas jogadas no chão e vi uma arma, era pequena, mas serviria para alguma coisa.
— Parem o caminhão! — gritei apontando a arma para o motorista e logo em seguida, para o menino ao lado dele. Esse por sua vez era bem novo, dono de cabelos morenos e olhos claros.
— Não vamos fazer mal a você. — o gorducho esclareceu. Pelo sotaque era nítido que ele era bem caipira.
— Eu não confio em vocês. — retruquei. — Quero que parem o caminho e me deixe descer, com as mochilas que eu estava usando.
— Isso não será possível. — o garoto falou.
— Ou eu atiro em vocês!
O clima era bem tenso. Procurei não transmitir o quão eu estava com medo. Os dois estavam bem nervosos, se entreolharem por algumas vezes até o que gorducho tomou a situação.
— Nós vamos parar o caminhão e vamos conversar.
— Não! Vocês vão parar o caminhão e eu vou embora! — falei.
— E você, por acaso, sabe atirar com essa arma? Quando a encontramos, você estava caída na floresta e sangrando. Nós cuidamos de você!
Eu não conseguia responder. Toda minha postura firme se desmanchou. Eu não poderia estar sangrando, não havia machucados profundos pelo meu corpo. Ele não poderia estar morto ou eu não poderia acreditar que meu bebê estava morto. Era o que queria, mas é como se tivesse um vazio dentro de mim, um enorme vazio.
Ainda presa em meus pensamentos, nem me dei conta de que os caras ainda estavam lá. Quando voltei à realidade, o garoto segurava meus braços tentando tirar a arma das minhas mãos. Eu tentava manter a arma em minhas mãos, mas os movimentos do garoto eram certos e precisos. No meio da confusão, consegui segurar a arma e sem hesitar, atirei, acertando o vidro da frente.
— Parem os dois! — o gorducho gritou, tirando a mão do volante.
Em questão de segundos, tudo estava girando, centena de coisas batiam em mim. Minha visão foi ficando cada vez mais bagunçada quando senti um grande baque e uma dor absurda na cabeça, havia muita fumaça.
Meu corpo estava jogado pelo asfalto ao lado de alguns destroços do caminhão e mochilas, que foram arremessadas com o capotamento. Eu pensei em fugir, mas olhei para o lado e vi o garoto novo com um enorme machucado no braço. E mesmo depois de tentar matar um homem, eu não era capaz de deixar alguém morrer. Essa não era eu. Ainda restava humanidade dentro de mim.
Fale com o autor