Made of Fire
59 XXIV. Onde minha alma está
Notas iniciais
Por muito tempo eu pensei que eu não pertencia a lugar algum.
Ou melhor, que eu não seria capaz de pertencer.
Isto é porque para ser capaz de pertencer, primeiramente, eu precisava ser capaz de ser. E eu não tinha o que era necessário: vontade, força, coragem.
Eu precisava enfrentar a mim mesmo em uma batalha pela minha alma. Eu precisava me encontrar, me fundir, me amar. Mas a cada pingo de valentia me assombravam quilos de receio. Eram sombras de puro medo, mais fortes, mais valentes, mais empenhadas do que eu mesmo. Era um infinito e incontestável medo de assumir a minha verdadeira forma, e o meu verdadeiro ser.
Para mim, o maior monstro era a minha sexualidade. Enquanto para outros é uma doença, uma vocação, um trabalho, um hobbie, seu gênero, sua paixão, sua vontade inagualável de tocar violão enquanto os pais o sufocam com o peso de ser médico como a família.
No fundo, é sempre a mesma batalha. É a mesma batalha de você mesmo, do que você gosta, do que você quer, a quem você ama, contra o seu impostor, munido com colete de dúvida, armas de insegurança e balas de medo.
E eu sabia que eu era um impostor. Sabia que a cada verdade, acompanhavam duas mentiras. E eu não me encontrava, porque eu não me permitia ser. Eu não conseguia me livrar do impostor e enquanto eu não me livrasse dele, eu não conseguiria me encontrar.
E se eu não me encontro por inteiro, se eu não sou por completo, como é que vou encaixar no mundo? Como encontrar um lar para uma pessoa incompleta?
Eu sabia que, embora eu pudesse levar meu corpo para onde eu quisesse, minha alma continuaria a vagar por aí.
Solta, mas não livre. Próxima, mas nunca o suficiente.
Eu demorei muito tempo para finalmente me encontrar. Eu encontrei o caminho de volta. Eu tive o arbítrio suficiente para encontrar a mim mesmo e para fundir-me, enfim, com meu verdadeiro ser.
Ainda tenho muito caminho pela frente, e pode ser que eu ainda não esteja totalmente em sincronia com a minha alma, mas o importante é que eu já faço parte dela. Ou ela faz parte de mim?
Eu sei, agora, que eu pertenço. Também sei que o meu lugar não tem nada a ver com onde meu corpo está, tem a ver com a minha alma quer ficar.
Se ela decide permanecer, ela fica.
Se ela decide partir, ela vai.
*
— Feliz aniversário, mãe!
Abracei-a por trás, quando adentrei em seu quarto, enchendo-a de beijos e a esmagando em um abraço apertado.
A Sra. Jones estava em frente ao seu espelho, já marcado pelo tempo, no quarto. Vestia um vestido vermelho que valorizava seu corpo esbelto. Os cabelos castanhos estavam erguidos em um penteado simples e os olhos castanho-esverdeados estavam contornados por maquiagem.
— Você está linda.
Ela riu, me dando dois tapinhas no braço, mas eu apenas acomodei meu rosto na curva de seu pescoço, admirando-a.
— Que susto, menino! — reclamou, embora risse. Me olhou pelo espelho, com um sorriso. — Obrigada, meu bem. Você também está lindo.
Fiz uma careta, olhando-a com humor.
— Eu nem me arrumei ainda.
— Você não precisa se arrumar, já nasceu perfeito — retrucou ela, naquele tom amoroso de mãe. Revirei os olhos.
Ela ia se virar em minha direção, mas eu a impedi.
— Não, fica. — Afastei-me um pouco, tirando o presente do bolso. — Eu comprei um presente.
Quando ela começou a discursar que não precisava e que iria devolver, e que eu podia trocar por algo que eu precisasse, e que os filhos são os maiores presentes da vida dela, eu apenas sorri, quieto.
— Ah, meu deus, Will! — exclamou, com os olhos presos na caixinha que abriu. — É maravilhoso! Parece um daqueles colares de gente fina, gente chique — murmurou, deslumbrada, e eu gargalhei.
— Sim! — concordei, espiando o colar mais uma vez. — Foi o que eu disse! — Ela espiou pelo espelho, com os olhos encantados, à espera de uma explicação. — Bom, o Turner me ajudou a escolher. Você sabe como são essas pessoas ricas — falei, revirando os olhos, e ela riu. — Mas eu que irei pagar, então o presente é meu — acrescentei, orgulhoso. — Bom, meu e do Caleb, você sabe.
Ela assentiu, me entregando o pingente para que eu colocasse nela.
Ah, pois é, dona Jones! Cadê o “meus filhos são o meu maior presente” agora?
Ri internamente, pegando o colar banhado a ouro, e coloquei por sobre seu pescoço. O colar em si era fino — em todos os sentidos, minha mãe merece! -, tinha um pingente de tamanho médio, que se assemelhava à uma tocha de ouro, envolto por minúsculas pedrinhas — cada uma custou um órgão diferente, a propósito — transparentes.
Pensei em comprar algo que fosse específico ser para nossa mãe, mas achei besteira. É aniversário dela, ela está entrando em uma nova etapa da vida, com um novo amor, e um futuro brilhante, e ela é uma mulher maravilhosa. Merece um presente à altura.
Sorri, aliviado ao perceber que aquele era o sorriso genuíno de quem havia amado o regalo. Sim, minha mãe tem um sorriso falso para quando ganha um presente ruim.
Ela se virou e me abraçou com vontade, agradecendo e não deixando de repetir o quanto eu sou um filho maravilhoso e que o mérito é todo dela por isto. Mães!
— Quando é que vai me contar o que está acontecendo? — perguntou, me pegando de surpresa, ao olhar nos meus olhos.
Pigarreei, desviando o olhar. — Do que você está falando?
Ela levou uma das mãos para o meu rosto, fazendo um carinho que me fez ter vontade de chorar. Por que mães fazem coisas assim, afinal de contas?
— Você anda pensativo, distraído, carinhoso... — acrescentou, com um sorriso.
— Eu sou sempre carinhoso! — reclamei, embora também quisesse acrescentar que sou sempre distraído e moro no mundo da lua.
— Ah, mas você fica mais grudento quando está triste — comentou, e eu deixei escapar um suspiro ultrajado. Ela riu, apertando minha mão na sua, de forma que meu sorriso se esvaiu aos poucos. — Eu te conheço, Will.
Senti o coração afundar no peito, e suspirei, desviando o olhar. Mordi o lábio inferior, pensando em como contar. Ainda não era hora, porque eu ainda não havia admitido para mim mesmo e não iria anunciar aos outros.
— Eu estou com medo — sussurrei, ao erguer o olhar para ela.
Minha mãe piscou, unindo as sobrancelhas em preocupação. Tentou me decifrar por um minuto, mas eu sabia que ela não conseguiria.
— Medo do quê, Will? — Usou um tom mais baixo também, inconscientemente.
Engoli em seco, balançando a cabeça.
— Eu não sei — murmurei, para logo suspirar. Forcei um sorriso. — É só que... As coisas estão mudando. Eu sinto elas mudarem. — Isto pareceu deixá-la ainda mais confusa. — Você está feliz novamente, e está namorando — falei, com um sorriso, e pude ver que ela abriria a boca para dizer algo sobre eu não precisar ter medo disto. Só que ia além. — Caleb está crescido. Gabe e Laurel estão juntos. K está namorando mais uma vez. Tia Kira conseguiu um emprego depois de tanto tempo, e o Turner...
Suspirei, impedindo-me de falar, vendo os olhos atentos de minha mãe em mim.
— Eu sinto como se as coisas estivessem mudando tão rápido, para todos, mas para mim não — sussurrei, quieto. — Eu continuo o mesmo.
Mamãe balançou a cabeça, sorrindo.
— Meu bem, mas você mudou tanto! Você não precisa de um novo namorado ou de um emprego ou de um corte de cabelo — brincou — para marcar todas as mudanças que você teve durante este último ano — falou, e eu pisquei para afastar as lágrimas. — Você também está crescido. Will, olha pra mim — pediu, com os dedos fazendo com que eu focasse os olhos nela. — Você está infeliz?
Eu estou infeliz?
Durante o último um ano e meio, algumas coisas mudaram. Foi quase um salto olímpico de tanto que mudaram.
Eu fui reprovado pelo professor que mais odiava, então me apaixonei por ele, eu saí do armário abertamente, eu fui espancado, eu tive a pior discussão da vida com a minha mãe, eu fui acolhido pelo meu irmão, pelos meus amigos, eu conheci a família do meu namorado — nunca imaginei que eu diria isto -, eu quase perdi o amor da minha vida — e pior do que isto, quase o perdi pra morte -, eu reencontrei um amigo de infância, ele me beijou, e ainda por cima resultou ser o amante do meu agressor, minha mãe começou a namorar, descobri que meu irmão pode ser como eu, e por fim, a tormenta passou e tudo havia se tornado calmaria.
No meio de tudo isto, eu ainda consegui melhorar minhas notas na faculdade, me empenhar mais e me dedicar mais aos meus estudos. Cada passo meu, aos poucos, me leva para a minha formação em Administração, o meu sonho de consumo, e eu vou poder finalmente ter minha própria vida e ter uma base pra dar para a minha família o que eles merecem. O que nós merecemos desde sempre, mas não tivemos a oportunidade de ter.
Não.
Eu não estou infeliz. Pelo contrário, eu nunca estive tão bem e tão satisfeito em toda a minha vida. Eu encontrei muito mais do que eu achei que algum dia iria encontrar.
Eu encontrei a mim mesmo. Eu encontrei o meu lugar.
Eu estou exatamente onde eu deveria estar.
— Não — respondi, limpando a lágrima que escorreu, com rapidez. — Eu estou muito feliz. Este é o problema.
Isto trouxe um sorriso ainda maior em seu rosto, embora eu ainda pudesse ver uma ruga de preocupação.
— Mas, Will, você merece toda a felicidade do mundo — concordou ela, sem entender. — Você merece estar feliz. Então qual é o problema? — Balancei a cabeça. — O que não está me contando?
— Eu não sei se eu vou ser feliz por muito mais tempo — falei, erguendo os ombros. — E-eu tenho que fazer uma escolha, e eu tenho medo que ela me deixe infeliz.
Minha mãe suspirou, provavelmente percebendo que eu não diria muito mais. Analisou-me bem, e sorriu uma vez mais.
— Você soa como se já soubesse o que vai escolher — disse ela, sábia. Senti o lábio tremer e o escondi no processo. Assenti, em seguida. — Foi o que eu pensei. Willl... — Ela também tinha os olhos brilhosos demais. — Se for a escolha certa, não te fará infeliz — murmurou. — Se for a escolha certa, pode ser que traga algumas consequências e que te faça sentir como se fosse a escolha errada, mas... — Suspirou. — Se você sente que é isto que você quer, que é isto que te fará feliz, mesmo que te faça passar por um perrengue no processo — acrescentou, com rapidez, quando eu ia abrir a boca —, então você sabe que é a escolha certa.
Sorri, erguendo a cabeça para o teto para afastar todas as lágrimas e as energias ruins. Ela riu. Cocei os cabelos, nervoso, antes de olhar pra ela mais uma vez.
— Parece que você fala por experiência própria — deduzi, vendo-a dar de ombros, com um sorriso. — Obrigado, mãe.
Ela me abraçou mais uma vez, afagando meus cabelos em suas mãos. Contornei seu corpo com meus braços, sentindo seu cheiro de mãe, e fechei os olhos, aproveitando o momento.
— Sempre que precisar, meu bem.
— Hum, Will? — chamou Caleb, da porta do quarto. Desvencilhei-me dela rapidamente, limpando o rosto mais uma vez e virando-me para ele. — Turner está aqui.
De tanto chamá-lo de Turner, todo mundo começou a chamá-lo assim. É como se fosse o primeiro nome dele. Com exceção da minha mãe, que insiste no Richard e, quando se sente mais à vontade, arrisca um “Rich”, que eu sei que ele odeia, mas finge do contrário.
Assenti, sentindo os olhos carinhosos da mamãe ainda em mim.
— Já entreguei nosso presente, Caleb — contei, apontando para ela, no intuito de espantar o desânimo em mim.
Caleb, que só tinha a cabeça para dentro do quarto, entrou por completo ao analisá-la. Os cabelos escuros haviam crescido, ao contrário dos meus, que eu insisti em cortar, ele havia pegado um pouco de cor de tanto ficar no sol e os olhos verdes pareciam mais escuros que o normal.
Caleb está crescendo, como eu falei.
— Ficou linda, mãe — disse, assim como eu, com um sorriso. Então, tirou as mãos das costas e entregou o papel que eu nem havia percebido que estava em suas mãos. — Eu não tenho como dar muita coisa, ou pagar algo sofisticado, mas fiz isto pra você.
Ele havia feito um desenho dela que percebi estar adormecida no sofá. Entendi instantaneamente que era isto que ele desenhava quando ela adormeceu assistindo filmes com a gente. Ele não havia parado de rabiscar por um segundo.
Aproveitei a deixa pra me retirar, saindo de seu quarto e caminhando até a sala, onde aquele homem lindo se encontrava, com um presente em mãos.
— Cheguei cedo? — perguntou, com um sorriso fraco.
— Um pouco.
Eram cerca de seis horas da tarde, nem ao menos a família Ishikawa havia chegado. O bolo estava feito, os doces, os salgados, tudo preparado. Ali dentro de casa tudo parecia normal, mas o jardim dos fundos da casa estava todo iluminado.
Havíamos preparado uma festa e tanto. Mais do que isto: mamãe havia deixado, e havia incentivado um festão para ela. E ela nunca fazia nada assim, então eu já podia imaginar que tinha um motivo por detrás. Alguma revelação, alguma novidade, algum outro motivo para comemorar.
Nem tentei esquentar a cabeça adivinhando do que se tratava, porque não tinha psicológico para isto agora.
É como eu disse antes. Tudo está mudando, e eu posso sentir enquanto muda. É como um quebra-cabeças se movimentando até que as peças estejam em seu devido lugar. Embora sabe-se que a imagem muda novamente, e que as peças se movimentarão também, até que encontrem novos encaixes.
Aproximei-me dele, passando os braços por seu corpo e enfiando o rosto em seu pescoço. Ouvi-o suspirar, deixando um beijo em meus cabelos e cercando-me com seus braços também.
— Você já deu uma resposta? — questionei, quieto, em seu abraço.
— Não — sussurrou, colocando um pouco mais de força no abraço.
Fechei os olhos, inspirando seu cheiro amadeirado e o resquício de cheiro de sabonete. Fiz carinho em seus cabelos, como se tivéssemos todo o tempo do mundo ali, para nós dois. Era como se a sala ao nosso redor sequer existisse.
Não sei quanto tempo se passou. Eu podia ouvir os risos da minha mãe e a voz de Caleb vindos do quarto, e a música alta que vinha do quarto de Kaori da casa ao lado.
Mas o único som que se destacava era o som de sua respiração calma, inconsciente e mecânica.
Flashback on
Verdes nos cinzas. Cinzas nos verdes.
Estávamos sentados de frente um para o outro, na sala de seu apartamento. Eu estava sentado na mesinha em frente ao sofá, e ele estava sentado neste. Ambos com os corpos inclinados para frente.
Dei um tapa em seu joelho.
— Desembucha, Turner! — pedi, já sem paciência. A última vez que ele enrolou para me contar algo desta forma, era que praticamente uma máfia inteira de Mallow Coast queria a cabeça dele em uma bandeja e ele teria que voltar a fazer parte dela.
Turner abriu e fechou a boca algumas vezes.
— Vou te dar três segundos. Um — contei, vendo-o alargar os olhos —, dois...
— E-eu recebi uma proposta de emprego para o norte do Estado, eu tenho até segunda-feira para responder e eu teria que partir em três meses.
Pisquei, digerindo cada uma das palavras.
Proposta de emprego?
Norte do Estado?
Até segunda-feira?
Partir em três meses??
Os olhos acinzentados pareciam culpados e eu quase podia enxergá-lo como um dragãozinho com a cauda entre as pernas. Me analisava com cuidado, e não disse mais nenhuma palavra depois da verborragia anterior, esperando por uma reação.
Quando me dei conta disto, fechei a boca que havia aberto, e pisquei mais algumas vezes, sentindo a cabeça doer de tanto pensamento solto que resolveu se contrapôr dentro dela.
— Você vai embora? — perguntei, em um sussurro, a única sentença que se repetia de novo e de novo na minha cabeça.
Turner negou, com a cabeça, tantas vezes que não sei como ele não ficou tonto.
— Não — falou, continuando a negar. — Não, eu... — Suspirou, levando o corpo para trás, apoiando-o no sofá. — Eu só achei que devia te contar, porque... — Suspirou mais uma vez. — Eu estou pesando as coisas, para ver se há alguma forma de eu fazer isto, mas se não há, eu não vou a lugar algum — afirmou, sério, com os olhos nos meus. — Eu só fui pego de surpresa. Eu não esperava por isto agora, Will — desabafou, passando a mão no rosto.
Me ajeitei na mesinha também, engolindo em seco.
— Ok — falei, pensando. — Ok... — repeti, nervoso. Balancei a cabeça, desistindo: — Me explica melhor.
Ele assentiu, aproximando-se de novo de mim.
— Edwards estava de licença e ficou um tempo em Lydris. — Assenti, com a atenção total ali, e o coração total na boca. — Ele me procurou semana passada e contou que Hardwick estava com uma vaga aberta na UFLY, mas que não queria preenchê-la com qualquer um. Edwards, então, me indicou para a vaga, porque Hardwick conhece a minha família, e como eu já fui lá uma vez, ele sabe quem eu sou — contou, rápido, se atrapalhando nas palavras. Pisquei, tentando acompanhá-lo. — Edwards me passou o contato dele, e eu fui atrás para saber se aquela era mesmo uma proposta real. E depois de horas conversando, ele finalmente me ofereceu o emprego. Will... Hardwick, em pessoa, me ofereceu o emprego — falou, tentando passar a grandiosidade da situação. Ao perceber que eu não sabia de quem se tratava, acrescentou: — O prof. Dr. Hardwick é o atual coordenador do curso de Contábeis, na Universidade Federal de Lydris. Você conhece, não é?
— Claro. É a maior universidade do Estado — murmurei, sentindo-me murcho ao já imaginar do que se tratava tudo isto.
Turner pegou minhas mãos, os olhos brilhavam em animação, embora tentasse disfarçar.
— Will, eu já visitei a UFLY quando eu era um estudante. Eu estava em um momento difícil, em que me questionava se queria mesmo terminar a faculdade, e quando fizemos a visita, aquilo me motivou a ir até o fim. UFLY é enorme — contou, com os olhos brilhantes nos meus. — Ela é o dobro da HFU, com cursos novos, ensino avançado, tecnologias melhores do que as nossas, sem falar nas oportunidades oferecidas por lá. Esta é A Universidade, Will — falou, balançando a perna em agitação.
Engoli em seco, assentindo, porque não sabia o que mais fazer além disto. Ouvir. Assentir. Concordar.
Forcei os neurônios a funcionarem com mais rapidez, franzindo o cenho.
— E qual, exatamente, seria o emprego? — questionei, por fim, sentindo o coração bater mais fraco.
Ele sorriu, como se não pudesse evitar.
— É o emprego do Hardwick — contou, e eu alarguei os olhos, impressionado. — Ele está se aposentando cedo, e ele não quer deixar nas mãos de qualquer um. Ele me indicou para o cargo, já que o Edwards praticamente fez meu caso para ele — riu com a lembrança. — É claro que eu vou ter que lutar pela vaga com os outros concorrentes, já que a escolha final não é do Hardwick, mas eu realmente acho que consigo isto — falou, animado. — No início, eu quis recusar, porque eu gosto de ser professor, você sabe — falou, e eu assenti, pela vigésima vez. — Só que ele me garantiu que eu poderia continuar sendo. Eu poderia dar algumas matérias, as que fossem possíveis, já que no início eu não vou poder ser muito exigente, até poder me encaixar em algo mais específico que eu goste. E tudo isto como coordenador do curso, como a maioria faz.
Puxei uma grande quantidade de ar, para poder respirar, porque estava difícil. E logo a soltei, forçando um sorriso.
— Uau. — Foi tudo o que eu consegui dizer.
Aquilo fez a expressão animada de Turner murchar e ele voltou com aquela culpada.
— Will, é claro que eu não... — Engoliu em seco. — Eu não... Eu não estou dizendo que eu vou aceitar. Eu só estou procurando uma solução para que isto possa funcionar, mas se não funcionar, eu... — Negou, com a cabeça. — Eu não vou aceitar, Will.
Suspirei, deixando todo o meu egoísmo de lado.
— E por que não? — questionei, surpreso como minha voz não saiu falha. — Esta é uma oportunidade incrível.
— Eu sei — murmurou ele, deixando os ombros caírem.
— Você teria que se mudar para lá? — questionei, pensando com pesar que Lydris fica há uns 500, 600 km de Hybridfield.
Turner sorriu, triste.
— Sim, eu não teria outra escolha — falou, e eu já imaginava que não. — É muito longe, não tem como eu ir e voltar todo dia ou toda semana. — Tomou uma pausa, e só percebi que eu encarava o chão quando ele ergueu meu rosto pelo queixo, me olhando nos olhos. — Mas eu não vou a lugar algum sem você, anjo.
Franzi o cenho, tentando desvendar o que havia por detrás de seus olhos. Ao passo que entendia onde que ele queria chegar com aquilo, senti o coração apertar ainda mais.
— Mas... Mas eu não posso ir — sussurrei, nervoso.
— Eu posso conseguir uma transferência sua para lá — tentou, com a voz baixa, como se para não me alarmar. — Tudo o que eu precisaria fazer é pedir.
Abri a boca, querendo dar a resposta que ele queria, mas não pude.
Desde o momento em que ele começou a falar sobre ir para longe, minha mente tentava achar alguma brecha na situação toda. É claro que ir junto com ele era uma dessas brechas, mas eu não podia.
Eu estava literalmente no meio da faculdade, eu tinha meus amigos, minha família, minha vida aqui. Eu não podia simplesmente largar tudo e ir com ele.
Era uma oportunidade incrível... Para ele. E, embora esta realmente fosse uma ótima universidade, isto ainda não cobriria o fato de que não é uma oportunidade incrível para mim. Se a UFLY ficasse aqui, na cidade, eu ficaria mais do que feliz em me transferir para lá. Céus, eu já teria feito isto desde o princípio!
Mas não é o caso.
— Eu não posso.
Turner sorriu, fazendo carinho no meu queixo.
— E eu não posso ir também — admitiu também, roçando o nariz no meu.
Soltei a respiração, que nem percebi que havia prendido, e não consegui engolir devido ao nódulo na minha garganta.
Sorri, com carinho, para ele.
Me admirava que ele tivesse disposto a deixar isto passar por minha causa, por amor à mim, mas isto não era certo e muito menos justo. Me admirava que ele estivesse tentando, ao menos, contornar as coisas por mim.
— Não, não seja essa pessoa — pedi, em um murmúrio, balançando a cabeça. — Não recuse uma oportunidade incrível por causa de um namorado. Eu não... Eu jamais iria querer que você fizesse isto.
Desta vez, Turner assentiu, nervoso.
É óbvio que ele já sabia disto. Se fosse a situação reversa, ele saberia o que diria a mim, e era o mesmo que eu disse a ele.
— Will... — Negou, passando a mão nos cabelos. — Eu já fiquei longe de você, por apenas duas semanas, e eu quase fiquei louco. — Suspirei, desviando o olhar. — Eu não posso... Eu me recuso a fazer isto de novo.
— Foi diferente — falei, receoso. — Você tinha uma arma apontada na cabeça — falei, metaforicamente, e o vi engolir em seco. — É claro que quase ficou louco. E eu... — Mordi o lábio, frustrado, ao lembrar de Peter. — Bom, você já sabe. Mas aquilo foi diferente, e eu juro que nunca mais vai acontecer nada parecido de novo.
— Will, pelo amor de deus — gemeu ele, agoniado, ao puxar meu corpo até que eu estivesse praticamente sentado em suas pernas. — Eu confio minha vida à você — falou, pegando meu rosto em mãos. — Isto não é falta de confiança, é falta de... É falta de contato. — E, como se para explicar, terminou de grudar todo o meu corpo no dele e circundar o meu com seu braço. — Como é que a gente vai sobreviver juntos, estando separados?
Colou a testa na minha, e eu mexi em seus cabelos no processo. Em seguida, me joguei ao seu lado no sofá, ainda abraçado nele.
Não soube o que responder.
— E eu nem sei por quanto tempo vai durar — continuou, nervoso. — Um ano? Dois? Pra sempre? — Engoli em seco. — Eu não sei, e eu não quero saber, porque eu não posso fazer isto longe de você. Você é mais importante que um simples emprego.
Apesar de suas palavras esquentarem meu coração, que já o pertencia, aquilo me fez sentir minúsculo.
— Mas eu... Eu não posso ir junto — declarei, porque embora meu corpo implorasse para não ficar longe dele, ao mesmo tempo tudo em mim me dizia para ficar onde estou.
Turner me deu um beijo rápido.
— Eu não estou pedindo, Will... — murmurou, triste, com a testa na minha.
Levantei-me, sentando em seu colo, admirando-o com um pouco de distância entre nós. A expressão era desolada, os cabelos um tanto fora do lugar e os lábios vermelhos.
— Eu sei que não — falei, sério. — Mas eu também sei que você quer. — Ele negou, com os olhos nos meus, embora eu pudesse vê-los marejar. — Eu sei que quer. — Ele parou de negar, descendo os olhos e as mãos para o meu peito. — Só que eu não posso largar a minha família, os meus amigos, a faculdade... Eu não posso — sussurrei, vendo-o fixar os olhos e as mãos em meu peito.
— Eu sei — murmurou ele, erguendo o peito até encostar no meu. Juntou nossos lábios em um beijo lento. — Eu entendo.
Ficamos abraçados assim por um tempo, ao passo que eu continuava em seu colo, com uma perna para cada lado de seu corpo. Trocamos apenas alguns beijos rápidos, os dois com as cabeças funcionando à mil.
Se eu fosse com ele, eu acabaria infeliz. Se ele recusasse para ficar comigo, ele ficaria infeliz. Se ele fosse e eu ficasse, era provável que não sobreviveríamos. Ao menos, o nosso relacionamento não.
De todas as opções viáveis em minha mente, embora eu não tivesse certeza da minha decisão, da minha escolha, me dei conta de uma opção que eu não aceitaria.
Não aceitaria de jeito nenhum.
Desfiz-me do abraço subitamente, fazendo com que ele olhasse para cima, para mim, depois de minutos em silêncio. Encarei as orbes cinzentas, como um dia nublado, que sempre me faziam sentir em casa.
— Você vai ter que me prometer uma coisa — falei, e o vi hesitar. — Prometa que não vai recusar este proposta por minha causa.
— Will... — começou, mas eu calei sua boca com o dedo indicador.
— Prometa, Turner — pedi, quase implorando, ao olhar em seus olhos. — Se você recusar, vai ser porque realmente não quer este emprego e não porque não quer ficar longe de mim. — Ele permaneceu, com os olhos vermelhos, em mim, não querendo dizer nada. Firmei a voz no que pareceu uma ordem, por fim: — Prometa.
Turner suspirou, deixando a cabeça cair ao se apoiar no meu pescoço.
— Eu prometo.
Flashback off
No fundo, eu sabia qual seria a resposta dele. Eu sabia qual era a escolha certa para ele, da mesma forma que eu sabia qual era a escolha certa para mim.
Era uma pena que não fossem a mesma.
— Atrapalho?
Desvencilhei-me de Turner a tempo de ver o sorriso, sem jeito, de Kaori. Sorri também, observando-a com carinho. Os cabelos estavam compridos, negros como a noite, quase até a cintura. Os olhos escuros e puxados estavam em Turner, já que ela o cumprimentou em seguida, na ponta dos pés, e já usava o vestido para a festa.
— Trouxemos o resto das fornadas — disse ela, apontando para a cozinha. — Quem diria, hein? Eu bem que sentia falta de um agito por aqui!
Ri, assim como Turner, com ela.
Depois disto, o pessoal começou a chegar aos poucos. Theodore foi o primeiro depois dos Ishikawa, os amiguinhos do Caleb, os amigos da minha mãe — percebi que haviam alguns que eu não conhecia, e que deviam ser amigos de Theo -, e... Tia Nancy, que estranhamente veio acompanhada de Peter.
Senti o desconforto do Turner ao meu lado, e imaginei que estivesse duplamente nervoso com relação ao Peter devido ao lance do emprego.
Eu sei que ele confia em mim, e eu também confio nele, mas se ficarmos muito tempo separados, como ele havia mencionado, nenhum de nós vai ter culpa se nos apaixonarmos por outras pessoas.
Eu não vou poder apontar o dedo, e nem ele.
Era isto o que mais me deixava preocupado, sentindo-me como se estivesse morrendo por dentro, ao invés de simplesmente estar chateado por morarmos longe. Afinal, não era o fim do mundo, ainda mais depois do lance do cassino. Mas nosso relacionamento conseguiria mesmo sobreviver a isto?
Já no lado de fora, no meio daquele jardim que costumava ser meu refúgio — onde, aliás, conheci a K -, em meio à músicas e iluminação, virei um copo de cerveja em uma tacada.
Todo o pátio estava laranja, pelo pôr do sol, e eu vi de longe K aproveitar e tirar várias fotos. E eu estava em silêncio com o Turner, feito dois túmulos.
Foquei meus olhos em Alex, ao longe, mexendo nos cabelos do meu irmão. Fuzilei-o com o olhar, nervoso, porque eu já tinha pegado nojo daquele garoto e não tinha nada que me fizesse mudar de opinião.
Badboy rico, com jeito de quem apronta a cada puxada de ar que dá, em torno do meu irmão. Eu até podia vê-lo, como se estivesse acontecendo agora, quebrar o coraçãozinho do Caleb, caso minhas suspeitas estiverem certas.
— Você é tão transparente — comentou Turner, ao meu lado, com um riso.
Foquei os olhos nele, chocado. — O que foi que eu fiz?
— Aqui? — perguntou, referindo-se ao redor. — Nada. Mas não quero nem saber quantas vezes assassinou aquele garoto na sua cabeça.
Soltei um arquejo, ultrajado, antes de começar a rir, junto dele.
— Isto não é verdade — menti.
Turner riu, deixando um beijo no meu rosto, para então observar o mesmo garoto que eu.
— Por que não gosta dele, afinal? — questionou, analisando-o de longe.
Bufei. — Ele é uma péssima influência para o Caleb.
— Sei — falou ele, me olhando de canto de olho. — E qual é o verdadeiro motivo? — Então riu quando eu dei um soco fraco em seu ombro. — Acha que ele gosta do Caleb?
Girei o rosto, que tinha focado nos garotos, para ele como um vulto.
— Você também acha? — perguntei, assombrado.
Turner bebeu mais um gole da cerveja, com os olhos analíticos nos quatro garotos ao longe. Estava extremamente sensual com aquele terno de professor — bom, mais sofisticado que os das aulas -, colete cinza, pose elegante, e lábios molhados pela bebida.
Focou as orbes cinzas em mim, ao passar um braço por trás da minha cadeira, aproximando-se.
— Bom, ele certamente o toca bastante — ponderou, e eu o enxerguei abraçado em Caleb enquanto ria de algo que Ian dizia. — Você também me tocava bastante quando tentava me seduzir — brincou, próximo ao meu ouvido.
Senti um arrepio subir pela minha espinha, e o observei de canto de olho, sentindo vontade de largar tudo e arrastá-lo para o quarto.
— E eu consegui — falei, vitorioso, ao ignorar o formigamento da minha pele. Mas então, senti o peso das palavras, fazendo uma careta de rancor para o tal do Alex. — Você acha que ele está tentando seduzir o meu irmãozinho? — questionei, um tanto alto demais.
— Shh! — Riu, escondendo o rosto no meu pescoço. Permaneci indignado. — Claro que não, eles são crianças.
— Alex não é uma criança, ele tem dezesseis anos — grunhi, furioso ao pensar nele colocando suas mãos sujas para cima do Caleb.
Turner franziu o cenho, ponderativo.
— Bom — começou, em um tom baixo —, então suponho que você vai ter que lidar com isto.
Foquei os olhos nele, chateado.
— Sozinho, não é? — maltratei, antes que pudesse me impedir, sobre a partida dele.
Pude vê-lo engolir em seco, os olhos tristes em mim.
— Will...
— Boa noite! Será que posso ter a atenção de vocês por um minuto? — chamou a minha mãe, em meio ao pátio, enquanto as vozes começavam a diminuir.
Ajeitei-me na cadeira, sem olhar uma segunda vez para o Turner, ao passo que o sentia se ajeitar também.
Todos aplaudiram e assobiaram para ela que, em meio minuto, ficou da cor de um tomate pela atenção. Atrapalhada, acabou derramando um pouco do líquido que havia no copo de sua mão. Sorriu, por fim, e Theodore pôs-se ao lado dela, também sorridente.
— Vocês devem estar imaginando o porquê da festa sendo que é só meu aniversário — disse, um tanto sem jeito, mas com os olhos brilhantes.
— Seu aniversário devia ser feriado, mãe! — falei, alto, para que todos ouvissem, e ouvi alguns concordarem comigo.
Sem graça, ela apenas fez um gesto vago com a mão. — Ah, Will, só você mesmo!
Ri, ouvindo os assobios da tia Kira.
— Eu também os reuni aqui, as pessoas que mais amo no mundo — disse, com carinho —, porque vocês sabem da minha trajetória. — Senti os olhos tremularem. — Me conhecem, melhor do que ninguém, e estiveram ao meu lado, ao lado do Will e do Caleb, durante toda a batalha.
Senti a mão do Turner encontrar a minha, e a aceitei sem pensar duas vezes, sentindo-me aquecido com o carinho.
— Achei justo, portanto, que estivessem aqui quando eu anunciasse que esta trajetória tomou novos rumos. — Ela sorriu, então, para Theodore, que levou sua mão à dela de forma semelhanta a qual Turner fez comigo. — São duas notícias, na verdade. A primeira é que Theodore e eu estamos noivos.
Uma série de assobios, palmas e gritos se fez após isto, ao passo que eu senti o chão aos meus pés tremular. Turner apertou ainda mais minha mão, e eu percebi que o fazia porque eu havia apertado antes.
Como se o tempo parasse, eu senti os olhos da minha mãe em mim, marejados. Fiquei em pé, como todos, soltando a mão de Turner para poder aplaudir com os outros.
Eu prometi a mim mesmo que a entregaria o mundo, mas eu estava muito enganado em pensar que seria uma casa, um emprego, uma estabilidade financeira. Ela precisava de apoio e de amor muito mais do que qualquer coisa concreta ou física.
E eu a entregaria.
Sorri, me permitindo afastar as minhas inseguranças e os meus medos, e ficar feliz por ela. Engoli o choro quando vi que ela fez o mesmo, desviando o olhar.
— A segunda notícia... — começou, com a voz trêmula, mas foi impedida.
— Lindos! — gritou alguém, talvez um parente de Theodore, que fez todos rirem, descontraídos.
— Vocês também — disse Theo, rindo para seus amigos.
— A segunda notícia — recomeçou, com a voz mais firme, recuperada a compostura devido ao momento de descontração — é que eu fui promovida a gerente administrativa da Spot & Color.
Esta me pegou de surpresa.
Desta vez tive que inspirar e expirar mais vezes ainda para não chorar, porque caralho, que orgulho!
Não que eu não estivesse orgulhoso do noivado — eu até imaginei que isto não demoraria a acontecer -, afinal, minha mãe estava sendo muito corajosa por ir atrás da felicidade depois de tanto tempo reprimida. Só que o noivado era apenas uma prova disto, já que a decisão de ser feliz havia sido tomada quando ela começou a sair com Theo. E eu fiquei orgulhoso quando isto aconteceu, meses atrás.
Mas depois de ver minha mãe batalhar, em vários empregos diferentes, durante tanto tempo, me enchia de orgulho que ela finalmente começava a ter um retorno por tanto trabalho duro.
Fiquei orgulhoso, também, por saber que ela não havia permanecido no restaurante do Theodore. Se fosse o que ela realmente ama, tudo bem, mas ela nunca foi muito fã de trabalhar em cozinha.
Spot & Color era uma empresa de móveis e acessórios para casa, e era uma empresa enorme. Ela fazia bicos por lá, como funcionária, há eras. Era, talvez, o emprego mais antigo que minha mãe manteve.
E ela conseguiu crescer lá dentro.
— Parabéns, mãe — falei, dentro do abraço, assim que o tempo do discurso acabou e ela foi de pessoa em pessoa, cumprimentando. A música recomeçou e as conversas recomeçaram. Ela me apertou contra ela. — Eu estou muito orgulhoso de você.
— Eu também estou muito orgulhosa de você — falou, deixando um beijo em meu rosto. — Me desculpa dar a notícia do noivado assim, com todos, mas a Kira me convenceu de fazer...
— Tudo bem, mãe. — Sorri. — Assim foi ótimo.
Ela sorriu, focando os olhos no Turner.
— Querido, venha cá — chamou, abraçando-o com gosto. — Fico feliz que tenha aparecido.
— Fico feliz que tenha me convidado — murmurou ele, sem graça, mas levou um tapa da dona Jones.
— Como é que eu não ia convidar meu genrinho? — falou, e eu ri, revirando os olhos. Só que ela ficou séria, desviando o olhar de mim para o Turner. — Vocês têm algo para me contar? — Congelei, sem saber o que dizer. — Vocês sabem, para aproveitar este momento de revelações e novidades.
Virei para o Turner, que me olhava em busca de uma resposta, e conversamos por meio de olhares por alguns segundos.
Não queríamos falar sobre isto, nem um com o outro, nem com outras pessoas. Estávamos evitando ao máximo comentar sobre qual caminho iríamos seguir em toda esta história, embora ambos soubéssemos as escolhas, um do outro.
O problema é que falar sobre isto o tornaria real, e queríamos viver na nossa fantasia de que nada estava acontecendo e nem iria acontecer. O prazo, no entanto, era amanhã. E prolongar a fantasia apenas prolongaria nosso sofrimento.
Era exatamente sobre isto que conversávamos naquele minuto, olho no olho, tomado de dúvidas. A guerra terminou quando assentimos, praticamente juntos, antes de nos voltarmos para a minha mãe, que observava tudo com paciência.
— Turner...
— Eu consegui uma oportunidade irrecusável na Universidade Federal de Lydris — interrompeu ele, com rapidez, enquanto eu prendia a respiração. — Eu me mudo para a cidade em janeiro.
Agora é oficial.
Respira, Will.
Permaneci com os olhos, que sentia estarem vidrados, na minha mãe. Inspirei fundo, piscando para enxergá-la melhor.
Apesar de saber que tínhamos algo para contar, ela parecia surpresa com a revelação. Piscou algumas vezes, relanceando-me como se para ter certeza, antes de focar os olhos em Turner e sorrir.
— Nossa, Richard — falou, ainda parecendo perdida. — Isto é... Ótimo. Não é?
— Claro, é ótimo — concordou Turner, desanimado, mas tudo em sua voz dizia o contrário.
Minha mãe parou com os olhos esverdeados em mim, parecendo receosa, e eu soube o que viria a seguir.
— Will, você... Você não...? — questionou, vaga, ao colocar a mão no peito.
— Não — falei, firme. — Eu vou ficar.
Percebi quando ela soltou o ar, aliviada, e nem sequer tentou disfarçar.
O calor que esta reação trouxe ao meu peito apenas confirmou que esta era mesmo a minha decisão correta. Eu não estava preparado para sair aí pelo mundo, longe da minha família. Esta etapa, que também constituía minha mãe e Theodore, apenas havia começado e eu não devia, sob hipótese alguma, deixar a cena agora.
No meu silêncio, minha mãe parabenizou Turner mais uma vez, pedindo licença quando a chamaram ao longe, garantindo que conversaríamos melhor sobre isto mais tarde. Me lançou um olhar piedoso antes de dar as costas.
Petrificados, permanecemos.
Ergui os olhos para o Turner, percebendo que os cinzas já estavam em mim, agoniados e marejados. E eu o compreendia. Eu também me sentia culpado por fazer o que é melhor para mim e por ir atrás do que eu desejo.
Forcei um sorriso, levando uma mão ao seu rosto para acariciar, e ele o inclinou em direção à ela, até que, por fim, tivesse o rosto enfiado no meu pescoço.
— Nós podemos fazer isto.
Ele assentiu, levando a mão à minha e entrelaçando-as como as peças daquele quebra-cabeças que insistia em mudar.
Turner me completava.
Eu passei tanto tempo procurando por minh’alma, para que eu pudesse, enfim, ser, pertencer, viver. Eu não a abandonaria, e eu sabia que ela ficaria aqui, onde ambos pertencemos agora.
Eu estou exatamente onde eu deveria estar.
Meu lar, por ora, estava em Hybridfield.
Minha alma.
Meu único problema agora nada tinha a ver com quem eu sou, ou onde estou, ou qual é o meu lugar. O problema maior tem a ver com o meu coração, e para onde Turner o levará.
De que adianta uma alma, se o meu coração já não mais está?
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