Made of Fire

58 XXIII. Tudo permanece igual mas em movimento


Notas iniciais
Gente incrível, gente poderosa, gente fodástica! :3 Espero que entendam que eu tenho tudo planejado e o bloqueio é interno e não criativo, já que me desanima pensar no fim de MOF ahahhaa. Rindo pra não chorar. Mas vamos lá: este é, na contagem do Nyah, o capítulo 58. Serão 63 capítulos TOTAIS, contando com o epílogo e extras. E se for parar pra descontar os extras, o prólogo e o epílogo, MOF terá um total de 52 capítulos (oficiais, no caso). É um bom número, não? Sinto pela demora, eu já podia ter acabado a fic há eras (descontando esse semestre pesado que tive). É total culpa minha, mas tentarei ao máximo engolir o choro, abaixar a cabeça e escrever, e trazer o nosso esperado fim. Obg aos que ficaram aqui até agr, espero que permaneçam até o epílogo. Vocês são os melhores, eu juro. T.T Boa leitura! ♥

Deixei a pasta em cima da mesa de madeira, arregacei as mangas da camisa social e inspirei fundo ao ver os alunos se ajeitarem nas carteiras.

Desta vez, eu houvera chegado no momento certo. Alguns minutos antes tomei um café em minha sala, enquanto ajeitava os papéis em minha pasta e checava se o pendrive e as chaves das salas estavam lá.

— Bom dia — cumprimentei, assim que a maioria parecia atenta, andando meio caminho até a porta. — Para os que não me conhecem, eu sou o Richard Turner. Eu administro as aulas de Administração Financeira I e II neste semestre e no próximo, então vocês vão me ver por um ano inteiro. — Então, parei para encará-los com um sorriso maldoso. — Isto, claro, se vocês não reprovarem, o que já devem saber ser comum nas minhas matérias.

Embora o índice de reprovação tenha baixado significantemente de um ano para cá, ainda haviam os alunos que tinham uma maior dificuldade. Ou um menor interesse, pensei, relanceando uma aluna que tinha um celular em mãos.

— Tenho algumas regras das quais não renunciarei — falei, um pouco mais grave, porque devia admitir que gostava de pô-los um pouco de medo. — Sem conversas — comecei, caminhado em frente pra passar por entre eles —, sem sonecas — falei, batendo o pé na classe de um aluno que, apesar de ter os olhos abertos, começava a escorregar na parede em direção à classe —, sem celulares.

Parei em frente à garota, arqueando uma das sobrancelhas, vendo que ela se atrapalhava para guardar o celular na bolsa. Sorri, satisfeito.

Eu não era mais tão ruim, pensei comigo mesmo. Alguns semestres atrás, os dois estariam fora da sala nesse exato momento.

— O índice de reprovação na minha matéria tem a ver exclusivamente com o número de faltas e a falta de interesse em correr atrás para tirar as dúvidas. E uma coisa que percebi ao longo destes quatro anos é que minha matéria gera muitas delas — falei, sério, para que passasse a seriedade da situação.

Ser professor era um pouco cansativo nesta parte. Eu dizia as mesmas coisas todo santo semestre, e obtinha os mesmos resultados. Não importa se você chega no aluno, o sacode olhando-o nos olhos, dizendo que ele passará com muita facilidade ao tirar as dúvidas. Não. Ele ainda assim não o fará.

É claro que eu estava generalizando. Cinco por cento dos alunos apareciam em minha sala com frequência.

Will foi um deles, pensei, com orgulho.

— Eu fico no plantão à tarde, todos os dias, com exceção da quarta-feira, já que dou Sistemas de Informação pra galera dos últimos semestres — expliquei, voltando para a frente da sala. — Venham até mim!

Com satisfação, dei início às aulas que eu havia pegado o costume de aperfeiçoar ao longo das semanas. Will havia me ajudado em algumas partes, já que Jay insistiu que as aulas seguiam as mesmas para ele.

Will.

Era uma pena não vê-lo mais em minhas aulas.

Era uma pena não passar a aula inteira tentando prestar atenção no que digo, porque era difícil demais não prestar atenção nele. Era uma pena não passar a aula toda tentando decifrá-lo, ou quando ele fazia o mesmo comigo, tentando ignorá-lo. Era uma pena não vê-lo desconcentrando-me ao sorrir, ou morder os lábios, ou simplesmente me encarar como se pudesse tirar minhas roupas com apenas isto e desnudar minha alma.

Uma nova etapa havia começado, e eu guardaria a anterior com todo o carinho em minhas memórias, mas eu estava preparado para a próxima.

Saí do transe ao ouvir as batidas na porta, piscando ao terminar a explicação e caminhar até ela. Abri-a e me deparei com grandes e hipnotizantes olhos verdes.

— Pois não? — perguntei, frisando os lábios para não sorrir.

Will, no entanto, não deixava de fazê-lo.

— Professor, será que posso roubá-lo por um momento? — perguntou, um pouco baixo. Relanceou o meu lado direito para ver se alguém podia vê-lo dali. Fiz o mesmo, vendo que só os alunos do lado esquerdo e das primeiras fileiras da sala enxergavam-no. — É sobre a matéria!

Estreitei o olhar, tentando decifrar o que ele queria.

— Claro — murmurei, olhando para a turma. — Me dêem um minuto — pedi, mas pelas posturas que começaram a relaxar, percebi que se fossem vinte minutos, eles não iriam se importar, só agradecer.

Saí, quase esbarrando em Will, que não moveu um músculo, e fechei a porta atrás de mim.

— Sr. Jones? — perguntei, de maneira formal, ao analisá-lo com carinho.

Will soltou um riso. — Professor Turner — repetiu ele, da mesma forma —, eu queria saber... De que adianta cursar Administração se eu não consigo administrar essa paixão por você?

Tomei menos de um segundo pra digerir as palavras antes de começar a rir, vendo que ele fazia o mesmo.

— Will — repreendi, mas o riso atrapalhava.

— Diz a verdade — exigiu ele, com um meio sorriso —, você só está rindo porque te peguei desprevenido. Essa cantada é horrível — deixou claro, com uma careta risonha.

Talvez.

— Não — falei, vendo-o estreitar os olhos. — É que meu HP estava contando as horas para te ver — falei, arqueando uma das sobrancelhas.

Will deixou o queixo cair, enquanto eu não me aguentava e tornava a rir.

— Piada de contador? — perguntou, com divertimento. — Sério?

— Aprendi na faculdade — contei, com orgulho, vendo-o rir.

Will se aproximou, perdendo um tanto do sorriso, o suficiente para que eu pudesse ver as sardas com perfeição e o amarelado que tanto gosto em seus olhos.

Envolveu meu corpo com os braços, e nem me importei em olhar em volta para ver se alguém nos encarava, roçando o nariz no meu antes de beijar-me com ternura. Levei uma mão ao seu rosto para fazer um carinho, enquanto me deixava demorar um pouco com os lábios nos seus.

— O que foi isto? — perguntei, me referindo não só ao beijo, mas à sua interrupção na minha aula.

Will deixou outro beijo em meu rosto.

— Hoje é seu primeiro dia de aula e como não viemos juntos hoje, eu não pude dar um beijo de boa sorte — explicou, dando de ombros como se não fosse nada.

William Alexander Jones, você ainda irá casar comigo!

— Bom — falei, desviando o olhar de forma teatral —, eu pensei que você nunca apareceria!

— Idiota — resmungou, roubando-me um beijo rápido. — Vá, antes que pensem que eu te abduzi ao reclamar de nota — riu, soltando-me para se afastar.

— Espera — chamei, pegando-o pela mão e puxando-o até mim mais uma vez.

Passei uma das mãos por seus quadris até espalmá-la em suas costas para trazê-lo até mim. Grudei meus lábios nos seus em um beijo molhado mas singelo, sentindo-o sorrir no fim deste. Deixei um selinho rápido, por fim.

— É seu primeiro dia também — expliquei, já que era segunda-feira.

Will riu, e eu pude apreciá-lo por meio minuto antes que me empurrasse para a porta.

— Vai logo — reclamou, meio sem jeito. Sorri ainda mais. — Daqui um pouco começam a chamá-lo de Dragão mais uma vez.

Abri a boca, indignado.

— Mas eu nunca deixei de ser — argumentei, vendo-o revirar os olhos.

Odiava o apelido, é certo, mas apenas quando remetia ao cassino. Quando remetia à minha postura de professor rabugento, eu sentia certo orgulho.

Assenti, vendo-o se afastar e me jogar um beijo de longe, fazendo uma expressão maliciosa para não perder o costume. Ri, abrindo a porta e deparando-me com a turma relaxada, conversando, e alguns atirados na classe.

Ora, eu não demorei mais do que cinco minutos!

Pigarreei, pedindo desculpas pela saída inesperada e, com um suspiro, continuei de onde havia parado quando tinha todos os pares de olhos em mim.

Mais uma vez, no entanto, me vi com os pensamentos voltados ao Will.

*

— O que você está fazendo?

Jay recém houvera entrado no meu apartamento, como se fosse dele — para variar -, quando me encontrou atirado no tapete da sala com os olhos no teto.

— Respirando fundo depois dessa ligação pesada da minha mãe — resmunguei, sem forças.

Jay riu, jogando suas mochilas em cima do sofá antes de deitar exatamente ao meu lado, jogando os pés por cima de uma cadeira.

— Becca? — deduziu, arqueando uma das sobrancelhas.

Assenti, percebendo que ele me encarava.

— Depois do baile, ela só voltou para casa para pegar suas coisas e não apareceu mais — contei, dando de ombros. — O escândalo é que Mike também se mudou de seu apartamento, ou seja, eles não encontram nenhum dos dois em lugar algum.

Jay soou confuso, em seguida: — Mas e a empresa?

Girei o rosto para ele, observando o rosto limpo de tintas desta vez, com os dreads acima da cabeça, em um coque complicado. Desci os olhos para seu corpo, porque não era possível que não estivesse pintado, e já no pescoço encontrei uma marca de tinta azul.

Quase suspirei de alívio.

O mundo estaria girando ao contrário se Jay não estivesse sujo de tinta!

Sorri com o pensamento, o que o fez franzir o cenho, com um meio sorriso, como se questionasse se eu estava louco. Mas eu suspirei, desviando o olhar.

— Adivinha — pedi, volvendo a encará-lo.

— Ele se demitiu — sugeriu, com o tom interrogativo, mas surpreso.

— Yep.

Jay estreitou o olhar, me analisando. — Por que está tão tranquilo?

— Fala sério, Jay — resmunguei, encarando o teto —, era óbvio que isto aconteceria em algum momento!

— Sim, mas você tende a reclamar até do sol que nasceu errado — brincou, gargalhando.

Empurrei-o mais para o lado, ouvindo-o reclamar.

Dei de ombros.

— Eu não sei, eu... — Parei para pensar por um momento. — Acho que depois de tudo que aconteceu, algumas coisas parecem tão bobas — ponderei, em um murmúrio. — Becca já é adulta, Mike é adulto. É uma droga que tudo vai mudar, especialmente a amizade entre ele e meu pai? Sim, mas vamos fazer o quê?

Estalei a língua.

Sempre tivemos a tendência de achar que Rebecca é uma criança que precisa ser colocado sob nossas asas. Majoritariamente por ser a caçula, mas também por ser a mais impulsiva e a mais rebelde. Eu era assim quando mais jovem, mas amadureci com o tempo. E Rob parece que nasceu adulto, com exceção das piadas constantes, porque com relação à todo o resto, sempre foi muito maduro.

Depois da conversa que tive com ela sobre o Michael, era impossível não olhá-la de outra maneira. Ela tinha razão, afinal. E ninguém devia escolher entre amor e família e qualquer das escolhas que Mike fizesse, não estaria exatamente errado.

Podia ser que não durassem um ano antes de se separar, como meu pai insistia em dizer, mas eles mereciam a chance de tentar. Todo mundo merece.

Voltei os olhos para Jay, que me encarava como se eu fosse um alienígena vestido em tanga.

— Quem é você? — perguntou, colocando a mão no peito ao arregalar os olhos de forma teatral.

Revirei os meus em resposta, esperando que ele continuasse a brincar, mas isto não aconteceu. Seu rosto relaxou aos poucos, e ele sorriu.

— Você está diferente — complementou, com o tom carinhoso.

Franzi o cenho, com uma careta.

Will havia dito algo parecido.

— Isto é ruim? — perguntei, ponderativo.

Jay desviou o olhar, piscando muito, e engoliu em seco. Cinco vezes.

— Jay? — perguntei, assustado, quando vi que os olhos haviam marejado. — Você está chorando? — questionei, incrédulo.

— Não — falou, com a voz falha, levantando o tronco para sentar. — Não. E não é ruim, é muito bom — falou, olhando para o outro lado da sala ao limpar os olhos com rapidez.

— Jay — chamei, receoso, ao sentar também.

Ri, nervoso, esperando que ele fizesse o mesmo para o clima estranho morrer logo. Ele não o fez.

Jay girou o rosto, limpando-o mais uma vez, porque os olhos pareciam ter vida própria. Pensei nisto porque ele parecia impaciente com os movimentos rápidos. Estava sério ao me encarar, sorrindo sem muita vontade.

— Eu só... — Inspirou fundo. — Eu pensei que você nunca conseguiria se livrar disto. — Uni as sobrancelhas, pensando do que se tratava. O sentimento ruim? — Esta áurea pesada que sempre pairava sobre você — esclareceu. — E quando você se meteu nessa de novo, eu honestamente pensei que você não voltaria.

Arqueei as sobrancelhas, surpreso. Até porque, ele havia me passado tanta confiança de que eu era capaz de voltar e que estaria me esperando quando o fizesse.

Desviei o olhar, sentindo um nó na garganta.

Ele o fizera por mim.

— Jay... — sussurrei, sentindo meus olhos marejarem também.

— E quando eu soube que você tinha voltado pelo Kev... — continuou, a voz vacilando. Fungou, limpando o rosto novamente ao olhar para o outro lado. — Eu estava tão puto com você porque você finalmente parecia feliz, com o Will, de uma forma que eu nunca tinha visto, e logo se metia em confusão de novo! — falou, demonstrando a indignação novamente. — E, no fim, era tudo por minha causa. Você sabia o quanto meu irmão significa pra mim e o que significa ele ter se metido nas mesmas merdas que meu pai. E você o trouxe de volta para mim — murmurou, balançando a cabeça com um sorriso.

Encarou-me novamente, enquanto eu é que limpava o rosto desta vez.

Credo, Jay!

— Você chegou aqui tão acabado que eu pensei que, apesar de ter saído vivo, a gente tinha te perdido de vez — sussurrou, mordendo o lábio. — E a culpa era minha. Minha e do Kev.

— Não — neguei, balançando a cabeça com veemência. — Não, Jay — falei, firmando a voz. — Eu sei que para você eu sou um herói que salvou seu irmão, mas se eu não fosse um viciado, eu nunca teria voltado para aquele lugar. Nem por você nem por Kevin. — Funguei, sentindo-me pesado novamente, e com raiva de mim mesmo. — Kevin foi só uma desculpa para eu colocar as mãos nos jogos novamente.

Jay riu, sem achar graça, ao estalar a língua.

— Você não se conhece tão bem quanto pensa — declarou ele, e eu fechei os olhos.

— Jay, foi assim que aconteceu — falei, tentando passar a seriedade da situação.

— É, mas se não fosse por Kevin, você também nunca teria voltado lá — contrapôs, arqueando uma das sobrancelhas.

Abri a boca, pensando em como fazê-lo entender, mas a fechei novamente, frustrado.

— Se eu já tivesse superado o vício... — comecei, parando por um momento. — Talvez eu nunca...

— Talvez — interrompeu ele, erguendo os ombros. — Mas Rich, você já tinha superado. — Neguei com a cabeça. — Já — afirmou novamente, me fazendo unir as sobrancelhas. Ele havia escutado a história toda mesmo? — Você realmente acha que você estava enfrentando um vício?

Pisquei, cada vez mais confuso, ainda balançando a cabeça em descrença. Jay havia fumado quando o relatei tudo o que se passara em Mallow Coast?

— Rich, você estava enfrentando o passado — murmurou, me fazendo parar de negar por um instante. — Você deu as costas e nunca mais voltou quando ela morreu. Você fugiu. E tudo bem — murmurou —, porque que louco não teria feito a mesma coisa? — Suspirou, aproximando-se um pouco no tapete. — Mas estaria tudo bem se você tivesse enfrentado a morte dela, e enfrentado à si mesmo e a culpa que sentia, e enfrentado toda essa bagagem ruim que estava carregando aí dentro. E você não o fez.

Limpei o rosto mais uma vez, desviando o olhar para o tapete, onde nossos pés estavam próximos. Aquele contraste de cor de pele, de personalidade, e de vida, já que Jay sempre foi colorido enquanto eu era cinza.

— E eu acho — murmurou, enfatizando o verbo —, eu acho que você viu a oportunidade de fazer isto quando descobriu sobre o Kevin. E você fez — sussurrou.

Ri, balançando a cabeça ao forçar-me a engolir o nó na garganta..

— Você vê arte em tudo.

— Sim — concordou, rindo —, mas é porque tudo é arte.

— É, diz o cara artista — debochei, rindo.

Volvi a encará-lo, com certa admiração, grato por tê-lo na minha vida. O rapaz das Artes, muito mais humano do que se fosse das Humanas.

— O que eu estava querendo dizer — continuou, rindo também — é que eu achava que você tinha se perdido, e estava me sentindo culpado por isto. Mas eu me enganei — murmurou, com um sorriso carinhoso. — Você se encontrou.

Engoli em seco, com os olhos nos seus castanhos. Assenti, com um sorriso, querendo indicar que eu havia entendido.

Talvez Jay não estivesse, de todo, correto. Mas a verdade era que eu realmente me sentia mais leve, sem aquele peso nas costas que parecia me seguir onde quer que eu fosse. Como se eu estivesse subindo as escadas para um lugar melhor, as coisas foram graduais assim.

Primeiro, Will, que me alegrou a vida e aqueceu meu coração. Eu ainda assim sentia como se tivesse perdido parte da minha alma. E então, veio o cassino novamente, desatando um nó que apenas aumentara ao longo dos anos, fazendo-me sentir como se a tivesse recuperado. Por fim, a terapia, que me ajudava muito a pôr as coisas em ordem aqui dentro. De nada adianta ter um terno impecável, um apartamento limpo, se aqui dentro eu sou um caos.

— E bom, me dei conta de tudo isto agora — finalizou Jay, com divertimento, ao erguer os ombros.

Meus olhos, que haviam desfocado ao raciocinar, pousaram em Jay novamente.

— Você está brincando — falei, incrédulo.

Ele gargalhou. — Arte é assim que se faz, espontaneamente!

Revirei os olhos, rindo também.

Impulsionei o corpo para levantar, com um suspiro, vendo-o fazer o mesmo. Observei-o com curiosidade, sentindo certa satisfação ao ver tinta pela roupa também, parando os olhos nos seus, ainda avermelhados pelo prévio choro.

— Eu nunca havia visto você chorar — comentei, vendo-o sorrir sem graça.

— Eu geralmente consigo controlar até estar sozinho — contou, rindo. — Mas é o que você faz comigo né, Rich, tocando bem aqui — completou, colocando a mão no coração com uma carinha de apaixonado —, no meu coração.

Empurrei-o, vendo-o gargalhar.

— Você devia ser ator também, Jay — comentei, caminhando em direção à cozinha, quase podendo sentir meu corpo reclamar pela quantidade de tempo que fiquei atirado no chão.

Velho.

— Eu sei!

*

Cerca de um mês depois do início do semestre, tive um encontro inesperado com o Sr. Edwards após deixar a sala de aula. Arqueei as sobrancelhas ao perceber que ele realmente estava me esperando do lado de fora.

Eu sequer sabia que ele tinha retornado da viagem.

— Sr. Edwards?

Vestido da mesma forma dos anos oitenta como sempre, Edwards fez um gesto vago com a mão, como se excluísse minha fala.

— Richard, já disse para me chamar de Leonard — reclamou ele, mas com um sorriso no rosto.

Assenti, sorrindo.

— Tem razão, me desculpe — pedi, educado.

Edwards não havia comentado mais nada a respeito de Will e eu, depois que assumimos nosso relacionamento na universidade. Poderia até dizer que estava satisfeito, já que me sorria com mais frequência que o normal. Sem falar que quando Will aparecia na minha sala e Edwards só estava matando tempo ao ler um jornal ali, ele se retirava com um sorriso ao dar uma desculpa de precisar comprar algo.

Eu havia me sentido bem aceitado com esses gestos simples dele.

Talvez, no fim das contas, o que o incomodara com relação ao Will era que talvez eu estivesse me aproveitando dele ou o contrário. Edwards é das antigas, então talvez só considere um relacionamento quando é público.

— Eu quis esperar por você para almoçarmos juntos. Última vez foi no semestre passado — brincou, sorrindo.

— É claro — concordei, assentindo. Então apontei para o lado contrário das escadas, para a nossa sala. — Só me deixa largar minha pasta e pegar minha carteira, pode ser?

Edwards assentiu, me acompanhando. Talvez estivesse impaciente, porque resolveu começar a conversa quando eu procurava minha carteira na sala.

— Na realidade, eu queria conversar com você e achei melhor fazer isto enquanto almoçamos — contou, erguendo os ombros.

Arqueei as sobrancelhas, curioso, erguendo os olhos da minha pasta.

— Sobre o quê?

— Sobre você — respondeu, me deixando um tanto receoso. — Bom, sobre seu trabalho. Você fez Contábeis, não é?

Assenti, cada vez mais confuso.

— Sim, em Mallow Coast — confirmei.

— Claro, claro — falou, provavelmente ao se recordar de nossas conversas. — Então eu estava certo.

Franzi o cenho, aproximando-me dele com interesse. Esperava que não fosse nada sério e que, por tudo que é mais sagrado, não se tratasse da minha relação com o Will novamente.

No entanto, não era nada disto, porque tinha a ver exclusivamente comigo.

— Eu tenho uma proposta para te fazer. Bom — riu-se —, na verdade eu sou apenas o mensageiro. A proposta veio de longe.

E, ao passo que eu o ouvia discorrer a respeito, sobre suas férias, sobre onde havia ido, sobre como havia resultado carregar uma mensagem desde o Prof. Dr. Hardwick, do norte do Estado, até mim, senti como se entrasse em transe.

Meus olhos desfocaram, a mente à mil, enquanto tentava digerir e aceitar que o Sr. Edwards me contava exatamente o que eu pensava que ele estava contando.

Ou melhor, propondo.

Oh, droga, pensei, assim que ele terminava o relato com a pergunta. Isto é tudo o que eu não queria lidar agora.

Um chão instável e um futuro incerto.

Notas finais
Gente, eu não sei o que aconteceu do início pro fim do capítulo, PORQUE EU JURO QUE NÃO TINHA PLANEJADO AS LÁGRIMAS. Era pra ser um capítulo nostálgico, mas de um jeito bom, neutro, e daí o Jay vai lá e começa a chorar e eu começo a chorar e não sei o que tacontessenu. Gostaria de lembrar a vocês que o Sr. Edwards é o professor com quem ele divide a sala, e não o Sr. Fitzgerald, o coordenador preconceituoso. E ah! Aos que pularam as notas inicias, voltem lá que a parte dos capítulos é importante. Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! ♥