Made of Fire

55 XXI. Para consertar é necessário desconstruir


Notas iniciais
Gente linda, gente boa, gente bella! ♥ O QUÊ? 2 CAPÍTULOS DENTRO DE 3 DIAS? Chamem de Papai Noel, da Fada do Dente, de Gandalf, do que quiser, mas sou apenas eu! Hahahahha ♥ Ah! Me desejem boa sorte, já que meu estágio começa amanhã! Vou precsar HAHAHAHAH. Rindo mas chorando por dentro. Will's POV Boa leitura!

Todos sabem que não é fácil reconhecer um erro. Aliás, não é fácil reconhecer, aceitar ou consertar um erro. Nada relacionado com a falha do nosso sistema, das nossas ações, das nossas emoções, é considerado fácil. Talvez por este motivo seja preferível ignorar nossas imperfeições e nossos deslizes ao invés de encará-los de frente.

O problema é que ignorar seus defeitos e seus equívocos não é uma solução. É o mesmo que tapar o sol com a peneira. Pior ainda: é o mesmo que colocar um band-aid em uma hemorragia. Apenas um conserto temporário que vai lhe trazer, no máximo, um pouco de tempo até que tenha que lidar com aquilo.

Estar errado sobre algo é uma droga.

E eu precisei admitir, ao menos pra mim, que eu estava errado quando o seguinte pensamento brotou em minha mente: Theodore não é tão ruim.

O homem de quarenta e nove anos não era nada além de agradável. E eu não queria dizer que estava decepcionado por isto, porque eu jamais gostaria que ele fosse um filho da puta, mas no fundo, bem no fundo, eu estava ainda receoso. Um cara abusivo? Eu já sabia lidar com isto. Um cara simpático? Nem tanto.

Talvez o que eu realmente estava era decepcionado comigo mesmo, por não saber como agir; e por não saber como comandar meu próprio corpo a agir de acordo, já que ele fazia questão de permanecer em alerta vermelho.

Enfiei um pedaço da lasanha na boca, e em seguida tomei vários goles do suco de laranja.

Percebi que devia dizer mais alguma coisa quando a mão de Turner pousou em minha perna e a apertou levemente.

— Então, como se conheceram? — perguntou ele, no meu lugar.

Agradeci mentalmente.

— Hum... — começou minha mãe, relanceando o namorado ao lado. — Lembra que consegui um turno extra no restaurante que Thalia trabalha?

— Sim...? — falei, lembrando vagamente disto.

Theodore limpou a boca com o guardanapo, e sorriu com os olhos azuis presos na minha mãe.

Era um homem bem ajeitado, eu admitia, embora houvesse muito gel naqueles cabelos escuros e lambidos para o lado. No entanto, isto só demonstrava o quanto ele havia se esforçado para dar uma boa primeira impressão. O cavanhaque era bem feito, o nariz era um tanto desproporcional ao rosto, mas os olhos azul-escuros desviavam toda a atenção do mesmo.

— Eu sou o dono — contou ele, com um sorriso, ao desviar os olhos para nós.

Pisquei algumas vezes, mas quando abri a boca pra dizer algo, nada saiu.

— É mesmo? — perguntou Turner novamente, ao meu lado, com interesse. — Qual o nome? Talvez eu conheça.

— Saunders' Culinária Indiana — respondeu ele, fazendo uma careta engraçada. — Eu sei, não é muito original.

— Saunders é seu sobrenome?

— Precisamente — respondeu, rindo. — Quando eu era pequeno, meu pai me levou neste restaurante indiano da família dele e desde então, eu sempre quis cozinhar como eles.

— Que interessante! — Turner riu também. — Eu adoro comida indiana. Podemos almoçar lá um dia desses, não é, Will?

Pisquei novamente, desviando o olhar do meu prato pela metade para o meu lado.

— Hum — murmurei, desviando o olhar dele para Theodore. — Claro.

— Will — chamou minha mãe, desta vez, e ao focar os olhos nela percebi que havia largado os talheres para me observar —, está tudo bem?

Arregalei os olhos, assentindo com a cabeça mecanicamente.

— Sim, sim — afirmei, franzindo o cenho como se ela estivesse louca. Alcancei o copo de suco e girei-o de uma vez, rindo em seguida. — Tudo ótimo. Tudo ótimo, Caleb — acrescentei, indicando a comida, ao olhar para meu irmão.

Em seguida, percebi que os olhos de Theodore estavam um tanto cuidadosos ao focar em mim e sorrir fraco. Sorri de volta, enfiando mais uma garfada na boca como se minha vida dependesse disto.

No fim, pode ser que eu tenha causado um clima ruim, pois o silêncio durou mais do que apenas alguns segundos. Parabéns, Will!

Senti os dedos de Turner enroscarem nos meus abaixo da mesa, e sorri-lhe agradecido.

— Então... — comecei, pigarreando, ao tentar pôr pra fora o que se passava em minha mente. — Mãe... Você está namorando o seu chefe?

Minha mãe pigarreou um tanto, parecendo desconfortável, ao erguer os olhos castanho-esverdeados para mim. Sorriu, sem graça, mas antes que respondesse meu irmão o fez.

— Will, você namora o seu professor — apontou ele, com uma careta profunda, antes de encher a boca novamente.

Quase engasguei com a comida, engolindo a tosse, ao sentir Turner passar a mão nas minhas costas.

— Obrigado, Caleb — falei, irônico, ao mesmo tempo que minha mãe dizia o mesmo, mas com sinceridade.

E, ao perceber uma tosse controlada vinda do meu lado, percebi que meu namorado engraçadinho disfarçava um riso, não tão bem assim.

Pelo resto da janta, procurei ficar quieto, já que tudo que saía da minha boca parecia fazer os outros debocharem — obrigado, Caleb! — ou se sentirem desconfortáveis. Eram extremos bem desagradáveis para meu gosto, então preferi o silêncio.

E eu que pensava que Turner é péssimo com as pessoas, acabei descobrindo que se ele é péssimo, eu sou horrendo. E o pior é que Turner não estaria em todas as ocasiões em que Theodore viria aqui em casa pra me apoiar.

E eu viria a perceber que o progresso entre nossas conversas não tinha muita pressa. E que Caleb, sendo bicho do mato do jeito que era, se daria mil vezes melhor com Theodore do que eu. E, bem, os dois gostavam de culinária, então eles tinham bem mais em comum. Eu gostava de comer apenas, então não tinha muito com que puxar assunto por aí.

Após aquela janta desastrosa — pela qual minha mãe agradeceu ainda, mesmo eu tendo sido um completo alienado socialmente -, tomamos o café da tarde no dia seguinte, que resultava ser um domingo.

Mamãe parecia ter pressa de apresentá-lo à todos, e talvez fosse porque ela odeia coisas pendentes, assim como eu, já que naquele mesmo domingo a família Ishikawa havia conhecido o mais novo membro da família.

Depois de, tragicamente, derrubar minha xícara de café que, por carma, houvera caído nas calças de Theodore, julguei ser minha hora de retirar-me da mesa naquela tarde.

Qual é o meu problema?

*

Eu estava atirado no sofá quando Kaori deixou a cozinha e veio atrás de mim.

— Venha, Will — disse ela, sentando-se ao meu lado e me arrastando para junto de seu corpo. — Se acalme, está bem?

Eu estou calmo.

Aceitei seu ombro amigo, literalmente, já que deitei no dela. Senti os dedos pequeninos mexerem em meus cabelos em um cafuné gostoso.

— Eu gostei dele, na verdade — confessei, franzindo os lábios. — Eles não precisam da minha aprovação nem nada do tipo, eu não vou ser nenhum obstáculo — falei, acomodando-me melhor em seu abraço. — Eu confio nela, eu juro que confio.

Suspirei, ouvindo os risos provindos do cômodo ao lado.

— É só que eu não consigo baixar a guarda — admiti, baixinho, ao frisar os lábios. — Eu só não consigo. — Balancei a cabeça. — É coisa minha, sabe?

— É, bom... — Ela suspira, ainda mexendo nos meus cabelos. — Com o Ryan não é diferente. — Franzi o cenho, prestes a perguntar o que uma coisa tinha a ver com a outra, quando ela continuou: — Nós estamos nos conhecendo ainda e eu adoro tudo nele, mas tem vezes que eu penso que ele pode... Sabe, de uma hora pra outra, mudar. Sabe? — perguntou, baixinho. — E se mostrar uma pessoa completamente diferente, como... Bom, como aquele meu ex.

Ugh — falei, lembrando de toda a história bizarra com o ex dela.

O dito ex parecia ser muito gente boa, simpático, carismático. Ele era um tanto tímido, o que facilitava pra que todos gostassem dele, e ele tratava Kaori como uma princesa. Isto, é claro, quando ele se lembrava de ser um bom namorado e estar presente pra ela. Quando chegava a vez dela ser atendida, já que todos os parentes, todos os amigos, todos os desconhecidos e todos os inconvenientes vinham antes dela. O cara era tão obcecado em não deixar a família de lado pela namorada — porque houvera feito isto no namoro anterior e se arrependera — que acabara trocando o oito pelo oitenta, e Kaori era a última coisa na sua lista de prioridades. Ele não podia abrir mão nem de cinco minutos por ela, por mais insignificantes que fossem.

E, no fim, depois de ela terminar com ele e falar umas verdades, ele reverberou coisas tão horríveis que ela preferiu nem repetir todas para mim.

— Eu sei — concordou ela, estalando a língua. — Eu não queria pensar isto sobre o Ryan, mas é que... Meu ex realmente mudou de uma hora pra outra. E se ele pode se transformar do herói para o vilão em dois segundos, sem qualquer tipo de antecedência, então qualquer um pode. Ryan também.

Fiz uma careta.

— Sim, K, mas não são todos os caras que são assim.

Quando K sorriu levemente, me olhando de canto de olho, com a sobrancelha erguida, eu entendi o motivo dela sequer mencionar este ex.

Nem todo homem é igual, eu mesmo disse. E isto servia para minha relutância com Theodore também.

Desviei o olhar, sentindo como se houvesse caído como um patinho na analogia que ela fizera.

Kaori riu, mas ficou um tempo em silêncio, apenas mexendo nos meus cabelos.

— Sabe — recomeçou ela, e pelo tom melancólico, percebi que não era de todo a respeito de mim —, o que mais me doeu não foi o coração partido. Sabia? — perguntou, me encarando de canto, e eu neguei. — O que mais doeu foi ter dado de cara com a realidade de maneira tão bruta. Eu era tão ingênua e tão ignorante — murmurou, perdida em pensamentos —, e eu não sabia melhor do que aquilo. Ele sabia melhor, e isto não foi minha culpa — acrescentou ela, em um sussurro. — Era meu primeiro namoro, era a primeira pessoa que gostava de mim, era a primeira pessoa que eu gostava. Todos os sinais estavam ali, dizendo que ele era problema, que ele não era apaixonado por mim, que não queríamos as mesmas coisas, que ele não era uma pessoa emocionalmente estável. Só que eu não sabia ler os sinais ainda — murmurou, e pude sentir ela engolir em seco. — O fato dele pedir desculpas toda hora e ser gentil toda hora me deixava ainda mais confusa. Ele era tão querido, ele desligava o telefone quando se irritava pra não me xingar de cabeça quente, ele pedia desculpas mesmo antes de saber o que fez, ele era um amor. Então eu devia ser a errada — disse, soltando um riso sem humor. — E no fim, além de quebrar meu coração, ele quebrou toda e qualquer crença que eu tinha sobre o mundo e sobre as pessoas. Era como se eu tivesse passado a vida toda acreditando em algo e isto se explodisse em milhões de pedaços. Era como se tudo fosse mentira. Eu fiquei completamente pedida. Digo, se a pessoa mais querida do universo pode te chantagear, te chamar de vagabunda, doente e jogar a culpa do mundo em você, então do que as outras pessoas são capazes?

Pisquei algumas vezes, engolindo em seco, ao afagar o ombro dela.

Eu não sabia disto.

— Você nunca havia me dito isso antes — murmurei, observando seu rosto de canto.

— Eu sei...

— Mas no fim, isto não foi bom? — perguntei, pensativo, ao encarar de longe a situação. — Estou falando que, apesar de todo o sofrimento que ele te causou, aí veio uma lição de vida. Isto te tornou mais forte, não foi?

— Sim, Will, sim — resmungou ela, mas virou-se de frente para mim.

Os cabelos lisos e negros estavam caídos em um dos ombros, e os olhos puxados e escuros pareciam profundamente chateados com relação ao assunto. Coloquei um fio de suas mechas atrás de sua orelha.

— Sim — reforçou ela, firme. — Só que isto não torna qualquer maldade justificável. Tudo que não nos mata nos fortalece, não é? Isto não quer dizer que você deve sair por aí destroçando o coração, a auto estima, a confiança, o espírito de pessoas que não entendem tanto quanto você sobre o mundo. Elas não são as erradas, você é. Não há qualquer justificativa. Sim — tornou a dizer, unindo as sobrancelhas —, eu fiquei mais forte, mas e o quanto ao resto? E quanto ao fato de eu não conseguir baixar a guarda com o cara mais incrível que já conheci? E quanto ao fato de que eu já tenho frases prontas para o caso de, sei lá, ser chamada de vagabunda outra vez? — Abri a boca, mas Kaori tapou-a com a sua. — Eu demorei muito, mas muito tempo pra me encontrar novamente; pra entender que eu não tinha culpa de nada das coisas que ele me acusou. Eu demorei muito tempo pra perceber que sim, eu estava mesmo certa, e eu não sou doente, ou uma vadia, ou desmerecedora de amor. Eu não havia feito nada de errado, a não ser esperar mais de algo que, talvez, no fundo, eu sabia que não iria funcionar. Eu não merecia aquele abuso verbal e emocional, e você também não merecia!

Remexi-me no sofá, começando a ficar desconfortável com suas palavras.

— Will, não é porque algo terrível nos fortaleceu que isto automaticamente se transformou em algo bom. Até porque, a fortaleza, a resistência, não é o único que estas pessoas, estas situações e estas memórias deixaram para trás. O fato de havermos evoluído não ofusca todas as cicatrizes que isto deixou para trás. — Então, suspirou, escorregando no sofá até apoiar a cabeça nas costas do sofá, virada para mim. — O meu caso nem se compara com o seu, Will, então eu sei que falta de confiança nas pessoas é apenas um de vários detritos aí dentro de você. Nós somos humanos, nós iremos evoluir se estamos dispostos, iremos aprender dos nossos erros e iremos nos fortalecer ao longo da vida. E o pré-requisito para isto não é o sofrimento, mesmo que pareça, não é necessário aprender a partir dos erros dos outros para conosco. — Abri a boca novamente, mas K levou o dedo indicador sobre meus lábios e completou: — Ninguém vale o custo do nosso coração. Lições de vida, Will, e força própria, não requerem que sejamos pisoteados nas costas por alguém que deveria cuidar e se importar por nós! Nunca.

Girei o rosto, vendo a porta aberta da cozinha e o som de vozes em conjunto ao cheiro de café. Podia ver minha mãe dali, já que estava sentada na ponta da mesa, com um sorriso largo no rosto.

— O que você está querendo dizer? — perguntei, também deixando-me escorar a cabeça de frente para Kaori.

— Eu quero dizer que apesar de toda essa força que admiro muito em você, também há muito mais sob a superfície. Não é porque você foi um guerreiro com tudo que aconteceu, que não há nada de errado em desconfiar de tudo e de todos. Há algo de errado, sim — afirmou, com os olhos piedosos. — A vida de ninguém devia ser assim, Will.

Estalei a língua.

— Você acha que é melhor ser ingênuo? — perguntei, incrédulo. — Você acha melhor estar despreparado para situações assim?

— Você nunca será ingênuo novamente, Will, não quanto à isto. Será que não entende? — perguntou, soltando o ar pela boca em seguida. — Você vai baixar a guarda, ser confiante, deixar as pessoas entrarem em sua vida, e ainda assim não será ingênuo — explicou. — E você acha mesmo que alguém está preparado para este tipo de situação? Mesmo tendo passado por isto cinquenta mil vezes, ninguém nunca estará preparado para que se repita.

Kaori não precisou ser muito específica com o tipo de situação que mencionara, já que eu e qualquer um aqui dentro compreenderia.

O que eu havia contado ao Turner, a respeito do meu pai haver me batido algumas vezes, eu não havia contado à mais ninguém. Só que o fato da família Ishikawa ter morado ao lado, por cerca de alguns meses, antes que Hugh desse o fora daqui, já fazia com que os três tivessem uma ideia do que aconteceu. E minha mãe provavelmente já contara à tia Kira, em detalhes, a respeito de toda a sua versão da história. Kaori a conhecia também.

Quando permaneci em silêncio, K suspirou.

— Só pense sobre isto, ok? — pediu ela, sorrindo fraco.

— Ok. — Em seguida, observei o quanto seu cabelo havia crescido em pouco tempo. — Me desculpe, K — falei, erguendo o rosto, apenas para ver suas sobrancelhas unirem. — Você tá namorando agora, e eu sei que passou por um pepino com a faculdade esses dias — falei, pensando que ela tivera um problema com a matrícula e quase perdeu a bolsa —, e eu... Eu não tenho estado muito presente pra você.

Já fazia um tempo que eu havia percebido isto, só que nunca, de fato, cheguei a me desculpar.

É claro que eu culpava Turner e todo o amor que ele fez brotar em mim, mas não mencionaria isto no pedido de desculpas.

Desde que ele surgira em minha vida, eu tentava passar o máximo de tempo na universidade, e quando passamos a namorar, o máximo de tempo em seu apartamento e em qualquer lugar que eu pudesse estar com ele. E como Gabe, Cenoura e Laurel também fazem parte da minha vida acadêmica, eu não me afastei deles como me afastei de Kaori.

— Mas, Will... — começou ela, soltando um riso ao pousar uma das mãos sobre meu braço. — Eu também não tenho estado tão presente pra você. — Uni a sobrancelhas, pensando a respeito, quando ela riu, achando graça da nossa desgraça. — Faz parte. Isso não quer dizer que você perde o cargo honorário de melhor amigo, hein?

Revirei os olhos.

— Eu digo o mesmo, Srta. Inteligência — acrescentei, arqueando uma das sobrancelhas.

— Até parece, Will — riu ela, levantando-se para se espreguiçar. — Até parece.

— O quê? — perguntei, vendo que ela caminhava de volta à cozinha.

— Até parece que você encontraria alguém para cobrir todo o trabalho que eu passo com você.

— Ei!

Levantei com rapidez também, tentando alcançá-la.

A verdade é que eu entendia exatamente o que Kaori havia dito. Eu nunca houvera pensado dessa maneira, é claro, mas tudo que ela disse fazia um certo sentido. Só que não era algo que eu gostaria de admitir agora, e nem de admitir como verdade.

Eu não podia admitir para mim mesmo todos as horrendas histórias por trás das minhas memórias porque eu já havia me acostumado a lidar com elas como fortaleza e não como algo ruim. Kaori me conhecia bem o suficiente para saber disto. Eu nunca falara a respeito, mas ela sabia. Fiquei ponderando o quanto Turner também sabia sobre mim apenas com a convivência. Se eu assumisse toda a minha experiência como traumática, eu teria que lidar com aquilo, e Turner já havia tentado me empurrar para uma terapia. Se ele juntasse Kaori na causa, eu estaria perdido.

Sentados na mesa da cozinha, esbarrei meu ombro no dela para implicar.

Kaori me mostrou a língua, mas limitou-se a rir em seguida.

Theodore não ficou muito tempo após o café da tarde. Depois de conquistar a confiança e o carinho de todos — como eu percebi se tratar de uma característica comum do cara -, ele despediu-se rapidamente. Eu fui a exceção.

— Will, você se importaria de me acompanhar até o carro? — perguntou ele, de frente para mim, com um sorriso.

Pisquei, digerindo a informação. Ele está falando sério?

Desviei o olhar para minha mãe, aflito, percebendo que ela não fazia ideia do que se tratava porque também estava aflita. Então os voltei para ele, que estava em pé, com ambas as mãos nos bolsos, em uma postura relaxada.

— Relaxa — disse ele, pondo-se a rir, junto dos japoneses. — Eu prometo que não vou te sequestrar!

Forcei um sorriso, só então percebendo que meus músculos estavam duros.

Se ele soubesse no que meu recrutante estava envolvido nos últimos meses, ele jamais brincaria a respeito de sequestro ou qualquer atitude criminosa.

— Claro — respondi, finalmente.

Sorri para minha mãe, indicando que estava tudo bem, até ela relaxar minimamente e deixar um beijo rápido em Theodore, antes dele sair porta afora. Fui atrás, obtendo certo incentivo a partir da expressão encorajadora da Kaori.

Ainda não havia escurecido, embora não estivesse longe de acontecer, visto que o sol logo se poria. Dava para ver parte do céu já ficando um tanto alaranjada, e repercutindo isto na paisagem. Esperei que Theodore dissesse algo no caminho até o portão, e até o seu carro — na frente do mesmo -, mas ele permaneceu em silêncio, parecendo estranhamente tranquilo. Não havia demorado muito a se acostumar com a família, já que nos primeiros instantes aqui dentro ele parecia quase desmaiar.

Assim que paramos em frente ao seu carro, comecei a me preocupar, mas ele sorriu para mim.

— Sarah me contou bastante sobre você — começou ele, apoiando o peso no corpo no carro. — E sobre Caleb, é claro. Mas ela sempre voltava para você. No início, eu não entendi o porquê, mas depois que eu te conheci... — Sorriu, desviando o olhar azulado. — Eu compreendi.

Se eu estivesse sentado, eu estaria me remexendo com a conversa desagradável. Tive que me contentar em trocar o peso de perna, e remexer as mãos por não saber onde colocá-las.

— Que eu sou o melhor filho? — brinquei, forçando um sorriso, mas a minha própria piada não tinha graça alguma.

Theodore arqueou as grossas sobrancelhas, mas riu em seguida. — Bom, nisto eu não me meto — deixou claro, sobre a preferência de mãe. — O que eu entendi foi que você seria o mais difícil de agradar. E olha — acrescentou, antes que eu negasse —, as pessoas geralmente gostam de mim — falou, rindo. — E eu não deixo de ponderar se, caso você tivesse me conhecido antes de saber que eu namoro sua mãe, você ainda assim me desprezaria.

— Não, eu não te desprezo — falei rapidamente, porque era verdade.

— Mas não gosta que eu esteja saindo com a sua mãe — interveio ele, arqueando uma das sobrancelhas.

Soltei um som pelo nariz, desacreditado que a gente estivesse tendo aquela conversa.

Subitamente, me senti irritado com toda a situação.

Ele não precisava fazer isto. Não precisava ter me arrastado até ali apenas para fingir que se importa para minha mãe, e tentar jogar conversa fora comigo como se não fosse nada. Aquilo era cem por cento desnecessário.

— Eu não tenho que gostar — admiti, começando a perder a paciência. Mamãe que me perdoasse, mas tudo tem limite. — Minha mãe é uma mulher adulta, ela não precisa da permissão de ninguém — acrescentei, franzindo os lábios — para fazer o que diabos ela quiser com a vida dela.

Theodore me analisou por um momento, provavelmente percebendo que eu estava desgostoso com a conversa. Não sei o que me denunciou, as mãos fechadas, a cara feia ou o tom de voz. Não importava.

— Concordo.

Franzi o cenho, ainda analisando algum sinal de... de qualquer coisa em seu rosto.

— Então por que diabos estamos aqui? — perguntei, sem paciência, abrindo os braços para indicar a situação.

— Sarah me contou sobre...

— Sim, ela deve ter contado milhares de coisas — interrompi, e não me senti culpado pela irritação não ser somente direcionada à Theodore. Francamente, eu odiava o fato de qualquer pessoa ter qualquer informação pessoal sobre mim, que não tenha partido de mim. — Só que eu estou aqui agora, não ela. Não fale comigo como se me conhecesse. Você não sabe quem eu sou, você só sabe quem eu sou para a minha mãe.

Theodore suspirou, desencostando-se do carro, parecendo um tanto aflito desta vez. Bom.

— Você tem razão — disse ele, e tudo em sua postura me indicava que ele estava tentando com que eu não me afastasse. — Tem razão. Eu não... — Suspirou outra vez. — Sinto muito se você está se sentindo coagido aqui. Saiba que eu não estou te prendendo, Will. Você pode voltar a hora que quiser — deixou claro, apontando para a minha casa.

— É claro que eu posso — resmunguei, na defensiva.

Theodore pareceu um tanto desconcertado comigo.

— Olha, você me entendeu errado — disse ele, em um tom manso. — Eu não te trouxe aqui porque você tem alguma obrigação de gostar de mim. Eu te trouxe aqui porque eu tenho a obrigação de tentar fazê-lo mudar de ideia.

Desviei o olhar, sentindo-me enjoado.

— Eu te trouxe aqui porque eu quero — enfatizou, atraindo minha atenção novamente — que você goste de mim. Eu quero que a gente se dê bem porque eu amo a sua mãe, Will. Eu quero que isto dê certo e eu sei — disse, levando uma mão ao peito —, eu sei que ela é muito mais do que a mulher pela qual eu estou apaixonado. Ela é mãe, e ela não está sozinha. Eu também sei que não sou eu a dividir o amor dela com vocês, são vocês que estão a dividir o amor dela comigo. — Pisquei algumas vezes, sentindo o coração pesar. — Por isto eu te trouxe aqui. Eu não vou desistir de você, Will, porque eu não vou desistir dela. Você não precisa gostar de mim, mas não quero que seja pelos motivos errados.

Droga, resmunguei para mim mesmo.

Por um momento, eu havia pensado que tinha total permissão do universo para odiá-lo até a alma. Maldita seja K e suas palavras filosóficas. Eu realmente estava querendo odiar este cara porque seria a opção mais fácil do mundo para mim, já que eu não sabia enfrentar meus reais demônios. K estava certa, eu sequer havia admitido possuir demônios. Ugh.

E, ao invés de ficar com mais raiva ainda, me senti pesado demais para que eu mesmo me pudesse carregar. E triste.

Theodore não era um cara ruim, e além disto, ele realmente amava a minha mãe. E o pior: ele estava ali para ficar. E eu?

Eu estava em um beco sem saída e minha única opção era escolher a opção mais difícil, e isto era o único que eu evitara fazer.

Suspirei.

— Minha mãe e Caleb são a única família que eu tenho — falei, encarando minha casa envelhecida. — Eu não tenho avós, tios ou primos, eu não tenho nenhum parente distante — expliquei, embora tivesse duas tias que jamais me importei de classificar como "família". Vi, pelo canto de olho, Theodore assentir. Girei o rosto para ele. — Não pense, nem por um segundo, que eu vou deixar qualquer coisa acontecer com eles. — Dei um passo em frente, vendo que ele piscou, surpreso. — Eu nem sempre pude defendê-los, mas eu já não sou criança. Qualquer erro seu e eu faço da sua vida um verdadeiro inferno.

O homem, um tanto mais alto que eu, pareceu bastante desconfortável com a minha ameaça. Mas ao menos, ela deve ter surgido efeito, a julgar pelos olhos azulados um tanto maiores que o normal, e a expressão séria em seu rosto. Algo que nunca pensei acontecer, a propósito.

Então, ele compreendeu.

Se eu finalmente houvera decidido ameaçá-lo, era porque eu aceitara o fato dele fazer parte desta família.

— Não posso prometer que não vou magoá-la, porque as pessoas tendem a se magoar em um relacionamento — disse ele, ao passo que eu franzia o cenho. — Mas eu prometo que nunca o farei intencionalmente.

— Ótimo — resmunguei, mal-humorado, ao afastar-me um tanto dele. — Podemos encerrar agora?

— É claro — disse ele, ainda parecendo desconfortável.

Assenti, sem mais olhá-lo na cara, antes de dirigir-me ao portão já enferrujado. Assim que o abri, para percorrer o caminho do pátio até em casa, ele me chamou novamente.

Suspirei, vendo que sua porta fora aberta, mas que ele tinha o corpo voltado para mim.

— Eu não sou o vilão aqui, Will — disse ele, em um tom sincero. Ele tinha a expressão séria, mas os olhos estavam caridosos. Soube no exato momento que minha mãe houvera contado bem mais do que a história dos filhos. Havia contado a dela. — Nem o seu, nem o do seu irmão, nem o da sua mãe.

Abri a boca para dizer que eu sabia, mas eu não sabia porra nenhuma. Como eu iria saber?

Então, ele sorriu.

— Mas eu fico aliviado em saber que você não hesitaria em acabar com os vilões da história — disse, sorrindo, mas eu desviei o olhar. Eu não podia rir depois de uma ameaça, é contra a lei das ameaças. — Eu também não. Eu confio em você, Will — acrescentou ele, ficando sério subitamente. — Você pode confiar em mim?

Inspirei fundo.

— Eu tenho a obrigação de tentar — falei, usando das suas palavras. — Eu também a amo.

Theodore se permitiu sorrir novamente, e percebi que sorrisos vinham muito fáceis pra ele. Talvez este tenha sido um dos detalhes pelos quais minha mãe se apaixonou.

— Já é um começo — disse ele, antes de despedir-se e entrar no carro.

Engoli em seco, sentindo novamente aquele aperto no peito.

Eu realmente estava errado.

O problema é que aquela angústia não se tratava apenas de estar errado sobre algo, se tratava de ter que aceitar o que estava certo. Eu nunca soube como baixar a guarda em relação à minha família, porque eu nunca precisei fazer isto, mas agora isto havia mudado. Minha mãe nunca havia procurado o amor novamente, e nunca me ocorreu que o motivo era que ela não houvera juntado todos os seus caquinhos até o momento, e que um dia ela viria a fazê-lo.

Eu não sabia viver de outra forma senão aquela.

Suspirei, prestes a voltar para casa e afogar-me em pensamentos depressivos, mas algo me chamou a atenção. Ou melhor, alguém.

Retesei no lugar, e toda a sensação deprimente foi substituída pela sensação vibrante e agradável do puro ódio, antes que ela canalizasse em apenas um nome:

— Peter.

Notas finais
GENTEM, pessoalmente falando, eu quero a opinião de vocês! Pode ser que vocês tenham passado por cima da história da Kaori com o dito ex, mas eu preciso saber: Vocês concordam que todas as experiências ruins trazem algo de bom pra nossa vida? E se assim for, vocês acham que devia ter acontecido daquela maneira para gerar aquele resultado? E aproveitando a deixa: Violação física, verbal, emocional, psicológica, nunca deixa de ser uma violação! Isto quer dizer que uma pessoa está violando os direitos e liberdades de outra pessoa, mas isto NÃO quer dizer que a pessoa violada fez qualquer coisa pra provocar ou teve qualquer CULPA no ocorrido. NUNCA. E pra vocês terem certeza, vou usar um exemplo muito fácil (que pode até ser bobo mas não deixa de ser verdade): um banco não faz nada além de existir pra aparecer bandido tentando assaltá-lo. PS.: espero que, depois de ler o capítulo, vocês entendam o título. Amem, odeiem, mas me digam o que acharam! *O*