Made of Fire
51 XVIII. Há tanto mais do que lágrimas nestes olhos
Notas iniciais
Eu não conseguia tirar os olhos dele.
Eu gostaria de poder ficar apenas o observando, sem falar nada, sem fazer nada que me obrigasse a desviar o olhar. Apenas encará-lo. Todo meu corpo aquecia, e eu acreditava que além de meu corpo, também minha alma. Só bastava isto para meu coração querer explodir de amor. E eu gostaria, principalmente, de observar os olhos verdes e ver que ele fazia o mesmo. E ele o fazia.
Verde no cinza. Cinza no verde.
Mas é claro que não podíamos ficar apenas nisto. O mundo continuava a girar, o tempo continuava a passar e a vida continuava a repercurtir à nossa volta.
Depois do abraço que eu esperava há duas semanas, ficamos com as testas grudadas uma na outra e os olhares, molhados pelas lágrimas, conectados. Mas precisávamos de explicações um do outro, então a fala era necessária. Precisei confirmar, antes de mais nada, que tudo havia acabado e que eu havia voltado para ficar. E eu precisava tirá-lo dali, então precisava dos meus olhos no trânsito, mesmo que eu o desviasse para meu garoto a cada chance que tinha.
Durante o percurso da universidade para o meu apartamento, eu resumi em poucas palavras o que havia acontecido, apenas para que ele relaxasse de uma vez por todas. Embora eu soubesse que eu não era o único motivo do choro e já houvesse perguntado três vezes sobre seu nariz inchado, percebi que ele precisava de uma explicação minha para que se sentisse seguro.
Contei sobre o cassino, contei sobre Marcus, sobre Kevin, sobre o Cobra. Contei tudo, de maneira resumida, do início ao fim. É claro que omiti grande parte dos detalhes como, por exemplo, a informação sobre Lutz que havia me salvado da provável morte. Não iria contá-lo sobre o incêndio que acabou por matar crianças, nem sobre o sangue nas mãos de Marcus para haver sobrevivido, e nem sobre a arma que havia estado apontada para a minha cabeça. Apenas o necessário para acabar com as lágrimas que desciam incessantemente por seu rosto. E pelo meu.
E então, por fim, nos calamos.
Will havia sentado de lado no banco do passageiro, mesmo com o cinto de segurança, virado em direção à mim. Assim como eu gostaria de estar, olhando fixamente para cada detalhe de seu rosto. Deixei o carro no estacionamento do prédio e logo, depois de nos abraçarmos mais uma vez, subimos as escadas para o térreo e pegamos o elevador para o meu andar, do mesmo jeito: grudados um no outro, em silêncio.
Abri a porta de casa da maneira mais silenciosa que pude, para não despertar Jay — ele morava na porta ao lado afinal -, e logo estávamos dentro do meu apartamento. Tomei um segundo de silêncio para olhar ao redor, emocionado que eu houvera conseguido voltar para meu lar.
Will parou na minha frente, com os olhos nos meus. Não fiz muita coisa além de retribuir o olhar marejado, tão feliz que mal me cabia ao peito de voltar a ver os olhos peculiares.
— Acabou mesmo? — murmurou ele, em um tom de cortar coração.
Assenti, segurando seu rosto com minhas mãos ao tentar um sorriso, limpando um pouco das lágrimas que marcavam a pele alva. Deixei um beijo em sua testa para logo olhá-lo nos olhos novamente.
— Eu prometo.
O rosto estava avermelhado e inchado por conta do choro, mas havia um inchaço anormal em seu nariz golpeado, que ainda possuía sangue seco embaixo das narinas. A boca estava avermelhada por ele passar a língua nela o tempo todo devido às lágrimas que desciam até lá, e os olhos verdes pincelados de amarelo brilhavam por conta delas.
— Venha — falei, unindo sua mão com a minha ao deixar um beijo rápido em seus lábios. — Vamos limpar este nariz.
É claro que eu estava com uma raiva contida a respeito do meu garoto ter sido machucado por algum imbecil. Só que eu estava em um mistura de emoções que atingiam o ápice, mas não permaneciam por dar lugar às outras. Estava cansado, aliviado, feliz, preocupado, chateado, apaixonado e um tanto mais que não cabia em mim. E eu precisava desesperadamente dormir.
Ainda em silêncio, limpei o rosto de Will e passei uma pomada em seu nariz para que adormecesse a dor nele. Obtive um sorriso fraco quando fez efeito. Em seguida, tirei sua roupa que cheirava à álcool e suor, deixando-o apenas de cueca, e fiz o mesmo, jogando-as no cesto de roupas sujas.
Senti os olhos dele no meu corpo machucado e, principalmente, em meu ombro enfaixado com um ar preocupado.
É verdade que eu estava pior do que pensava, já que não havia tido tempo de me recuperar das confusões que ocorreram durante as duas semanas no cassino. Havia me machucado no primeiro dia, ao sacar as chaves do mexicano; na primeira semana, em algumas confusões do próprio Golden com caras bêbados; no dia em que entreguei as chaves para Marcus e acabei lutando com vários cãos de guarda; e no último dia, em que eu tive a pele do ombro rompida. Eu estava virado em um caleidoscópio humano.
Mas eu estava vivo e inteiro. Sortudo do caralho.
Assim que saí do cassino, horas atrás, me certifiquei de que estava tudo em ordem com relação à Kevin que, mesmo que já não fosse necessário devido à informação sobre os Ribakov, havia dado um tempo da cidade com a ajuda de Marcus. E depois rumei até minha casa, com um sorriso no rosto que ia e vinha, e recebi os cuidados de Becca e Rob, às escondidas dos meus pais, com relação ao meu ombro. Não estava tão terrível, mas eu certamente precisaria de pontos e não estava a fim de passar horas em um hospital para isto, não antes de chegar em Hybridfield e rever Will.
Não demorei nem uma hora em casa, já que juntei minhas coisas com pressa e ignorei os pedidos de meus pais com o objetivo de voltar logo para casa. Agradeci pela preocupação e certifiquei à eles que estava tudo em ordem comigo, e que eu só precisava ver Will e estar em meu próprio lar novamente. Com muita relutância, eles me deixaram ir.
Como eu havia chegado cedo no cassino, também saí cedo de lá, e mesmo tendo ficado quase uma hora em casa, eu peguei a estrada para Hybrid antes mesmo da meia noite. Como Will havia me recordado ainda de manhã, eu sabia que ele estava na festa na universidade e sabia que ele pegaria ônibus para ir para a casa. Aproveitei o tempo em que o esperava para pensar no que eu diria, mas quando o vi, tão perfeito e tão triste, todas as palavras fugiram de mim.
Deitei, finalmente, na minha cama. Fiz uma careta pela dor em meu corpo, mas não reclamei, observando Will juntar-se à mim em silêncio.
Ajeitamo-nos de frente um para o outro, percorrendo os detalhes alheios com os olhos, em completo silêncio. Passei os dedos por seu rosto, feliz por tê-lo ali, tão perto de mim, e observei o sorriso fraco formar-se em seu rosto. Sorri também, aproximando-me o suficiente para tomar seus lábios nos meus em um beijo calmo.
Eu queria saber por que ele tinha o nariz rompido, por que ele estava chorando, por que ele estava sozinho, embora eu já tivesse uma ideia do que se tratava e não quisesse realmente ouvir. Eu queria beijá-lo com ferocidade e fazer amor com ele com tanta necessidade quanto à que eu sentia. Com saudade.
Mas isto ficaria para amanhã.
Senti os olhos pesarem pouco a pouco, com a testa grudada na dele e os narizes unidos. Will ergueu o rosto rapidamente para que eu esticasse meu braço bom por debaixo dele e logo se aninhou em meu corpo, abraçando-me com força desmedida. Deixei que o fizesse, deixando um beijo sobre os cabelos revoltosos e fungando seu cheiro de Will.
E foi o que precisou para que eu dormisse bem pela primeira vez em duas semanas: ter meu anjo nos braços.
*
Acordei com o sol no rosto, pensando que estava sonhando, estranhamente descansado. Só podia estar sonhando, já que estava em meu apartamento com Will nos braços. E a noção de realidade trouxe um sorriso ao meu rosto.
Deixei um Will adormecido na cama para escovar os dentes, lavar o rosto, tomar água e limpar meu ferido do ombro. Estava bem feio, mas nada grave. Na cozinha, havia louça limpa que eu não havia usado. Na mesinha da sala, haviam pinturas de Jay e no sofá estava seu travesseiro e cobertas dobradas. Ele devia ter passado algumas noites no meu apartamento enquanto eu não estava. É claro que devia.
Ponderei por um instante, encarando a porta, a respeito de Jay. Por fim, deixei uma nota de post-it grudada na porta aberta de meu quarto para que Will visse, caso viesse a acordar antes de eu voltar para casa. E então, me dirigi ao apartamento do lado.
Jay estava no escuro durante este tempo todo. Eu o havia mentido, enganado e pedido que Will fizesse o mesmo por mim. Apesar dele saber que Kevin estava caminhando rumo ao perigo e provavelmente lidando com drogas, Jay não sabia que o irmão mais novo estava envolvido com o pior cara que podia: Frank. E é claro que Jay sabia quem era Frank e pior, se soubesse o que se passava com o irmão, seria capaz de largar tudo e ir atrás dele, o que resultaria em um desastre que eu não quero nem pensar.
Eu não podia contá-lo a verdade antes, mas agora estava na hora.
O abraço apertado que recebi fora reconfortante, ainda mais por eu saber o que viria a seguir: Jay ficaria furioso, preocupado, chateado. E eu estava certo. Havia adiado o máximo, mas o máximo já havia chegado e ele precisava saber por mim.
Engoli em seco ao ver sua expressão mudar ao passo que lhe explicava, com todo o tato que consegui, o decorrer de tudo. Os olhos castanhos quase saíram das órbitas quando revelei que o motivo de eu haver voltado para o cassino era, na realidade, o seu irmão mais novo. As lágrimas vieram então, as palavras gaguejadas e logo grunhidas por haver ocultado tudo isto dele e, furiosas quando falei sobre Frank e quando disse que Marcus era o responsável por Kevin ter saído desta.
Jay tinha, com relação à Marcus, a mesma amargura que Marcus tinha por ele. O antigo e o atual melhores amigos. Embora não houvesse comparação, eu havia ficado muito feliz em saber que ainda podia contar com Marcus, que ele ainda era aquela pessoa distorcida e perigosa, mas leal até a morte. Era isto que ele representava nas ruas: lealdade ao seu povo. Era isto que pregava para defender o subúrbio da cidade, demonstrando fidelidade à eles e representando o perigo que precisava — fazia o que era preciso — para aqueles que representavam perigo para o seu povo.
Embora Jay estivesse aliviado por Kevin estar à salvo, do outro lado do Estado, correu para o telefone e ligou na mesma hora. Ligou para os pais também, certificando-se de que todo mundo estava bem.
Eu esperei por tudo, paciente, observando-o fazer ligação após ligação e respondendo as perguntas chiadas em minha direção. Trouxe um copo de água e entreguei nas mãos trêmulas, enquanto ele controlava a respiração. Pedi desculpas, mas não estava realmente arrependido, e ele soube, o que eu suspeitava que o deixava ainda mais furioso.
Ficamos em silêncio também, assim como eu estava com Will em casa, com olhares significativos.
— Jay — murmurei, afetado por sua mágoa —, eu posso ficar aqui por quanto tempo você preferir. Eu posso explicar tudo quantas vezes você quiser. Mas por favor, não fique chateado comigo — pedi, agoniado, ao ver o cenho franzido na pele escura.
Jay quase bufou, encostando as costas no sofá.
— Você salvou meu irmão, Rich — disse ele, irritado. — Eu não tenho por que ficar chateado com você.
Mas sua expressão dizia outra coisa. Sorri, sem achar graça.
— Mas você está chateado, sim — falei, já conhecendo-o suficiente para conseguir traduzir suas reações. Observei-o passar as mãos pelo rosto.
— Estou chateado com a situação — teimou, cruzando os braços com aquela careta de irritação que poria medo em quem não o conhecia.
Suspirei, vendo sua expressão amenizar um pouco.
— Não precisa ficar aqui nem dizer mais nada — disse ele, mesmo chateado. Forçou um sorriso. — Volte lá. Will parecia um morto-vivo enquanto você estava longe. Fique com ele — disse, olhando nos meus olhos.
— Eu senti sua falta também, Jay — falei, contrariado. Ele balançou a cabeça, sorrindo fraco, mas genuinamente desta vez.
— Eu sei — falou, convencido, mas a risada não veio. Suspirou, pesadamente. — Volte lá — repetiu, fazendo um gesto vago. — Eu preciso ficar sozinho com meus botões. Você me conhece. Eu só... — Suspirou novamente, lutando contra as lágrimas que brilharem em seu olhar mais uma vez. — Kevin é tão diferente de mim. — A voz saiu sussurrada, por algum motivo. Engoli em seco. — Ele é tão diferente de todos nós e ele é tão novo... Eu só... — Eu o encarei com piedade, até que ele sorriu novamente, triste.
Ele é tão novo, dei-me conta também. Ele é tão jovem...
— Eu só preciso ficar um tempo sozinho, para digerir isto tudo.
Assenti, compreendendo. Fiquei um tempo encarando o cabelo bagunçado, o corpo estranhamente desprovido de tintas desta vez e os pesados olhos castanhos. Logo levantei, pedindo perdão com o olhar, antes de dar as costas.
— Obrigado, Rich — murmurou ele, por fim, quando abri a porta.
Olhei para trás, vendo os lábios frisados um no outro, o nariz inflando uma vez ou outra, em uma careta séria que pareceria de alguém bravo se eu não o conhecesse. Era a careta de quem segurava o choro com força. Jay nunca chorava, apesar de ser uma pessoa sensível, e odiava que isto acontecesse na frente dos outros. Mesmo que o outro fosse apenas eu.
— Você teria feito o mesmo pelos meus — falei, vendo uma lágrima solitária escapar do rosto dele, que a limpou rapidamente, sorrindo pela minha fala. — Eu sei que teria — murmurei, por fim, antes de deixá-lo à sós.
No vazio do prédio, dei-me conta, então, que não era apenas para ele que eu devia pedir desculpas.
Caminhei, cabisbaixo, de volta para meu apartamento.
Já era tarde. Eu sequer havia checado as horas quando acordei, mas já devia ter passado do meio-dia, ainda mais depois do tempo que passei com Jay. Eu devia ter feito alguma coisa para que Will comesse antes de sair.
Assim que abri a porta, encontrei-o sentado no sofá como um indígena, com uma tigela de iogurte com cereais na mão e uma colher na boca. Tinha os cabelos úmidos do banho e usava aquela calça de moletom que ficava justa em mim e larga nele — já era sua -, e uma camiseta preta minha.
Sorri para ele e fui retribuído da mesma forma. Inspirei fundo.
Eu preciso fazer isto.
Fechei a porta, caminhei até o local em que ele se encontrava e sentei na poltrona ao lado, para que pudesse ficar de frente para ele. Will franziu o cenho ao perceber minha expressão e largou a tigela em cima da mesinha de vidro, descruzando as pernas e pondo os pés no tapete.
— Will... — comecei, sentindo o nódulo voltar com tudo para minha garganta. — Me desculpa.
Os olhos piscaram algumas vezes com a sentença e ele logo adquiriu uma expressão compadecida que fez com que um sorriso fraco surgisse em meu rosto. Começou a balançar a cabeça para negar que eu continuasse, mas eu precisava que ele soubesse.
— Me desculpa, de verdade — pedi mais uma vez, mas ele arrastou-se no sofá para chegar mais perto da poltrona, com uma expressão agoniada.
— Turner, não precisa...
— Deixa eu falar, Will, por favor — pedi e segurei a mão que ele havia esticado em minha direção. — Por favor. — Beijei seus dedos, logo os enroscando com os meus. Vi seu lábio inferior tremer. — Me perdoa — pedi, sincero. Respirei fundo para não chorar, vendo que ele fazia o mesmo. — Eu fui muito injusto com você. — Will balançou a cabeça, os olhos enchendo de água.
— Não — murmurou, apertando minha mão. — Você não foi...
— Fui, sim — insisti, balançando a cabeça. — Eu nunca pensei que algum dia eu iria ter que... — Suspirei, respirando fundo. — Especialmente estando junto de ti — continuei, sabendo que não precisaria terminar a primeira sentença. — Eu jamais, do fundo do coração, quis colocar você no meio disto. Eu me odeio por isto, Will — confessei, já não conseguindo impedir a voz embargada.
Eu havia deixado meu passado para trás, mas ele havia me seguido, como eu pensei que o faria. Eu sabia. Quando decidi me entregar completamente à Will, era disto que eu mais tinha medo. Will é a pessoa mais pura que já conheci, o que tem o coração maior e o sorriso mais genuíno.
Eu jamais quis envolvê-lo com toda a minha merda de história, e se eu soubesse que tudo isto viria a se repetir em algum momento, eu jamais teria me atirado de cabeça nesta relação. Por mais apaixonado que estivesse, jamais teria me envolvido com ele. Jamais permitiria que Will passasse pelo que acabou de passar. E pior, pelo que poderia estar passando agora, caso eu acabasse morto.
— Eu nunca quis que você passasse pelo que passou. Eu sequer consigo imaginar como seria se eu estivesse do seu lado da relação. — Engoli o choro para continuar a conversa, vendo que Will fazia o mesmo. — Se fosse você que estivesse em uma missão suicida, longe de mim. Eu... eu sequer consigo pensar, Will — confessei, honesto. Eu teria ficado louco de vez ou não o teria deixado ir. — Eu fui tão egoísta. Eu jamais...
— Você estava fazendo o que era certo — interrompeu ele, limpando as lágrimas que escorria pelo rosto. Fungou uma vez, enquanto eu balançava a cabeça. — Eu é que...
— Não importa — falei, porque não importava mesmo. Inclinei-me em sua direção, aproximando nossos rostos. — Será que você não vê? — perguntei, em um sussurro. — Eu precisava ter feito o que fiz. — Então, abri um sorriso triste. — Mas você não precisava ter passado pelo que passou. São duas coisas distintas. Você não vê? — perguntei, tocando seu rosto. Will mordeu os lábios, tentando impedir o choro. — Não fui justo com você. Você não merecia isto. Nunca, Will. Nunca — reforcei, limpando seu rosto. — Pelo contrário. Você merece muito mais do que isto. Você merece o mundo, Will. Você merece alguém melhor. — Inspirei fundo, limpando meu próprio rosto, vendo que ele unia as sobrancelhas, contrariado. — Você merece estar com alguém que não te abandone para entrar em uma guerra do passado. Alguém que te mantenha seguro o tempo todo ao invés de trazer perigo para perto de você, que não seja marcado a ferro por tanta coisa ruim, que não tenha a alma remendada como a minha.
O choro silencioso havia mudado de curso e logo levantei para tomar Will nos braços, enquanto os soluços voltavam a quebrar a silêncio do apartamento. Funguei, vendo que também chorava.
Eu não queria fazê-lo chorar novamente, mas eu precisava conversar a respeito disto. Eu precisava fazê-lo entender que eu não era nem metade da pessoa ajustada que eu gostava de demonstrar. Eu necessitava até mesmo de terapia, coisa que eu havia recusado ainda mais novo, mas que agora, já mais maduro, eu era capaz de compreender que não podia me esquivar. Eu não era nem metade da pessoa que Will merecia. E o mínimo que ele merecia era saber disto, a partir de mim.
E assim, ele poderia escolher.
Enquanto eu estava lá, em Mallow Coast, pensando em como eu o havia deixado para trás e pensando que o garoto músico era o que estava por perto na minha ausência, eu jurei a mim mesmo que o deixaria ir. Eu o deixaria ir, se era isto que ele quisesse, porque Will merecia muito mais do que a pessoa distorcida que eu representava. Eu gostava tanto de falar sobre Marcus, mas eu era tão deturpado quanto ele. Talvez ainda mais, já que ele não escondia o fato de ninguém.
— N-não fala isso — gaguejou, Will, por fim, contra meu pescoço. Apertou-me ainda mais, afundando o rosto ali. — Eu amo você — murmurou, segurando-me como se eu fosse escapar. Afaguei seus cabelos bagunçados. — Eu quero estar com você...
— Eu sei disto — interrompi, negando. Mas amor era apenas uma parte de tudo.
Will afastou o rosto para me olhar nos olhos, desta vez, limpando as minhas lágrimas. Abri a boca, mas ele negou com a cabeça.
— Eu também não sou perfeito, Turner. — Fechei os olhos. — Eu também cometo erros. Eu também sou marcado a ferro por um passado ruim — murmurou, e então abri os olhos, franzindo o cenho. — E mesmo que eu não fosse... Você tá maluco? — perguntou, franzindo o cenho para demonstrar a incredulidade, me lembrando mais do Will que eu bem conhecia, mas logo fungou de novo. Soltei um riso fraco pelo nariz, sem achar graça. — Eu não vou deixar isto nos separar. Eu não vou deixar nada nos separar — reforçou, com firmeza. Meu peito aqueceu com o significado por trás de suas palavras. — Eu também tenho a alma remendada. Eu também tenho lembranças ruins e foram elas que... — Respirou fundo, com o lábio volvendo a tremer.
— Will... — murmurei, segurando seu rosto ao encostar minha testa na sua. Ele negou, afastando-se.
— Foram elas que fizeram eu ser quem eu... — Soluçou novamente, enquanto eu o puxava contra meu corpo.
— Will...
Suspirei, magoado por sua mágoa. Eu sabia que uma parcela de tanta mágoa tinha a ver com seu pai, do qual ele nunca falava; nem ele, nem Caleb, nem a mãe deles. E eu também sabia dos maus bocados que havia passado quando começou a relacionar-se comigo.
— Will — chamei novamente, segurando seu rosto —, o que aconteceu?
Ele negou com a cabeça, continuando a chorar, mas eu repeti o movimento. Precisava saber como havia conseguido o nariz que, embora já tivesse diminuído o inchaço inicial, começava a tomar a cor cinza no meio e na lateral dele.
— O que houve, Will? — sussurrei, fazendo carinho em seus cabelos.
— George — respondeu, sem interromper o choro. Franzi o cenho, sentindo a raiva contida despertar-se novamente. Garoto inútil da porra! Mas Will não havia acabado. — Foi ele.
Pisquei algumas vezes, tentando entender.
— Você quer dizer... — comecei, as engrenagens funcionando enquanto minha cabeça começava a latejar pela ideia de ver George em cima de Will.
— Sim — respondeu, antes que eu começasse. Limpou o rosto e eu fechei os olhos. — Peter que confirmou que foi ele. Era ele o tempo todo.
Peter, pensei. É claro.
Não entendia exatamente do que se tratava toda a situação com George, mas eu não era de todo idiota. Eu havia percebido em toda a postura de Will, em tudo que havia dito ou não dito, até mesmo em seu cheiro quando o reencontrei. E em seus olhos.
Eu sabia o que estava por vir. Eu sentia.
— Peter? — perguntei, realmente confuso com a relação dele com George. Outro soluço escapou de sua garganta, enquanto eu o tomava nos braços. — O que ele tem a ver com George?
— Estão juntos — contou, fazendo com que minhas sobrancelhas arqueassem o máximo que podia. Como assim "juntos"? — Eu sei — disse, lendo minha expressão. — Mas é verdade. Eu os vi juntos na semana passada e ontem eu confirmei o que desconfiava. George foi o responsável pelo que aconteceu no ano passado — murmurou, enquanto eu também limpava suas lágrimas.
George era mesmo um filho da puta. Mas eu também era quando queria, e eu não ia medir esforços para quebrar aquela cara de machinho em fraldas na primeira chance que eu tivesse.
— E Peter ainda o defendeu, mesmo depois de tudo que ele fez pra mim — continuou ele, limpando o rosto. — Mesmo ele sendo um homofóbico e um preconceituoso de merda. Mesmo sendo uma pessoa ruim — reclamou, com a voz embargada, como uma criança ao explicar. Isto fez com que eu quisesse, mais do que tudo, protegê-lo de tudo.
Ora, se essa não era a chave para o baú de ódio que eu estava guardando de Peter!
Suspirei, balançando a cabeça.
Peter é só um garoto, lembrei a mim mesmo. Um garoto, claramente, cheio de problemas para chegar ao ponto de se envolver com alguém como George.
Eu não sei como eu ainda me surpreendia.
— O que exatamente aconteceu nesta festa? — optei por perguntar, passando um dedo por cima do nariz perfeito e machucado. Will fungou mais uma vez.
— George veio para cima de mim quando nos viu...
Interrompeu-se no meio da frase, o lábio inferior tremendo ao fixar o mar verde no meu ao dar-se por conta do que ia dizer, tomado de um sentimento que o envolvia desde que o encontrei.
Culpa.
Engoli em seco, sentindo o coração apertar com o que eu já sabia. Sentindo o coração encolher dentro do peito, enquanto que o estômago revirava e a pele coçava pela sensação ruim. A pior sensação do mundo.
Frisei os lábios, com agonia.
Eu sabia.
— ... no meio da multidão — optou por dizer, fungando umas cinco vezes seguidas para não chorar. — Ele ficou furioso e era óbvio que estava com ciúmes de Peter. Foi quando eu tive certeza.
Assenti, tomando um pouco de tempo para acalmar o amargor em minha boca. Balancei a cabeça, positivamente, por alguns segundos, vendo-o morder os lábios para não chorar mais ainda. Toquei seus cabelos, puxando-o para perto de mim para que pudesse abraçá-lo mais uma vez.
Toda a minha pele coçava com a imagem de Will com outra pessoa, toda a extensão de pele em meu corpo. Apertei os dentes, puxando o ar pelo nariz, já que nada passava pelo nódulo em minha garganta. Queria afrouxar a gravata no pescoço, mas não havia nenhuma. Não havia nada me sufocando além da mágoa.
Respira, pedi internamente. Respira.
Will pareceu perceber meu estado de espírito, porque se aquietou contra meu pescoço, chorando de forma silenciosa enquanto eu respirava pesado para me acalmar. Afaguei suas costas, cheirando seu cabelo e tentando relaxar os ombros.
— Will — comecei, percebendo recém que eu houvera forçado a mandíbula —, eu já disse que você merece melhor que isto — falei, significantemente, em tom sério. — Não disse?
Ele afastou-se como um vulto, focando os olhos chorosos nos meus. Forcei um sorriso agoniado, tentando fazer com que entendesse que eu o estava dando uma saída de novo.
Will mordeu o lábio com força, negando com a cabeça.
— Eu já disse que você é o melhor que já ocorreu em minha vida — retrucou, com a voz embargada pelo choro interrompido. — Não disse?
Sorri, mesmo sem querer, ao fechar os olhos.
Assenti, entendendo o recado.
Segurei seu rosto com uma das mãos.
— Você quer denunciá-lo? — sussurrei, referindo-me à George. — Se você quiser podemos fazer isto agora. Eu sei o quanto isto te afetou — falei, observando os olhos tristes. — Você merece justiça, e eu posso consegui-la para você, se assim preferir. Vou respeitar qualquer decisão sua — murmurei, passando os dedos por seu belo rosto.
Will pareceu ponderar a respeito, engolindo em seco e desviando o olhar para o chão. Ajeitou a postura, encostando as costas no escoro do sofá, enquanto eu, ao seu lado, permaneci a observá-lo em silêncio.
Eu queria que George pagasse e se dependesse de mim, eu mesmo o faria pagar com uma surra que o faria esquecer até mesmo de quem era. Mas não dependia de mim.
Will ergueu o rosto para o lado esquerdo, em minha direção, com o olhar cansado. Ficou assim por tempo demais até o momento que negou com a cabeça, os ombros caídos, sem desviar o olhar do meu.
Suspirei.
— Tem certeza? — optei por perguntar, vendo-o assentir. — Não está negando por medo, não é?
Will sorriu fraco.
— Não — murmurou, olhando para o chão novamente. — Não tenho mais medo dele. Eu só... — Suspirou. — Eu não quero me envolver com denúncias e ter que falar e gastar tempo pensando nisso e... — Ergueu os olhos para mim. — Eu acho que ele vai acabar pagando de uma forma ou de outra, sem que eu precise fazer nada para isto.
Assenti, entendendo seu lado, mesmo que não concordasse.
Ah, eu queria tanto sentir os ossos de George se quebrarem nas minhas mãos...
— Tudo bem — murmurei, ajeitando-me melhor no sofá para poder encará-lo. — O que você quiser.
Isto pareceu despertar o choro novamente, já que girou o rosto em minha direção com os olhos úmidos e culpados. Mordeu o lábio, enquanto a careta de choro voltava ao seu rosto com rapidez. Suspirei, levando uma das mãos para acariciar seu rosto, o que fez com que um soluço escapasse novamente de sua garganta, desta vez como uma tempestade em fúria.
Tantos soluços. Tantas lágrimas. Tanta dor naquele olhar.
E eu sabia.
Ele não estava chorando tanto por causa do soco que havia levado. Não estava soluçando seguidamente por causa do que descobriu com relação à George nem sobre as memórias mais antigas do que ele havia feito para si. Não estava se desmanchando em lágrimas pelo garoto músico ter traído sua amizade ao ocultar algo que o magoava.
Estava chorando por causa da culpa.
Respirei fundo, esperando.
— Turner... — começou ele, fazendo com que meus olhos enchessem de lágrimas também.
Sorri, fraco, querendo mais do que nada acabar com seu sofrimento.
— Eu sei — murmurei, limpando seu rosto. — Não precisa dizer nada.
— Mas eu...
— Não diga — pedi, em um sussurro que fez com que ele soluçasse outra vez, levando uma das mãos para sua boca. — Por favor, não diga — sussurrei novamente, balançando a cabeça com pesar.
Will pareceu em um impasse doloroso ao me encarar, até o momento em que a careta agoniada aprofundou-se em seu rosto.
— Me desculpa — chorou alto, e eu o tomei em braços mais uma vez.
Fechei os olhos, apertando-o contra mim. Beijei seu rosto e seu pescoço, enquanto seu corpo balançava contra o meu, em uma onda de choro que eu não sabia quando exatamente cessaria.
Eu entendia.
Eu compreendia mais além do que eu gostaria de compreender. Meu coração apertava e parecia querer sumir? Sim. Eu não conseguia sequer imaginá-lo nos braços de outra pessoa sem que meu estômago revirasse? Sim. Embora não soubesse se havia sido um beijo, ou dois, ou vinte, aquilo fazia com que eu queresse chorar copiosamente pelo resto da vida? Sim.
Mas eu entendia. Eu não conseguia sentir raiva de Will e nem do bendito, porque eu compreendia a extensão que tudo havia tomado.
Não era como se Will tivesse simplesmente me traído sem motivo algum, externo ou interno. Não era como se fôssemos intocáveis, perfeitos e máquinas de ações previsíveis. Somos humanos, em situações extremas, tendo que fazer escolhas diárias inimagináveis. Não é tão simples tocar a vida, estar em um relacionamento e nem mesmo levantar pela manhã.
As coisas podem ser simples, mas as pessoas são complicadas. Um emaranhado de sentimentos e sensações que estão além da própria compreensão humana.
Errar não é apenas inevitável, é necessário.
— Está tudo bem — sussurrei, contra seu pescoço, tentando acalmá-lo. Afastei meu rosto, pegando o seu com minhas mãos. — Abra os olhos. — Will negou com a cabeça, com os olhos molhados fechados. — Olhe para mim, Will.
Lentamente, ele deixou com que eu vislumbrasse os olhos verdes. Na boca havia o beiço de quem tentava não chorar, uma criança perdida no meio de um mercado. Sorri para isto.
Havia tanta dor ali, por algo tão pequeno. Eu sabia que não era apenas o ato que o incomodava, era toda a ideia de traição, que não era nada pequena. Era o mesmo que incomodava a mim. Só que eu sabia que ele me amava. Eu sabia que, independemente do que quer que sentia por Peter, ele estava apaixonado por mim. Eu sentia e eu via em seus olhos e mesmo assim optei por ouvir de sua voz, o que ele confirmou sem pestanejar.
Era, sim, algo pequeno, comparado à toda a dimensão absurda da situação na qual nos encontrávamos. Só que Will era tão ingênuo, tão puro, tão novo, que não conseguia enxergar além do ocorrido, como eu enxergava.
— Você é tão jovem — murmurei, limpando seus olhos, com um sorriso. — Tão jovem, Will. — Beijei seu nariz, fazendo com que fungasse. — Jovem demais para se apaixonar pela última vez. — Ele franziu o cenho, negando com a cabeça. — É verdade. — Sorri, mas interrompi as palavras que sairiam de sua boca em seguida. — Não estou dizendo que seja impossível, e que não seja este o caso. Só estou querendo dizer que está tudo bem.
Os olhos culpados baixaram, mas logo firmei seu rosto para que voltasse a olhar para mim. Sorri, beijando cada pálpebra fechada quando ele se recusou a abri-las. Deixei um beijo em seu nariz machucado e logo em sua testa.
Então, ele abriu os olhos.
— Eu sei — sussurrei, querendo transmitir o que eu sentia. Eu sei como se sente. Eu sei que você me ama. Eu sei que está doendo. Eu entendo que está arrependido. — Eu te entendo. Eu conheço você. Eu sei quem você é.
Will fungou, pondo ambas as mãos em meus braços, enquanto eu roçava o nariz no seu com delicadeza. Ele sorriu de forma fraca, enquanto o beiço ainda tremia pelo choro silencioso.
Encostei, então, meus lábios nos seus. Um leve roçar de pele.
Will levou uma das mãos para meu rosto, roçando os dedos por minha barba por fazer e limpando as lágrimas tardias em meu rosto. Aproximou o rosto do meu para que grudasse nossos lábios com força, trazendo, com o outro braço, meu tronco de encontro ao seu.
Sorri contra seus lábios.
— Eu sei quem é você — sussurrei, fazendo carinho em seus cabelos.
Meu anjo.
— Eu te amo tanto — murmurou ele, esfregando o nariz em meu rosto, com um fungar discreto novamente.
— Eu sei.
Encontrei seus lábios mais uma vez, dando um jeito de infiltrar-lhe com minha língua, sentindo o gosto salgado de lágrimas e a quentura de sua boca. Ouvi, mais do que senti, o suspiro que saiu de seus lábios, fazendo com que eu sorrisse entre os beijos. Segurei seu rosto com a mão, deslizando a língua por sobre a sua, como uma dança dos deuses.
Logo, toda a saudade deixada de lado voltou com a fúria de uma tempestade. O beijo tornou-se brusco, veloz, necessitado. As mãos que me apertavam já não mais eram delicadas, a despeito de todos os hematomas em meu corpo. Eu tampouco me importava. Eu gostava de saber que ele me queria tanto assim.
Estava em um furacão de emoções.
Eu queria beijá-lo de forma que aquecesse seu coração e afastasse as lágrimas para sempre, de forma que acabasse com qualquer dor. Eu também queria beijá-lo com toda a saudade que sentia, com toda a paixão que explodia no peito e com todo o amor que queria demonstrá-lo. E eu também queria beijá-lo para afastar todo e qualquer resquício de outro alguém. Para provar que tudo aquilo é meu, somente meu e apenas meu.
E eu não sabia qual das maneiras eu devia escolher.
Will buscou a barra da minha camiseta, infiltrando os dedos por debaixo dela e arranhando da forma como podia. Tão logo grudou o corpo no meu, também juntou a boca com a minha com brusquidão, apertando meus cabelos com os dedos e sentando por sobre as próprias pernas para abraçar meu corpo de melhor maneira.
Arranquei minha camiseta de seu corpo, impedindo-o de me beijar em seguida para que eu pudesse passar os olhos por ele . A pele alva portava algumas poucas sardas no peitoral magricela, e os poucos pêlos que haviam no tronco eram claros demais para precisarem ser raspados. A maior quantidade, em tom um tanto mais escuro, se concentrava abaixo do umbigo e eu adorava a visão masculina daquilo.
Desci um dedo desde o peito avermelhado pelo calor até abaixo do umbigo, vendo os músculos se contraírem e a pele arrepiar, enquanto erguia o olhar para seu rosto extasiado. Sorri de lado, puxando o cordão do moletom com um movimento rápido, vendo-o encolher os ombros pelo arrepio, da forma como sempre o fazia.
— Turner... — murmurou, os olhos descendo para a minha boca.
Não esperei que pedisse e juntei nossos lábios em um encontro molhado. Puxei-o de forma com que viesse para cima de mim, ajeitando uma perna em cada lado de meu corpo. Abraçou-me enquanto mexia nos meus cabelos e suspirava entre meus lábios. Rocei os dedos nas costas nuas e o suspiro se repetiu, ao passo que ele deixava, sem perceber, a cabeça cair para o lado.
Aproveitei a deixa para tomar a pele de seu pescoço com os lábios, em um beijo molhado que arrancou o primeiro gemido baixo da noite. Me apressei ao cercar sua cintura com o braço e puxá-lo ainda mais contra mim, sentindo a ereção roçar em minha barriga, mesmo com a peça de roupa atrapalhando. Fechei os dentes na pele sensível, ouvindo outro suspiro enquanto apertava meus ombros com força, e suguei a pele até que estivesse deliberadamente marcada para mim.
Will afastou o rosto para olhar-me nos olhos, piscando muito ao processar a informação. Franzi o cenho, acariciando o rosto avermelhado com a ponta dos dedos, querendo pedir desculpas pelo ato primitivo, mas não conseguindo. Eu ainda não estava em condições de me arrepender pelo feitio. Talvez mais tarde...
Obtive mais um beijo como resposta, o que fez com que eu puxasse seu corpo com ainda mais força e impulsionasse o corpo para frente para levantar. Will ainda tinha as pernas em torno de mim e as ajustou enquanto eu o levava em direção ao meu quarto, com a boca na sua.
Acabei grudando suas costas na porta fechada de meu quarto, com força desmedida, para que tentasse alcançar a maçaneta com a mão livre. Will aproveitou a deixa para puxar minha camisa para cima e, assim que abri a porta e soltei-o em pé no chão, ele arrancou-a por minha cabeça.
Guiei-o até a cama e com um empurrão, joguei-o na cama com ansiedade. Deitei por sobre seu corpo, beijando-lhe com volúpia enquanto sentia as mãos geladas passarem por toda a extensão de pele que encontrava. Desci as mãos para a calça que eu adorava retirar de seu corpo, puxando-a para baixo com uma satisfação inexplicável e fiz com que a peça parasse do outro lado do quarto. Will sequer teve tempo de piscar antes que eu grudasse os lábios em seu pescoço novamente, ajeitando-me em cima dele até que ambas as pernas estivessem nas laterais de meu corpo.
Desci a língua por toda a extensão de pele até o umbigo. Mordi a região também, ouvindo o gemido novamente e sentindo o corpo tremer com a ação. Observei a ereção livre — Will, para minha alegria, não estava usando roupa íntima alguma — antes de deslizar a língua por todo o falo, sentindo Will se contorcer em minhas mãos.
Tomei-o com meus lábios, ouvindo-o puxar o ar com força e tremer em meus braços. Busquei por suas mãos com as minhas para que as juntasse e ele logo o fez. Envolvi seu membro inteiro em minha boca, mais uma, e outra, e várias vezes, até que os gemidos aumentassem de volume. Will ergueu o tórax do colchão ao soltar minhas mãos e levá-las aos próprios cabelos, para então olhar para baixo.
Soltei-o, sorrindo, ao observar as costelas que apareciam e sumiam de forma frenética pela respiração acelerada. Passei a língua por toda a extensão, por fim, apenas para ouvi-lo suspirar e girar os olhos verdes nas órbitas.
Ergui-me o suficiente para retirar as duas peças de roupa que me restavam, aproveitando para encarar o corpo rendido em minha cama. O rosto já estava avermelhado, bem como a região do pescoço e a parte superior do peito. Deslizei as duas mãos em ambas as coxas branquelas de meu aluno, apertando e subindo até as laterais de seu abdômen. Aproximei meus lábios dos dele, observando os olhos verdes.
— William — murmurei, vendo-o piscar algumas vezes pelo incomum chamamento. Eu adorava seu nome e devia poder dizê-lo em voz alta de vez em quando sem levar bronca. É um nome lindo. — Você é o meu garoto — sussurrei, franzindo o cenho ao acariciar seu rosto.
Os olhos alargados, sem desviar dos meus, piscaram novamente. Assentiu logo em seguida, balançando a cabeça positivamente. Deixei um selinho em seus lábios, com um sorriso mínimo, antes de roçar o nariz por seu rosto.
— Então prove — murmurei, mesmo pensando que talvez eu estivesse sendo injusto. Ajeitei-me melhor em cima dele, sentindo todo o seu corpo grudado no meu.
Will fechou os olhos por conta da sensação por um instante, mas logo os abriu novamente com dificuldade, parecendo desnorteado. A boca estava aberta, molhada e avermelhada. Os olhos ainda pareciam pesados.
— Como? — perguntou em um murmúrio, descendo os olhos para meu corpo e desviando uma das mãos para ambos nossos membros. Ergueu o olhar interrogativo para mim.
— Me ame — sussurrei, sorrindo, ao acariciar-lhe o rosto.
Um beiço começou a se formar em seu rosto, ainda avermelhado pelo choro e posterior calor, mas não deixei que se completasse, tomando-o com os lábios em um beijo lento. Apertei a coxa direita com uma mão enquanto deslizava a outra por seu pescoço, tentando fazê-lo esquecer do que havia passado por sua mente. Pousei os lábios em seu nariz, em seguida, obtendo um sorriso mínimo.
Deslizei a mão que estava em sua coxa para seu traseiro, percebendo que ele firmava as pernas em meu entorno para arquear o quadril. Arqueei as sobrancelhas com o pensamento que me cruzou a mente, tocando-lhe em seu íntimo.
— Você pode? — perguntei, parando de mexer-me em cima dele, pensativo.
Eu sabia que Will havia tomado banho, pelos cabelos molhados, mas já fazia duas semanas que não nos víamos e eu não sabia dizer se ele havia se preparado para mim.
Will franziu o cenho.
— Te amar? — perguntou, confuso e preocupado. Soltei um riso, controlando a vontade de mordê-lo, voltando a mão para sua bunda e apertando, arqueando uma das sobrancelhas com sugestão. — Ah.
Soltou um riso nervoso antes de afirmar positivamente, avermelhando com rapidez. Assenti e então, sentindo meu sangue ferver apenas pela ideia de poder afundar-me nele depois de tanto tempo, inverti nossas posições para que ele ficasse sentado em cima de mim.
Will logo começou o mesmo processo que eu havia feito nele, beijando todo meu corpo e, sem importar-se, marcando-me também. Sorri para isto, fechando os olhos ao deixar minha cabeça repousar no travesseiro quando a língua atrevida encontrou o volume por entre minhas pernas.
Minha respiração começou a pesar, enquanto meu corpo começava a ficar sensível por conta de Will. O cheiro específico do meu garoto de olhos verdes começou a ficar mais perceptível, assim como a textura de sua pele contra a minha e eu podia ouvir o sangue correndo em minhas veias, bem como a respiração acelerada dele e os sons que deixava escapar. Will parecia despertar um sexto sentido que eu não sabia possuir.
Levantei-me sem avisar, ficando praticamente sentado de frente para ele. Desci os olhos para seu corpo delgado, deixando um sorriso se abrir ao ver o pré-gozo em si, como uma prova de que a vermelhidão já não era apenas calor. Segurei seu rosto com ambas as mãos e senti meu próprio gosto nos lábios macios, enquanto Will se apressava em colar o corpo no meu.
Estávamos de joelhos em cima do colchão, abraçados de maneira desajeitada em um beijo profundo. Subitamente, a pressa em nos juntarmos como se fôssemos apenas um corpo tornou-se necessária, tomando conta das ações.
Em seguida, eu estava quase caindo da cama no desespero pelo tubinho azul em minha gaveta e Will deitava na cama novamente ao empinar aquela bunda branca em minha direção de forma tão sensual que cheguei a perder o ar. Preparei meu garoto por tanto tempo quanto era necessário, até que seus músculos e seu corpo relaxassem e seus gemidos recomeçassem a soar pelo quarto já abafado.
Depois de colocar a camisinha, deslizei a mão de seu quadril para seu membro endurecido, com um sorriso satisfeito. Funguei os cabelos de sua nuca, vendo que ele girava o rosto para olhar-me da forma como podia, ainda de costas.
— Turner?
— Eu? — perguntei, faminto, esfregando o nariz por toda a extensão de sua nuca, seu pescoço e seu ombro.
Will não era o único a me chamar de Turner, já que esse era o estágio de chamamento quando a pessoa começa a criar intimidade comigo, mas não tanto para chamar-me pelo nome. Ou quando querem aproximar-se, mas pôr uma linha para que não ultrapasse para o estágio de amizade, o que acontecia no cassino.
No entanto, com Will era diferente. Turner havia se tornado um apelido dele, e eu amava ouvi-lo a partir de seus lábios.
— Eu só... — começou, empinando ainda mais o traseiro contra mim. — Eu ainda não estou sentindo você dentro de mim — murmurou, com um sorriso de canto.
Sorri também, mais por alívio de ver aquela nuvem lúgubre desvanecer dos olhos verdes do que por qualquer coisa.
— Seu desejo é uma ordem — deixei explícito, deixando mais um beijo em sua nuca.
Em seguida, eu ajeitei meus joelhos na cama e forcei-me contra sua entrada até que ele me aceitasse por inteiro. Fechei os olhos com a sensação, as mãos na cintura do garoto que estava grudado em mim. Desci os olhos para a visão do paraíso, e esperei que ele se acostumasse. Afaguei a pele de suas costas com carinho.
Já fazia um tempo.
Eu estava com tanta saudade, com tanta falta, com tanta carência de Will que atingia níveis catastróficos. Estava excitado até o céu, era certo, mas uma súbita vontade de chorar tomou conta do meu peito. Estava subitamente ciente da proporção do que eu sentia por Will. Era maior do que eu, maior do que ele, maior do que nossos corpos unidos.
Eu o amava tanto que chegava a doer.
Ele fazia doer, mas era o único que fazia parar de doer também.
Will enfiou a cabeça na cama, já que o travesseiro já estava no chão, e esticando uma das mãos para trás, puxou-me ainda mais contra seu corpo. Entendi que podia continuar, e eu não esperei para atender ao pedido mudo.
Não demorou para que encontrássemos nosso ritmo.
O problema é que não parecia o suficiente.
Não era exatamente um problema, mas nada parecia o suficiente. Deslizei as mãos por toda extensão da pele alva que encontrava e quando bastou, usei os lábios para beijar-lhe os ombros, a nuca, o pescoço, o rosto de Will. Então me dei conta de que não adiantaria. Toda a parte unida de nossos corpos não era o suficiente.
Observei a gota de suor que descia por sua coluna, de forma sensualmente bonita, e senti vontade de congelar a figura. Saí de dentro de si, já sentindo sua ausência, e o ouvi inspirar fundo. Inclinei-me sobre o corpo esbelto e deslizei a língua desde a base de sua coluna, capturando-a, até a nuca já tomada de suor.
Acomodei-me em Will novamente, espalmei a mão em seu peito e puxei-o em minha direção de forma com que quase grudasse suas costas em meu peito. Will inclinou o rosto para o lado e juntou os lábios com os meus. Ainda movimentando-me contra seu corpo, vi quando ele abriu os olhos e sorriu para mim.
Então, dei-me conta do que é que faltava. A união que faltava.
Fiz com que deitasse de costas na cama, e beijei-lhe todo o tórax novamente, observando algumas sardas perdidas nele. Passei a língua por um dos mamilos rosados e desci os beijos até seu umbigo, mas Will logo grudou as mãos em minhas costas para puxar-me em sua direção.
Juntei nossos membros com uma das mãos, enquanto Will e eu fazíamos a melhor dança do mundo com nossas línguas. As mãos do garoto dos cabelos bagunçados desceram para o meu traseiro e ele afundou os dedos contra a pele do mesmo, arrancando-me um sorriso malicioso que refletiu o seu.
Friccionei nossos corpos, deslizando a língua por todo o seu pescoço, o ponto fraco, fazendo com que gemesse baixinho entre meus braços. Afundei o pescoço contra a curva do seu, sentindo seus dentes cravarem em parte de meu ombro bom.
Afundei-me dentro do meu garoto novamente, sentindo-o, desta vez, aceitar-me mais rápido, contorcer-se mais frenético, gemer mais alto. Afastei para que visse seu rosto corado quando recomecei o vai e vem contínuo para dentro e fora dele.
Ele.
Foquei os olhos em seu nariz machucado visível antes de desviar a atenção para os lábios já inchados e a pele avermelhada em torno dos mesmos. Funguei seu rosto, sentindo o pouco da barba que ele possuía e que começava a crescer, e deslizei a língua ali também. Will gemeu novamente, apertando-me mais contra seu corpo.
Foquei os olhos então em suas pálpebras fechadas abaixo das sobrancelhas castanhas. Esperei para ver as orbes mais lindas do universo, até que ele as tivesse focadas nas minhas.
Os olhos verdes.
— Turner... — murmurou ele, como um choramingo, quando tomei seu membro com a mão livre e prendi seus cabelos com a outra.
— Turner o quê?
Will abria e fechava a boca, os olhos já pequenos entre as pálpebras, enquanto mexia o corpo contra o meu com sensualidade. Abri um sorriso ainda maior, arqueando as sobrancelhas quando parei de mover-me, vendo-o abrir um pouco mais os olhos.
— Não para — murmurou, incomodado, franzindo o cenho ao erguer o quadril, afundando-me mais contra ele.
— Não para de fazer o quê? — sussurrei em tom interrogativo em seu ouvido, e logo afastei-me para observar os olhos fechados novamente.
— De... — Engoliu em seco quando apertei seu membro contra minha mão. — Não para de... — Deslizei a língua em sua boca entreaberta, ouvindo um gemido baixo.
Não precisei ouvir mais nada. Ou melhor, não aguentei ouvir mais nada.
Juntei nossos corpos novamente, de forma mais frenética desta vez, enquanto o beijava ferozmente. Suguei sua língua, enquanto sentia meu ombro machucado arder com os apertos involuntários que Will dava ao longo das partes quais encontrava.
Will focou os olhos nos meus novamente, enquanto tínhamos apenas os narizes encostando no meio do ato de amor. Aquelas orbes desenhadas por uma criatura divina, feitas especialmente para que eu me deslumbrasse com sua beleza. Aquelas íris que tanto me miravam, carregadas de sentimento. Aqueles olhos que me chamavam para a pessoa que os herdara, que me fizeram apaixonar, que me enlouqueceram de vez. Aqueles olhos verdes que me levaram ao céu e me trouxeram de volta. E era isto o que faltava.
A união de olhares. A união de almas remendadas, como havíamos dito.
Os olhos verdes, então, giraram nas órbitas até que se fechassem e eu pude fechar os meus também ao afundar o rosto contra a curva sensual de seu pescoço. Prendi o corpo de Will contra o meu em uma última investida, a boca em sua pele, sentindo-me explodir em mil pedaços que se juntavam aos poucos por conta própria.
Sorri ao ver a bagunça em nossos corpos.
Eu ainda tinha o ombro enfaixado, embora agora toda a faixa envolta pelo tecido estivesse tomada do sangue que escapara do ferimento. Ignorei a ardência, e tratei de limpar ambos nossos corpos e livrar-me da camisinha.
Ainda trêmulo, deitei ao lado de Will com o corpo inteiro dolorido. Will tinha ainda os olhos fechados, mesmo quando acariciei sua bochecha. Limpei a lágrima que escorrera pelo olho verde ao juntar meus lábios contra seu rosto em um beijo terno.
Will não riu desta vez, embora sorrisse, mas ainda assim beijou meu pescoço e escalou meu corpo até que se encaixasse ali de maneira confortável. Franziu o cenho ao observar o ombro contrário ao qual deitava a cabeça de cabelos embaraçados, passando os dedos por cima do tecido sujo.
Ergueu os olhos para mim, mas balancei a cabeça, querendo dizer que depois eu dava um jeito nisto. Will suspirou, mas sorriu ao esfregar o rosto contra meu peito.
Eu estava em meu lar.
Não era a casa, nem os móveis, nem a localização da cidade. Era a sensação. Era o trabalho que amava. Era Jay há alguns metros de distância. Era o cheiro de Will impregnado em mim. Era o próprio Will.
Abaixei o rosto, vendo que ele erguia o seu. Seu corpo no meu, seu coração grudado no meu, seus olhos nos meus olhos.
E ali estava: o amor. Todo aquele amor compartilhado, muito mais complexo do que o certo e o errado. Muito mais dinâmico do que o preto e o branco. Muito mais evoluído do que o próprio ser humano.
Revolucionário.
E assim permanecemos, com a pacata luz que entrava no quarto, com o som distante do mundo lá fora, com o calor de nossos corpos. Só nós. Unidos por alguma casualidade do destino, grudados pela dimensão de nossos corpos, juntos pela conexão de nosso olhar.
Verde no cinza. Cinza no verde.
Seus olhos nos meus olhos. E toda aquela vastidão abstrata de incontáveis sentimentos que cabia entre eles.
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