Made of Fire
20 XVIII - Faça amor se a lua é bonita
Notas iniciais
O cheiro de comida que inundava meu nariz acabou despertando-me junto com o embrulho em meu estômago. As dores abdominais estavam presentes desde segunda-feira, quando fui enrascado pelos imbecis, mas o estômago não costumava revirar como agora. Eu conhecia a sensação.
Havia bebido de novo?
Soltei um riso involuntário pelo nariz, pensando que minha vida agora se baseava em tomar porre e ficar o próximo dia inteiro sem poder comer nada. Aos poucos, as dores que se estendiam por todo meu corpo foram tomando consistência novamente, fazendo-me soltar um resmungo.
Abri os olhos devagar, esperando encontrar-me em casa ou na casa de algum dos meus amigos. No entanto, a primeira coisa que vi foram as cortinas que balançavam com o vento em frente à uma varanda. Não havia varanda em casa alguma em que eu já houvesse acordado depois de um porre. Antes que eu entrasse em pânico, porém, um movimento à minha esquerda chamou-me atenção.
O homem alto de olhos escuros, com roupas largas e soltas, postava-se ao meu lado de braços cruzados, de forma um tanto quanto intimidadora. Me encarava com diversão e curiosidade simultaneamente ao passo que um sorriso teimava em subir em seus lábios. Ao ver que eu o encarava com espanto, lembrando-me que se tratava do amigo de Turner – os dreads deixavam bem claro –, o rapaz ergueu as sobrancelhas.
— Bom dia, dorminhoco — disse ele, finalmente deixando-se sorrir.
Pisquei algumas vezes, sem saber exatamente como agir. Estava tão confuso que mal consegui pensar direito.
Por que diabos Jay, o amigo de Turner, estava me olhando dormir e por que diabos eu estava dormindo em algum lugar de onde ele pudesse me olhar dormir?
O nó em minha mente apenas embaralhou-se mais quando a voz de Turner fez-se ouvir.
— Jay, deixa ele em paz. — A voz pronunciou-se com certa irritação, em tom de aviso.
Subitamente desperto, sentei-me em milésimos de segundo onde, agora podia perceber, era um sofá. Não deixei-me abalar pela tontura nem tampouco pelo estômago que incomodava, postando-me em pé logo em seguida.
A sala na qual me encontrava, apesar de não dispor de muito espaço, era bastante organizada. Havia uma televisão enorme em cima de um armário e uma mesa de centro que separava este do sofá atrás de mim. Em meu lado direito, encontrava-se a varanda, o que deixava claro pela paisagem que estávamos em um apartamento. Girei a cabeça em direção à voz de Turner, à minha esquerda, que se encontrava atrás de um balcão que separava a sala da cozinha.
Ele mantinha-se de lado para onde estávamos, segurando uma colher em frente à um fogão, observando-me com olhos atentos. Usava uma camiseta de algodão branca e uma calça de moletom – uma calça de moletom! – de cor cinza.
Eu só podia estar sonhando!
Tentei ao máximo forçar minha mente a lembrar do que diabos havia acontecido, mas o único que consegui foi fazer ela doer ainda mais. Senti uma mão em meu ombro e virei-me para me deparar com os olhos castanhos de Jay. Eram um tanto quanto acolhedores, não fosse a diversão estampada neles.
— Ei, garoto. Você está bem? — perguntou, com o cenho franzido. Então ergueu a cabeça em direção à Turner. — Acho que ele vai vomitar — explicou, como se eu não estivesse aqui.
— Não vou vomitar — falei mais rápido que devia, zonzo, tentando acreditar em minhas próprias palavras.
— Você está chamando ele de garoto, Jay? — riu Turner, largando o que quer que fazia na cozinha para aproximar-se de onde estávamos.
— Posso não ser tão velho quanto você, Rich — disse ele, erguendo a sobrancelha com provocação —, mas eu não tenho mais... — começou e olhou-me com interesse antes de desviar os olhos — ... dezoito anos.
Turner limitou-se a revirar os olhos antes de abrir a boca para responder-lhe, mas eu o interrompi, confuso:
— Vinte — falei, obtendo ambos os olhares cinza e castanho em minha direção. — Eu tenho vinte anos — esclareci, ainda perdido na situação em que me encontrava.
Afinal, o que diabos estava acontecendo?
Turner inclinou a cabeça levemente, olhando-me com interesse. Seus olhos desfocaram um pouco, perdido em pensamentos, antes dele suspirar e desviar a atenção para Jay. A diversão nos olhos do segundo não esvaiu nem por um segundo, apesar do rosto sem expressão.
— Por que você não se certifica de que a lasanha divina — começou Turner, dando ênfase na última palavra para Jay — não queime?
Jay virou o rosto em minha direção, um sorriso abrindo-se em seus lábios.
— É bom vê-lo de novo, Will — disse ele antes de virar-se em direção à cozinha.
— Igualmente — murmurei, sentindo-me perdido.
A visão de Jay caminhando foi ofuscada pelo cenho franzido de Turner, que me encarava com preocupação. Aproximou-se, as sobrancelhas arqueadas ao deslocar os olhos cinzas por todo meu corpo, como se procurasse algum dano físico.
— Você está bem? — perguntou ele, os olhos atentos.
Demorei um pouco para responder, pensando em como exatamente o faria.
— Sim, eu... — Pisquei algumas vezes, olhando ao redor mais uma vez antes de aproximar o rosto superficialmente ao dele. — O que aconteceu? — perguntei em um sussurro, tentando decifrar cada pedaço confuso de sua expressão facial.
— Você não lembra? — perguntou devagar, com cuidado.
Balancei a cabeça negativamente, sentindo os olhos esbugalharem com a atenção vidrada nele. Turner assentiu devagar, parecendo não saber como começar. Então franziu as sobrancelhas novamente.
— Não devia ter bebido tanto, Will — ralhou ele, o rosto rabugento mais uma vez.
— Eu sei — respondi ligeiramente, mesmo sem lembrar. Eu sempre sabia que não devia beber tanto afinal, e sempre o fazia mesmo assim.
O rosto bonito de Turner relaxou levemente.
— Você não vai mesmo vomitar? — perguntou com um meio sorriso. — Vem — falou, pegando-me pela mão sem esperar uma resposta. — Vou lhe mostrar onde fica o banheiro.
E assim me arrastou pelo pequeno apartamento, levando-me até uma das portas ao lado da sala. Abriu a do banheiro e acendeu a luz, sem soltar minha mão. Desviei os olhos à minha esquerda, onde a segunda porta fazia-se visível, aberta. De onde eu estava, pude identificar as formas de um guarda-roupa e uma escrivaninha lotada de papéis, apesar da luz apagada.
Era o quarto de Turner, pensei com um calafrio subindo-me pelas costas.
Ele virou em minha direção, de costas para o banheiro, com um sorriso.
— Bom, você pode fazer usar o banheiro à vontade — falou, relanceando a porta. — Se você passar mal, eu tenho remédios. Mas a melhor coisa que você pode fazer é tomar água — falou, como um médico. — Tem uma escova de dentes fechada dentro da gaveta. E se quiser tomar banho, eu tenho toalhas e roupas em... — falou, indicando a porta com a mão e deixou a frase incompleta, parecendo deslocado.
— Tudo bem — falei com lentidão, assim como sempre ficava quando estava de ressaca. A dificuldade de assimilar as coisas limitou-me apenas a assentir devagar. E a vergonha de Turner, vista claramente pela cor avermelhada de seu rosto, parecia deslizar-se para o meu corpo.
Oh, céus!
Turner pigarreou algumas vezes, violentamente acanhado. Engoliu em seco algumas vezes, desviando o olhar. Parecia querer dizer alguma coisa, mas não sabia como.
— Will... — começou, coçando a barba como um hábito. — Olha, me desculpa por te trazer aqui. Você acabou dormindo e eu pensei que, mesmo se eu te acordasse, isso não era garantia de que conseguisse, de fato, fazer você me dizer onde mora — falou, nervoso. — Você estava muito bêbado — falou em tom de repreensão, mas amansou-a novamente ao continuar: — E eu não quis te colocar em minha cama, porque... bom... — Pigarreou mais um pouco. — Pensei que talvez não fosse o mais adequado e o sofá é tão confortável quanto, então... — Suspirou e calou-se, mantendo os olhos em mim.
Mordi os lábios, nervoso também. Sentia-me completamente deslocado, assim como ele, porque o buraco em minha memória me deixava vulnerável. Eu não fazia ideia do que havia acontecido, lembrando-me apenas que eu havia ido na festa em que Gabe e o pessoal me arrastou. Havia bebido, com certeza, o suficiente para me fazer acordar no sofá do apartamento de Turner.
Meu deus, será que eu havia ligado para ele?
Baixei a cabeça, achando muito interessante o chão limpo de seu apartamento.
— Tudo bem — repeti, rapidamente erguendo a cabeça para deixar um beijo em sua bochecha antes de entrar no banheiro às suas costas e fechar a porta. Escorei-me nesta, deixando-me deslizar até o chão devagar.
Não era a primeira vez que eu esquecia completamente do meu momento porre. Sabia que as lembranças voltavam aos poucos assim que eu acordasse completamente. Eu precisava lavar a ressaca de mim. Observei o par de roupas dobradas junto com uma toalha que havia ao lado da pia, pensativo. Imaginando que eu me arrependeria inteiramente disso, despi-me de minha roupa rapidamente.
Após o banho, percebi com alívio que minha consciência estava mais ativa. Vesti as roupas largas de Turner rapidamente, percebendo que ele devia ter escolhido as menores que tinha com cuidado. Lavei o rosto na pia com água gelada. O cheiro de sabonete dentro do banheiro ofuscou o de comida que vinha do lado de fora, aliviando um pouco o embrulho de meu estômago.
Eu me recusava a vomitar no apartamento de Turner!
Meu rosto, através do reflexo, mostrava olheiras fundas em junção com a obra de arte em meu rosto, o lado esquerdo deste ganhando a competição de mais cores distintas. Franzi o cenho ao descer o olhar para meu pescoço. Aproximei-me do espelho levemente, observando a marca que eu tinha certeza não estar ali antes.
Aquilo era um chupão?
Afastei-me rapidamente, arregalando os olhos ao passo que as memórias voltavam como um furacão.
Flashback on
O mundo estava tão bonito que achei uma ótima ideia ligar para Turner. Afinal, eu queria muito fazê-lo desde que ele havia me dado seu número hoje cedo. Tudo girava e o barulho de música invadia meus ouvidos de forma violenta.
Aproveitei o momento em que Laurel e Gabe desviaram a atenção de mim para escapar deles. O garoto loiro que estava junto havia ido ao banheiro, então era a oportunidade perfeita. Até ri sozinho ao fugir do local, segurando-me no homem que era encarregado de abrir a porta da saída para não cair. Liguei para Turner, certo de que o álcool clareava minhas ideias.
Demorei um pouco até conseguir sair do meio das pessoas que ficavam do lado de fora e conseguir caminhar para longe dali. A lua brilhava, a voz de Turner me enchia de algo que fazia meu coração bombear mais forte, e o álcool me deixava tão feliz quanto meu professor.
Era incrível, afinal, que fôssemos tão bobos a ponto de guardar para nós mesmos o que sentimos. Era um absurdo que não víssemos o quanto era necessário nesta vida abrir a boca, seguido do coração. Era maluquice nos retrairmos por medo do que pode acontecer ao fazer o que mais queremos. E, principalmente, era inacreditável que vivêssemos durante tantas noites seguidas sem apreciar a beleza da lua.
Bom, pelo menos foi esse o rumo de meus pensamentos enquanto o álcool, feliz da vida, agia em meu organismo.
Sentei na calçada ao ouvir Turner, desesperado, pedir para que eu o fizesse. Achei graça de como ele estava sendo bobo, já que eu não poderia estar melhor na vida do que estava. Vagarosamente, a alegria que eu sentia foi dando lugar ao cansaço e ao sono.
Fiquei confuso por alguns instantes, não entendendo o porquê da súbita percepção de realidade estar dissipando-se aos poucos.
— Qual sua cor preferida mesmo? — perguntei ao vê-lo abaixar-se em minha direção. Tinha o cenho franzido, os olhos preocupados e uma carranca que eu não achei que veria em seu rosto novamente.
— Azul — respondeu simplesmente, balançando a cabeça sem acreditar. — Olhe seu estado, Will. Vem — falou, ajudando-me a levantar enquanto eu sorria bobamente. — Vou te levar para casa — completou, levando-me até seu carro.
Ri de seu jeito cuidadoso, desvencilhando-me de seus braços.
— Eu posso sozinho — falei, orgulhoso ao levantar os braços como defesa.
Perdi-me, então, em seus olhos cinzas preocupados, o nariz perfeitamente alinhado ao rosto e a barba por fazer. A leve brisa fazia os cabelos curtos movimentarem-se quase imperceptivelmente, de forma sensual. A boca vermelha levemente aberta ao me encarar.
— Você é lindo, Turner. Não sei como pode ser tão lindo, tão lindo — falei, aproximando-me o suficiente para tocar seu rosto com as mãos.
Este limitou-se a revirar os olhos, ajudando-me a aproximar-me do veículo. Assim que desvencilhei-me de suas mãos novamente, Turner caminhou em direção à porta do motorista, parando apenas para me olhar com o cenho franzido. Abri a porta ao seu lado, olhando-lhe com um sorriso.
— Vai sentar na parte traseira? — perguntou confuso antes de arregalar os olhos ao ver que eu perdi o equilíbrio. Havia esquecido da existência do degrau que separava a calçada da rua. Ri alto quando ele me segurou — Will, cuidado!
Ajudou-me a entrar no carro, o cheiro de sua colônia infestando o lugar, assim como minhas gargalhadas. Baixei os olhos para suas roupas, um pouco diferentes do que costumava usar. Uma calça jeans e uma camiseta simples. Ergui o olhar para seu rosto, inclinado em minha direção com as sobrancelhas arqueadas.
— Não posso fechar a porta com suas pernas do lado de fora, Will — falou com um meio sorriso. Sorri também, mordendo os lábios. Balancei a cabeça negativamente sem desviar meus olhos dos seus.
— Não pode — repeti, vendo seu rosto ficar tenso aos poucos. Puxei-o pela camisa de forma com que caísse em cima de mim e tomei seus lábios com os meus.
Seus olhos alargaram-se e ele tentou inutilmente afastar-se de mim, mas não o permiti. Deixei com que minha língua explorasse sua boca com afoito, vendo-o sucumbir lentamente. Apertei-o de encontro ao meu corpo, suas costas bastante perceptíveis através da camiseta fina. Turner passou o braço em torno de minha cintura, colando-me nele. Gemi sem pudor algum ao sentir sua língua deslizar por meu pescoço. Então seus lábios se fecharam ali ao passo que ele levava uma das mãos para meu cabelo, e sugou minha pele com força. Fechei os olhos, quase delirando.
Apenas quando envolvi sua cintura com minhas pernas, Turner pareceu dar-se conta do que fazia. Conseguiu, tendo que literalmente me segurar pelos ombros, afastar-se com os olhos esbugalhados.
— Will, pare com isso — falou, a voz rouca.
Ele que estava em cima de mim e eu que tinha que parar com isso!
Ergueu a cabeça para observar ao redor, mas eu ri, sabendo que não havia uma única alma na rua à esta hora.
— Eu nem posso estacionar aqui e... — começou, mas não deixei que continuasse.
— Não quero parar — falei, puxando-o novamente. — Eu quero continuar e você quer também, não é? — perguntei, vendo-o tensionar todo o corpo. Insistiu em levantar-se, conseguindo-o apenas parcialmente visto que eu o segurava pela camisa já amarrotada.
— Não, Will. Você está bêbado! — falou, segurando meu rosto. Suspirou pesadamente. — Vamos, se ajeita para eu te levar para casa, tá bom? — perguntou, passando a mão em meu rosto com carinho.
— Mas eu não quero — insisti, sabendo que o calor em meu corpo não ia passar tão cedo. — Eu quero que me beije de novo — falei, sem entender o porquê dele estar sendo tão cuidadoso. Afinal, não estávamos na universidade.
Sem falar que a lua estava linda!
— Will, eu vou beijar você — disse ele, sério —, mas apenas depois que você entrar no carro. Apenas depois que o álcool sair de seu organismo — explicou e continuou quando neguei rapidamente com a cabeça, teimoso: — Depois disto, beijarei você. Beijarei você inteiro. Mas agora...
— Inteiro? — murmurei, sem reação.
Turner abriu e fechou a boca algumas vezes, incapaz de dizer qualquer coisa que fosse.
Imaginei que a intenção dele era fazer com que eu calasse a boca e entrasse logo no carro, mas o efeito foi oposto. Seu corpo inclinado sobre o meu, o cheiro de colônia que exalava dele, o fato de eu estar sentado em seu carro e as palavras que saíram de sua magnífica boca apenas fizeram com que todas as células de meu corpo quisessem unir-se à ele. Naquele exato segundo.
Então cheguei à conclusão mais ridiculamente bonita, em junção com a lua no céu, que eu poderia chegar.
— Acho que devíamos fazer amor — falei, sorrindo.
Turner praticamente engasgou com a própria saliva, desviando o olhar com desconforto visível em todo seu corpo. Soltou um riso nervoso pelo nariz, abaixando a cabeça.
— Will... — começou ele, gaguejando ao ruborizar.
— Você fez isso comigo, sabia? E agora quero sentir seu cheiro o tempo inteiro, e eu quero ouvir sua voz o tempo inteiro e eu quero que você me abrace o tempo inteiro, da forma como me abraçou hoje. E agora eu te quero o tempo inteiro — contei, com a voz arrastada.
Não sei se foi o silêncio que banhava a rua, quebrado apenas pelo barulho distante de carros ou se foi o mal estar em meu estômago que fez eu me calar. Naquele momento, eu dei-me conta de que estava bêbado e no que estar bêbado implicava: arrependimentos. Engoli em seco, franzindo o cenho ao tentar fazer minha mente funcionar direito.
Eu estava bêbado. Estava sozinho com Turner, meu professor/amante, no meio da madrugada, dentro de seu carro e falando o quanto eu estou apaixonado por ele. Isso não podia ser bom e eu soube disto naquele instante.
Foquei meus olhos no objeto de minha atenção durantes meses agora. Turner me olhava com os olhos brilhantes e o rosto inexpressivo. Suspirei ao roçar meus dedos na pele de seu rosto e deixei-a cair. Turner piscou algumas vezes, sorrindo de leve e aproximou-se para deixar um beijo terno em meus lábios. Segurei-o pela camisa novamente. Abaixou-se, apoiando o peso nos joelhos no lado de fora do carro para me abraçar. Deitei o rosto em seu ombro, sentindo minhas pálpebras pesarem cada vez mais.
— Will — falou ele de forma carinhosa —, depois conversamos sobre isso, tá bom?
Afastou-se levemente para me olhar nos olhos.
— Tá bom — assenti, sentindo-me estranho e sonolento.
Turner ajudou-me a levantar e sentar ao seu lado, no banco de carona. Ligou o carro com um suspiro, enquanto eu apoiava minha cabeça no banco estofado. Minha mente começava a clarear um pouco, mesmo que a tontura permanecesse. A percepção do nível de besteira que eu havia feito começava a pairar em minha mente, apesar de não durar muito.
Nenhum pensamento durava muito.
Turner dirigia com o intuito de sair do centro da cidade quando quebrei o silêncio que se instalara dentro do carro:
— Você está me levando para a minha casa ou para a sua? — perguntei, girando a cabeça à esquerda ao encarar Turner com aflição. Começava a sentir-me agitado novamente.
Meu professor deslocou os olhos cinzas em minha direção e logo os voltou para frente, para o pouco trânsito que havia no horário. Franziu o cenho.
— Por que eu te levaria para a minha casa, Will? — perguntou, com certo receio da resposta.
Mordi o lábio, encarando a janela ao meu lado antes de voltar-me novamente para o motorista com um riso nervoso.
— Porque é mais perto? — tentei, ao passo que tentava unir-me ao banco de passageiro.
Turner apenas pigarreou com desconforto, sem desviar os olhos do trânsito antes de perguntar-me onde exatamente eu morava. Virei a cabeça para olhar pela janela novamente. Estava escuro e as casas passavam rapidamente por meus olhos, lembrando-me que tudo é passageiro. Suspirei ao sentir meu corpo pesar.
Respondi com a voz arrastada, antes que adormecesse:
— Bairro das Magnólias — falei, fechando os olhos com satisfação.
Não havia me dado conta, no momento, que basta mais do que o nome do bairro para saber onde a pessoa mora. Mergulhei em um sono profundo, sem sonho algum. Acordei vagarosamente ao perceber que meu corpo balançava, mas não dei importância já que era necessário certo esforço para abrir os olhos novamente. E eu não queria fazer esforço algum.
Permaneci, então, na inconsciência até que o cheiro de comida invadiu meu olfato, despertando-me.
Flashback off
Meu deus, meu deus, meu deus!
Andei de um lado ao outro no banheiro com as mãos na cabeça.
Havia ultrapassado todos os limites. Havia alcançado e superado o maior nível de tolice existente. Havia me inserido em uma situação lamentável e vergonhosa. Não era possível que eu houvesse sido tão idiota a ponto de ligar bêbado para o meu professor. Não era possível que eu houvesse dito as coisas que eu disse para ele.
"Acho que devíamos fazer amor"? Que diabo colocaram no meu álcool?
— Acho que vou vomitar — falei para mim mesmo, apoiando as mãos na pia.
Ergui a cabeça, deparando-me com meu reflexo no espelho. O reflexo de uma pessoa completamente sem noção. Bufei.
— Will? — A voz masculina interrompeu meus pensamentos, assustando-me. — Está tudo bem? — Turner soava preocupado. Encarei a porta por um tempo.
Eu não vou abrir. Aliás, acho que vou me instalar no banheiro de Turner e nunca mais sair. Acabarei morrendo de fome, mas pelo menos morrerei sem antes ter que olhar na cara de meu professor novamente. Morrerei feliz, afinal, tive a chance de me apaixonar pelo menos uma vez na vida. Tive a chance de vê-lo envergonhado. Tive a chance de constrangê-lo quinhentas vezes. Tive a chance de beijar seus lábios. Tive a chance de conhecer seu apartamento.
Voltei os olhos ao espelho.
É, estou pronto para morrer.
— Will, se você não responder eu vou arrombar a porta — ameaçou ele. — E você sabe que eu consigo — completou, com certa diversão.
Arregalei os olhos ao perceber que isso seria ainda mais vergonhoso do já era. Dei um pulo no lugar e apressei-me a abrir a porta com rapidez.
— Estou bem — falei ao vislumbrar seu rosto, sem olhá-lo nos olhos.
Turner tinha uma das mãos no batente da porta e a outra na cintura. A calça de moletom cinza que eu havia visto mais cedo neste dia era muito parecida com a que eu usava. Tomei coragem para olhar em seu rosto assim que o silêncio tornou-se constrangedor. Ele tinha a cabeça inclinada levemente, como se me estudasse. Os olhos preocupados estavam tomados por outra emoção: curiosidade.
Eu podia imaginar o porquê, já que sentia cada pedaço de meu corpo queimar de vergonha. Se eu me atrevesse a pensar na perspectiva de Turner, conseguiria vislumbrar mentalmente o contraste de meus cabelos com minha pele completamente avermelhada. Fechei os olhos com frustração.
Terra, me engula!
— Você estava demorando muito, fiquei preocupado — disse ele ao me encarar.
— Tomei banho — resmunguei ao abaixar a cabeça, como se não estivesse óbvio pelo meu cabelo molhado.
— Eu percebi — disse ele, a voz levemente confusa. — Vai querer almoçar? — perguntou com cautela.
Fiz uma careta, obtendo uma risada da parte dele.
— Tudo bem — respondeu ele.
Trouxe uma das mãos para o cabelo que caía em meus olhos. Levou-os para trás com a mão e puxou-me para perto com a outra. Aproveitei a deixa para esconder-me em seu pescoço, ignorando meus cabelos molhados. Turner cercou-me com os braços, deixando um beijo no topo de minha cabeça.
— As roupas não ficaram muito grandes? — perguntou em um murmúrio.
— Um pouco — respondi baixinho.
— Eu fiz alguma coisa? — perguntou, surpreendendo-me. — Por que você está tão envergonhado?
Afastou o rosto para me observar, sem afastar o corpo. Os olhos cinzas estavam enormes e nítidos vistos tão de perto, a cicatriz ao lado de seu olho esquerdo tomando destaque. A boca vermelha, rodeada da barba mal feita, quase encostava meu nariz. Aproximei-me o suficiente para encostar meus lábios nos seus ao passo que levava minha mão à sua nuca. A vergonha esvaía-se de meu corpo à medida que o ar de meus pulmões fazia-se ausente.
A dança impulsionada por nossas línguas poderia haver durado horas, semanas, meses. Assim que afastamo-nos, no entanto, eu soube que não havia perdurado nem ao menos minutos. Turner beijou-me o nariz logo em seguida, fazendo-me sorrir.
Apesar de não aceitar comer, já que meu estômago recusava-se, sentei-me à mesa com Turner e Jay. Da forma como eles tinham pratos à sua frente, eu tinha um copo e uma garrafa de água ao lado de comprimidos.
O silêncio estendeu-se de forma constrangedora, já que eu não sabia como agir na casa de Turner, não sabia como agir na frente de Turner e não sabia como agir na presença de Jay. Este último mantinha-se observando-me de forma embaraçosa, os olhos castanhos atentos. Turner suspirou algumas vezes.
Em certo momento, relanceou Jay, mas assim que desviaria o olhar, voltou e permaneceu encarando-o com certa indignação. Segui seu olhar e encontrei uma profundidade castanha a me observar com cautela. Jay tinha o cenho franzido antes de suspirar também, sem tirar os olhos de mim.
— O que aconteceu com você? — perguntou ele, sério. Pisquei algumas vezes, tentando entender à que ele se referia quando Turner interrompeu-o.
— Jay — falou em tom de aviso, logo balançando a cabeça negativamente para ele.
Jay estreitou os olhos para Turner e voltou-os à mim.
— Rich não quis me contar — explicou, apontando para meu rosto.
Ergui as sobrancelhas com compreensão. Ele estava falando do meu rosto fodido. Relanceei Turner, que matava Jay com o olhar.
— Eu apanhei — falei com desgosto, já que era meio humilhante eu haver apanhado. — Não vi quem foi, mas suponho que a intenção fosse mesmo me machucar.
Dei de ombros ao ver o rosto surpreso de Jay. Eu já tinha as minhas próprias teorias do motivo que levou adultos à me espancarem em uma universidade.
— Se você descobrir ser gay, não anuncie para a universidade inteira — adverti, rindo do meu humor ácido, mas parei assim que percebi ser o único a fazê-lo.
Pigarreei nervoso, encarando minha garrafa de água.
— Eu sinto muito — Jay pronunciou-se, deixando-me surpreso.
Encarei seu rosto, vendo ali pela primeira vez algo além de divertimento. Havia certa ternura e compaixão, os mesmos sentimentos que vi passar pelos rostos de minha família e de meus amigos ao descobrir. Porém, era a compreensão estampada nos olhos castanhos que deixou-me comovido. Ele via e entendia além do simples acontecimento. Sorri.
— Eu também — murmurei, deslizando os olhos para Turner, que mantinha-se tenso ao observar-nos.
— Bom — Jay pronunciou-se, o sorriso preguiçoso voltando ao rosto —. vou indo lá — disse, levantando-se com o prato vazio na mão. — Como fui eu quem fez a comida, vocês estão encarregados da louça — falou ao largar o prato na pia, virando em nossa direção.
— Eu também ajudei a fazer a comida — disse Turner, erguendo uma das sobrancelhas.
— Ora, Rich — falou ao revirar os olhos. — Aquilo não foi bem uma ajuda, foi?
Segurei o riso ao observar os dois, tomando mais um gole de água. Turner revirou os olhos.
— Vou deixar vocês à sós — disse ele, piscando um dos olhos para mim antes de dar as costas novamente. Os dreads balançavam com certo estilo, deixando-me a indagar como Jay seria sem eles, já que pareciam fazer parte de si.
Disfarcei o embaraço ao beber quase toda a garrafa de água e vi que Turner fazia o mesmo. Senti meu coração bater mais forte no peito e passei a balançar minha perna para tentar diminuir o nervosismo.
O fato de estar sozinho com Turner em seu apartamento já era assustador o suficiente por si próprio, mas saber que ele lembrava das coisas que eu disse na madrugada era ainda pior. Eu sabia que, no mínimo, as palavras que eu havia dito estavam pairando em sua cabeça ininterruptamente.
Recusei-me a deixar que ele limpasse a louça sozinho, ajudando-o no processo. Assim que terminamos, ele suspirou ao postar as mãos na cintura. Olhou-me com certa aflição antes de pronunciar as temíveis palavras:
— Will, precisamos conversar — falou, determinado.
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