Made of Fire
19 XVII - Cara, você está tão na minha
Notas iniciais
— Estou ficando tonto — ouvi a voz entediada de Jay inundar meus ouvidos. Ignorei-o deliberadamente.
Alguma coisa estava seriamente errada, afinal.
— É sério, Rich! Pare de andar em círculos que não vai ajudar em nada — disse ele, fazendo-me finalmente encará-lo. As sobrancelhas estavam erguidas e o rosto estava contorcido em uma careta. Os olhos castanhos me observavam com atenção.
Suspirei, finalmente sentando ao seu lado no sofá.
— Ele se deu conta — falei, verbalizando meus pensamentos. — Ele com certeza deu-se conta de que isto não vai funcionar. Ou pior — lembrei arregalando os olhos —, deu-se conta de que não quer nada comigo. Estou muito velho, afinal. Ele definitivamente deu-se conta — resmunguei, afundando no sofá com um suspiro — de que era só da adrenalina que ele gostava.
Quando o silêncio tornou-se desconfortável, virei na direção de Jay. Este me encarava com uma carranca e, assim que nossos olhos se encontraram, ele revirou os seus olhos castanhos.
— Você não disse que só vê ele na segunda e sexta-feira? — perguntou, com uma cara de entediado.
Bufei, encarando a televisão ligada no volume baixo.
— Minhas aulas são na segunda e sexta-feira — expliquei —, mas eu vejo Will nos outros dias também — resmunguei. Eu via Will nos outros dias, corrigi mentalmente.
Jay manteve-se imóvel ao meu lado por um tempo, antes de voltar os olhos para seu livro, folheando uma das páginas.
— A coisa está mais séria do que pensei, então — falou ele, reprimindo um sorriso.
Levantei do sofá, caminhando de um lado para o outro na sala novamente.
— Não, não está — falei, irritado. — Isto é o que estou tentando te dizer! Will não apareceu em minha sala nestes dias, provavelmente arrependido de tudo que aconteceu entre nós.
Com certeza Will estava arrependido.
Repassei mais de cinquenta vezes nossa última conversa em minha mente, pensando se eu havia dito ou feito algo errado. Ele havia ficado envergonhado por me dar um beijo de despedida, mas não pareceu tão envergonhado a ponto de evitar-me pelos próximos dias. Afinal, este era Will. Não é como se ele deixasse a vergonha – ou qualquer coisa – afetar seus objetivos. O que me levava à mais óbvia conclusão: eu já não fazia parte de seus objetivos. Ele já não me queria.
Dirigi-me para a cozinha, determinado em fazer alguma coisa para esvaziar a mente. Abri a geladeira, aliviado ao encontrar algumas garrafas de cerveja.
Álcool, dei-me conta com alívio.
Jay seguiu-me até o cômodo e parou ao meu lado. Estava usando pijama e tinha os pés descalços, assim como eu. Entreguei-lhe uma das garrafas para abrir a minha logo após. Virei a garrafa, bebendo praticamente metade da conteúdo nela contido de uma vez só.
Jay insistiu tanto que finalmente conversei com ele a respeito de Will. No entanto, nos outros dias ele não apareceu em minha sala. Não esbarrei com ele nos corredores e não o vi em nenhuma das salas pelas quais passei.
Não que eu o tivesse procurando, mas eu o estava procurando.
— Rich — Jay pronunciou-se —, ele provavelmente está ocupado com a faculdade. Ou confuso. Ou apavorado — falou, como se melhorasse a situação. Estanquei no lugar, minha mente voando.
Talvez ele estivesse apavorado com o que aconteceu no banheiro. Estávamos passando dos limites de forma completamente inapropriada, de forma completamente descontrolada. Estávamos indo muito além do que Will pensou que iríamos quando passou a flertar comigo. Ele provavelmente pensou que tudo voltaria ao normal, mas então eu me apeguei à ele, o que ele não estava esperando que acontecesse. E agora ele estava me evitando.
Fechei a cara.
— De que forma ele estar apavorado é melhor do que ele estar arrependido? — perguntei, com escárnio.
Era praticamente a mesma coisa, pensei com desgosto.
— Se ele está apavorado é porque se importa — respondeu, olhando-me com carinho. — Quem não se apavora quando está apaixonado? Você mesmo está apavorado, Rich — apontou ele.
Abri a boca para negar, mas fechei-a rapidamente. Duas coisas passaram-me à mente.
A primeira foi a veracidade do que Jay havia dito. Eu realmente estava apavorado, o tempo inteiro. Apavorado com a dimensão do que eu sinto por Will, apavorado com minha falta de autocontrole perto dele, apavorado que ele não sentisse o mesmo por mim. A segunda coisa que me passou à mente foi o motivo de haver qualquer veracidade no Jay havia falado.
Inclinei a cabeça, observando o sorriso genuíno que inundava seu rosto e seus olhos castanhos. Deixei meus ombros caírem ao fechar os olhos.
Se eu estou apavorado é porque eu me importo.
— Amanhã é sexta-feira — disse ele, rompendo o silêncio ao rir. Ri também, bebendo mais um pouco da cerveja.
Amanhã é sexta-feira.
Fui deitar com dor de cabeça, minha mente dando tantas voltas que fiquei tonto. Consegui dormir apenas quando o brilho nos olhos verdes de Will me inundaram os pensamentos, relaxando meu corpo. Eu só podia estar sendo um idiota, já que os olhos dele não mentiam. E eu sabia muito bem, no fundo de minha alma, o que os olhos dele diziam. Foi com isso em mente que consegui mergulhar em um mar de sonhos confusos.
*
Somente quando acordei no outro dia que percebi que podia ter acontecido alguma coisa com Will. Se ele realmente sentia o mesmo por mim, então podia haver acontecido algo com ele. Podia ter acontecido algo grave. No fundo eu já sabia que havia essa possibilidade, mas era muito mais fácil ignorá-la e pensar que ele estava arrependido de estar comigo.
Eu preferia vê-lo bem do que vê-lo comigo.
Então, com o coração pesando toneladas, tive minhas suspeitas confirmadas assim que entrei na sala de aula às sete e meia da manhã na sexta-feira. Tive também o ar arrancado de meus pulmões e o chão esvaído de meus pés.
De alguma forma, no entanto, mantive-me em pé por tempo suficiente para chegar em minha mesa. Dali, estagnado, fui incapaz de desviar os olhos do rosto de Will.
Ele baixou a cabeça ao me ver, como se tentasse esconder-se de mim, mas não era possível. Ergueu os olhos verdes, um deles agora envolto por um inchaço e uma cor arroxeada, e deu um meio sorriso. Sua boca estava cortada, assim como a sobrancelha esquerda. O rosto, principalmente do lado esquerdo — perto e em volta do olho machucado — parecia um caleidoscópio das cores roxa, vermelha e verde. O pescoço, exposto pela camiseta, mostrava mais uma marca arroxeada.
Apertei os punhos, só então percebendo que havia ficado mais tempo do que devia em silêncio, observando-o. Ignorei os olhares dos alunos, que certamente haviam percebido minha descompostura, e tomei mais alguns segundos para regular a respiração. Percebi que apertava a mandíbula somente quando ela passou a doer.
Respirei fundo e comecei a aula, tentando relaxar e falhando drasticamente. Os minutos se arrastaram e minha cabeça doía ininterruptamente.
Quem diabos havia feito isso com ele? Quem diabos se atreveu a encostar em um fio de cabelo dele? Quem diabos teve coragem de machucar os perfeitos olhos verdes?
Esperei até a aula acabar, o que demorou séculos, e dispensar os alunos para fazê-lo se aproximar.
— William — chamei, sério, vendo que alguns alunos olharam, curiosos.
Ninguém parecia surpreso com o estado físico em que Will se encontrava, o que me fez ter a certeza de que não era o primeiro dia que ele vinha assim à universidade. Observei-o se despedir dos amigos antes de caminhar até mim, relutantemente. Assim que a porta se fechou, deixando-nos à sós, acabei com a distância entre nós em milésimos de segundo, segurando seu rosto com as mãos.
— Quem diabos fez isso? — perguntei, analisando os ferimentos. — Quem, Will? — perguntei mais firme ao ver a careta que estampou seu rosto.
— Uns imbecis — resmungou simplesmente.
Imbecis?
— Mais de um? — perguntei, incrédulo. Cada célula de meu corpo começou a vibrar de raiva enquanto eu afastei um pouco o corpo de Will. Trinquei os dentes antes de perguntar com raiva. — Quem?
Will encarou-me com relutância, um pouco assustado. Suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Eu não sei — disse ele, finalmente. — Eu não vi quase nada.
Fechei os olhos, afastando-me para caminhar de um lado para outro novamente, tentando acalmar meus batimentos cardíacos.
Me senti extremamente patético por haver pensado que Will se afastaria de mim. Se ele quisesse afastar-se agora, eu não o deixaria mais. Não depois disso. Eu não tiraria os olhos dele nunca mais, se isso o mantivesse a salvo. Parei para encará-lo novamente.
— Quando foi isso? — perguntei, estreitando os olhos. Will mordeu o lábio machucado, baixando a cabeça.
Estava bastante claro que havia sido no início da semana, tanto por sua cara culpada e o fato dele haver sumido, quanto pelo estágio dos ferimentos.
— Eu não acredito, Will — falei, minha cabeça pulsando. — Por que não me procurou antes? Foi por isso que não apareceu mais? Mas por quê?
Will se aproximou, envolvendo minha cintura com os braços. Tentei afastá-lo, mas ele apertou os braços com mais força. Abaixei a cabeça para encarar o rosto machucado.
— Eu não queria que você me visse assim — falou baixinho. Balancei a cabeça, incrédulo.
— Isso é ridículo, Will — falei, passando os dedos de leve em seu rosto. — Eu podia ajudar. Eu ainda posso! — falei, pensando em descobrir quem havia feito isso com ele e denunciá-los. — Me conta o que aconteceu.
Will suspirou, balançando a cabeça. Quando afastou-se, quase não pude reconhecer seu rosto tomado de ressentimento. Tomado de mágoa e ira.
— O que aconteceu? — perguntou, baixinho, mas com raiva. — O que aconteceu? — perguntou, erguendo a voz e bufando ao desviar o olhar e cerrar os punhos.
Limitei-me a observá-lo com o cenho franzido. Vê-lo com tanta raiva era algo novo para mim.
— O que aconteceu é que passei a infância inteira me esquivando do meu pai — disse ele, erguendo os olhos raivosos em minha direção — para acabar apanhando de marmanjos logo na faculdade!
Se esquivando de seu pai?
Apanhando na faculdade?
— Isso aconteceu aqui? — A imagem de George inundou minha mente, fazendo-me tremer de ódio. — Foi o George?
Eu. Vou. Matar. Esse. Filho. Da. Puta.
— Eu não sei — respondeu, suspirando ao passo que a raiva se esvaía de seus olhos. Aproximou-se novamente. — Eu realmente não sei. Não posso acusar ninguém se não tenho certeza — falou, chateado. — Eu peguei um atalho para chegar na parada do terminal. Todo mundo pega aquele atalho — emendou com um resmungo quando percebeu a cara que eu fiz. — Então eu mais senti do que vi a pancada em minha cabeça. Devo ter apagado por alguns segundos, mas quando recuperei a consciência eu não enxergava nada direito. Estava tonto, mas com certeza era mais de uma pessoa. Eles ficaram me batendo por um tempo até que... não estavam mais. — Will suspirou. — Eu não sei quem foi, mas com certeza não foi um assaltante. Tudo que eu levava comigo permaneceu comigo. Exceto, talvez — disse ele num resmungo, com uma careta —, minha dignidade.
Respirei fundo, observando o rosto emburrado. Pelo menos ele conseguia ficar emburrado, no fim das contas.
— Você foi ao hospital? — perguntei, observando as cores em seu rosto. — Se você realmente apagou com a pancada, pode ter acontecido alguma coisa aí dentro — falei, referindo-me à sua cabeça. — Se você não foi, vamos agora — falei, pegando sua mão.
Will arregalou os olhos, puxando a mão rapidamente.
— Ei, calma — disse ele, nervoso. — Eu estou bem, não precisa...
— Precisa sim — falei, firme, sem tempo para enrolação. — E vamos agora!
Will negou veemente.
— Eu já fui ao hospital. Tio Shiori me levou — disse ele calmamente, como se eu soubesse de quem ele estava falando. — Eu estou bem.
Ficamos um minuto nos encarando em silêncio.
— Turner — falou, quebrando o silêncio ao pegar minhas duas mãos. Ergueu as sobrancelhas ao me observar com paciência. — Respira — disse simplesmente antes de sorrir. — Eu estou bem.
Mantive-me quieto observando-o antes de suspirar, desviando o olhar para nossas mãos. Eu estava tremendo, percebi, ao ver que Will apertou-as com mais força. A imagem de Will apanhando sem nenhum motivo concreto, no meio do nada, não saía de minha cabeça. E eu não estava lá. Fechei os olhos.
Eu o levaria embora todos os dias a partir de agora, definitivamente.
Will levou as duas mãos em direção ao meu rosto e me puxou levemente em sua direção. O beijo foi terno e calmo, limitando-se à um leve roçar de lábios. Foi o suficiente para acalmar-me, significantemente.
Eu estava apavorado, percebi. Estava completamente apavorado.
Se estou apavorado é porque me importo, porque estou apaixonado por ele, pensei ao lembrar de Jay.
Envolvi seu corpo com meus braços, encaixando meu rosto em seu pescoço. O cheiro de Will invadiu minhas narinas e acabei soltando um suspiro. Apertei-o com mais força contra mim, ouvindo um resmungo de sua parte. Afastei-me bruscamente, arregalando os olhos.
Onde mais ele estava machucado?
— Will — falei, franzindo o cenho ao observar seu corpo. — Onde mais? — perguntei mais para mim mesmo do que para ele, sentindo a raiva voltar ao meu corpo.
Levei as mãos em direção à sua camiseta azul e a ergui com cuidado, ignorando o protesto de Will. Haviam hematomas por todo o abdômen magro dele. Eu conhecia bem esses hematomas. Alguém o havia socado ali repetidamente. Peguei-o pelos ombros e girei-o rapidamente, puxando a camiseta para analisar suas costas. Também machucadas, dei-me conta. Esfoladas, como se houvesse caído de costas no chão.
Isso não podia estar acontecendo!
— Não era bem assim que eu imaginava... — resmungou baixinho, fazendo-me voltar à realidade. Ergui as sobrancelhas.
Do que ele estava falando?
Will olhou-me por sobre o ombro, o rosto tomado pela cor avermelhada. Deu um sorriso de canto e ergueu uma das sobrancelhas ao me olhar com diversão.
— Você pretende tirar toda a minha roupa ou só está observando mesmo? — perguntou, com simplicidade.
Baixei os olhos para suas costas. Eu tinha uma das mãos em sua cintura e a outra segurando a camiseta perto do ombro esquerdo dele. Soltei a camiseta rapidamente, passando o braço por baixo do seu e segurando-o pelo ombro. Deslizei a mão que pousava em sua cintura em direção à sua barriga, puxando-o em minha direção de forma que suas costas ocupassem todo o espaço de meu peito. Deixei um beijo em sua cabeleira desorganizada.
— Você não se comporta nem em situações sérias — acusei ao rir baixinho, sentindo-o estremecer.
Escorou a cabeça em meu ombro, erguendo os olhos verdes em minha direção. Sorriu.
— Não — respondeu, de forma simples.
— Você está mesmo bem, Will? — perguntei, ficando sério novamente. Ele fez uma careta.
— Sim, mas... — Pensou por um tempo antes de sorrir largamente. — Minha mãe diz que beijos fazem sarar mais rápido.
Ri alto antes de deixar vários beijos por seu rosto e pescoço.
Como me recusei a soltá-lo, ficamos abraçados do mesmo jeito por tempo indeterminado. Escorei o queixo no topo de sua cabeça, suspirando. Eu realmente não queria soltá-lo. Tanto que pensei em mil possibilidades de mantê-lo ali comigo durante a tarde inteira, pelo menos.
Será que eu consigo mantê-lo aqui a tarde inteira?
— Acho que outras turmas precisam da sala, Turner — disse ele, rindo. Percebi, então, que eu havia perguntado em voz alta.
— Verdade — falei, desanimado.
Então eu podia levá-lo para minha sala e mantê-lo lá.
Will girou nos meus braços, ficando de frente para mim.
— Você cresceu? — perguntou, confuso ao me olhar de baixo. Ergui uma das sobrancelhas.
— Você é que deve ter diminuído, Will — falei, rindo ao observar a careta que ele fez.
Senti uma pontada no coração ao observar, de novo, as marcas em seu rosto. Se estava assim agora, eu realmente agradeci por não ter visto como estava antes. Certamente quebraria os agressores em dois quando os encontrasse.
— Você acha que pode ter sido o George? — perguntei, passando os dedos por seu rosto.
— Pode ter sido — confirmou ele. — Mas pode ter sido qualquer outra pessoa também. Eu não posso acusar ninguém sem ter provas. E eu não tenho como ter provas se eu não vi quase nada — resmungou novamente. — Talvez eu realmente seja pequeno e magro.
Ri baixinho antes de franzir o cenho.
— Eu não sou — falei, olhando-o nos olhos. — E se alguém se atrever a encostar em você de novo, eu faço questão de deixá-los dez vezes pior do que você está agora — completei, irritado.
Seus olhos brilharam enquanto um sorriso tímido espalhava-se por seu rosto.
Fiquei muito satisfeito ao abandonar meu passado e todas as merdas que eu fiz, mas eu não me importaria em agir como antigamente para proteger Will. Eu não me importaria em fazer o que fosse necessário para mantê-lo bem.
— Me dá seu celular — falei, bruscamente.
Ele franziu o cenho, mas obedeceu. Levou à mão ao bolso da calça e me alcançou depois de colocar a senha dele.
Na foto de fundo da tela, haviam dois rostos similares. O rosto do lado esquerdo era de um garoto muito parecido com Will, com os cabelos escuros bagunçados e os olhos verdes penetrantes. O outro rosto era de uma mulher com idade mais avançada, os cabelos também escuros, mas os olhos pareciam ser castanhos. Estavam abraçados e ambos estavam sorrindo. O irmão e a mãe, percebi facilmente.
Depois de fazer o que eu planejava, entreguei o celular à ele, obtendo um rosto confuso.
— Se você estiver com problemas, pode me ligar — expliquei à ele, vendo-o arquear as sobrancelhas. — Ou melhor, deve me ligar — acrescentei, estreitando os olhos ao perceber sua relutância. — Se estiver com problemas, você vai me ligar. Estamos entendidos?
Um sorriso se espalhou pelo rosto de Will enquanto ele desviava os olhos de seu celular para mim, os olhos mais verdes do que nunca.
— Sim, senhor — respondeu ele, aproximando-se novamente.
Uni nossos lábios com vontade, ação que começava a se tornar rotineira, embora nunca amolante. Nossas línguas dançaram novamente, lembrando-me do porquê era sempre difícil deixá-lo se afastar nem que fosse por um centímetro. Lembrando-me que temos a mesma sintonia.
Como planejado, levei-o para minha sala e não o deixei sair. Recusou-se a falar sobre a matéria. Perguntou minha cor favorita. Roubou-me beijos mesmo quando eu me esquivava. Parou apenas quando a sala foi preenchida por outra companhia, de Edwards. Não o deixei sair mesmo assim, obstinado. Fomos obrigados, então, a falar sobre a administração. Apesar disto, não pude esquivar-me dos olhares depravados de meu aluno. Tampouco o quis.
Relutantemente, observei Will se afastar lá pelas quatro horas da tarde. Louis o havia buscado, já que tinham um trabalho para fazer. Limitei-me a tamborilar os dedos na mesa, ignorando completamente os olhares curiosos de Edwards.
Terminei meu trabalho e saí, resmungando um boa noite para ele.
*
Estava sozinho no apartamento, conversando com Rob pelo telefone. Meus pés descalços estavam apoiados na mesinha da sala enquanto eu me escorava nas costas do sofá. A televisão estava ligada em algum documentário, mas o som era ofuscado pela voz de Rob, que falava animadamente sobre a empresa. Jay devia estar namorando em algum canto da cidade.
— E você, Rich? — perguntou ele, tirando-me de meus pensamentos.
— Eu o quê? — Pisquei algumas vezes, tentando lembrar exatamente do que ele estava falando. Não consegui, no entanto.
— Ainda não arrumou uma namorada? — perguntou, rindo alto. Quando fiquei em silêncio por mais tempo que o necessário, ele continuou: — Francamente, Richard! Você vai acabar se tornando aqueles velhos que vivem sozinho e resmungam até do sol que abriu no céu — falou, gargalhando um pouco mais.
Revirei os olhos.
— Nem todo mundo precisa de uma namorada para ter a vida completa — resmunguei, remexendo em minha roupa.
— Eu estou começando a achar que você até já se casou escondido — disse ele. — Com o Jay, obviamente — completou, rindo alto. Bufei.
— Eu não acredito que a mãe ainda diz isso! — reclamei, lembrando do que ela disse quando eu me mudei de cidade junto de Jay.
— Pois não é tão cedo que ela vai parar — contou, risonho. Ficou em silêncio por um tempo antes de continuar: — É sério que você não se apaixonou mais depois da Hilary?
Fechei os olhos, apertando os punhos.
— Rob — avisei, irritado. — Eu realmente não estou afim de falar sobre a Hilary. Nem agora nem nunca mais — falei, sério.
— Eu sei, eu sei — ouvi sua voz reverberar no celular. — Mas você precisa de alguém. Eu não estava preocupado antes, porque você estava aqui com a gente. Agora que está longe e mergulhado no trabalho, é mais difícil ver se você está bem ou não. A mãe tem razão, você já tem trinta anos na cara, maluco! Eu sei que é complicado, mas...
— Rob... — comecei, mas ele não pareceu me ouvir.
— ... você precisa nem que seja de sexo, cara. Eu conheço alguns lugares que são famosos por aí, se você quiser eu vejo isso para você — falou, fazendo-me com que eu praticamente engasgasse na própria saliva, e riu rapidamente. — Talvez se você relaxar um pouco, consiga perceber que já está na hora de encontrar alguém para...
— Rob! — chamei mais alto, bufando. — Eu já tenho alguém!
Me arrependi um segundo depois de abrir a boca.
— O quê? Tem? Quem? — perguntou, surpreso. — Desde quando? Quem é ela? Ou você só está falando isto para me fazer calar a boca? — perguntou, com certa suspeita na voz.
— Eu com certeza falaria isto se soubesse que você calaria a boca, mas é verdade — resmunguei, contrariado.
Não sabia a extensão da tolerância em minha família, mas sabia que eu não poderia esconder por muito tempo que... Franzi o cenho. Que o quê?
Eu realmente podia ser bissexual, já que eu realmente gostava de mulheres também. Mas Will era o único homem pelo qual já me senti atraído. Aliás, era a única pessoa que conseguia me tirar do sério. Era a única pessoa que conseguia tirar e colocar ar em meus pulmões.
Eu fui apaixonado por Hilary, pensei. Eu era novo, mas estava bastante claro que eu me apaixonara por ela. A mulher era instável emocionalmente, sempre acabando por me deixar maluco. Ela era doida por uma aventura e eu conseguia, na época, proporcionar isso à ela. Aliás, foi por isso que se apaixonou por mim, pelo que eu proporcionava à ela. Me pegava pela mão e me levava para fazer mais alguma missão que tinha em sua mente. Passava de todos os limites, assim como Will, mas ao contrário dele, não tinha consciência alguma disto. Não diferenciava o certo do errado e fazia o que queria, sem se importar com mais nada. Era egoísta. Meteu-me em diversos problemas, e eu não me importava. Estava cegamente apaixonado e sabia que ela também estava por mim. Mas então acabou. Tragicamente acabou. E eu segui em frente, mantendo-me na linha.
Eu realmente fui apaixonado por ela, mas sempre soube que não iria funcionar. Sempre soube que ela não seria a última. Sempre tive certeza que ela não era a pessoa certa. Com o Will, no entanto, não tenho essa certeza. Na verdade, com Will não tenho certeza de nada. Ele me faz duvidar e questionar tudo. Ele vira meu mundo de cabeça para baixo.
— Quem é? Como ela é? — Sua voz invadiu meu devaneio.
Com minha mente dando voltas, respirei fundo antes de responder:
— Ele é fascinante — respondi, balançando minha perna sem parar. — Ele vira meu mundo de cabeça para baixo. Mas eu não sei o que somos, então não posso dizer quem é. Não sei se vai durar — falei, prendendo a respiração ao esperar sua resposta.
Eu podia até imaginar os olhos azuis esbugalhados e o rosto confuso de Rob. A linha ficou muda por tempo suficiente para me fazer checar se não havia caído a ligação. No entanto, a voz de Rob invadiu meus tímpanos novamente.
— Um cara? — perguntou ele, desconfiado. Mantive-me quieto até sua gargalhada invadir meus ouvidos. — Você realmente passa muito tempo com o Jay, hein?
Bufei, sem saber o que dizer.
— Olha, se você vai... — comecei, irritado.
— Não, não vou — respondeu ele, ainda rindo. — Não sei bem de onde você vai tirar coragem para contar para nossos pais e não sei como eles vão reagir, sinceramente — falou ele, a diversão sumindo de sua voz. — Mas eu, sendo o melhor irmão do mundo — continuou, com uma voz dramática —, estou totalmente ao seu lado, porque sou demais — concluiu, rindo mais um pouco. Mas então parou. — Espera, é mesmo o Jay? — perguntou, chocado.
Revirei os olhos, agora rindo também.
— Não, não é o Jay.
— Ufa! Quase perdi a aposta para a Becca— falou e ouvi o barulho de algo caindo no chão. — Merda! Derrubei o controle — resmungou.
— Aposta? — perguntei, incrédulo.
Antes que ele respondesse, no entanto, meu celular passou a vibrar.
— Espera, Rob — falei, olhando o celular de relance. — Tenho outra chamada.
— É ele? — perguntou malicioso.
Bufei antes de trocar a chamada, rezando para que não fosse. Se Will estava me ligando era porque estava em problemas novamente.
— Alô? — perguntei, ouvindo o som alto de música ultrapassar o celular.
— Turner! — A voz de Will invadiu meus ouvidos acima da música. Retesei o corpo inteiro.
— Will? Está tudo bem? Onde você está? O que houve? — metralhei as palavras, tentando pensar racionalmente ao levantar do sofá e procurar as chaves de meu carro.
— Espera — ouvi sua voz abafada e um barulho de roupa. O som de música diminuiu aos poucos até eu ouvir sua voz novamente. — Pronto, consegui sair — disse ele, com a voz tranquila.
Franzi o cenho. Voz tranquila?
— Will, você está bem? — perguntei, já abrindo a porta do apartamento.
— Estou — falou, a voz se arrastando enquanto ele ria.
Encostei a testa na porta ao fechá-la, deixando o ar sair de meus pulmões.
— Você me assustou! — repreendi ele quando pude, ouvindo outra risada.
— Desculpa — falou ele. — É que estou aqui nesta festa porque eles me arrastaram. E daí eu bebi e daí eles quiseram que eu ficasse lá com aquele cara, mas eu não queria. Daí eu bebi mais e tentei dançar, mas a Laurel colocou na cabeça que eu preciso de alguém e eu queria gritar que só preciso de você, mas daí eu lembrei que não podia gritar isso — disse tudo em um fôlego só, para logo suspirar.
— Will, você está bêbado? — perguntei, mas não precisava ouvir a resposta. Estava bastante claro pela voz arrastada e pelo jeito que falava.
— Claro que estou — disse ele, rindo alto como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Desculpa. Eu saí, sabe? Eu fugi deles! — A gargalhada invadiu meus ouvidos. — Eu tive que fugir, acredita? — perguntou, logo rindo alto novamente.
Não pude evitar rir também.
— Acredito — respondi, rindo.
— Eu te liguei porque estava com problemas, sabe? A Laurel é um grande problema quando ela quer, sabia? — perguntou, rindo.
— É mesmo? — perguntei, encostando as costas na porta.
— Sim — respondeu ele. — E você me deu seu número, o que foi muito bom porque eu sei que você se importa. Você se importa, verdade? Você não ia querer que eu beijasse outra pessoa, não é? Eu não quis beijar ele, por isso não beijei mas ele quis me beijar. Acredita? — Gargalhou mais um pouco. — Que idiota! Eu estou com a cara toda fodida, e ele queria me beijar! Eu devo ser muito bonito, então. Eu sou muito bonito?
— Sim, você é — respondi com carinho.
— Não sou, não — disse ele, rindo. — Você que é, Turner. Você é tão lindo que eu acho que vou morrer às vezes só de olhar para... Opa, tropecei — falou, gargalhando tão alto que afastei o celular do ouvido. — Eu queria dizer para a Laurel que é você que eu quero e ela que se foda se não gosta de você mas eu não posso, não é? Porque eu não sei o que estamos fazendo mas eu acho que a gente devia ficar juntos para sempre, você não acha?
Senti meu peito aquecer contra minha vontade e quis beijar ele neste momento. Fechei os olhos. Eu devia desligar a chamada, já que eu sabia que Will se arrependeria de tudo que estava falando depois. No entanto, eu não poderia desligar sabendo que ele estava bêbado e agora, sozinho. A buzina invadiu meus ouvidos, assim como o grito irritado de Will.
— Isso, passa por cima, imbecil! — gritou ele, emburrado.
— Will, onde você está? — perguntei, abrindo a porta novamente. — Você está na rua? Cadê seus amigos?
Desci as escadas correndo, enquanto ouvia Will resmungar.
— Deixei eles na festa porque não queria ficar lá — falou simplesmente.
— Onde você está? — perguntei, começando a ficar nervoso.
— Você está tão na minha, Turner — disse ele, rindo. — Estou caminhando, ué! Acho que só caminhei duas quadras — disse ele, parecendo perdido. — Está um pouco frio mas eu trouxe meu casaco... Ei, cadê meu casaco? Será que alguém roubou?
— Will, fica exatamente onde está que eu vou te buscar — falei, caminhando em direção à garagem do prédio. — Que festa você estava?
— Na Ballare — respondeu. — Vai vir me buscar por quê? Eu liguei só para ouvir sua voz — perguntou, confuso.
— Tem algum lugar para você sentar? — perguntei.
— A calçada? — perguntou, parecendo achar graça.
— Pode ser! Senta na calçada e não levanta até eu chegar, tá bom?
— Tá bom — respondeu simplesmente.
Dirigi rapidamente pela cidade em direção à rua onde ficava a Ballare, com o celular no ouvido. Will não poderia ter ido muito longe. O silêncio me fez pensar que ele havia desligado a chamada, mas então sua voz fez-se ouvir novamente. Franzi o cenho.
Ele estava cantarolando?
Ouvi Will cantar alguma música que eu não conhecia, de forma baixa, durante o percurso inteiro. Assim que passei na frente do local de festas, fiquei observando as ruas à procura de Will. Avistei-o há um quarteirão de distância do local. A rua estava vazia, fazendo-me pensar no sermão que eu passaria para ele quando estivesse sóbrio. Estava sentado na calçada, as costas apoiadas em uma das lojas da rua, fechada por causa do horário. Chequei o relógio, vendo que era uma hora e treze da manhã.
Estacionei o carro e desci, caminhando em sua direção. Will sorriu levemente. Abaixei-me na frente dele, checando se estava inteiro. Então, ouvi-o perguntar como se fosse a conversa mais normal do mundo:
— Qual sua cor preferida mesmo?
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