Made of Fire
48 XVI. Eu não me chamaria Dragão sem uma Full House
Notas iniciais
"Os vícios entram na composição da virtude assim como os venenos entram na composição dos remédios. A prudência mistura-os e atenua-os, e deles se serve utilmente conta os males da vida."
François de La Rochefoucauld
Eu não tinha apenas opção, eu também tinha oportunidade.
Quando entrei no cassino naquele sábado à noite, eu sabia exatamente quais eram as minhas duas saídas.
Era como as duas entradas para o Golden Casino. A entrada pelo beco sujo e escuro, e a entrada pela parte iluminada e limpa. O portal sigiloso e apressado, e o portal decidido e ousado.
Mais vale escolher o caminho longo ou o curto?
Sequer importa, quando já não se tem nada a perder?
Eu tinha orgulho ao entrar pelo cassino, cercado de câmeras, ser revistado diversas vezes, passar pelos corredores avermelhados e adentrar aquelas portas de ferro resguardadas por Cobra. Eu tinha orgulho de escolher o caminho mais longo, porque sabia que, desta forma, estava impondo minha independência. Minha independência de Lutz, minha independência dos vícios, minha independência do passado. Porque eu sou independente.
Eu sou Richard Turner, afinal.
E eu já não tenho medo.
*
— Dragão! Dragão! Dragão!
Sorri de canto com a plateia, mas não desviei os olhos dos escuros de meu oponente.
Sem o terror psicológico causado por Lutz, eu podia concentrar-me completamente nos jogos. Como um desafio à mim mesmo, mantive-me longe do Poker pelo máximo de tempo possível, meu preferido, concentrando-me no Blackjack, na Banca Francesa e por último, na queda de braço.
Era como testar o próprio autocontrole ao manter-se longe de doces, por exemplo, e ficar na base de cereais saudáveis. Exatamente como uma dieta.
As quedas de braços eram melhor proveitosas quando se estava ali há um bom tempo, e já se conhecia a força de cada jogador acabado daquele lugar. Talvez por este motivo, quem era novato no Golden era obrigado a usar a força do braço ao escolher um apelido. Primeiro, porque o apelido era uma marca do Golden, um registro, e segundo, porque assim os mais antigos frequentadores tinham um jogo fácil contra os novatos. Se os antigos fossem pegos em um momento de ruínas e percas, se empolgariam com o ganho fácil, trazendo mais lucro ao Lutz.
Quando se trata de jogatinas, a empolgação com os ganhos era uma forma fácil de manter os clientes. Tudo era uma questão de estratégia, domínio e poder.
Eu tinha que admitir, Lutz Fletcher era bom no que fazia.
Não só forcei meu braço contra o moreno em minha frente, como fechei os dedos contra sua mão com mais força. Espada, como se autodenominou, não desviou os olhos dos meus. Ele também era um sobrevivente, afinal, e estávamos todos lutando uma guerra cada dia a mais que permanecíamos ali.
Os meus motivos sempre foram a aventura e logo, o vício. Nem sempre era isso que levava à estes homens e à estas mulheres a chegarem ali. Eu sempre fui relativamente rico, o que não era uma regra no Golden.
Por fim, o braço de meu oponente encostou na mesa de madeira, fazendo-me, pela décima terceira vez da noite, o vencedor.
A plateia, composta por cerca de dez jogadores já embriagados à nossa volta, acenou positivamente, indicando que foi justo. Os que torciam pelo Espada soltaram um muxoxo, e a mulher de cabelos presos em um penteado complicado balançou a cabeça negativamente e tomou o resto de sua cerveja antes de se dispersar.
Espada franziu o cenho, claramente desgosto, e levantou.
No canto da mesa estava o meu bolo de dinheiro sobre o dele, e ao lado, o funcionário responsável por manter a ordem. Depois disto, como vencedor, eu tinha três opções: podia permanecer e esperar pelo próximo adversário para apostar em cima do dinheiro já acumulado; ou simplesmente pegar minha quantia e sair; ou então, tomar meu dinheiro e apostar outra quantia mais baixa novamente, recomeçando a aposta.
No entanto, ao perceber que Lutz saía do escritório com Frank ao lado, encarando-me com desconfiança e irritação, eu optei por pegar meu dinheiro e sair. Outros poderiam começar novas apostas.
Caminhei em sua direção assim que ele acenou para que me aproximasse.
Já haviam se passado umas duas horas desde que eu havia chegado, e eu pude ver quando Lutz também chegou, indo para seu escritório. Nada me havia dito, nem ele, nem Frank, a respeito da escapatória de Marcus. No entanto, em cada olhar desferido em minha direção, eu podia encontrar a desconfiança.
Eles não podiam me acusar sem provas, e eu não precisava raciocinar muito para saber o porquê. Não era uma questão de honra, já que ninguém ali parecia ter, e muito menos uma questão de justiça. Não havia justiça no cassino. Era uma questão de domínio.
Caso eu não tivesse nada a ver com o escape de Marcus, então talvez eu não soubesse que ele havia escapado. E se eu não sabia, eles poderiam continuar usando a vida de Marcus como ameaça, sem eu estar ciente do que ocorria. E se eu não tinha nada a ver com a escapatória dele, significava que outra pessoa o ajudou a sair dali. Se me contassem, eu poderia ir atrás de Marcus e descobrir, como ele havia saído desta — e por quem — para que eu também fizesse o mesmo.
Sorri, encarando as orbes castanhas.
— Algum problema? — perguntei, desentendido.
Lutz estreitou os olhos.
— Nenhum — optou por dizer, encarando um Frank irritadiço atrás ao falar no telefone. — Frank está precisando descarregar energias.
Então, acenou para os seguranças que, em dois segundos, pegaram os braços de Trenton, que devia ter por volta da idade que eu tinha quando comecei a frequentar o cassino. Franzi o cenho, encarando-os.
— Não, por favor — disse ele, tentando inutilmente soltar-se dos braços dos três homens que o arrastavam dali. — Eu juro que eu pago! Veja, veja! — gritou, estridente. Agora tinha os olhos azulados em Lutz, que apenas encarava a cena. — Está começando um novo jogo, por favor, por favor, me deixe jogar! Eu vou recuperar, eu vou recuperar — falava, ficando vermelho pelo esforço. — Eu sinto que no próximo, eu...
Sua fala foi interrompida com chute de Frank que levou no estômago, que havia desligado a chamada e se aproximado do jovem sem eu perceber. Dei um passo em frente, mas a cara que Lutz deixou claro que minha cabeça estaria rolando antes de eu tentar. Frank aproximou o rosto de Trenton, que ainda gemia pelo golpe.
— Cala a boca — murmurou, em tom baixo, mas ameaçador.
Então, pôs-se ereto novamente, e com um aceno seu, os três homens arrastaram o garoto para sala de número 2, que eu bem conhecia.
Trinquei a mandíbula.
Frank, quando ia adentrar o cômodo após trocar um olhar malvado com Lutz, recebeu novamente outra ligação. Bufou, mas atendeu no terceiro toque, ficando parado em frente à porta do cômodo.
— Eu não entendo — pronunciou-se Lutz, chamando minha atenção. Franzi o cenho. — Frank diz que você é ignorante, mas apesar de toda a confusão e do trato desfeito, você voltou. Você é inteligente — disse, fazendo-me questionar o porquê de começar uma conversa ali, no meio do corredor, com o Golden logo ao lado.
— Eu não tive escolha — falei, referindo-me às ameaças contra Marcus e minha família.
Lutz sorriu, aparentemente satisfeito que eu me importasse com as pessoas que amo e assim mantivesse gerando lucro para ele. Mas então sua expressão mudou, e me estudou por um minuto, antes de abrir a boca.
No entanto, Frank foi mais rápido. Aproximou-se como um vulto, com o celular no ouvido, e cortou-me em pedacinhos com o olhar.
Franzi o cenho, tentando compreender.
— Marcus — disse ele, para Lutz, que desviou os olhos de Frank para mim. — Eu vou te encontrar — falou, desta vez, para Marcus. Estava tentando manter a postura e tentando sorrir cinicamente, mas sua voz denunciava o ódio que sentia. — Eu vou arrancar dedo por dedo, órgão por órgão, enquanto você ainda estiver vivo. Eu vou te encontrar, Marcus, e você vai desejar nunca ter me conhecido — falou, em voz baixa, enquanto eu sentia os olhos curiosos de Lutz em mim.
Pelo que eu conhecia de Marcus, sua próxima reação seria rir, e confirmei isto pela ira que passou pelos olhos escuros de Frank. Reprimindo sorrir, fixei os olhos em Lutz que, pela cara e pelo movimento que vi ao meu redor, havia chamado a atenção dos seguranças.
Fechei os punhos, preparado para lutar.
Flashback on
— Agora será que pode me explicar o que diabos está acontecendo? — perguntei, pressionando o celular no ouvido.
— Eu sabia que podia confiar em você — sussurrou Marcus, todo meloso. Revirei os olhos, mas antes que eu o apressasse, ele continuou: — Escuta. Há pelo menos cinco carros blindados de Lutz aqui fora, e tem pelo menos dois deles aqui dentro — explicou, tropeçando nas palavras. Arregalei os olhos. — Eles vieram por mim e eu acho que entendi o motivo.
Franzi o cenho, tentando digerir o que ele dizia.
— O quê? Marcus, o que você ainda está fazendo, conversando comigo, babaca? — perguntei, incrédulo. — Sai daí, idiota!
Marcus bufou.
— Não tem como — sussurrou, aproximando-se do celular. — Eles cercaram a casa, e não posso contar com ninguém aqui. Se eu pudesse confiar nos meus rapazes, como deveria — grunhiu, irritado —, então talvez eu tivesse uma chance de escapar por uma das janelas, com alguma pistola. Mas não é o caso, então preciso de você. E você precisa de mim, então estamos quites.
Eu não sei o que mais aumentava em mim: o franzir das sobrancelhas, ou o nó em minha mente.
— O que Lutz quer com você? — perguntei, confuso, vendo-o soltar um riso pelo nariz. — E o que diabos eu tenho...
— Lutz não quer nada comigo, Rich! É Frank o problema — explicou, aos sussurros. — Eu atrapalhei mais alguns dos negócios dele no mês passado — contou, com um leve tom de criança que acabou de aprontar, e segurei-me para não xingá-lo. — Eu não tenho culpa! — falou, como se soubesse que eu iria repreendê-lo. — Você conhece o Frank? Dá vontade de estragar tudo que ele faz, de propósito! — Bufou. — Acontece que o filho da puta comprou o Japa, que estava comigo há anos! E não sei quem mais da... — Sua voz foi diminuindo, até que o som abafou de novo. Mas não antes de eu ouvir a porta abrir.
As vozes abafadas tomaram conta, ininteligíveis, e logo o som de algo arrastando. Alarguei os olhos, olhando ao redor, como se eu pudesse ver o que ocorria com Marcus, no outro lado da cidade. No lado pobre da cidade.
Esperei, esperei, e esperei.
— Marcus? — sussurrei, sem entender o motivo de eu sussurrar.
Ele tinha que desembuchar logo, ou acabaria levando um tiro antes de eu saber o que diabos eu tinha a ver com tudo aquilo. Se estavam prestes a levar Marcus para um interrogatório ou para uma sala da morte, então ele não tinha como me ajudar em nada.
Aliás, era realmente ele quem precisava de ajuda. Só que eu estava longe desse mundo há muito tempo, não tinha contatos, não tinha amigos, não tinha ninguém com quem contar para ajudar a Marcus. Céus, eu não tinha ninguém para me ajudar!
Marcus era o único que eu confiava, e até certo ponto. E agora ele estava prestes a ser sequestrado e provavelmente morto também. Frank o odiava até as tripas. E eu não podia fazer nada por ele.
Como diabos ele achava que eu poderia lhe ajudar?
Engoli em seco, percebendo que o subia pela minha garganta era a vontade de chorar. De onde ela surgia, no entanto, eu não fazia ideia.
Não que me importe com Marcus, repeti a mim mesmo.
— Eu já falei o quão inconveniente foi essa parceria entre Lutz e Frank? — perguntou ele, como se nada houvesse acontecido, aos murmúrios.
Ri, seco, fechando os olhos com alívio.
— Tirou as palavras da minha boca — falei, soltando o ar pelo nariz. Mal terminei de falar, e ele continuou:
— Olha só, Japa está trabalhando para o Frank, só que ele não é o único. Eu sabia que havia algo de errado, mas como o idiota que eu sou — resmungou, claramente irritado —, ignorei meus instintos. Eu devia ter metido três tiros naquele imbecil quando tive a chance — bradou, com a voz baixa.
Fechei os olhos, não duvidando nada que ele estivesse falando sério.
— O que isso tem a ver comigo, Marcus? — perguntei, olhando para os lados, impaciente.
Ele morreria, e não teria terminado de falar.
Por que tão tagarela?
— Tudo! — exasperou-se, para logo baixar a voz: — Tudo, Rich! Eles podiam ter armado essa para mim há um bom tempo, mas esperaram até hoje! E ainda — emendou, exaltado, que eu quase o podia ver gesticulando —, eles estão lá fora. Se quisessem, já estariam aqui dentro, e eu já estaria morto. Pelo que você acha que eles estão esperando? — perguntou, mas assim que continuou a falar, supus que não era pra eu responder: — Por você! Porque eles sabiam que você chegaria na cidade hoje! É o seu prazo, não? Só que eu sabia também, porque eu ouvi suas mensagens, então eu também estou por dentro dos...
Franzi o cenho, interrompendendo-o.
— Por que eles estariam esperando por mim, Marcus? — perguntei, mas agora eu também já tinha uma ideia do que se tratava.
Marcus claramente bufou, e ouvi o som de alguma trava.
— Como é que você ainda está vivo? — perguntou, e revirei os olhos. — Achei — disse ele, e antes que eu perguntasse do que falava, ouvi o som de isqueiro três vezes seguidas. Ele tomou uma pausa, provavelmente para tragar o cigarro, e então continuou: — Estou em meu quarto, tranquei tudo falando que ia assistir um pornô — explicou, e eu evitei bufar. — Frank vai me usar para ameaçar você, eu tenho certeza — explicou Marcus, como se nada houvesse acontecido. — Frank tinha uma fixação por você, de certo que tem um bom radar pra viados— falou, rindo baixo. — Só que ele deve acha que sou também, por isso que sempre diz que fazemos tudo um pelo outro e toda essa baboseira — falou ele, e pude ver que tinha o cigarro na boca pela forma estranha que saíram suas palavras. — Mal sabe ele que é cada um por si, e cada si por um — falou, rindo novamente.
Apertei a região entre os olhos, ficando nervoso.
Se havia alguém no mundo que se trancaria em um quarto — dizendo que vai assistir pornografia, fumaria um cigarro e ficaria jogando papo fora no telefone, antes de estar prestes a ser sequestrado, seria Marcus.
— Você não está prestes a morrer? — perguntei, irritado.
Marcus suspirou pesadamente.
— Os carros continuam parados — murmurou, provavelmente olhando pela janela —, fechados, como se nada estivesse acontecendo — falou, quase tão baixo que não escutei. — Eu tenho certeza de que eles vão usar o útil ao agradável, ou seja, me usar para te ameaçar por quanto tempo conseguirem e depois me matar, como Frank quer há tanto tempo. Ele finalmente conseguiu pôr as mãos em mim — murmurou ele, com um tipo de admiração que não compreendi.
Algo acabou por fisgar minha atenção, no entanto. Havia um segurança do lado de fora do cassino, com um celular nos ouvidos e os olhos tão fixos em mim que pensei que podia me atravessar.
— Marcus... — comecei, mas ele não me deixou terminar.
— Rich, dê um jeito de me tirar de lá e eu protejo o garoto. Você está um passo em frente: não vai haver o efeito surpresa, então consegue fazer isto. Eu coloco o Kevin sob minhas asas, que seja. — Soltou um muxoxo. Arqueei as sobrancelhas. — Frank pode ter corrompido o Japa e outros, mas eu também corrompi alguns dele — falou, com escárnio. — Posso conseguir pegar o garoto e sumir com ele da cidade.
O quê?
Cheguei a esquecer do segurança, que dava as costas para voltar para dentro do local, ao digerir as palavras de Marcus.
A raiva acumulada que eu sentia por ele explodiu dentro de mim, tanto que tive que me acalmar pra não socar um muro na rua e não chamar a atenção de ninguém no cassino.
E ele ainda tinha a cara de pau...
— Você disse que não tinha como ajudá-lo! — E teria gritado, se eu não estivesse perto do casino. Marcus estalou a língua. — Toda vez que eu te liguei e você atendeu, você me disse que não podia fazer absolutamente nada por ele. Nada! — esbravejei, enxergando tudo em vermelho já.
— É, pois é — disse ele, de uma forma forçadamente entediada para me irritar mais ainda. — Eu ainda não sei como você acreditou nisto.
Abri a boca, chocado demais para poder dizer alguma coisa que não fosse grunhidos.
— Rich, não guarde rancor, está bem? — reclamou ele, e ouvi o som semelhante à batidas na porta. E então, ouvi um som de cadeira, provavelmente significando que Marcus levantava. Ele tomou um segundo, enquanto eu tomava vários para me acalmar. — É claro que eu podia ajudar Kevin, mas você sabe o que isso vai me custar? Eu vou ter que usar favores de pelo menos cinco pessoas, favores que guardo e cultivo há anos, favores que seriam úteis para salvar a minha própria vida e não a de um garotinho patético que se acha no topo do mundo por possuir uma arma na cintura e conseguir vender alguns quilos de coca pela cidade — resmungou ele, irritado, e de fundo, ouvi as batidas novamente.
Naquele momento, percebi que Marcus era exatamente como Hilary: egoísta pra caralho. Eu não sei como é que eu ainda confiava no filho da puta, e muito como eu poderia colocar a vida de Kevin e o meu futuro nas mãos dele.
— Marcus? — ouvi a voz abafada, provavelmente pela porta.
Franzi o cenho.
— Droga — sussurrou ele, enquanto eu ouvia algum som de metal. — Rich, você sabe que não estou mentindo agora — sussurrou ele, com rapidez. — Os favores que eu guardava eram importantes, mas minha vida é mais importante e custa mais do que isto. E você sabe que eu sempre cumpro minha palavra.
Sim, eu sabia.
Marcus não me decepcionaria.
— Estou no meio de algo aqui, Japa — gritou ele, para que o outro escutasse.
Não importava se eu confiava 100% em Marcus, eu não tinha opção alguma. Marcus era minha única opção. No entanto, isso não significava que ele estava certo.
E se ele estava, não significava que daria certo.
— E como diabos eu vou te tirar daqui? — perguntei, irritado. — Tem noção de quantos seguranças tem ali dentro, de quantas câmeras? E se eles não te trouxerem para cá, e te levarem para outro lugar? Você não pode colocar sua vida nas minhas mãos se eu não sei o que...
— Marcus, abra a porta! — ouvi a voz abafada repetir.
— Acredite, você não vai querer me encontrar deste jeito — respondeu Marcus, daquele jeito debochado, mais alto para que o outro pudesse ouvir.
— Marcus? — chamei, sussurrado. — Como diabos eu vou...
— Marcus, se você não abrir a porta, eu vou arrombar — disse o Japa, com o tom de voz mais alto. — Eu sei que você sabe sobre Frank. Não me olhou na cara o dia todo — falou ele, e logo riu. Marcus continuou em silêncio. — Abra, ou eu vou fazer você abrir.
— Marcus? — chamei, quase sem voz.
— Dá teu jeito — sussurrou de volta, e a chamada encerrou.
Flashback off
Bom, eu não precisaria lutar, eu apenas necessitava abrir a boca e dizer o que eu já havia decorado em minha mente. Sorri com escárnio.
Frank desligou o telefone e me olhou, tirando um canivete do bolso. Lutz tentou lhe dizer com o olhar o que eu pensei que fosse: aqui, não. Indicou o próprio escritório, mas Frank pareceu ignorá-lo, dando passos em minha direção até eu sentir o cheiro enjoado de seu perfume barato.
— Kevin não vai apenas perder os dedinhos, vai perder também as cabeças de todos os membros da família — disse, na minha cara, ameaçando toda a família de Jay.
Cuspi em seu rosto, antes que pudesse me conter.
Sujeitinho lixo.
Só não levei nenhuma porque Lutz se apressou em puxar Frank para longe de mim, enquanto quase todos os seguranças do local pareceram acumularem-se à nossa volta. Frank se soltou do parceiro, olhando para ele com raiva.
Cruzei os braços.
— Foi ele — disse, apontando para mim — que roubou as chaves de Miguel! Foi ele que ajudou no escape do filho da puta do Marcus! — Arqueei as sobrancelhas, vendo Lutz suspirar, já imaginando que eu era o culpado. — Marcus me disse na cara de pau que foi ele. — Isto me fez sorrir. Marcus era mesmo cara de pau, e eu devia imaginar que ele esfregaria isto em Frank na primeira oportunidade. Então, a expressão de Frank tornou-se maldosa ao fixar os olhos em mim. — Você sabe que não vai sair daqui vivo, não é? O "amigo" que você ajudou acabou de te jogar para as cobras.
Isto me fez alargar o sorriso.
Não devia tê-lo feito, porque isto desencadeou em um soco na minha cara. Abaixei assim que senti que o brutamontes ao meu lado esquerdo tentaria me segurar, desviando dos braços alheios. Infelizmente, quando ergui o rosto, a fincada em meu ombro me fez grunhir alto e levei instintivamente a mão em direção à pele lesionada.
Antes que Frank acertasse o canivete sangrinolento em mim outra vez, desviei para o lado, sendo pego pelo pescoço por bíceps maiores que minha cabeça. Apoiei ambas as mãos no braço alheio e assim que Frank novamente tentou-me atingir, desferi o chute mais raivoso que consegui em seu abdômen.
No desespero, já que não podia mais respirar, abri a boca e finquei os dentes na pele bronzeada até sentir sangue em meus lábios. Não há regras no submundo. O maior soltou-me, e percebi se tratar do mexicano, o segurança do qual roubei as chaves. Inspirei fundo e estava prestes a defender-me de Frank outra vez quando ele tirou a pistola da calça e apontou à minha cabeça.
Congelei.
Apesar de eu demorar segundos para perceber, visto que meu mundo parou de girar, todos ao redor haviam congelado como eu. Primeiro, porque ninguém queria chegar perto de mim e também levar um tiro. Segundo, porque os únicos seguranças que haviam me atacado eram os quatro que estavam por perto, e apenas para evitar briga; os outros estavam em posição ereta. Terceiro, porque todos no Golden haviam parado com a atitude, enquanto Lutz tentava fazer com que Frank não puxasse o gatilho ao se aproximar e dizer palavras quais eu não podia compreender.
Porque eu já não ouvia nada.
Todo o meu mundo parou e o único que eu podia ouvir era o som do sangue correndo por minhas veias. Eu havia contornado o medo, mas no momento ele contornava a mim.
Eu não quero morrer.
Eu sou um professor aborrecido com um passado turbulento. Eu havia vivido. Não havia pulado de paraquedas, nunca havia escalado o Everest, e nem visitei todos os países que queria conhecer. Mas eu havia vivido perdidamente.
Eu havia amado, arriscado, sofrido, gargalhado e quebrado a cara tantas vezes que mal podia contar. Eu havia vivido de aventuras, de drogas, de vícios, de amores, de música, de livros, de adrenalina. Eu havia enfrentado a morte mais vezes do que eu gostaria, aguentado a dor devastadora da perda, superado os intensos problemas e descoberto a paixão mais extraordinária da minha vida.
William.
Eu era um professor vivido, mas eu não estava pronto pra morrer.
Não era apenas Will que me prendia aqui, neste mundo, neste planeta, nesta vida. Eu não estava preparado para largar meus irmãos para um mundo onde eu não esteja lá para guiá-los. Eu ainda tinha que cuidar de Jay, porque ele não parecia saber cuidar de si mesmo, mesmo adulto. Eu não podia ir-me sem antes compensar meus pais por todas as noites mal dormidas de preocupação. E eu não queria ser transformado em cinzas sem antes compartilhar meu conhecimento com meus aprendizes, com meus alunos.
Eu ainda não havia acabado.
A diferença é que eu havia me despedido de minha família e de Jay. Só que eu não havia conseguido dar adeus à Will, e ele jamais me perdoaria por isto. E eu nunca seria capaz de despedir-me, não dele.
Eu nunca devia ter que despedir-me dele.
Enquanto os minutos se passaram e Lutz, apesar de estar afetando a postura de Frank com prováveis ameaças, a arma metálica ainda estava apontando em direção a mim. Apontando para minha cabeça.
Eu queria abrir a boca e dizer que eles não deveriam. Eu devia abrir a boca e revelar sobre as informações do pendrive. Eu devia abrir a boca e me salvar.
Ninguém havia me dito, no entanto, que todos os músculos do corpo paralisavam ao ter uma arma apontando para você.
Fechei os olhos.
No instante seguinte, no entanto, a comoção fez com que eu os abrisse. Frank estava abaixando a pistola, e atrás de mim, no amplo espaço do cassino, as vozes se fizeram aumentar de volume. Assim que a arma estava apontando para o chão, com o braço ainda tenso de Frank, me permiti respirar.
O ar finalmente entrou em meus pulmões, e meus neurônios pareceram voltar a funcionar de maneira normal. Pisquei algumas vezes, focando os olhos no rosto irritado de Frank.
Todos sabiam o risco de estar ali, no Golden. E apesar de Lutz ganhar dinheiro a cada segundo, nem todos eram marionetes por ali. Pessoas iam e vinham, ganhando ou perdendo seu dinheiro, e partindo. Todos eram ameaçados, sem dúvida, pelo simples fato de saber sobre a existência do Golden. Mas nem todos perdiam o dinheiro ofertado por Lutz, nem todos tinham um metal atravessando a pele, e nem todos eram chantageados pelo medo.
Nem todos eram forçados a voltar.
No entanto, ver alguém ser baleado e morto praticamente na porta do Golden era o único que necessitava para que Lutz perdesse ao menos um terço da clientela. E apesar de parecer, não era fácil achar clientes na cidade.
Eu só sabia de um caso de morte acontecido no Golden e ainda assim, era dedução, porque o cara que frequentava havia desaparecido. Outro caso havia sido sobre a namorada de Grinch, que havia recebido uma "bala perdida" coincidentemente após ele dar as costas ao cassino devendo dinheiro. Isto significava que, se eles chegavam a cometer assassinatos, tudo era bastante sigiloso e silencioso. O motivo era óbvio e estava claro em alguns poucos rostos assustados dos jogadores atrás de mim.
Frank, é claro, não compreendia todos os cálculos da equação. Talvez por isso não era dono de um grande cassino, perdia boa parte de seus empregados e deixava uma pilha de corpos pela cidade. Frank não era empreendedor como Lutz.
Estreitei o olhar.
— Eu não entendo. — Lutz foi o primeiro a falar, repetindo o que havia dito antes. Foquei os olhos nele.
A música, que eu nem havia percebido haver parado de tocar, recomeçou e o funcionário responsável pelo Poker no lado esquerdo da área acalmou a todos os assustados. Não eram muitos, mas apenas um que saísse e não voltasse já traria prejuízo ao local.
Pelo canto de olho, podia ver todos os brutamontes aproximarem-se calmamente do pessoal atrás de mim, talvez para dar segurança aos outros.
— Você adora isto aqui — continuou ele, abrindo um dos braços para indicar o Golden. — Seria o trabalho perfeito e você ganharia muito dinheiro, porque você é bom no que faz. E você adora apostar — reforçou, os olhos penetrantes em mim. — Eu sei que adora. Muitos estão aqui só pela ganância, mas você... Você está pelo sentimento — falou, apontando para mim.
Inspirei fundo, percebendo que ele falava do que eu estava evitando enfrentar.
Era o trabalho perfeito, como Lutz dizia, é claro que era.
Para alguém como eu, que viveu contornando as regras, que andou lado a lado com a ilegalidade, que deixou para trás a adolescência neste lugar, era o trabalho perfeito.
Quem não gostaria de andar ao lado de alguém com o tipo de poder que Lutz possui, com a quantidade de dinheiro que ganha todo dia tanto no Black como no Golden Casino?
Alguém que não fosse como eu, me respondi. Alguém que não fosse como nós.
Olhei para trás, onde o pessoal continuava a jogar, beber e conversar. Alguns poucos encaravam a região onde nos encontrávamos, com curiosidade ou medo, mas sem querer intervir.
Além de ganhar uma boa grana, eu também teria a proteção que Lutz tem em torno dele. Eu teria poder. Os seguranças que tanto me seguraram estariam a me proteger e a proteger minha família, caso eu me metesse em problemas. Seríamos parceiros, seríamos companheiros de trabalho.
Lutz provavelmente queria alguém como eu porque Frank era seu oposto. Pertencíamos ao mesmo mundo, mas éramos opostos. Frank era poderoso nas ruas, na classa baixa, no mundo suburbano, onde Jay e Kevin sempre pertenceram. Onde Marcus pertence e também protege, à sua própria maneira. Já Lutz era poderoso naquele tipo de indústria, naquele mundo autoritário, naquela classe alta.
Eu estaria na parte administrativa, estaria no meio. Eu faria o equilíbrio.
Eu entendia o motivo dele.
Mas qual era o meu?
— Qualquer um aqui dentro mataria para ter essa mesma oportunidade, de trabalhar comigo. Então qual o problema? — perguntou, prendendo meu olhar no seu. — O que te impede? — E, pela curiosidade em seu olhar, percebi que queria mesmo saber a resposta.
O que me impede?
— O medo? — perguntou Frank, intrometendo-se, com um sorriso sádico de canto.
Eu sabia que para responder esta pergunta eu precisava responder outra: Por que diabos eu estava aqui, afinal?
A verdade é que eu não devia estar ali. Eu não precisava estar ali. Não hoje. Não mais. Mas eu havia voltado.
E por quê?
Eu já estava com certa paz de espírito pelo que ocorreria, enquanto dirigia para o cassino naquele início de noite. Eu tinha as cartas na mão e elas tinham tudo para dar certo. Eu havia dado sorte, muita sorte, mas não se ganha jogo de azar algum sem um pouco de sorte. Eu sentia aquela mesma mistura de adrenalina com calmaria quando descubro que estou prestes a formar um FullHouseno Poker.
Eu estava arriscando perder o jogo no minuto que pus os pés no Golden. Mas eu quis estar ali.
E por quê? Por que eu arriscava?
Havia previsto os movimentos deles, porque eu sabia que eles não me acusariam pelo escape de Marcus. Eu supus que não me acusariam de nada, e eu estava certo. Também supus, por consequência, que eu poderia voltar. Eu poderia voltar como se nada estivesse acontecendo e sentir aquela adrenalina mais uma vez.
Talvez mais duas, mais três, mais cinco vezes.
O que estragava toda a emoção dos jogos, das cartas, do dinheiro, era estar forçado a estar ali. O que estragava era toda a jaula invisível de medo que se criava em torno de ti quando ameaçavam não só a ti como a tua família.
Mas eu já não tinha medo.
Eu já estava livre. Eu poderia permanecer no cassino, por vontade própria, por dias, sem arriscar minha vida. No minuto em que me sentisse ameaçado, que sentisse que alguém estava prestes a pôr uma bala na minha cabeça — como Frank o fizera há pouco, eu jogaria neles as informações que eu continha.
Eu os ameaçaria, eu criaria a jaula em torno deles.
Enquanto isto não ocorresse, eu poderia viver o melhor dos dois mundos. Foi por isto que voltei. Era por isto que eu estava ali. Eu estava ali porque eu queria estar. Eu sou um viciado, afinal, e eu já tinha o passe livre para estar ali sem que ninguém acabasse morto, nem mesmo eu.
Eu queria estar ali. Eu queria tanto que minhas mãos tremiam. Eu queria tanto que minha pele suava. Eu queria tanto que minhas pernas bambeavam.
E eu estava ali. Eu podia jogar o quanto eu quisesse. Eu podia fazer o que eu quisesse. Eu podia ser quem eu quisesse. Eu podia estar com quem eu quisesse...
Mas eu queria estar com Will.
— A virtude — respondi, por fim, sem desviar o olhar de Lutz.
Eu estava ali porque sou um viciado, mas eu sairia dali por ter conhecimento de que sou um viciado.
O primeiro passo é admitir que você tem um problema, tanto dizem.
No fundo, eu sabia que não podia ter o melhor dos dois mundos. Porque os dois mundos não se coincidem.
Eu tinha duas opções, e eu vim descobrir qual delas eu iria tomar. Eu pensava que estava ali para viver uma mentira por um tempo, cercado de bebidas, dinheiro e jogos. Mas talvez eu estivesse ali porque eu queria pôr àprova que eu conseguia entrar e dar as costas com honestidade. Eu queria vencer meu vício. Eu queria entrar ali novamente e enfrentar de frente meu problema.
E eu tenho um problema.
Por isso evitei o pôquer, e por ser forte, consegui ficar longe daquelas mesas. Minha vida era um jogo de pôquer, afinal, e eu venceria.
Eu acabara de vencer.
— Preciso ir — optei por dizer, ignorando as gargalhadas forçadas de Frank frente à minha resposta anterior. Lutz parecia surpreso.
Dei uma última olhada ao redor, inspirando fundo, e forcei minhas pernas tensas a me deslocarem. Havia dado dois passos em direção à saída, com os seguranças a postos para me segurar, quando a voz irritada de Frank fez com que eu parasse e o encarasse.
— Você não vai a lugar algum — disse Frank, finalizando o próprio riso.
Lutz, com as mãos nos bolos, permaneceu quieto. Seu silêncio era um consentimento. Seu silêncio era uma ordem.
Sorri.
— Ah, eu vou, sim — falei, sorrindo ao acenar positivamente. — Não ouse — falei, perdendo o sorriso, ao encarar Miguel.
O segurança mexicano havia se aproximado significantemente, junto de outro, com os cabelos loiros. Um em cada lado. Ambos pararam por um segundo, e eu voltei os olhos para Lutz.
— Não vai — disse ele, sério. — Levem-no para a sala 1. — Foi uma ordem.
Lutz, ao contrário de Frank, não queria me matar. Bom, talvez quisesse depois de descobrir sobre eu ter soltado o Marcus. Mas toda a cena com a pistola apontada para mim, e a plateia que assistiu, provavelmente garantiu minha vida. No entanto, o que eu fiz ao libertar Marcus não era algo que eu poderia fazer e sair sem algumas cicatrizes.
Eles precisavam me punir.
Escolhi o momento em que ambos meus braços eram segurados com força pelos dois grandalhões para abrir um largo sorriso. Elevei as sobrancelhas.
— Eu não faria isso — falei em tom baixo, mas confiante o suficiente.
Lutz, ao perceber a ameaça em minha voz, ergueu uma das mãos, indicando que ambos parassem. Mesmo assim, eles ainda prendiam meus braços.
— Por que não? — perguntou ele, se aproximando com certa inquietude ao perceber minha confiança.
Frank já havia perdido o sorriso há muito tempo, e também compreendia a gravidade do que se passava pelo meu olhar. Estavam tensos. E deveriam.
— Porque se isto ocorrer, eu teria que levar à mídia e à polícia a história da família Fletcher — falei, ainda sorrindo. Isto fez com que a expressão de Lutz congelasse. Arqueei uma das sobrancelhas. — Você sabe, a verdadeira família Fletcher.
Lutz olhou para o lado direito, provavelmente para checar que ninguém do subsolo, com exceção dos seguranças que estavam perto, prestava atenção no que eu dizia.
— Do que ele está falando? — perguntou Frank, franzindo o cenho.
— O que você sabe? — perguntou Lutz, estreitando os olhos, ao ignorar por completo o pitoresco ao seu lado.
— Sei sobre o KF Casino — falei, sem desviar o olhar. — Sei sobre o incêndio. Sei sobre Pavel Ribakov, o ladrão russo, e o sobre seu filho — falei, aumentando o sorriso —, Nikolai Ribakov.
O último nome fez o rosto de Lutz ficar vermelho, e não era vergonha.
Frank foi esperto o suficiente para não abrir a boca. Lutz estava oficialmente alterado. Deu um passo em frente, as mãos em punho, me encarando como se pudesse atravessar minha cabeça com o olhar. Como se sentissem o mesmo que o chefe, as mãos em meus braços apertaram com mais força, fazendo com que a abertura em meu ombro ardesse.
— Como sabe disso? — perguntou, entredentes.
— Você não tem ideia do que a bravura pode comprar — falei, também desmanchando o sorriso, mas ainda tranquilo. — Muito mais do que dinheiro.
Isto pareceu tê-lo confundido ainda mais, mas não demorou para que recobrasse a postura de intocável. Era impressionante, e eu o admitia. Soltou um riso pelo nariz, balançando a cabeça com incredulidade.
— Levem-no — disse, a voz grave. — Eu quero saber quem você subornou, e eu vou descobrir sob os meus métodos.
— Eu não faria isso — repeti, sereno, mas os dois começaram a me arrastar.
Percebendo que Lutz não se importava, tive que reagir. Como já estávamos perto do cômodo, coloquei um pé na porta, impedindo que me levassem para dentro. Debati-me e logo mais dois seguranças chegavam para ajudar. Lutz permaneceu observando.
— Achou mesmo que viria aqui e ficaria por isto? Você está morto, Richard Turner. Morto — enfatizou, os olhos castanhos revelando uma alma tão fria quanto gelo.
Gelo eu derreto, pensei com ironia, ao lembrar de Will.
Chutei a canela de um e me abaixei quando braços me envolveriam, desviando do ataque. Dei um passo em frente, me aproximando de Lutz.
— Achou mesmo que eu viria aqui, mantendo o que sei em segredo? — contra-ataquei, estreitando os olhos.
Estava preso, mais uma vez, entre os braços fortes. Lutz vacilou por um segundo, tentando me avaliar.
— Está blefando — disse ele, e não foi uma pergunta.
— Estou? — perguntei, sorrindo.
Blefe era a melhor coisa a se fazer em jogos como o Poker e o Blackjack. Mas era uma pena que este não fosse o caso. Uma pena para ele.
— Vamos, Frank — falei, desviando o olhar de Lutz para Frank. — Ligue para Marcus e veja se estou mentindo. — Voltei os olhos para Lutz, que fechava a cara novamente. — Você achou que eu descobriria um podre destes ao seu respeito e não compartilharia com os amigos? — perguntei, desta vez, rindo. — Frank acha que sou ignorante. Se você pensa como ele, Lutz, então vamos. Acabe comigo. Porque eu tenho certeza que Marcus está se coçando para liberar essa notícia para a mídia, e eu também tenho certeza que ele está esperando por mim.
Frank se exaltou, provavelmente com minha audácia.
— Mate logo este filho da puta — disse ele, estreitando os olhos. — Vou adorar ver a cara de Marcus quando eu contar que ele foi decapitado.
Lutz não pensou muito antes de perceber que eu estava falando sério.
Ele sabia.
Colocou uma mão no peito de Frank e negou com a cabeça. Pude ver em seu olhar que não queria me deixar ir, mas continuou parado, me encarando. Logo ao nosso lado, algum copo quebrou nos pés de um cara calvo e bêbado, que ficou furioso e partiu para cima de outro, causando uma confusão que foi amparada por alguns dos muitos seguranças do local.
Se alguém prestava a atenção em nós, mesmo sem ouvir pela distância, agora se concentravam em uma das muitas brigas do Golden. Brigas de bêbados.
— Eu voltaria hoje — falei, ao perceber a luta interna de Lutz, arqueando uma das sobrancelhas. — Marcus saberá que tem algo de errado antes mesmo de você erguer sua arma.
Lutz ainda relutou em silêncio, antes de fazer sinal para que me soltassem. Frank abriu a boca para questionar o que diabos tinha de tão importante no que eu deixei escapar, mas um olhar do outro fez com que ele engolisse o resto da frase.
Fixei os olhos nele.
Como Cobra havia conseguido todas aquelas informações digitalizadas, em notícias antigas, fotos e diários, eu não sabia. O que eu sabia, no momento, é que Cobra jamais, jamais, devia ser subestimado. E eu o havia subestimado muito.
Klaus Fletcher foi o campeão estadual do campeonato de Poker por dois anos seguidos no final dos anos 90. Klaus assumiu o cassino do pai no ano seguinte, após perder o campeonato, quando o velho faleceu de uma doença cardíaca. O cassino havia sido denominado KF Casino desde o princípio, com as iniciais do filho, com o propósito de que ele um dia assumisse o cassino da família.
A história apagada de Pavel Ribanov é um pouco distinta. Crescido na periferia da cidade e filho de pais criminosos, o homem começou a vida semelhante à dos pais muito cedo. Com seus vinte anos, já havia se envolvido em tráfico de drogas, em gangues racistas, e já havia colecionado uma gama de assassinatos. Pavel era o líder de uma gangue mafiosa de ordem supremacista, mas logo foi descoberto. Fugiu da Rússia e teve que recomeçar em outro país. Pavel era inteligente, e logo aumentou suas apostas.
A história entre as duas famílias se cruzava no início dos anos 2000, onde um incêndio ocorreu na residência Fletcher. A ideia era muito simplista, mas muito cruel. Pavel, assim que fugiu da Rússia com o filho único, Nikolai, acabou por conhecer o jogador profissional Klaus Fletcher. Sabia que o homem gostava de discrição e que não gostava de exibir a família, esposa e três filhos, para os outros. Não queria ninguém sondando a família, nem a mídia, porque era a única que tinha e gostava de mantê-la segura. Não tinha parentes mais próximos além do pai, falecido.
O filho mais velho de Klaus, para a sorte de Pavel, tinha a mesma idade de seu filho único, Nikolai, nos seus treze anos de idade. O garoto não era conhecido pela população, porque vivia recluso na casa escondida com a mãe e com os dois irmãos mais novos. Assim que provocou o incêndio, matando toda a família Fletcher, Pavel planejava assumir o cassino, que começava a crescer nos comandos do campeão Klaus.
A ideia era realmente simplista. Nikolai assumiu a identidade de Lutz, filho mais velho de Klaus, clamando ter sobrevivido ao incêndio, e como ninguém havia posto os olhos no garoto antes, com exceção dos amigos próximos de Klaus, a ideia funcionou perfeitamente. Logo, os amigos próximos de Klaus também estavam mortos, deixando nenhum ponto sem nó.
Nikolai esperou até a maioridade para assumir os negócios da família, já que o pai não podia ser visto, na proteção da assistência social. Mudou o nome do cassino de KF Casino para Black Casino e fez dele um ponto importante na cidade de Mallow Coast.
Tudo isto era explicado em palavras pessoais, em um artigo à parte das notícias antigas sobre a família Fletcher e as reportagens traduzidas do russo sobre o mafioso Ribakov que havia sumido do mapa com seu filho. Um artigo provavelmente escrito por Cobra, o que me deixava a questionar se ele sempre havia feito parte do cassino.
No entanto, nada nas informações digitalizadas dizia algo a respeito de Pavel, se estava vivo ou morto. Ele havia deixado o filho assumir a identidade de um garoto herdeiro e, ao que tudo indicava, era para que quando Nikolai assumisse a maioridade, passasse o cassino para o pai.
Isto não aconteceu, o que me fazia ponderar se o velho estava morto.
Haviam duas fotografias de Pavel, uma dele criança e outra dele já jovem. E então, haviam retratos falados até o dia em que ele desapareceu. O filho, Nikolai, não aparecia em foto alguma, mas bastou eu pôr os olhos no retrato de Pavel para saber que Lutz é filho dele.
Bom, Lutz não.
Lutz Fletcher, na realidade, estava morto.
Meu olhar estava fixo, no momento, em Nikolai Ribakov.
E o seu pai, Pavel Ribakov, que não era visto desde 1997, na Rússia, era um dos fugitivos russos mais procurados da época. Ao encarar a figura à minha frente, eu poderia dizer que Nikolai se parecia muito com o retrtato falado do seu pai.
— Eu vou ir embora — repeti, levando uma das mãos ao meu ombro que ardia, e desafiei-o com o olhar.
Desta vez, não fui impedido.
Passei com cuidado entre os dois novos parceiros, encarando a pistola que Frank carregava na cintura e que minutos antes apontara para mim, e logo caminhei até a escadaria. Dispensei os dois seguranças com um olhar ameaçador, e eles, após checarem com o olhar seu chefe, permitiram minha passada.
Virei para trás uma última vez.
— Nikolai... — ponderei, pensativo, ao olhá-los do topo da escada. Então, sorri. — Combina mais com você — falei, vendo a expressão dura de Lutz vacilar.
Bati na porta de ferro e ela logo foi aberta pelos maiores seguranças que eu havia visto até agora. Maiores até que o Cobra. Logo senti o cheiro forte de lixos, esgoto e senti o vento frio do lado de fora. Apesar do mau cheiro, o vento frio da madrugada trouxera uma paz que eu não sentia há meses.
Desta vez, eu havia escolhido o caminho curto. Em todos os sentidos.
Havia saído pela porta dos fundos, no beco sem saída, mas também havia escolhido ir embora. Havia escolhido ir embora pelo caminho mais curto, sem permanecer em uma mentira por dias, sem permanecer no vício por mais tempo. Eu apenas saí.
Eu escolhi ir para casa, e esta havia sido a melhor jogada de minha vida.
Não havia sido perfeita, como no Poker seria a chamada Royal Flush. Eu quase acabara morto, quase meu plano fora abaixo, e eu quase houvera permanecido, rendido aos meus vícios.
Quase.
Não havia sido perfeita, mas certamente foi uma Full House.
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