Made of Fire
45 XIII. Precisamos falar sobre Kevin
Notas iniciais
"O orgulho é a fonte de todas as fraquezas, por que é a fonte de todos os vícios."
Santo Agostinho
Recém sentia a dor do golpe que me fora deferido no nariz, quando meus braços eram puxados para trás por mais de um par de mãos. Limpei o sangue com agilidade assim que os três caras me soltaram e encarei o que estava em frente à mim. Eu devia tê-lo machucado no pescoço, pela maneira que o alongava com uma careta. Em seguida, deu dois passos em minha direção.
— Mais uma dessas e eu quebro a sua cara — bradou ele, apontando um dedo na minha cara.
Estreitei os olhos.
Com um empurrão, afastei seu braço com o meu, deixando-o mais irritado ainda. Assim que ele deu mais um passo em frente, e pelo canto do olho, vi os outros se prepararem para me segurar, uma voz se fez audível.
— O que está acontencendo aqui?
Ao contrário de Marcus, Lutz tinha um timing incrível.
Girei o rosto e encarei os cabelos loiros e lambuzados de gel para trás, realçando a pele bronzeada e os olhos castanhos de Lutz. O terno estava desarrumado, seu lábio estava cortado, e ainda assim ele mantinha a pose de empresário rico.
— O que está acontecendo é que eu e você temos conceitos diferentes para "logo estarei aí" — vociferei, bastante irritado.
Lutz arqueou as sobrancelhas, quase ao mesmo tempo que uma figura aparecia detrás dele. A camisa florida, a pele suada e os cabelos castanhos oleosos apenas provaram que o tempo passava, mas Frank permanecia o mesmo picaresco de sempre. Soltei um riso pelo nariz, o que fez com que o dele se torcesse visivelmente.
— Olha só para você — disse ele, com um sorriso dourado de canto ao estender uma mão para indicar minha aparência. — O tempo te fez bem.
Uma pena que eu não podia dizer o mesmo.
O relógio de ouro fez barulho ao raspar no outro pingente caro que havia em seu pulso, contrastando violentamente com suas vestes. Tudo em Frank era cafona ao extremo. De fato, acho que a palavra "cafona" passou a existir para descrever Frank, como uma homenagem.
— O que foi? — perguntou, quando continuei a encará-lo com desgosto. — Precisamos falar sobre Kevin*? — Então, gargalhou com vontade da própria piada sem graça.
Lutz sorriu de lado e fez um movimento com a cabeça, dispensando os dois seguranças que havia deixado no subsolo ao sair.
— Venha, vamos aos negócios — interferiu ele, indicando para que eu o seguisse. Frank foi atrás.
Lutz abriu a porta de seu escritório, a última porta ao lado direito, e entrou, seguido de Frank e dos seguranças. Entrei em seguida, depois de relancear a escadaria que levava à porta dos fundos, dando-me conta que só havia estado em seu escritório uma vez em minha vida.
O lugar não era muito grande, e ao contrário de todo o subsolo, possuía uma pequena abertura próxima ao teto. A pequena janela era coberta por uma tinta preta, de forma com que se algum bêbado se inclinasse para ver, não enxergaria nada, mas ao mesmo tempo, a abertura era o suficiente para entrar um pouco de ar no ambiente.
Havia uma mesa imensa, dois sofás, um armário, um pequeno bar, duas poltronas e uma caixa de som. Tudo era decorado com quadros, e as paredes tinham um tom de bege bonito, contrastando com uma das paredes de tom vinho. Aquela era reservada para o pequeno bar, lotado de bebidas distintas. Lutz tinha um bom gosto, ao menos para seu escritório.
Os outros dois cômodos, se bem me lembro, tinham as paredes de cimento, sem qualquer pintura em cima. Todo o Golden era assim.
Frank se esparramou na ponta de um dos sofás, cruzando as pernas e acendendo um charuto. Lutz estava sentado atrás de sua mesa, logo após pegar um scotch*, e apesar de haver me dito para sentar em algum lugar, recusei de forma firme. Relanceei às minhas costas, onde a porta estava resguardada pelos dois seguranças pessoais de Lutz.
— Frank me contou sobre o acordo de vocês — disse ele, escorando-se na cadeira com a expressão neutra. — Não imaginei que fosse se importar tanto com um garoto de rua, Turner, mas também não imaginei que fosse ser tão gentil a ponto de querer me pagar o dinheiro que a Srta. Peterson me devia. — Evitei bufar, tamanho disparate. — Isto é verdade?
Relanceei Frank, que soltava a fumaça pela boca com um meio sorriso, os olhos em mim. Reprimi a repulsa ao enxergar os dois dentes de ouro e voltei os olhos para o loiro. Aproximei-me de sua mesa e tirei do bolso traseiro de minha calça jeans o envelope branco, jogando sem delicadeza alguma na mesa de Lutz.
— Eu não sei por que me foi jogada a responsabilidade de pagar o que Hilary devia — falei, irritado ao encarar Frank e então voltar os olhos para Lutz. — Mas aí está — falei, vendo-o abrir o envelope com o cenho franzido. — Eu estou aqui, não? Vim até aqui, fiquei esperando por vocês e agora estou pagando a quantidade que Hilary devia. Pensei que cumprindo minha parte, Frank cumpriria a dele, como o ótimo negociador que é — falei, trocando o olhar entre os dois.
Lutz contou as notas altas, sem prestar muito atenção, largando elas na mesa. Estava surpreso, é claro, assim como Frank. Os dois trocaram um olhar demasiado longo para meu gosto.
Aparentemente, isto não estava no plano dos dois.
— E então? — perguntei, impaciente. — Será que podem tirar seus seguranças da minha bunda para eu ir embora tranquilamente? — perguntei, colocando as mãos na cintura. — Já até esqueci da aparência do sol, ficando tanto tempo dentro desse lugar imundo e fechado — resmunguei, torcendo o nariz com o propósito de irritar Lutz.
Mas eu já sabia a resposta. Eu sabia antes mesmo de perguntar, antes mesmo de entrar no cassino ou antes de largar um Will choroso e deixar meu lar em Hybridfield. Eu sabia a resposta.
Lutz e Frank se entreolharam.
— O sol? — riu ele, balançando a cabeça, e Frank gargalhou junto. — O sol já se pôs faz um bom tempo — explicou, quando eu franzi o cenho, me desestabilizando.
Já havia escurecido?
— E aposto que logo vai nascer de novo — completou Frank, ao relancear o relógio no pulso.
Trinquei a mandíbula, involuntariamente. Eu sabia que Lutz havia ficado fora por mais de horas, mas nunca, jamais, imaginaria que havia sido por tantas. Eu cheguei aqui antes das duas da tarde, e eu sabia que não estavam mentindo ao dizer que já era madrugada.
E eu também sabia o que isto significava, para mim, alguém na pele de um viciado.
Engoli em seco.
— Que foi? — perguntou Lutz, percebendo minha perturbação com o fato. — Perdeu a noção do tempo? — perguntou, sorrindo com satisfação. — Então é correto afirmar que estou fazendo meu trabalho de maneira adequada.
Eu riria, se não fosse meu desespero. Cassinos são construídos e equipados de forma com que as pessoas percam a noção do tempo. Cassinos ilegais, como o Golden, também tinham o mesmo propósito, é claro.
Fechei os punhos, contendo a urgência de sair correndo. Ao perceber meu estado nada bonito de espírito, Lutz ergueu as mãos, em defesa, como se fosse inocente.
— Ora, você pode ir embora a hora que quiser — respondeu ele, tardiamente, à minha pergunta. Colocou uma das mãos no peito, como se estivesse ofendido, antes de sorrir. — Eu só espero que saiba que, se você não voltar dentro de um dia, Kevin... Kevin? — perguntou para Frank, que assentiu com um sorriso. Então, voltou os olhos à mim. — Kevin vai estar trabalhando para Frank a partir da própria cova — deixou claro, no tom familiar de ameaça, e então tomou mais um gole do uísque, sem tirar os olhos de mim.
Fechei os olhos, começando a ficar mais irritado do que eu planejava.
— Você disse que eu deveria vir aqui e ele estaria livre — falei à Frank, mais como uma acusação. — Era este o acordo.
— O acordo era que você permanecesse aqui para saldar a dívida de sua falecida — falou Frank, entediado.
— Estão me punindo por pagar adiantado? — perguntei, incrédulo.
— Claro que não — resmungou Lutz, revirando os olhos e repreendendo Frank com o olhar. Então, voltou-os à mim, mais sereno. — Eu adoro pagamentos adiantados — disse ele, voltando a sorrir. — São raros por aqui.
— Eu não vou engolir essa baboseira com indiretas — vociferei, encarando Lutz fixamente. — Você vai ter que dizer na minha cara o quer de mim, sem enrolação.
Lutz sustentou meu olhar, tamborilando os dedos na mesa, mas parecia ponderar o que diria. Frank se adiantou.
— Eu não tinha certeza se você é corajoso ou ignorante, mas agora parece estar claro — riu ele, chamando minha atenção. Largou o charuto e levantou-se, me encarando. — Será que você não entendeu ainda? Não existe dinheiro ou trabalho seu que salve a bunda de Kevin, existe você — disse, confirmando o que eu já sabia. — Você é o pagamento, Dragãozinho. Sua estadia aqui, sua parceria conosco, e todo o dinheiro e o poder que você quiser e conseguir nos jogos.
— O que Frank está querendo dizer, Turner, é que gostaríamos que se juntasse à nós — falou, servindo mais um pouco da bebida. — Mas isso você já sabia — deduziu, com humor. — Seria um trabalho peculiar, já que você está entre eles — falou, referindo-se aos jogadores. — Ganho e ganho, Richard. Você é muito bom no que faz, salvo alguns deslizes seus de que me lembro — murmurou, e eu sabia que ele se referia à todo o dinheiro que eu perdia nas últimas semanas e as surras que eu levava por isso. As cicatrizes que ganhei por isto. — Sei que adora apostar e aqui você faria o que quisesse, quantas vezes quisesse. E você ficaria com seus ganhos, desde que ficássemos com 50% do que você obtiver.
— Você vai poder ficar aqui dia e noite se preferir, entrar e sair quando quiser, se misturar, controlar a todos quando Lutz não estiver por perto assim que ganhar a confiança dele — interferiu Frank, me dando um sorriso de incentivo. — Eu aceitaria — disse ele, fazendo com que Lutz soltasse um pequeno riso.
Sorri também, assentindo.
Então, dei um passo em direção do sofá em que Frank se sentava.
— É uma pena que eu e você somos tão diferentes — murmurei, em tom de provocação. Frank deixou o sorriso sumir. — Bom, na realidade, não é pena alguma. É sorte minha.
Frank levantou-se novamente do sofá, tocando de forma provocadora a arma em sua cintura, ao lado do cinto de couro marrom. Inclinei o rosto, neutro, ao balançar a cabeça com incredulidade.
— Peço que repense — disse o loiro, mas não desviei meu olhar do de Frank e sua pele já envelhecida. Já devia ter chegado aos cinquenta, o que me fez pensar que algumas coisas mudam sim.
Lutz, ao perceber a tensão, acabou levantando-se também de sua cadeira e contornando a mesa até estar perto de nós. Repreendeu Frank com o olhar, que retirou a mão da arma, e deu as costas para pegar mais um charuto.
Lutz suspirou, levando as mãos aos bolsos da calça social.
— Não era isso que eu tinha em mente — declarou, como se lhe doesse o coração o que estava ocorrendo. — Não queria que tivéssemos que usar de ameaças aqui, Dragão.
O antigo apelido já estava me dando nos nervos.
Frank sentou no braço do sofá, me encarando com olhos ameaçadores, já na ausência de divertimento. Tragou o charuto e não desviou o olhar de mim, mas eu o fiz, para focar no loiro à minha frente.
— Vou ser sincero com você, já que você tem sido muito transparente com o que pensa — falou, arqueando uma das sobrancelhas. Sorriu, balançando a cabeça. — Frank, como o bom parceiro de trabalho que é, conseguiu trazê-lo até aqui, para mim. Ele sabe que eu cansei de trabalhar sozinho e queria mais uma parceria para nós — falou, relanceando Frank com cumplicidade. Então, elevou as sobrancelhas. — E tudo por um preço pequeno: deixar esse garoto longe das entregas — falou, abanando com a mão como se Kevin não fosse nada.
E em fato, ele não era, não no meio de tudo aquilo. Kevin não valia nada, por melhor que fosse no que fazia, porque sempre haveria outro garoto. Sempre há outro garoto. No entanto, isso não signficava que seria fácil tirá-lo dali, ou que ele mesmo se retirasse. Não era só uma questão de autoproteção, de proteger toda a gangue e todo o cassino de um possível delator. Não. Porque mesmo que tivessem certeza que Kevin não abriria a boca, ainda assim colocariam uma bala na cabeça dele por querer sair.
Era uma questão de orgulho e de poder. Tudo girava em torno disto.
Tudo, até mesmo meu vício.
— Não esperávamos que você já tivesse a quantidade em notas do dinheiro da Srta. Peterson. Queríamos que você conseguisse o dinheiro nas jogatinas — falou, como se estivesse se desculpando pelo infortúnio. Reprimi a vontade de revirar os olhos. — Porque desta forma, eu teria você por aqui por, no mínimo, duas semanas. E assim, eu teria um tempo para te conquistar com meus baralhos, meu dinheiro, e talvez até minhas moças — falou com sugestão, referindo-se às prostitutas. — A partir daí, seria muito fácil convencê-lo de que permanecer aqui conosco é apenas lucro para você. E nem seriam necessárias ameaças para isto.
Fiquei em silêncio, encarando os dois rostos mais detestáveis da história. Eu pensava que meu chefe era irritante, o Sr. Fitzgerald, mas eu já havia perdido a noção do quanto meu antigo chefe dobrava na petulância.
Se eles não planejavam me ameaçar em um primeiro lugar, então Marcus estava errado. Neste instante, ele podia estar nas mãos de qualquer um ou até mesmo morto.
Não que eu me importe, me reprimi mentalmente.
Eu só queria de Marcus a saída que ele me oferecia desta situação de merda. O que me levava a pensar que meu plano falho iria, de fato, falhar. Já havia pagado por Hilary, não tinha poder algum sobre o destino de Kevin e ainda por cima, se eu trabalhasse aqui e ganhasse dinheiro para eles, aí sim é que eles não iriam querer que eu saísse nunca. Sem falar na leve possibilidade de eu também não querer sair.
Eu havia cavado meu próprio buraco, e sem Marcus, eu já não tinha saída nem para Kevin. Eu disse para Will confiar em mim, porque eu confiava em mim mesmo, mas agora eu percebia que minha confiança se dava mais ao vício que acordava dentro de mim, depois de anos. E eu me sentia um idiota por não haver percebido que era isto que tentava me guiar. Meu vício tentava me guiar, me dominar, me controlar. E eu só percebia agora.
Os jogos, para mim, eram como a cocaína para outros. Eu me sentia mais confiante, mais petulante, mais poderoso. Eu me sentia indestrutível. A diferença, apesar de eu não haver percebido inicialmente, é que eu sabia disso. E esta diferença acabaria por me salvar.
— O que nos diz? — perguntou, e apenas então eu percebi que ele havia se afastado e sentado no sofá em que Frank permanecia. Cruzou as pernas também, esticando os braços no escoro no sofá.
Fuzilei-o com o olhar, recém percebendo que o que tremia não era o chão, mas o meu corpo. Eu estava furioso, mais do que eu podia medir.
Lutz balançou a cabeça, como se desacreditasse. Então, olhou para seu lado direito, pegando o charuto que Frank oferecia e acenando para que ele se pronunciasse.
— Foi o que eu pensei — disse Frank, levantando com uma cara de convencido. — Lutz foi muito ingênuo ao pensar que podíamos fazer você ficar sem ameaças. Ele não o conhece tão bem quanto eu — disse, com um sorriso de lado.
Sustentei seu olhar por um tempo, até que ele o desviasse para trás de mim, fazendo um aceno para os seguranças, que saíram do cômodo logo em seguida. Estreitei os olhos para ele e logo para Lutz, que se fez de desentendido, acendendo o charuto.
— Eu não sabia se a vida de Kevin seria motivação suficiente para você — disse Frank, coçando o indício de barba por fazer. — Você tende a ser imprevisível. Então, eu me precavi.
Senti meu pulso acelerar com as palavras de Frank, indagando-me o que ocorreria a seguir, meio incrédulo e meio assustado.
— Do que está falando? — perguntei, mas eu já tinha uma ideia.
Lutz permaneceu em silêncio, soltando a fumaça ao encarar o tapete, na maior paz de espírito do mundo. Franzi o cenho, virando para encarar a porta fechada.
Como se se incomodasse com meus olhos, a porta se abriu, dando passagem para cinco pessoas. Quatro delas eram os cãos de guarda de Lutz. Os dois costumeiros, seguranças pessoais, voltaram ao seu posto inicial no cômodo, em postura reta. Os outros dois, com o mesmo uniforme preto, eram relativamente mais musculosos. Cada um deles segurava um braço distinto da quinta figura, que aparentava não ter muita força para manter-se em pé.
— Marcus — murmurei, incrédulo.
O filho da puta estava certo!
Com a permissão de Lutz, os dois monstros largaram Marcus de qualquer jeito e saíram porta afora. Meu antigo amigo, para não cair no chão, apoiou-se na parede, com uma careta desagradável.
O rosto brilhava com o sangue que saía de sua têmpora, de sua bochecha e, principalmente, de seu nariz. O olho esquerdo estava claramente inchado e havia mais de um corte pelo rosto. Apesar de estar claro que havia levado a surra do ano, procurei por sinal de ferimentos graves — como a ausência de dedos ou sangue espesso como indicação de que facas lhe atravessaram -, e nada encontrei.
Inspirei fundo, aliviado, vendo que ele sorria de lado e trocava um olhar cúmplice comigo.
— Rich — falou, fazendo outra careta ao tentar ficar em pé. — Sentiu minha falta? — Então, sorriu debochado.
Voltei o rosto para Frank, que encarava com prazer o estado de Marcus.
— Ele? — perguntei com ironia, meio bufando. — Você acha que eu me importo com ele?
Lutz pareceu intrigado com a situação, mas mesmo assim, manteve a pose neutra. Frank sorriu largo, mostrando os dentes ridículos. E então, assobiou, chamando a atenção de um dos seguranças.
— Número 1 — chamou, referindo-se à um deles. — Faça a sua arte.
No tempo que demorei para voltar os olhos à Marcus, o segurança mais próximo se aproximou dele com dois passos.
— Ah, não — resmungou Marcus, em desolação, antes de receber uma joelhada na barriga, facilitada pela posição já curvada dele.
Dei um passo instintivo em frente, vendo Marcus cair de joelhos no chão e receber outra joelhada, desta vez, na cara. Lutz pigarreou, chamando minha atenção para negar com a cabeça. Eu não podia aproximar-me.
Ora, que grande merda!
Em seguida, puxou a cabeça de Marcus para cima, desferindo um segundo golpe em seu rosto já maltratado. Fechei as mãos, pensando no que fazer. Antes que eu tivesse decidido, o segurança o jogou no chão, e eu sabia o porquê. Ele logo o chutaria.
E não é que eu me importo mesmo?
Bufei.
— Está bem — rosnei, irritado. — Afaste seu cão dele — falei, fuzilando o brutamontes com meus olhos.
— Ferdinand — chamou Lutz, o cara apelidado de "número 1" por Frank, e fez um sinal. Então, ele se afastou, voltando à sua posição ao lado da porta.
— "Rich isso, Rich aquilo" — disse Frank, rindo. — Era tudo o que eu ouvia antes de Marcus resolver roubar meu dinheiro e deixar de trabalhar para mim. — Tragou o charuto mais uma vez. — Eu sabia que você se importava — declarou, me encarando antes de apoiar-se na mesa de Lutz.
Relanceei Marcus, e vi que ele vestia uma calça jeans larga e uma camiseta. Seu rosto ainda estava contorcido em uma careta de dor. Então, dei um passo em sua direção.
— Mais um e irá se arrepender — pronunciou-se Lutz, com um tom de ameaça.
Mas eu precisava me aproximar.
— Eu só quero ver como ele está — bradei, irritado com a coleira invisível em meu pescoço. Eu não era um de seus cães.
— Você não vai chegar perto dele, não vai checar seus ferimentos, não vai dar um toque de apoio moral — falou Frank, fazendo com que eu me segurasse para não virar um soco na cara dele.
Voltei os olhos para ele, pronto para dar uma resposta logo em seu nariz, mas foi Lutz que se pronunciou.
Eu estava com a dupla provinda diretamente do inferno.
— Manterei Marcus comigo por um tempo e Frank manterá o menino Calvin com ele — falou, desdobrando as pernas. Então, ergueu um dos ombros em desdém. — Você sabe, como garantia.
— Kevin — rosnei, fechando a mão em punho.
— Ah, o causador de tudo — resmungou Marcus, ainda no chão.
Girei o rosto na velocidade da luz para matá-lo em três formas diferentes com meus olhos, mas ele apenas me ignorou, ainda segurando a barriga, com dor. Lutz, pelo contrário, gargalhou com o feitio.
— Não se engane, Marcus — falou Frank, com o semblante sério. — Você estaria morto com ou sem Kevin, com ou sem Turner.
— Morto não — interferi, dando-me conta do que eu tinha que fazer. — Se você tocar em um dedo de Marcus, nosso trato está desfeito.
Lutz levantou-se do sofá com um suspiro satisfeito, olhando então para o relógio que também envolvia seu pulso.
— Isso quer dizer que temos um trato? — perguntou ele, aproximando-se de mim com um sorriso. — Porque eu mal posso esperar por nossa aventura.
Voltei à realidade quando Frank fez um aceno para os dois seguranças que, desta vez, ao invés de sair, apesar murmuraram algo nos aparelhos discretos dos ouvidos. Meu corpo inteiro tensificou quando eu me dei conta do que ocorria. Eles não deixariam o cômodo, porque Marcus estava ali agora. Isto significava que em dois toques eles estariam ali, e levariam Marcus para outro lugar.
Relanceei-o, caído no chão, com o semblante igualmente tenso.
Eu tinha que me aproximar dele, e tinha que me aproximar dele agora. Não haveria outra chance. No entanto, não havia como me aproximar dele com dois seguranças logo ao lado e Lutz a dois passos de mim.
Tentei controlar minha respiração, engolindo em seco.
— E então? — insistiu Lutz, enquanto Frank fixava os olhos em mim, de longe, como um predador.
O som da porta se abrindo tomou conta dos meus ouvidos, descarregando uma energia que eu não sabia que possuía, e então corri até Marcus e me joguei contra ele.
— Isso é tudo sua culpa! — gritei, surpreso com meu próprio improviso.
Marcus grunhiu com o baque de ambos nossos corpos ao chão — pobre Marcus - e segurou-se em meus ombros. Assim que discretamente coloquei a mão no bolso dianteiro de minha jeans, já em cima de meu amigo, uma mão se fechou na parte traseira de minha camisa. Impulsionei ainda mais o corpo contra Marcus, tentando ganhar tempo ao puxar a chave de meu bolso, mas o puxão atrás de mim também aumentou a força. E duas mãos se tranformaram em quatro, e logo em seis.
Então, eu percebi, para a minha agonia, que eu não conseguiria. Eu não conseguiria entregar-lhe as chaves.
Apressei-me em colocá-las de volta em meu bolso, para não ser pego, logo antes de afastarem-me completamente de Marcus. Esperneei quando me puxaram, e acertei o estômago de um deles, virando o pescoço para livrar-me do braço do outro. Consegui me afastar até que o último deles me puxou para trás. Eu era apenas um, afinal, e eles eram quatro.
A voz, no tom mais alto que havia ouvido, de Lutz fez com que todos parassem, incluindo eu. O chefe indicou que me soltassem e eu bufei, furioso. Não só pela agressividade, mas pelo plano falho. Pelo rosto apreensivo de Marcus, percebi que eu não era o único sem saída.
— O que diabos foi isso? — alterou-se Frank, já na nossa frente.
— Talvez ele não se importe tanto com o indigente, afinal de contas — sugeriu Lutz, referindo-se à Marcus, provavelmente devido às roupas simples dele.
No entanto, o segundo sentido de sua fala me alarmou: talvez ele não se importe que Marcus seja morto, afinal de contas.
— Não ouse encostar nele — bradei, furioso, aproximando-me tanto de Lutz que pude sentir sua respiração. Ele não moveu um músculo, mantendo a posição de intocável. — Temos um acordo fechado. Eu farei minha parte e vocês farão a de vocês. — E não foi uma pergunta.
Pela expressão relutante de ambos os dois, percebi que devia me explicar, no entanto.
— Sei que me exaltei — expliquei, tentando controlar a respiração. —Mas é meu amigo. Apenas eu posso encostar nele — falei, em tom de ameaça, antes de relancear o olhar perdido dele, atirado ao chão. — Especialmente quando me coloca em maus lençóis.
— Ah, eu garanto que eu também pos...
— Feito — interrompeu Lutz, a fala de um Frank vingativo. Relanceou o parceiro de negócios com advertências quando Frank abriu a boca, e voltou os olhos para mim. Afinal, eu havia dito o que Lutz queria ouvir. — Feito.
Afastei-me, vendo os quatro seguranças juntarem Marcus do chão e o arrastarem para fora do cômodo tão rápido que mal pude encontrar o olhar esverdeado de meu antigo amigo.
Engoli em seco, sentindo-me tontear ao passo que adrenalina baixava.
— Tome um tempo para si — disse Lutz, pegando o celular do bolso e checando as mensagens. Ergueu os olhos castanhos para mim. — Vá para casa. Descanse. Passe um tempo com sua família, e então decida se quer continuar tendo uma. — Senti meu sangue ferver com a ameaça à minha família. — E então, volte para mim.
Os eventos a seguir passaram como um borrão para mim. Lutz se retirou, a negócios, e colocou um brutamontes para mostrar-me a saída. Frank parecia irritado, mas permaneceu na dele, satisfeito com a missão cumprida.
Eu, pelo contrário, estava em completo desalento.
Pelo menos eu ainda tenho as chaves, pensei. Podia ser pior.
A oportunidade de sair hoje daqui, de sairmos ambos daqui, havia ido para o lixo, mas ao menos eu ainda poderia dar um jeito de encontrar Marcus e lhe entregar as chaves. Eu ainda poderia usá-las. Eu ainda poderia ajudá-lo a fugir e a história de Kevin ainda poderia ser resolvida.
Mas a animação acabava onde o desespero começava.
Segui o segurança como um cachorrinho abandonado, atrás de Lutz, que falava ao telefone. Assim que os dois seguranças na base da escadaria fizeram menção em me revistar, Lutz olhou do topo da escada e os dispensou.
— O Dragão faz parte de nossa equipe agora — explicou, antes de dar as costas e entrar na área restrita e resguardada por Cobra.
Subi as escadas com uma lentidão memorável, e assim que cheguei ao topo, dei duas batidas e Cobra abriu por mim. Fechou a porta atrás de si, e voltou à postura costumeira, me olhando de cima.
— Como foi a volta? — perguntou, e pela expressão em seu rosto, percebi que ele já imaginava como havia sido.
Fiz menção em dar-lhe as costas, mas ele franziu o cenho com preocupação, levando uma das mãos ao aparelho no ouvido, para escutar melhor. Os olhos escuros desfocaram por um momento, ouvindo o que lhe era dito, antes de focarem completamente em mim, com a expressão mudada.
Retesei no lugar, pensando se devia fingir que não era comigo e dar o fora daqui o mais rápido possível. Mas não adiantaria.
— Você se importa se eu te revistar? — perguntou, e eu quase fechei os olhos em derrota. Continuei parado, pesando minhas opções, até perceber que não tinha nenhuma. — É apenas rotina — falou, mas por sua expressão, eu soube que ele sabia que a rotina acabaria em mim.
Droga.
Revistou-me com rapidez, enfiando as mãos em meus bolsos. Fechei os olhos, melancólico. Ele retirou meu celular, e então retirou meu molho de chaves pessoal: chave do carro, chaves da universidade, dos armários, do apartamento e de casa.
Cobra encarou, com curiosidade, o chaveiro que Jay havia me regalado: um duende de pelúcia, personagem do Harry Potter, com óculos caídos nos olhos e terno social. Jay havia me entregado em um dia qualquer do inverno, dizendo que havia encontrado minha versão de professor em duende: com a expressão amarga e rabugenta.
Ele ergueu os olhos para mim, com uma sobrancelha arqueada, e então enfiou a enorme mão no bolso certo. Podia ver sua expressão de "eu sabia" antes mesmo de retirar o molho de chaves que não me pertencia do meu bolso.
Nada é tão ruim que não possa piorar, afinal.
A primeira expressão que passou por seu rosto foi reconhecimento. Pudera, o cara tinha um molho de chaves exatamente igual em um de seus bolsos. Todos os seguranças possuíam um. Assim que ele me encarou, no entanto, fui incapaz de compreender o que passou por seu rosto.
Ele puxou o aparelho de seu ouvido, sem desviar os olhos dos meus, e aproximou-o de sua boca.
— Limpo — proferiu, fazendo com que eu franzisse o cenho.
O quê?
Ele fez o mesmo que eu ao ouvir o que diziam, e então estalou a língua, voltando a aproximar o aparelho da boca.
— Tenho certeza — falou, com uma leve irritação. Então, piscou um dos olhos para mim.
Arqueei as sobrancelhas, vendo um sorriso de lado em seu rosto, depois de ajeitar o aparelho da maneira que inicialmente estava.
— Você não devia possuir isto, Dragão — falou, com uma leve ironia na voz. — Miguel está furioso atrás delas — falou, balançando as chaves em sua mão. Miguel devia ser o segurança desagradável que ataquei.
— Isto é meu — falei, com firmeza, em uma tentativa inútil de me salvar. Mesmo que ele já houvesse me salvado.
O segurança mais antigo do Golden riu, fazendo os ombros balançarem.
— Eu admiro sua bravura, Turner — disse ele, parecendo realmente admirado. — É bastante impressionante — contou, balançando a cabeça. Então, dois toques foram ouvidos na porta às suas costas. — Vou ficar com isto, se não se importar — falou, indicando as chaves.
Merda!
— Não se preocupe, não vou te delatar — falou por último, guardando-as no bolso. E então, levou a mão à maçaneta da porta que voltava a soar.
Assenti, derrotado.
Em silêncio, dei-lhe as costas. Pude ouvir a porta sendo aberta e a voz embriagada do homem que saía por ela. Percorri todo o labirinto de iluminação avermelhada, dispensando as mulheres que passaram a mão pelo meu corpo com sugestões de quarto.
Passei pelas portas de vidro, sendo revistado novamente pelos homens que resguardavam a área restrita. Assim como o Cobra, eles não eram responsáveis pela fiscalização, mas pelo jeito, todos eles haviam sido alarmados sobre o roubo das chaves de Miguel.
Tive sorte, percebi, que tenha sido o Cobra que me descobriu.
Mesmo assim, sorte era o que eu menos tinha.
Eu não tinha como salvar Kevin, não tinha como tirar Marcus daquele lugar, não tinha como impedir a morte dele, não tinha como sair dali, não tinha como não arriscar a vida da minha própria família.
Eu não tenho nada.
Atravessei o Black Casino, desviando dos aparelhos e de todos os clientes, recusando todas as bebidas que quase jogavam em minha cara. Depois de passar pelo saguão de entrada do check-in e ser revistado mais uma maldita vez, adentrei na rua escurecida.
E então, eu pude respirar novamente.
Mais do que isso, porque respirar não parecia ser o suficiente. Todo o ar que entrava em meus pulmões parecia mais pesado que meu corpo podia aguentar. Curvei-me na rua asfaltada e vomitei todo o líquido alcoólico que ainda permanecia em meu estômago.
Eu tremia o corpo todo, então só percebi o recebimento de mensagem quando o som chegou aos meus ouvidos.
Will.
Encarei a tela, que reclamava de trinta e sete chamadas não atendidas — de Will, de Jay, e de minha família -, e vinte e duas mensagens de texto. Apenas três delas eram de Will.
Fechei os olhos, e apenas os abri para ir cambaleando até meu carro.
Assim que joguei-me contra o assento do carro, bati minha cabeça repetidas vezes contra o volante. Mas não adiantava, eu não acordaria, porque isto não era um pesadelo.
Era a realidade.
Abri a última mensagem de Will, que recebi ao deixar o cassino, apenas para deixar-me cair em desgraça. Percebi, então, que o som que invadiu o carro eram os soluços que escapavam de minha gargante e que a visão embaçada era devido às lágrimas.
Eu sou o ser humano mais desprezível do universo.
"Turner, atenda a droga celular! Eu estou morto de preocupações! Eu sei que não disse que confio em você, mas é claro que confio. Eu confio em você como nunca confiei em ninguém. Eu confio minha vida à você, Turner, eu confio o meu amor à você. Então, por favor, não me deixa. Por favor, me diz que descobriu um jeito de voltar para mim."
Por um instante, agradeci ao fato de que eu não estava em Hybridfield. Assim, eu não precisaria olhar nos olhos verdes para contar que talvez eu nunca voltasse para seus braços.
Talvez eu nunca voltasse para o meu lar.
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