Made of Fire
8 VII - Sei o que quero e ele tem nome
Notas iniciais
— Puta que pariu!
Apertei a cadeira com força, até os nós de meus dedos ficarem brancos e minhas articulações arderem. O zumbido de máquina invadia incessantemente meus ouvidos. Fechei os olhos e pressionei os lábios, sufocando o fluxo de palavrões que lutavam para sair da minha boca.
Só os abri novamente ao sentir uma mão apertar de leve meu ombro esquerdo. Olhei para cima, deparando-me com um sorriso solidário de Cenoura. Sua cabeleira ruiva estava coberta por uma touca preta ridícula, que usava há anos. Apesar da solidariedade, parecia divertir-se com a situação.
Na esquerda e atrás de Cenoura, estava Gabe sentado – vulgo atirado – em um banco, os olhos azuis risonhos e os cantos de sua boca elevados. Divertia-se junto do gringo. Ao seu lado, no mesmo banco comprido, estava Laurel. Os cabelos vermelhos estavam presos em uma trança complicada que caía por seu ombro esquerdo. Tinha as pernas cruzadas e os olhos castanhos grudados no celular, onde digitava com habilidade. Desviei o olhar quando ouvi um resmungo.
Bem em minha frente estava Kaori, inclinada em uma cadeira estofada como a minha e tinha o rosto asiático franzido em uma careta, provavelmente semelhante à minha. Olhou diretamente para mim.
— Me lembra de novo — disse ela, a voz levemente agoniada — de quem foi a brilhante ideia de fazermos tatuagens hoje?
Ela tinha os cabelos grudados na testa por conta do suor, provavelmente do abafamento do local — ou do nervosismo -, e as mãos também estavam fechadas nos apoios da cadeira estofada.
— Foi sua — respondemos todos em uníssono. Cenoura deu uma gargalhada.
A risada do tatuador ao meu lado direito juntou-se à de Cenoura e sobressaiu-se ao irritante zumbido da máquina.
— A dor não dura muito. Quando acabar — disse ele, sem tirar os olhos do meu braço —, vocês irão agradecer sua amiga por terem vindo.
A verdade é que eu pensei que a dor da tatuagem era bem mais forte do que as fisgadas em meu braço, ainda mais quando o tatuador começou pelas linhas finas que formavam o desenho. Senti-me instantaneamente aliviado no início. O problema foi quando ele passou a pintar minha pele com a agulha nos pontos mais desenhados. E Kaori, segundo a moça que a tatuava, havia escolhido um local um pouco dolorido para pintar. Por isso, estávamos os dois com caretas agoniadas ao encarar um ao outro.
Estava a ponto de dizer – gritar – que ele não tinha ideia de como aquela dor podia ser chatinha, quando dei-me conta que falava com um tatuador. Seu corpo era quase todo coberto dos mais diversos tipos de desenhos e frases.
Desviei o rosto para nossos acompanhantes.
— Eu não acredito que vocês nos deixaram na mão — falei, irritado.
Já que saímos todos mais cedo da faculdade por coincidência, Laurel resolveu – sem perguntar, a propósito – que devíamos todos passear na casa do Will.
Ao chegarmos, K já estava atirada no sofá da sala assistindo televisão com Caleb. Os dois, como um espelho, ergueram as cabeças para nos olharem quando chegamos. Tomamos café e sentamos juntos a eles até que, depois de muito discutir que canal iríamos assistir, paramos em um programa de tatuagens. K me olhou com um brilho nos olhos escuros dizendo que já estava mais do que na hora de fazermos as nossas tatuagens.
Quando tínhamos por volta de uns quinze anos, escolhemos as tatuagens que faríamos quando fôssemos maiores de idade e tivéssemos dinheiro suficiente para pagá-las. Passamos uma tarde inteira discutindo e planejando a respeito. Desde então, compramos cofres e passamos a juntar dinheiro, pouco a pouco. No meu caso, eu sempre acabava usando o dinheiro para alguma coisa além do propósito original. Geralmente, o usava para comprar os presentes dos feriados e aniversários, ou, às vezes, como emergência para compras de mercado. Ultimamente não havia gasto com nada além do presente de Caleb, e já havia juntado — devido também ao mês inteiro que trabalhei nas férias — o suficiente para fazer o desenho que queria.
O problema é que K decidiu que faríamos hoje, já que era "um sinal dos deuses" que havíamos parado naquele canal de televisão. Encarou todos com entusiasmo e convenceu – sendo Kaori — a fazermos todos uma tatuagem. Com exceção de Caleb, é claro. Gabe foi o único que conseguiu manter-se firme ao dizer que não podia. Não sei como, já que K conseguia ser bastante persistente.
Então, de alguma forma acabamos em um estúdio do centro da cidade, com K pulando como uma criança e Laurel e Cenoura desistindo ao ouvir os resmungos de uma garota que fazia um desenho nas costelas. Gabe apenas ria ao nos olhar.
No momento, tinha as mãos erguidas como se estivesse defendendo-se. — Ei, eu disse que não tinha dinheiro para isto — contou, sorrindo.
Revirei os olhos, olhando para meu braço. O tatuador de cabelos negros parava, por alguns segundos, a máquina para passar o papel e tirar o excesso de tinta – e de sangue, para meu desespero — antes de continuar novamente.
Eu não acredito que concordei com isso!
A dor podia não passar de um fisgada incômoda, em alguns momentos, mas não deixava de ser loucura havermos continuado com isto. Fiquei um tempo com os olhos fechados, enquanto ouvia os resmungos de K e as conversas dos nossos acompanhantes. Minha mandíbula já estava dormente de tanto que eu apertava, mais por nervosismo do que por dor, quando a mesma aliviou um pouco.
— Prontinho. — Pude ouvir o tatuador dizer, segundos após o zumbido na máquina cessar.
Abri os olhos rapidamente. Meu corpo inteiro doía pela tensão. Depois de respirar algumas vezes, levantei-me e me dirigi ao espelho, para ver a obra direito (não só de ponta cabeça). Senti um alívio ao ver que havia ficado exatamente do jeito que eu queria.
O desenho cobria a parte interna do meu antebraço. Não era pequena, mas também não era muito grande. Os detalhes estavam tão excelentes que pude sentir o sorriso se alargar em meu rosto.
Decidi tatuar uma árvore. Sei que parece simples, mas significa muito. A árvore em si tem muitos significados em diferentes culturas e religiões. Dentre eles, está a fertilidade, força, estabilidade, segurança, crescimento e até mesmo a imortalidade. Para mim, tudo isso é representado pela minha família. O amor que sinto por eles é fértil, forte, estável e imortal. Eles são meu porto seguro. E como família, crescemos de forma semelhante a uma árvore genealógica. Tanto minha mãe e meu irmão, quanto Kaori e meus tios. Minha família de sangue e minha família postiça são minha vida.
Assim como esses abobados que não quiseram juntar-se a nós hoje, pensei, olhando-os de relance com um sorriso.
Kaori já levantava do lugar, minutos depois, sorridente por haver acabado a tatuagem, postando-se ao meu lado ao erguer a camisa. Diferentemente de mim, Kaori preferiu fazê-la no lado esquerdo de sua cintura. Sua tatuagem era como um complemento à minha: uma flor. Mas de um tipo específico, a flor de lótus, que Kaori tanto ama. É uma flor de sua origem, que K clama sentir saudade. Ela sente falta do país de sua infância mais do que admite. A flor de lótus também tem muitos significados. Dependendo de sua cor, simboliza pureza, conhecimento e até mesmo amor. Por isso, ela preferiu fazer uma colorida.
Olhava encantada o resultado no espelho. Seu sorriso apenas aumentou quando me olhou e disse:
— Nossos pais vão nos matar!
*
Meia hora depois, estávamos todos sentados em uma mesa redonda, ao ar livre, de uma lanchonete. O sol já estava se pondo, deixando a cidade da cor laranja. Olhei para Cenoura, rindo ao perceber que ele parecia fazer parte da paisagem. O ruivo é o tipo de pessoa que não precisa fazer nada para ser engraçado, é só olhar para seu rosto que dá vontade de rir.
Kaori olhava o cardápio concentrada ao meu lado esquerdo, enquanto Gabe e Laurel, ao seu lado, discutiam sobre tatuagens. Cenoura olhava o horizonte ao tomar um gole da Coca-Cola. Ri alto.
— Ei, Cenoura — chamei, cutucando-o com o pé. — Como andam as coisas? — perguntei com um sorriso malicioso, quando ele me encarou.
— Vão bem — disse ele, não podendo evitar a vermelhidão de seu rosto. — Muito bem — completou, com um sorriso bobo.
— Quando vai apresentá-la para a gente? — perguntou Laurel, intrometendo-se no assunto.
— Quem? — perguntou K, perdida ao olhar de um para o outro.
— Jess. A namorada dele — explicou Gabe, sorrindo.
— Não é minha namorada! — Cenoura reclamou, desviando o olhar.
— Claro que é, meu bem! — Laurel tratou de incentivar, olhando-o com carinho. — Se ela ainda não é, oficialmente, então devia pedi-la em namoro! Ela está caidinha por você — afirmou, piscando um dos olhos delineados.
— É mesmo? — perguntou K, sorrindo ao desviar o olhar de Laurel para Cenoura.
— Você acha? — Cenoura perguntou ao mesmo tempo que K, envergonhado.
— Claro! — respondemos todos em uníssono, para depois cairmos na gargalhada.
Enquanto comíamos e conversávamos, o sol sumiu do céu, dando lugar à lua. Algumas pessoas passavam apressadas pela calçada, enquanto outras passeavam sem demora. Nem parecia dia de semana.
Perdido em meus próprios pensamentos, tomei mais um gole do suco de laranja depois de terminar meu hambúrguer. Laurel tagarelava com Kaori sobre assuntos femininos. Dizia com convicção alguma coisa sobre esmaltes.
— Estou te dizendo — enfatizou, enquanto K a olhava com atenção —, tem que ter muito cuidado ao comprar esmaltes! Alguns parecem serem lindos, com o título de Paixão ou Toque de Ira, e daí quando você passa nas unhas, elas ficam da cor de rosa ao invés de vermelho! É uma puta enganação... — tagarelava, indignada.
Revirei os olhos, rindo junto com Cenoura. No entanto, ao desviar o olhar para Gabe, percebi que ele parecia estar prestando atenção. Tinha o semblante quase sério e os olhos fixos em Laurel, completamente alheio ao seu redor. Franzi o cenho, observando-o.
Assim que Laurel riu de alguma coisa que Kaori havia dito, instintivamente Gabe sorriu também. Seus olhos azuis brilhavam de uma forma completamente...
Ah, meu deus!
Gabe, como se pudesse ouvir meus pensamentos, desviou o olhar até meu rosto e ficou tão sem jeito que até suas orelhas ficaram vermelhas.
Ai. Meu. Deus.
Ainda fingiu mexer em alguma coisa no celular até desistir e me olhar novamente. Eu quase podia ver uma gota de suor cair de seus cabelos escuros, se não estivesse sendo criativo demais. Gabe pareceu implorar com o olhar para que eu esquecesse o que acabei de ver, só então pude perceber que eu ainda estava com a boca aberta.
Fechei-a rapidamente, sustentando seu olhar, sem saber exatamente o que fazer. Seria possível?
— Aqui, Rich! — Alguém disse perto de nós, e ergui os olhos involuntariamente.
— Tá bom, tá bom — respondeu a voz familiar. — Deixa de ser chato, eu compro o maldito milkshake! — completou, a voz impaciente.
Ah, meu deus.
Eu ainda não havia me recuperado do primeiro choque, antes de deparar-me com um segundo. Turner.
Estava logo em frente à porta do local, com um rapaz ao lado. Usava, desta vez, uma calça jeans junto da camisa social, de cor branca, e a barba mal feita já havia crescido mais um pouco dentro destes dois dias. Estava a alguns passos de distância e tinha o cenho franzido em irritação. Dirigiu-se para dentro da lanchonete sem nos ver ali fora – provavelmente devido às outras mesas ao ar livre –, acompanhado de um homem sorridente. Este tinha a pele escura e usava uma roupa solta e simples, parecendo combinar de certa forma com seus dreads.
Com seus dreads?
Pisquei os olhos algumas vezes, tentando descobrir se havia tido uma alucinação. Não. Turner realmente estava comprando milkshake para um homem com dreads.
— O dito Dragão está em toda parte agora — reclamou Laurel, olhando dentro da lanchonete pelo vidro.
— E eu que achava que nem vida o cara tinha! — Gabe pronunciou-se, olhando-o de relance, parecendo ainda desconfortável com o que eu presenciara.
— Não é? — perguntou Cenoura, rindo. — Pode ser que ele ainda esteja procurando por seu tesouro — completou, levando o resto de seu sanduíche à boca, dando de ombros. Reprimi o riso involuntário.
— Aquele é o professor Dragão de vocês, Will? — perguntou K, alternando o olhar entre mim e Turner.
— Sim, é ele — respondi depois de um tempo, com os olhos vidrados em suas costas.
— Parece meio rabugento mesmo, mas... — começou, pensando um pouco antes de sorrir. — Bonito — completou simplesmente, com as sobrancelhas arqueadas.
Encarei-a com surpresa.
É claro que eu já havia percebido o olhar cobiçoso que algumas das mulheres da nossa turma dirigiam a Turner. Muitas o achavam bonito, e não era para menos. Só que não estava acostumado a ouvir, já que Laurel, a única mulher do nosso grupo, geralmente passava o tempo reclamando do quanto odeia o Sr. Turner.
Fiquei encarando minhas próprias mãos por um tempo, evitando o contato visual.
Sim, ele é muito bonito, respondi mentalmente com um suspiro.
Ergui os olhos em direção à pessoa que tem invadido meus pensamentos, de maneira constante, nos últimos tempos. Mesmo de costas, eu sabia que ele tinha o cenho franzido e que se segurava para não bufar. Apertei os lábios para não sorrir, sentindo-me bobo pelo fato.
Não sei em que momento percebi o quanto Turner é bonito, não sei mesmo. No entanto, a partir do momento que tomei consciência disso, não há forma no mundo de eu conseguir ignorar o fato. Na verdade, eu não consigo ignorar mais nada que tenha a ver com Richard Turner. A forma como ele levanta uma das sobrancelhas com altivez, ou como mantém o rosto congelado pensando no que responder, ou como, sem perceber, deixa seu queixo cair quando eu descaradamente flerto com ele.
Circulei o canudinho no copo vazio, sorrindo enquanto me lembrava da última vez que estive em sua sala.
Flertar com meu professor definitivamente não foi a ideia mais inteligente que tive na vida.
Eu estou ficando maluco, pensei. Pirando na batatinha. Mergulhando na maionese.
Por que outro motivo eu arriscaria a carreira de meu professor e a minha reputação, dando em cima dele? Apesar de que, o envolvimento romântico e/ou sexual entre aluno e professor é que vai contra as normas da instituição universitária. Não vi nenhuma lei que diga alguma coisa a respeito de trocas de olhares. Mútuas, a propósito.
Eu, sinceramente, não sei como foi que aconteceu, como foi que tudo passou a acontecer.
Além de ele haver me reprovado em sua matéria — por pouco não causando minha repetência do semestre inteiro, a propósito -, ele é carrancudo pra caralho e ainda lhe falta um senso de julgamento. Turner usa roupas sociais nos dias de semana, ainda por cima. Quem usa roupas sociais em plena luz do dia?
E claro, sem falar que se trata de um professor de universidade, um homem e alguém que provavelmente leva uns dez ou quinze anos a mais que eu.
Não sou gay, havia pensado repetidamente quando o calor parecia invadir meu corpo com apenas um olhar do mar acinzentado. Agora já não tenho tanta certeza, pensei enquanto admirava as costas largas do meu professor.
Relanceei o pessoal para ver se ninguém havia ouvido meus pensamentos. Estavam envolvidos em uma conversa animada, para meu alívio. Voltei, então, os olhos para o Dragão, que batia o pé impacientemente enquanto esperava o outro rapaz, que parecia escolher um tipo de milkshake com animação.
Quem é esse cara, a propósito?
Tinha o corpo esguio e, ao mesmo tempo, musculoso. O sorriso, mesmo vendo de longe, parecia iluminar o rosto inteiro, tornando-o ainda mais bonito. Os dreads estavam presos acima da cabeça e ele tinha um piercing no nariz. Estreitei os olhos, observando-o mais detalhadamente. O rapaz era negro, alto e muito sorridente. Visíveis por causa da regata que usava, haviam tatuagens que, de longe, não pude discernir. Apesar da beleza, não se parecia nada com o Sr. Turner, então supus que não fosse um parente.
Ele aproximou-se do nosso professor e tocou seu nariz de leve, rindo da cara de bravo que ele fez. No entanto, eu podia ver que a cara brava de Turner já não se mantinha tão firmemente no rosto, dando espaço para um leve sorriso enquanto ele balançava negativamente a cabeça.
— Estão todos prontos? — perguntei subitamente, olhando para os rostos ao redor da mesa.
— Acho que sim — respondeu Cenoura, distraído com o celular.
— Eu não aguento mais comer — resmungou K ao mesmo tempo, com um sorriso.
— Vou pagar nossa parte, K — avisei, levantando-me com rapidez.
Sem esperar resposta, dirigi-me habilmente à porta da lanchonete. Abri-a com destreza, planejando meus movimentos. Do lado de dentro, haviam mais mesas espalhadas, um balcão para pagamento e um balcão destinado aos milkshakes. O cheiro de comida infestava o lugar de forma mais atenuante do que do lado de fora.
Passei pelos dois homens que eu antes observava, em direção ao balcão de pagamento. Entreguei a comanda à moça loira atrás do balcão, junto ao meu cartão de crédito. Desviei então, o olhar ao meu lado direito, de onde Turner me encarava com as sobrancelhas arqueadas. Sorri internamente.
Estava óbvio que ele me veria. Ambos os balcões de pagamento e milkshake ficavam lado a lado, para que, assim que os consumidores estivessem prestes à sair, se deparassem com os diversos sabores estampados no cartaz. Uma boa estratégia de venda, permito-me admitir.
Digitei a senha do cartão e depois de pegá-lo junto com a nota, desejei um "boa noite" para a moça.
— Professor — falei, dirigindo-me em sua direção —, que surpresa encontrá-lo aqui! Não sabia que o senhor gostava de... — comecei, relanceando o homem ao seu lado, que se inclinava em direção ao vendedor — milkshake.
Turner sorriu, desconcertado ao relancear também o homem ao seu lado, parecendo desconfortável.
— Eu não gosto. Quero dizer — falou, atrapalhado —, eu só estou acompanhando — completou, com um leve sorriso.
Assim que o homem sorridente tinha em suas mãos o milkshake que desejava, virou-se completamente para a gente, me olhando com curiosidade. Arqueou as sobrancelhas, desviando seu olhar para Turner.
— É seu aluno? — perguntou, o rosto divertido quando dirigiu os olhos castanhos para mim novamente.
— Sim. É o Will... — começou a explicar em resposta, me indicando com a cabeça, mas fora interrompido pelo homem peculiar.
— Ele é muito chato nas aulas? — perguntou, sem esperar Turner terminar a frase.
— Jay — reclamou ele, em tom de aviso.
Jay apenas acenou a mão, como se espantasse seu mau humor. Sorri largamente ao encarar a carranca que voltava ao rosto bonito com facilidade.
— De forma alguma — respondi, encarando os olhos cinzas. — É um bom professor, e é muito atencioso — continuei com um sorriso, sem quebrar o contato visual.
Só então relanceei o tal de Jay, percebendo as sobrancelhas dele se elevarem ao mesmo tempo que as de Turner, que me encarava estupefato.
— É mesmo? — perguntou Jay, estreitando os olhos em direção ao Turner com ceticismo.
— Claro — falei. — Ele é um pouco sério, mas eu já disse para ele sorrir mais vezes. Nada demais. Não é, professor? — perguntei, tentando não rir de sua expressão estática.
Turner, recuperado o choque, pigarreou algumas vezes, assentindo sem me olhar nos olhos.
— E você, é irmão do Turner também? — perguntei, dirigindo minha atenção ao rosto que me olhava com curiosidade.
Eu tinha quase certeza de que Jay não era da família, mas sempre há uma chance de que fosse. Podia ser um aluno também, não aparentava ser muito mais velho que eu, sem falar que existem estudantes de todas as idades. Só que não podia ser aluno dele. Turner não era do tipo de professor que saía com alunos.
Essa conclusão me deixou incômodo, tanto pelo fato de eu estar certo quanto pela possibilidade de eu estar errado. Reprimi a sensação ruim.
— Não, somos amigos — respondeu com um sorriso, ainda me analisando com cuidado.
Assenti devagar, desconfortável por meus próprios pensamentos acerca do mesmo, desviando os olhos para Turner. Podia ver os detalhes que já conhecia no rosto iluminado pelas luzes do local. Seus olhos cinzentos sustentavam os meus, até descê-los pelo meu corpo, talvez na tentativa de evitar o contato visual. O calor que tomou conta de mim foi incontrolável durante os poucos segundos que seus olhos baixaram, até que sua testa franziu novamente, os olhos fixos em meu braço.
— Fez uma tatuagem, Will? — perguntou ao quebrar o silêncio, surpreso.
Sua voz me tirou do transe praticamente ao mesmo tempo que o barulho de Jay ao sugar o milkshake pelo canudinho. Este tinha os olhos castanhos em mim e não parecia nem um pouco desconfortável em me encarar descaradamente. Parecia ter todo o tempo do mundo para analisar-me e, certamente estava curioso comigo.
Pisquei devagar, lembrando-me do meu braço doído.
— Fiz hoje — respondi, a voz falha. — Ainda arde um pouco — reclamei, fazendo uma careta involuntária.
— Ah, isso passa — falou Jay ao mesmo tempo que Turner pronunciou-se.
— Não se preocupe, vai passar — disse, com um sorriso cauteloso.
Sorri largamente também, sem tirar os olhos de seu rosto.
Então dei-me conta do que havia dito e do significado por trás. Vai passar? Como ele sabia disso? Teria meu professor uma tatuagem? Isso parecia tão improvável quanto eu me formar na faculdade no tempo certo. Mas a possibilidade me deixou em alerta, completamente curioso.
Que tatuagem ele teria? Em que parte do corpo?
Senti meu sangue subir ao rosto ao imaginar. Não, eu não teria coragem de perguntar isso, não depois de cogitar todas as opções. Havia um limite, no fim das contas, na minha cara de pau. Balancei de leve a cabeça, tentando repelir o calor, o rubor e os pensamentos.
O que eu diria agora?
— Will! — Gabe chamou-me do lado de fora, acenando com a cabeça em direção à rua.
— Essa é minha deixa. Tenho que ir agora — informei, focalizando o olhar nos detalhes do rosto do meu professor. Dei um passo em sua direção, podendo já sentir seu perfume inundar meu nariz. — Foi muito bom vê-lo fora da universidade, professor — falei, enfatizando o nome. — Espero que aconteça mais vezes!
Turner parecia estar com o corpo inteiro retesado. Desviou o olhar antes de voltá-lo à mim, assentindo devagar, totalmente incômodo com a situação.
— Foi um prazer conhecê-lo, Jay — falei ao encará-lo, estendendo a mão ao moreno.
— O prazer foi meu — respondeu ele, apertando minha mão de leve. Desviou o olhar questionador de mim para Turner.
Sorri satisfeito antes de virar as costas e sair da lanchonete. Todos estavam agrupados lá fora, me esperando. Eu e K éramos os únicos que não haviam pagado ainda?
Acompanhei-os em direção ao carro de Gabe, enquanto ouvia Laurel me olhar desconfiada ao perguntar: — Vocês são amigos agora? — Encarou-me de lado, os olhos acirrados. Apenas dei de ombros em resposta e continuei caminhando.
Não éramos exatamente amigos. Na verdade, não éramos nada além de aluno e professor. Olhei para trás, imaginando o que teria acontecido quando dei as costas.
Tudo bem, eu não devia flertar com ele na frente de seu amigo. Ainda mais em público, mas eu não resisti.
Eu gosto de causar desconforto em meu professor, até demais. Gosto de fazer com que ele tenha que recorrer ao desviar de olhar, ao afrouxar da gravata ou ao elevar da mão ao pescoço. Gosto de dizer algo que o faça pigarrear constrangidamente, ou faça o cenho franzido se dissipar aos poucos, ou faça com que os cantos de seus lábios subam, mesmo sem querer. Gosto de vê-lo corar, embora essa reação seja bem mais rara. E principalmente, de instigar sua curiosidade, de fazê-lo sustentar meu olhar ou de sorrir simplesmente.
— Cara, vocês vão me ajudar a pagar a gasolina — Gabe avisou assim que chegamos em seu carro. — Tenho que ficar carregando vocês, bando de pobres, de um lado para o outro, e acabam esquecendo que eu também sou pobre! A gasolina não é barata não, minha gente — falou, indignado.
Pude ouvir minha gargalhada juntar-se à deles.
— Vamos lá, escravo — disse Laurel, cutucando-o no ombro enquanto ele abria as portas com a chave. — Nos leve até minha casa primeiro — continuou, logo fingindo postura de comando e cara de brava —, e sem demora!
Gabe bufou em reprovação antes de entrar no carro, mas pude ver o indício de sorriso em seu rosto.
Nunca cheguei a considerar a possibilidade de meu amigo estar apaixonado por Laurel. Mas pensando bem, as coisas que houveram acontecendo com Gabe nos últimos tempos fariam muito sentido com apenas essa explicação. Era possível que eu não houvesse percebido antes? Mas ao olhar ao redor, depois de entrar no carro, percebi que sim. Afinal, ninguém havia percebido.
Alguém perceberia o que estava acontecendo entre eu e o Dragão?
Olhei pela janela durante o percurso inteiro, pensando que eu realmente não estava batendo bem da cabeça.
Sei que estou passando dos limites, durante muitas vezes, percebo isto. A compreensão significativa que passa pelo rosto de Turner de vez em quando, ciente das minhas ações, me deixa envergonhado. Eu sou humano, afinal. Quando perguntei se ele procurava por namorado, eu pensei em fazê-lo com o mesmo sorriso de sempre, mesmo sem pensar muito. Mas na hora H, as coisas mudam. Preciso de muito mais prática na arte da sedução para poder perguntar algo assim sem ficar roxo feito uma beterraba.
A situação em que eu estou me metendo é, no mínimo, um pouco constrangedora. Só que, se eu me permitir ficar envergonhado, já não posso mais obter as reações que quero do Sr. Turner. Aliás, estou receoso de que só expressões da parte dele já não me mantenham completamente satisfeito. Também acho que se eu forçar só um pouquinho mais a barra, ele pode me afastar para sempre.
Suspirei. Não é fácil ser eu.
O fato é que eu já não estava mais me importando com o motivo das minhas ações, ou com o motivo das reações que Turner causa em mim. Não quero investigar minhas emoções, nem o motivo por trás delas. Minha curiosidade é bem mais forte do que meu espírito investigativo. Aliás, nem sei se tenho um espírito investigativo.
Na verdade, a única coisa que eu sei é que quero tê-lo. Pode ser curiosidade, pode ser a adrenalina, mas não vou ficar satisfeito em saciá-la com alguém que não seja ele.
Eu quero o professor Turner, e eu não vou parar até consegui-lo.
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