Made of Fire
54 EXTRA - Por você
Notas iniciais
Seis meses não é muito tempo.
Vinte e seis semanas, cento e oitenta e dois dias, quatro mil trezentos e oitenta horas.
Só que o tempo é muito relativo. É como a duração de uma aula de faculdade. Se você está realmente entretida e interessada, aquelas horas passam na velocidade da luz. Se você está entediada ou com pressa, as horas se arrastam mais do que uma tartaruga o faria. E quando se está sofrendo, o tempo inteiro, seis meses parecem uma eternidade.
Ainda mais se tudo que você faz é esperar.
Eu recém havia saído do banho.
Meu quarto não possuía um banheiro, então eu tinha que me arrastar até o fim do corredor, sendo meu quarto um dos primeiros do andar. Havia apenas uma toalha em torno do meu corpo, e outra em meus cabelos, enquanto percorria o caminho até meu quarto.
Honestamente, ter vinte e quatro anos e ainda morar na casa dos pais não era tão vergonhoso quanto ter a idade de Rob, ter morado sozinho e ter voltado para a casa dos pais por pura carência. Então, eu realmente não me preocupava muito com isto porque, além de já estar no fim da minha faculdade, eu ainda tinha medo de sair e acabar voltando, repetindo a cara de pau de Rob.
Falando nele, eu recém havia saído do banho quando fui traumatizada por ele e seu melhor amigo.
Não que eu não achasse Luke uma graça, já que até havia dado em cima dele na primeira vez que o moreno pôs os pés aqui em casa, mas vê-lo seminu não estava na minha lista de desejos do momento. Ser rejeitada não é muito agradável, mas com Luke era fácil relevar, já que ele usou ao menos três piadas diferentes pra me fazer rir enquanto me rejeitava. Ele é bom nisto, mas eu não sei por que eu nunca pensei que o motivo fosse o meu irmão.
Talvez porque nunca cogitei encontrá-lo apenas com a roupa interior, aos beijos com seu melhor amigo.
— Ah, meu deus! — berrei, tapando os olhos. — Ah, meu deus!
Eu havia saído mais cedo da aula, pelo simples fato dela estar uma bosta, e acabei não avisando Rob que havia chegado. Sabia que era seu dia de folga do serviço, e que meus pais haviam saído, mas não pensei realmente que ele estivesse em casa. Então, antes de chegar ao meu confortável quarto, meu último pensamento era que eu o veria sair do próprio quarto agarrado com Luke.
— Rebecca! — berrou ele, em contrapartida, ao tentar alcançar a porta do próprio quarto novamente e esconder-se.
Luke, não sei se era por estar em choque ou por perceber que eu não poderia desver nada, permaneceu no meio do corredor. Os olhos castanhos arregalados, as duas mãos abertas, tentando desvendar o que faria ao desviar o olhar entre Rob atrás da porta e eu, segurando minha toalha com a boca aberta. A visão do corpo bem estruturado e moreno seria muito agradável para mim em condições normais, mas ao baixar os olhos para sua cueca preta, tudo que pipocava em minha mente eram as duas mãos branquelas de Rob sobre as nádegas dele, o que literalmente ocorrera segundos antes.
Ew, ew, ew!
— Ai, meus olhos! — gritei de novo, desta vez fechando-os, já que minhas mãos não tapavam nada.
Não que eu tivesse qualquer tipo de preconceito, eu era super a favor do amor, mas enxergar meu irmão daquele jeito era nojento em níveis catastróficos.
— Boa tarde, Becca — cumprimentou Luke, meio sem graça.
— Rebecca, o que diabos você está fazendo em casa?
Abri os olhos, finalmente tirando a mão de frente deles, e encarei com indignação, as duas caras avermelhadas de vergonha. Rob havia puxado Luke para dentro do quarto e agora eu podia ver apenas os dois rostos para fora da porta, com caretas de culpa.
— O que eu estou fazendo em casa? — perguntei, debochada. — E o que vocês estavam fazendo que não ouviram o barulho do chuveiro? — Os dois se entreolharam novamente, e pude ver Rob literalmente se engasgar com a própria língua. — Ew! Ew! Não responde! — acrescentei, com uma careta de nojo. — O que eu estou fazendo, claramente, é descobrindo que meu irmão gosta de enfiar a língua na boca do melhor amigo!
— E o melhor amigo gosta disto — acrescentou Luke, deixando tudo bem claro, com um sorriso de canto.
Deixei a boca cair, enquanto via o sorriso sumir do seu rosto quando Rob o assassinou de três formas diferentes com o olhar azulado.
— Rob, você é gay também? — deixei escapar em um sussurro, percebendo que era sério.
Rich havia deixado claro que é bissexual, mas ajustei a pergunta ao lembrar que Rob nunca namorou por mais de cinco meses com uma mulher. E sendo muito perceptiva, eu também sabia que em nenhum dos seus seis namoros, Rob estava apaixonado. Seu recorde, como nós — eu e Rich — gostávamos de fazer piada a respeito, havia sido cinco meses e duas semanas, até uma das partes desistir do dito relacionamento sério.
— N-não, Becca, não é isto — gaguejou ele, saindo do quarto ao tapar-se com uma camisa branca.
— É exatamente isto, na verdade — interrompeu Luke, com uma careta. Logo, ele mudou ao ver os olhos azuis de Rob em si, pondo-se a rir em seguida. — O quê? É verdade!
Como diabos eu não sabia disto?
— Eu não acredito nisto! — exclamei, abrindo os braços. Eles nada tinham que ver com minha incredulidade, já que era cem por cento crível que eles estivessem fornicando. O que era inacreditável era que eu não tivesse me dado conta antes. — Como é que... Como você... Era você que... — Suspirei, fechando a boca por um instante. — Há quanto tempo vocês estão juntos?
— Não estamos — disse Rob, com rapidez, e vê-lo envergonhado era a coisa mais estranha do mundo, mais ainda do que vê-lo com as mãos na bunda de Luke.
— Não faz muito — respondeu Luke, ao mesmo tempo, ao erguer os ombros. Rob deu um chute em sua canela, fazendo-o resmungar, em repetição: — Não estamos.
Suspirei, balançando a cabeça.
— Por isto você ficou todo estranho quando Rich te contou sobre o Will! — acusei, apontando o dedo para ele, ao lembrar do fato. Ele havia rido e feito piadas sobre haver ganhado a aposta, e então se trancou no quarto por horas. — E por isto que você nunca levou adiante nenhum namoro! — Rob abriu a boca, mas continuei: — E por isto você andou meio bipolar nos últimos meses! Meu deus! — E quanto mais as informações se encaixavam na minha mente, mais chocada eu ficava. Deixei os ombros caírem. — Rob, eu não... Eu não sabia — murmurei, começando a me sentir culpada. — Eu...
Dei um passo em frente, mas me senti subitamente ciente de que estava nua por detrás daquela toalha. E que eles também estava seminus.
— Eu vou me vestir — finalizei, vendo os dois assentirem como duas crianças que acabaram de aprontar. Ergui o dedo indicador novamente, estreitando os olhos: — Mas só espera, Rob! Isto não vai ficar assim!
Marchei até meu quarto como um vulto, e vesti qualquer roupa enquanto minha cabeça voava com as novas informações.
E elas logo voltaram para: eu odeio o Michael!
Se não fosse por ele e sua estúpida covardia, eu teria percebido as razões por trás do comportamento estranho de Rob. Tudo bem que, de alguma forma, eu havia deixado escapar ao longo dos anos o fato dele ser gay — o que, obviamente, não aconteceu de uma hora pra outra -, mas isto é porque ele foi adaptando a sua atuação enquanto eu adaptava minha percepção. Nos últimos dias, até eu que não prestava atenção nele, ocupada com meu próprio sofrimento, percebi que algo estava estranho. Ele não conseguiu atuar tão bonitinho nos últimos dias, quando a ansiedade, que houvera aumentado a ponto de eu ouvi-lo na cozinha às cinco horas da manhã, cessou e ele subitamente ficou calmo, sereno e feliz.
Estava claro que algo acontecia, e se eu estivesse em termos comigo mesma, eu teria descoberto do que se tratava. Eu sempre descubro.
Só que eu estava sendo engolida pelo próprio sofrimento, e minha própria espera agonizante.
O maldito do Mike tinha que ter me alienado do resto do mundo, tanto que eu mal dormia e mal comia, a ponto de nem sequer perceber o que se passava com o meu próprio irmão! Ele tinha que haver sido um convarde e dado as costas, escolhendo a opção mais fácil de se lidar! Ele tinha que ser burro e imbecil, e o pior! Ele tinha que ter, em primeiro lugar, ter se deixado cair nos meus encantos, mesmo sabendo que ia dar no pé logo depois!
E o meu pai... Ah, o meu pai!
Segurei a respiração, após jogar a camiseta em cima da cama, com até mesmo do simples tecido, e me atirei na mesma em seguida.
Não vou chorar, não vou chorar, não vou chorar.
Tapei o rosto com as mãos, engolindo o soluço que sairia a seguir, e deixei os ombros caírem.
Não era minha culpa se eu andava sensível ultimamente. Era tensão pré-menstrual, cem por cento. Era apenas isto, e meus hormônios agindo como vermes em meu sistema. Era só isto.
Nada tinha a ver com o fato de eu estar apaixonada, miserável e sozinha, ou com o fato de que eu tinha que ver o homem que amo quase todos os dias e não poder sequer olhar na cara dele sem levantar discórdia, ou o fato do meu pai ficar tentando se aproximar de mim com carinha de cachorro abandonado.
Sinceramente, eu não podia entendê-lo. Ele queria que eu ficasse de bem com ele, queria que a gente fizesse as pazes, mas é claro: ele estava certo e eu estava errada. Ele queria que tudo voltasse a ser como era antes, mas nem arrependido estava. Ele estaria sofrendo se eu estivesse com Mike — mesmo ele não tendo nada a ver com nenhuma das duas vidas íntimas, mas vou relevar isto por hora -, mas ele achou que isto não era justo, então ele deixou que eu sofresse enquanto ele fica com Mike. E agora eu sou esta louca que tem ciúmes do próprio pai, porque ele passa mais tempo com o amor da minha vida do que eu.
Pais não deveriam assumir esta parte com relação aos filhos, assumindo suas dores para que eles não sintam?
Bom, o meu pai decidiu o pior momento e a pior situação para se posicionar como egoísta.
Eu não sei qual é o problema dos homens e, especialmente, destes dois! É porque são amigos? Desenvolveram o mesmo tipo de personalidade e cabeça dura ao longo dos anos, como uma espécie de doença?
E agora eu, trágica e trouxa, estava à espera do meu príncipe encantado em um cavalo branco. Acontece que o príncipe tem neurônios falhos e esperar por ele é o mesmo que esperar por um milagre.
Michael e eu havíamos nos esbarrado — por incrível que pareça, sem querer — na entrada de casa, cerca de uma semana depois dele me dar as costas e eu não ir atrás. E eu não fui atrás. Quem cala, consente. E ele sabia disto quando eu deliberadamente ignorei sua presença até que Finn abrisse o portão. Só que a única frase que ele me disse, as únicas três palavras fizeram com que eu entendesse o contrário: quem não cala, não consente.
— Só... Só espera, Becca — pediua ele, sem nem olhar na minha cara.
E aquilo foi o suficiente para que eu soubesse que nem mesmo ele consentia com o que me houvera dito.
Se estas palavras houvessem sido ditas em um tom agressivo, eu tomaria como uma ameaça. Só que aquele murmúrio silencioso havia sido um pedido que eu não pude recusar ou aceitar. Eu o respondi apenas com mais silêncio.
Afinal, aquilo era loucura, não?
Eu não podia simplesmente ficar esperando pela aceitação do meu pai a vida inteira, ou esperando que Mike tomasse coragem pra lutar por mim, ou esperando Mike preparar o terreno para que uma das primeiras premícias se fizesse verdadeira. Ou ainda, esperando me apaixonar novamente por outra pessoa para que ninguém tivesse que tomar uma escolha dolorosa e tudo melhorasse. Digo, ele havia dito para que eu esperasse, mas não especificou o quê.
Eu não podia ficar esperando por ele a vida toda, podia?
Se eu podia ou não, era irrelevante. A resposta dolorosa era ainda pior: iria.
*
Após ter uma longa e clara conversa com Rob, depois que Luke foi embora, eu fiquei tão perturbada com a informação que tive que descer pra comer alguma coisa.
Não era um acontecimento histórico, mas poxa! Rich está namorando um rapaz ainda mais novo que eu, fora todo o histório manchado da sua adolescência; eu sou uma completa causadora de intriga — e adoro -, me envolvi com o melhor amigo do meu pai, quase vinte e dois anos de diferença; e Rob dedica todo o esforço do mundo pra esconder só a sua sexualidade? De novo, a sexualidade é apenas uma de três questões que envolvem o relacionamento do Rich: sexualidade, posição social e idade; e uma das três que envolvem o meu: idade, posição social e familiar e desastre iminente, como eu gosto de acrescentar.
Rob apenas gosta de caras. E se apaixonou pelo melhor amigo, o que é a coisa mais comum do universo!
E Rob é aquele que está sempre do nosso lado, consertando nossas merdas — eu e Rich temos um histórico de rebeldia semelhante, embora ele o dele seja hardcore -, dividindo seu lanche, abdicando do controle do videogame, guardando nossos segredos, defendendo-nos para o mundo. E o principal: Rob é aquele que está sempre rindo ou nos fazendo rir. Ele é o ridículo da família, com uma piada a cada três frases, e todo mundo ama isto nele.
E me dói muito saber que ele estava sofrendo este tempo todo, na frente de todo mundo e sem que ninguém visse.
Parei por um instante, unindo as sobrancelhas ao analisar a situação: seria literalmente o quarto pão que eu iria enfiar na boca.
Suspirei, apoiando-me no balcão e fechando os olhos.
A família Turner não é absolutamente nada do que parece ser para os de fora.
Falando nela, não demorei nem dois minutos em estado paliativo antes que meus pais adentrassem na cozinha, interrompendo o meu café da tarde, e trazendo sacos de compra com a ajuda de Finn.
Ignorei-os deliberadamente, comendo meu quarto sanduíche em paz, apenas ouvindo sobre como eles chegaram com fome e discutindo assuntos aleatórios.
Enquanto eu guardava tudo que houvera usado em seu devido lugar, eles entraram no assunto da reunião com a empresa. De novo.
Naquela mesma noite haveria mais uma das grandes reuniões da empresa aqui em casa, como acontecia bastante, geralmente porque a imobiliária queria firmar algum contrato com outra e o 'baile de gala', como eu gosto de chamar, traria várias pessoas importantes e conversas informais que chegariam à um acordo. Ou a diversos deles.
Para meus pais, era muito importante que sua família participasse do evento, isto queria dizer: eu e Rob.
Francamente, eu sempre quis me ver longe da Turner Imóveis e tudo que a envolvia.
— Michael trará... — As palavras do meu pai chamaram minha atenção, justo quando eu tratava de fazer um café para levar pro quarto. Ele claramente hesitou por conta da minha presença, mas eu fingi nada ter ouvido. — ... uma convidada.
O quê??
— Oh — murmurou minha mãe, tão desconfortável quanto ele parecia. Não por Michael, é claro, mas por mim. E disso eu sabia. — Uma convidada?
— Sim — confirmou meu pai, tomando firmeza na voz com o meu silêncio. — Alguém com quem ele anda saindo. Você sabe que ele sempre trás uma companhia pra esses bailes.
Sim, ele sempre trazia. Antes de me conhecer.
Viro para eles em um vulto, focando os olhos em ambos os rostos desconcertados.
— Mike vai trazer uma mulher com ele?
Meu pai ajeitou a postura para a mais ereta possível, claramente na defensiva, enquanto os olhos castanhos desviavam para a minha mãe. A Sra. Isobel, no entanto, parecia apenas tensa com o assunto novamente.
Minha mãe havia descoberto sobre eu e Mike algumas semanas antes do meu pai, quando o viu sair de fininho do meu quarto. É óbvio que não aprovara, mas eu penso que o terrorismo que fez para comigo durante aquelas semanas era mais para aliviar o estresse de ter que manter um segredo do seu marido. Assim que ele soube, e o terrorismo partiu dele, minha mãe tomou posição de me apoiar, mesmo que não apoiasse nosso relacionamento.
— Sim — respondeu ele, firme.
Assenti, lentamente, desviando o olhar dos olhos azuis e preocupados da minha mãe.
— Eu sinto muito, meu bem — disse ela, em um tom calmo. Mas eu imaginei que fosse pra neutralizar a situação e ela não acabasse com meus gritos, o que provavelmente iria acontecer.
— Você sabe como Mike é, Rebecca — disse meu pai, tomando um gole do café, como se fingisse não se importar, com todo o ar que o envolvia de "sempre tive razão". Até parece!
Até a maneira como bebe o café é forçada.
— Sim, eu sei. E eu espero que você saiba como eu sou, pai.
Ele ergueu o olhar para mim, sério, já prevendo que eu não diria nada agradável. Ora, é claro que não!
— Se Michael entrar por aquela porta — comecei, fazendo um gesto vago em direção à sala de estar —, de braços dados com uma mulher, eu não comparecerei ao evento.
Então, segui seu exemplo: agi como se eu tivesse apenas dito que o clima é ruim nesta época do ano. Virei de costas, servindo uma xícara de café para levar pro meu quarto com calmaria.
— O quê? — Minha mãe fez questão de quebrar o silêncio e, em seguida, veio o meu pai.
— Vamos, Rebecca, não faça cena — resmungou ele, e pelo som, percebi que ele havia carinhosamente deixado sua xícara no balcão.
— Não fazer cena? Ué — indaguei, desentendida, ao me virar para ambos. — Eu só tenho vinte e quatro anos. Eu sou praticamente uma criança. Você sabe disso, não é? — Ri, vendo que os olhos castanhos tornaram-se irritados rapidamente. — Fazer cena é praticamente um requisito para crianças infantis e mimadas como eu. Então estou fazendo cena, de acordo com minha idade física e mental.
— Rebecca, por favor — resmungou ele, com uma careta profunda trazendo rugas à sua face —, a culpa não é minha se ele já seguiu em frente! — Ele se aproximou alguns passos, balançando a cabeça. — Este é quem Michael realmente é, Becca, você precisa entender.
— E você precisa entender que eu sou infantil — falei, bebericando o meu café. — Se Michael vier com uma mulher, eu não vou comparecer. E mais! — acrescentei, sorrindo. — Pode ser que eu desça e faça uma cena muito maior do que esta, apenas porque eu sou inconsequente e isto é o que crianças inconsequentes fazem. — Usei de suas palavras, majestosamente. — Agora, se me dão licença...
Dei as costas, antes de deixá-lo terminar sua próxima sentença, que não era muito agradável.
A verdade era que, também, eu realmente não queria enxergá-lo com outra pessoa. Doeria demais.
Eu sabia o quanto era importante que todos comparecêssemos ao evento, toda a família Turner — Rich tinha um passe livre porque todos sabiam que ele já não mais morava aqui -, especialmente pro meu pai. Ele gostava de exibir sua linda família, e todos gostavam de saber que o dono da Turner Imóveis era um homem casado, com filhos, e mais do que isto: com o apoio gigantesco da família.
Quando alcancei meu quarto, podia ouvir meu pai subindo as escadas, atrás de mim. Assim que entrei no meu cômodo, ele parou na porta e eu virei pra trás.
— Vamos, Becca, por favor — pediu ele, em um tom mais ameno. — Você sabe o quanto isto é importante para mim.
— Sim, eu sei. E eu não dou a mínima — esclareci, deixando um tanto da mágoa transparecer. — Assim como você não dá a mínima para o que é importante para mim.
Não esperei por uma resposta e fechei a porta na cara dele. No entanto, não fui capaz de me mover. Ouvi seu suspiro do outro lado da porta e percebi que ele também ficou ali por um tempo antes de, desanimadamente, descer as escadas para o térreo.
Inspirei fundo, já não mais segurando as lágrimas.
Meu pai é o melhor pai do mundo.
Eu sei que todos falam isto, mas ele absolutamente nunca nos decepcionou. Ele foi sensato, compreensivo, paciente, generoso, amoroso, mente aberta, gentil, amigo. Ele sempre foi tudo. Ele nunca me negou amor, ou uma roupa nova, ou um conselho. Ele trajou o vestido vermelho da minha mãe pra brincar de moda comigo quando eu tinha onze anos. Ele disse que fez — mas eu sei que foi a Rose — um chocolate quente e levou para mim quando eu chorei por horas depois do meu primeiro término de namoro. Ele me dá dinheiro pra sair, ele paga a minha faculdade, ele me leva e me busca onde eu preciso, ele odeia mas ele conversa sobre rapazes comigo.
Geralmente quem veste o papel de policial mau é minha mãe, já que ela sempre foi a mais firme com relação à nossa educação — e, aliás, foi isto que não nos tornou completos mimados -, e meu pai é o que faz todas as nossas vontades. Nem sempre, mas geralmente. E haviam vezes como esta, em que ele era o policial mau.
Honestamente, eu não podia apontar o dedo e dizer que ele está sendo um pai terrível. Mas eu também não podia baixar a cabeça e agir de acordo com as preferências dele. Isto não era uma roupa nova, ou um brinquedo, ou um chocolate que eu pedi do mercado. Não. Era o meu futuro que estava em jogo, a minha felicidade, o estúpido do meu coração. Eu não estava simplesmente magoando meu pai por pura rebeldia, eu estava apaixonada como nunca estive em toda a minha vida!
E sim, eu era uma idiota que estava esperando por Mike.
Eu saí com outros caras, com as minhas amigas, eu enchi a cara, eu segui — ou tentei — seguir com a minha vida, cagando e andando para o Mike. Mas no fim, ele sempre voltava à minha mente. Aqueles olhos castanhos contraditórios, aquela barba por fazer, os cabelos castanhos um tanto mesclados com o novo branco e o estúpido nariz torto! E aquelas palavras sussurradas em meu quarto, e então as três palavras murmuradas, uma semana depois, para que eu esperasse por ele.
E eu esperara por ele, feito uma idiota. Eu sempre esperaria por ele.
Só que esperar por ele não singificava que eu esperaria seu estúpido plano falho funcionar. Ele falharia. Eu não mais esperaria que, estando próximo ao meu pai, com olhinhos de carneiro degolado, e eu gritando aos ventos, Michael conseguir fazer meu pai mudar de ideia. Isto não aconteceria. Eu não esperaria pela chance de ser feliz, só para estender o tempo em que meu pai o estaria. Eu nunca a conseguiria. A verdade era esta: papai estava sendo egoísta, Mike estava sendo um covarde e eu estava sendo uma trouxa.
E eu decidi, por fim: não mais.
As vozes já indicavam que vários convidados já se faziam presentes, assim como a música no volume exato para que todos pudessem conversar, quando eu decidi abrir meu roupeiro.
Em um projeto da faculdade, eu e vários colegas havíamos dado assistência à transformação de um vestido horrendo à um vestido lindo em uma empresa de moda. Eu o havia comprado — com desconto — depois de pronto e exposto na loja. Era ele o escolhido para esta noite e isto se manteria assim.
Vesti o tecido grosso e azul marinho com rapidez, erguendo meus cabelos lisos em um penteado caído e meia boca, e fazer uma maquiagem linda da cor preta.
O vestido era colado, embora não fosse estilo balada, e minhas pernas eram deixadas à amostra mais na frente do que atrás. No topo da coluna, haviam trançados bonitos com as próprias tiras das alças. Não era meu preferido, mas era maravilhoso, e eu o usara na minha primeira vez com Michael, então isto devia dizer o suficiente.
Estufei o peito, calçando as sandálias pretas antes de sair do quarto.
Já podia avistar alguns poucos convidados dentro de casa quando cheguei no térreo, mesclados com os garçons que meus pais contrataram para a noite em especial. E, quando cheguei na parte traseira da casa, o pátio com chão de pedra e uma piscina ao lado, percebi que fora muito bem arrumado para a ocasião.
As luzes eram todas provindas de lamparinas bonitas e haviam arranjos de flores por toda a parte. Todas as luzes da casa, com exceção do térreo, estavam apagadas, o que tornava todo o pátio intermediário o único fruto de luzes, que também refletiam na água da piscina. Tudo muito bonito e com um ar mágico, especialmente com a música tranquila que tocava.
Ou talvez esta concepção fosse fruto do meu estado apaixonado do momento, já que todas as festas haviam sido lindas e eu nunca senti nada a respeito.
Assim que enxerguei meus pais, ao lado de Rob e Luke, marchei até eles. Tomei a liberdade de pegar uma taça de vinho no caminho, de um dos garçons, antes de parar ao lado deles como se fosse a coisa mais normal do mundo. Eu havia aprendido muito com meu pai nos últimos dias: a postura de desinteresse é realmente uma aliada.
— Rebecca?
Me demorei alguns segundos antes de virar para meu pai, que tinha uma expressão questionadora e nada amigável. Ora, ele sabia que eu só compareceria com más intenções.
— Hum? — Fiz-me de desentendida. — Ah, sim — constatei, dissimulada, abanando como se não fosse nada. — Eu disse que não viria, mas mudei de ideia!
— Mudou de ideia sobre vir aqui e causar uma boa impressão? — perguntou, embora o tom denunciasse que pensava o contrário.
— Nope — respondi, virando a taça, ainda com o olhar nas pessoas espalhadas por ali. Nada de Michael. — E ainda não decidi a respeito da cena que iria fazer.
— Becca... — começou meu irmão, tentando interferir.
— Então, eu prefiro que fique lá em cima — interrompeu meu pai, com o tom irado.
— Fred! — tentou minha mãe, em vão, num sussurro de aviso.
— Uma pena que nesta casa, a gente não se importe com a preferência dos outros — ponderei em voz alta, erguendo a mão para chamar o garçom novamente. Larguei minha taça e peguei outra, já cheia. — Obrigada.
Naquele instante, a atenção do meu pai foi roubada para um dos convidados, que puxou um assunto muito entediante sobre a empresa. Apenas então, virei o rosto para analisar os outros três.
Rob e Luke estavam em ternos não sofisticados o suficiente para o evento, mas não seria eu a dar conselhos de moda e receber um peteleco na cabeça do meu irmão. Rob tinha uma concentração de vermelho bem no topo das maçãs do rosto, o que provavelmente indicava que ele estava nas primeiras fases do álcool no organismo, gringo do jeito que era. Luke, ao seu lado, parecia achar que eu ia entrar em combustão a qualquer momento, porque tinha a devida atenção em mim, com cautela. Minha mãe usava um vestido verde, cor da gravata do meu pai, esplêndido. Ela deixou uma mão em meu braço, mas eu penso que não era pra acalmar a mim e sim a si mesma neste bendito evento.
— O que você quer que eu diga, Rebecca? — falou meu pai, muito próximo do meu ouvido, quando voltou. Quase engasguei, porque nem havia visto ele voltar da conversa e colocar-se no meu lado, contrário ao da minha mãe. — Hum?
Eu era igualzinha a ele. Assim como meu pai, eu não conseguia deixar o assunto de lado, especialmente se eu não tivesse dado a última palavra. E assim como ele, eu o retomava, mesmo que minutos, horas ou dias depois. Seria cômico se não fosse trágico.
— Eu não quero ouvir mais nada de você, na verdade — resmunguei, começando a ficar irritada.
— E o que quer que eu faça? — disse ele, ficando de frente para mim, já não se importando em parecer uma família feliz.
— Gente... — tentou Luke, desta vez, mas de nada adiantou.
Papai havia engrenado, e furiosamente.
— Você quer que eu te dê minha benção pra namorar meu melhor amigo? — perguntou ele, fazendo muita careta pro meu gosto. Engoli em seco. Odiava quando ele usava as palavras de forma a parecer tudo da pior maneira possível, como um crime. — Minha benção para trazê-lo aqui, nos domingos, como seu namorado novo? Responde, Rebecca — grunhiu ele, mas é claro que não deixaria que eu respondesse. Eu não deixaria também. — Quem sabe a gente possa, não sei, fazer um programa de casal? Sua mãe e eu, e você e Michael! — sugeriu, desgostoso. E à esta altura, até mesmo eu acreditava que havia cometido um crime. — Ele pode vim nos finais de semana, e dormir em seu quarto! Eu posso agir como um sogro protetor e fazê-lo mijar nas calças com minhas ameaças de pai preocupado — acrescentou, e eu desviei o olhar, percebendo que ainda não havia muita atenção na gente.
Rob e Luke pareciam estar apenas preparados para o caso da minha mãe ter um infarto ou alguém partir pra cima de alguém.
Voltei meus olhos para os seus.
— Será que você já parou pra pensar que, eu não sei, talvez o mundo não gire ao seu entorno? — cuspiu, em um tom mais baixo, para não gritar. — Já parou para pensar que eu não vou ter ninguém ao meu lado, nem um amigo, nem um irmão para conversar a respeito disto tudo? E será que você já parou para pensar no próprio Michael? — Franzi o cenho, tentando controlar minha respiração. — Ele não tem família, ele mal tem amigos, e se ele começar a namorar com você, você será o único que ele terá. — Abri a boca, mas ele pareceu saber o que eu diria, porque continuou: — Mesmo que nós aceitemos esse capricho seu, mesmo que fiquemos de bem... Uma vez que ele for seu namorado, ele sempre será apenas o seu namorado. E Mike não é o tipo que sossega, Rebecca, o que há entre vocês vai acabar quando ele enjoar de você. Ou ainda, quando você enjoar de estar com um cara mais velho. Vai acabar — afirmou, em um tom tão frio que tive que controlar as batidas do meu coração. — E quando acabar, quem vai sair disto sem absolutamente nada é ele, não você!
Eu não vou chorar, grunhi pra mim mesma, com ódio.
Por um instante, pensei que aquele beijo banhado à lágrimas seria o último entre a gente; o toque em meu rosto, com tanto carinho e aflição, seria o último que eu teria dele; e que eu jamais poderia ver as orbes castanhas repletas de detalhes novamente.
Por um instante, pensei como seria se eu concordasse com meu pai neste instante e seguisse minha vida. Pensei em como seria vê-lo sair com mulher atrás de mulher, até encontrar aquela, quando estivesse mais velho. Aquela, que faria repensá-lo no amor; aquela que, depois de alguns anos na traquinagem, faria a ideia de se casar e ter filhos ser tentadora. Pensei em como seria observar aquilo de escanteio, vendo meu pai ser seu padrinho de casamento e minha mãe conectar-se com a noiva. Pensei em como seria ter que dar dois beijos em suas bochechas e parabenizá-lo pelo feitio, e dizer: estou feliz por você.
Meu pai estava certo.
— Sim — falei, mas não saiu mais que um sussurro. Pigarreei. — Sim, eu parei para pensar nisto.
Não havia maneira alguma de consertar aquilo, de tudo se tornar perfeito e sermos uma família completa novamente. Mas o que ele também não havia percebido é que a linha já fora cruzada e tudo o que estava acontecendo neste exato momento já era o efeito colateral. Nossa conversa de agora era o efeito colateral. Não havia como consertar aquilo, quer eu desse as costas, quer eu desse um passo em frente. Especialmente porque, naquele futuro distante em que Mike casa com a noiva perfeita, todos estariam observando os dois beijos nas bochechas, de camarote, e o nosso sofrimento.
Mike poderia se apaixonar de novo, e eu também, mas nosso amor ainda estaria ali, trancafiado a sete chaves.
Seria exatamente como um amor interrompido, quando uma das partes morre e a outra fica sem saber o que fazer. Se a pessoa que permanece viva tivesse uma chance, mesmo havendo seguido em frente, ela ainda escolheria voltar com seu antigo amor. Sempre.
Só que nenhum de nós estava morto e eu não agiria como se estivéssemos.
— Aliás, é tudo que eu tenho pensado — acrescentei, frisando os lábios. — É tudo o que Mike têm pensado. — Soltei um riso, pelo nariz, sem achar graça. — Eu imagino como deve ser pra ele fazer de tudo e abdicar de tudo pra te fazer feliz e não obter nada em retorno.
— Nada? — perguntou ele, aproximando o rosto do meu, que já começava a avermelhar. — Nada? — rosnou. — Ele só tem a porra de uma família por minha causa!
— Sim — concordei, assentindo —, e ele devia fazer o quê? Dar uma gorjeta por isto? — analisei, vendo como seu rosto envelhecia naquela careta feia. — Porque, aparentemente, você pensa que a família que ele tem agora veio com um preço além do amor. Me diz, pai, este preço é a obediência?
Meu argumento pareceu calá-lo por um instante, mas o que eu gostaria mesmo era que houvesse calado o olhar castanho assassino. Ele estava claramente sem resposta, ou raciocinando a respeito, ou apenas desistindo completamente da discussão, mas não impediu os olhos frustrados de continuarem nos meus.
Sim, esta situação era um devido inferno, mas não podíamos fazer nada a respeito.
Eu também odiava a parte da história real que envolvia o Holocausto, era triste e injusto e acabou com milhares de vidas, mas não havia nada que eu pudesse fazer agora para consertar a catástrofe. Já estava feito.
— Rebecca, venha pra cá com a gente, sim? — pediu Luke, aproveitando o silêncio pra interromper ao enlaçar o braço no meu e me arrastar para perto de Rob.
Por um lado, eu odiei a intromissão do nosso não-tão-eficiente-progresso, mas por outro fiquei aliviada pela quebra de olhar.
— Vinho? — perguntou Rob, oferecendo sua taça.
É claro que eu aceitei, entregando a minha vazia para ele, que deixou na bandeja de um dos garçons.
Em seguida, eu tinha um braço enlaçado em cada um dos dois e eles me levavam para longe dos meus pais, o que foi um alívio para a respiração que já começava a falhar pelo nervosismo. Mais próximos da casa, praticamente ao lado da porta que permitia a passada dos garçons para dentro com as bebidas e os petiscos, eu pude respirar de novo.
Apoiei as costas na parede gelada, podendo enxergar dali absolutamente todo o pátio iluminado, enquanto os dois pombinhos se postavam à minha frente.
Foquei os olhos neles.
Rob pegou uma taça com um drink amarelado desta vez, girando-o nos dedos com nervosismo ao relancear ao redor. Os cabelos loiros haviam sido cortados e ele tinha os fios um tanto arrepiados, o que deixava os bonitos e invejáveis olhos azuis mais chamativos. Já Luke ao meu lado, tinha os fios um poucos mais compridos, e parte do cabelo penteada para o lado. Agradeci aos céus por ele não haver passado gel desta vez.
Francamente, eles não entendem nada de moda.
— E vocês pretendem largar a bomba quando? — perguntei, vendo ambas as atenções pararem em mim. — Eu meio que estou precisando que a atenção seja desviada de Mike e eu pra outra coisa — sugeri, arqueando uma das sobrancelhas.
Se eles tivessem que se preocupar com o novo relacionamento de Rob e a revelação de sua sexualidade, as coisas poderiam amenizar um pouco para o meu lado.
Os dois se entreolham rapidamente, e Rob pisca muito ao passo que Luke franze o cenho.
— Vocês pretendem contar, não é? — perguntei, um tanto alarmada.
— Sim — pronunciou-se Luke, rapidamente, antes de obter um aceno positivo de Rob. — Mas, bom...
— Exatamente o que você falou — interrompeu Rob, olhando para mim ao bufar. — Você preparou muito mal o meu terreno, Rebecca. Eu não vou poder fazer isto agora, nem nesta semana, nem neste mês! — Deixou claro, girando o copo e tomando metade do líquido de uma vez.
Suspirei, sentindo-me um pouco culpada.
Luke leva uma mão ao ombro de Rob e aperta rapidamente, como fonte de apoio, antes de baixá-la.
Eles ainda eram melhores amigos. Estavam se beijando no quarto de Rob mais cedo de hoje e ainda podiam agir como melhores amigos. Haviam benefícios, é claro, mas o mundo não precisava explodir por causa de seu amor. Nada precisava mudar para eles, e eu invejei isto por um instante.
E naquele mesmo momento, por ação direta de Hades, eu avistei o dito cujo do demônio do meu não-exatamente-ex-namorado.
Ele não estava ali quando eu desci, mas deve ter chegado no meio da minha discussão com meu pai ou em algum outro momento que não vi.
E ele não estava sozinho.
Eu estaria muito bem, obrigada, se a mulher fosse apenas bonita. Não, é claro que não, ele trouxe a porra de uma supermodel. Alta pra caramba, loira platinada, brilhantes olhos azuis, corpo delgado e boca do tamanho do mundo. Aquele vestido amarelo fosco era horrível, mas a maldita fazia parecer com que fosse a coisa mais estilosa do mundo. E pra piorar: era uma supermodel aposentada, porque aparentava possuir a idade dele, e ainda assim era linda de morrer. Eu quase morri.
Trinquei tanto a mandíbula que algo deve ter se quebrado dentro da minha boca, enquanto avistava a postura de casal dos dois. Michael com uma mão na base de sua coluna, enquanto a apresentava para alguém da empresa, e ela com o braço em torno da cintura de Mike.
Fechei os olhos, tentando apagar sua imagem.
Michael sim, usava um terno apropriado para o evento: caro, polido, lindo. E claro que o terno não seria nada em qualquer outro corpo que não aquele. Os cabelos haviam sido cortados algumas semanas antes, no mesmo corte anterior, rentes ao lado, mais concentrados no topo, os fios castanhos brigando por espaço com os brancos. Os olhos castanhos, vez ou outra, varriam o local. O nariz torto na metade de sua extensão não era nada esquisito, mas um charme, assim como tudo nele. Na boca havia um sorriso forçado, e imaginei que o homem à sua frente havia acabado de contar uma piada sem graça. E desta vez ainda havia uma barba rasa em seu rosto, que completava sua imagem.
Abri os olhos, confirmando o que já havia ficado gravado.
Desta vez, no entanto, vejo quando ela se inclina um tanto para encontrar os lábios de Mike — os meus lábios — com os seus em um selinho rápido. Fervo de ódio, e no mesmo instante noto que Mike olha ao redor, procurando, com uma carinha de culpado, antes de forçar mais um sorriso para ela. Procurando o quê?
Estreito os olhos, desencostando minhas costas da parede, como se assim eu pudesse ver melhor.
Eu não estava maluca. Cada vez que ele fixa os olhos naquela mulher, a expressão de culpado toma conta do rosto dele. E cada vez que tem uma oportunidade, ele varre o local com os olhos, procurando por mim.
Estalei a língua, obtendo a atenção de Rob e Luke. Eu não estava acreditando que ele se forçara a trazer uma mulher que sequer gosta aqui.
Eu aposto que a ideia dele encontrar outra pessoa pra sair é do meu pai. E eu também aposto que eles nem ao menos se conheciam direito!
— E se eu disser que o campo vai pegar fogo? — pergunto, com os olhos em Michael. Eu já havia ligado o foda-se mesmo. — Ou melhor, o circo?
O silêncio não durou muito, com os dois pares de olhos em mim.
— Becca, nem pense em fazer um escândalo hoje! — pediu Rob, apertando meu braço, com os olhos alarmados. — Becca, por favor, hoje não.
Franzi o cenho, focando os olhos no rosto do meu irmão, chateada.
— Será que você não entende, Rob? — perguntei, magoada, ao puxar o braço. — Eu já não me importo com mais nada — falei, sentindo minha voz falhar. — Eu não me importo com os sentimentos do papai — esclareci, tentando controlar o tremor da voz. — A cota de tempo que ele tinha pra vir me pedir desculpas e realmente se arrepender de nos separar já explodiu! Será que você não entende? — repeti, colocando uma das mãos no peito. — Ele não vai mais voltar atrás! Ele não vai! — frisei, piscando pra afastar as lágrimas. — Ele é orgulhoso demais pra isto.
— E o que você pensa fazer? — perguntou Luke, desta vez, os olhos um tanto preocupados em mim.
Logo, os mesmos olhos desviaram para Rob, que parara o garçom novamente, pegara outra bebida e virava a provável vigéssima taça de vinho da noite. Eu estava deixando-o nervoso, mas não era minha intenção.
— Eu não sei — murmurei, observando Mike levar a mulher para junto de um grupo de funcionários da Turner Imóveis.
Rob iria terminar a sua bebida, mas eu a tomei dele e a beberiquei, já ficando enjoada do álcool puro.
Eu nem sequer sabia o que eu podia fazer.
Eu havia decidido que não mais esperaria pelas decisões ridículas dos dois homens mais amados — por mim — e mais burros existentes. Se todas as mulheres ficassem esperando pela iniciativa de homens tão inescrupulosos e acéfalos como a maioria era, elas não haveriam de ter chegado em lugar algum. No entanto, eu não houvera decidido exatamente como agir aqui.
Eu seria mesmo capaz de tirar o tempo deles e magoá-los abertamente?
— Becca...
Apenas quando ouvi o tom manso de Luke que percebi a visão embaçada. Limpei o rosto uma vez, e outra, e outra, até balançar a cabeça e empinar o queixo.
Eu nunca chorava, repetia a mim mesma, mas depois de meses, isso já se tornara uma completa e gorda mentira.
Michael estava tão impregnado em mim, como uma espécie de vírus, que já nenhuma função do meu corpo era desempenhada com perfeição sem ele. Eu já não podia dormir direito, comer direito, pensar direito. Eu estava completamente desregulada por meses já, todo o meu corpo, e não parecia melhorar nunca.
Eu estava deteriorada, e ele havia feito isto comigo.
E quando nossos olhares se encontraram pela primeira vez naquela noite, entre toda aquela multidão, eu soube que o mesmo acontecia com ele.
Meu pai, minha mãe, meus irmãos podiam achar que eu estava ficando louca, e talvez eu realmente estivesse. Mas eu nunca estive errada sobre isto: Mike me amou tanto quanto eu o amei, e isto não havia acabado para nenhum dos dois. E nem acabaria.
Eu estava como louca tentando provar estar certa, tentando fazer com que meu pai entrasse em razão, tentando reverter toda a situação. Eu estava agindo de maneira infantil, sim, e sendo chata e persistente e batendo na mesma tecla. Eu estava sendo ingrata com meu pai e minha família, sim, mas o nosso amor não podia ser tão errado assim. Eu estava soando como um disco arranhado, mas só porque eu conhecia Mike. Eu podia decifrá-lo mesmo de longe, eu podia enxergar além da casca espessa de atuação, eu podia ver em seus olhos.
Meus pais pensavam que eu não enxergava além da superfície, que eu não podia compreender o que há detrás de suas expressões e seus olhares, que eu não podia enxergar sua alma, que eu não sabia quem ele verdadeiramente era, mas eram eles que estavam limitados.
Eu passei a conhecer Michael durante aqueles sete meses que passamos juntos, e era por aquele Michael que eu havia me apaixonado. Não pelo que me rejeitou na frente do meu pai, pelo que não criou coragem para me assumir, pelo que terminou comigo e me deixou aos prantos e nem pelo que me pedira, covardemente, para esperar por ele depois de tudo isto.
Aquele era o lado feio de Mike, aquele que transpareceu quando colocado contra a parede. Não podia culpá-lo por isto, não totalmente, mas eu também não podia deixar que ele pensasse que eu sou obrigada a ler olhares e expressões e a entender seu lado bonito apesar de só enxergar o feio.
É isto o que mulheres fazem consigo mesmas quando permanecem com homens abusivos e/ou aproveitadores e covardes: justificam tudo o que eles fazem, se colocam sempre no lugar deles, entendendo o que eles querem dizer sem que o digam, os deixando confortáveis com a ideia de que podem fazer o que quiser porque a mulher sempre vai achar uma forma de justificar suas ações com explicações poéticas. E nunca, jamais, fazem o mesmo por elas.
Michael não ia fazer o que quisesse comigo. Tudo o que eu fazia nos últimos tempos era justificar sua covardia para comigo e com o nosso amor, mas havia passado da hora dele se posicionar e lutar por mim tanto quanto eu tenho lutado por ele.
No fundo, eu sabia que ele o faria, que ele não era o cara que meus pais acreditavam que fosse. Eu sabia que eu o conhecia melhor do que eles, sabia que ele me amava, sabia que ele se posicionaria. Sabia que me encontraria na metade do caminho. E esta certeza era a única que me fazia lutar ainda e a única que fazia esta luta também se tratar de amor próprio.
Era por me amar que eu lutava para ter Mike ao meu lado, porque estar com ele me fazia feliz. Mas no minuto que ele não lutasse de volta, ele não mais seria qualificado para minha felicidade, senão pelo contrário. Amor próprio, então, seria seguir em frente.
E eu esperava, com cada célula do meu corpo, que Mike se permitisse fazer parte da minha felicidade.
Eu sabia que apesar de todo o show que ele pusera para mim, de que eu tinha que esquecê-lo, era apenas uma maneira que ele encontrou de adiar o inesperado. Ele me pedira para esperar e eu sabia que era isso que ele estava fazendo. Estava esperando, assim como eu. Ele queria que a poeira baixasse, e que as coisas não fossem mais tão novidades, e que a gente desse tempo ao tempo. E eu também sabia que, como eu, ele também esperava que, se nada disso funcionasse, ao menos o tempo separados nos impulsionaria a seguir em frente.
O tempo era a solução que ele houvera encontrado. Ele deixava em aberto que talvez nós acabássemos desencanando um do outro, o que seria um completo alívio para todos, inclusive para nós. E ninguém teria que sofrer assim.
Só que o tempo não estava surgindo efeito positivo algum. E eu me cansei de esperar, porque ele já havia tido tempo demais para digerir a situação, tentar achar soluções e criar coragem para usá-las.
O tempo acabou.
Eu queria, mas eu me amava demais para esperar para sempre.
Mike e eu não somos a mesma pessoa, e ao contrário dele, eu não tenho medo.
Imaginei que, talvez ele soubesse disto ou o houvesse lido em meu olhar, porque no minuto em que me decidi seus olhos fixaram em mim com tanta aflição que ele já não mais se importou em disfarçar que me encarava.
— Becca!
O chamado de meu irmão foi deliberadamente ignorado ao passo que eu continuava a caminhar na direção de Mike, passando por cima da existência de qualquer outra pessoa naquele pátio.
Nem mesmo quando minhas pernas fraquejaram e minha respiração pesou, nem mesmo quando meus olhos embaçaram novamente, eu dignei-me a parar. Sequer a ideia de que meus pais estavam naquele mesmo ambiente, assim como diversas pessoas influentes, e que um olhar bastaria para que nosso segredo já não fosse tão secreto assim, bastou para que eu parasse.
Meu foco estava nele e apenas nele. Quem eu estava tentando enganar? Minha atenção sempre havia estado ali. Naqueles olhos castanhos encantadores, naquela barba grisalha e naquela boca magnífica. Naquele meu tipo diferente de família.
Mike descongelou no segundo que deu-se conta de que não hesitaria. Em um segundo, ele tinha o braço em torno de sua acompanhante e o rosto virado para mim. No outro, ele deixava o braço cair e virava o corpo em minha direção. E no outro, ele balançava a cabeça em uma inútil tentativa de que eu voltasse atrás.
Mas eu não podia.
As mãos que tanto houveram percorrido meu corpo estavam erguidas em um pedido silencioso, os olhos estavam ocupados em desempenhar a mesma função e os meus podiam ler os seus lábios ao repetir silenciosamente para que eu não o fizesse.
Mas eu só parei no minuto em que meus lábios grudaram nos dele, e então já era tarde demais.
Era tarde demais para continuar fingindo, para permanecer na infelicidade, para focar no futuro não-tabu em que não estivéssemos juntos. Era tarde demais para continuar esperando por um segundo tipo de futuro que nunca viria a chegar. E talvez fosse tarde demais para nós dois também, mas eu não me rebaixaria a nunca tentar.
Eu precisava tentar, mas se Mike não me encontrasse na metade do caminho, eu tomaria isso como uma resposta.
Eu não precisei mover a boca ou aprofundar o beijo, eu só queria o contato direto de pele com pele por tempo o suficiente para demonstrar tudo o que eu sentia por ele. E era muita coisa, porque nem mesmo eu era capaz de identificar tudo.
Minhas mãos estavam ambas em seu rosto e, pela proximidade, meu corpo havia encaixado no seu. Suas mãos ainda se demoraram na distância antes de se posicionarem em meu pescoço à mostra, com tanta leveza que mal senti.
Não importava que houvessem pessoas nos olhando, ou até mesmo os meus pais, ou que o burburinho de vozes de conversas fosse tão alto quanto a música reverberante. Não importava. Aquele era o nosso momento, e aquele cenário mágico era o nosso panorama do amor. O único ruido que devia ser ouvido era o som dos nossos corações e nossas respirações aceleradas, e as únicas pessoas a contemplar a existência uma da outra devíamos ser nós dois.
Todo o resto não importava.
— Eu esperei — admiti em um sussurro, quando afastamos os lábios em um movimento lento.
Forcei-me a abrir os olhos, apesar de saber que meu mundo estava prestes a desabar e apesar de querer congelar aquele momento para sempre. E tudo realmente desabaria, quer Mike fosse corajoso ou não. Aquela era minha família em contra do meu amor. Não havia forma de tudo ficar intacto.
E, ao encarar aqueles olhos angustiados, recordei de que não seria o meu o único mundo a ruir.
Quando eu afastei-me mais um centímetro e acariciei-lhe o rosto, seus braços baixaram, seus ombros caíram e seus olhos fecharam.
— Eu sei — sussurrou ele, em resposta.
Mordi o lábio para que eu não volvesse a chorar — francamente, que decepção eu havia me tornado! -, percebendo a angústia de Michael com relação à gente, e mesmo me sentindo culpada por haver tirado o tempo que ele tanto houvera pedido, eu soube que havia feito o correto. Nós precisávamos saber, todos nós, qual seria o futuro desenhado por nós.
Mike não se afastou, nem mesmo quando eu permanecia acariciando-lhe o rosto áspero pela barba.
Ele apenas abriu os olhos para olhar ao redor, coisa que eu ainda não havia tido a coragem de fazer, e ao ver seus olhos castanhos congelados ao seu lado direito, soube de quem se tratava. Segui seu olhar, deparando-me com dois rostos familiares apreensivos.
Meu pai, ao contrário do que eu anteriormente pensara, não demonstrava estar prestes a partir no soco com seu melhor amigo. Não. Os ombros estavam caídos, e parte do líquido na taça de cristal havia se perdido ao chão. A expressão era desolada, e os olhos estavam em mim ao invés de Mike, como se eu houvesse acabado de cravar uma faca em seu coração.
Ao mesmo tempo, não havia surpresa ali. Era como se ele houvesse evitado ao máximo, mas no fundo soubesse que isto acabaria ocorrendo. E, naquele instante, eu me dei conta de que não era apenas Mike que precisava daquele tempo. Era meu pai também. Os dois faziam o mesmo que eu me forçara a fazer: evitar o inevitável, apenas pelo próprio bel-prazer.
Minha mãe não parecia sentir muita coisa em relação à nós, porque os olhos demonstravam que toda a preocupação era acerca de meu pai, ao seu lado.
Engoli em seco, sentindo os dedos de Mike entrelaçarem nos meus em um toque singelo. Aquilo apertou meu coração, que não queria ser esperançoso de pensar de que essa havia sido a escolha dele. De que não haver me afastado era a luta dele por mim, era a forma de me encontrar na metade do caminho.
Eu precisava de uma certeza, não de uma esperança.
Ergui os olhos para os seus lindos e marejados castanhos. Levei a outra mão para sua nuca e aproximei o rosto até que estivéssemos conectados em uma comunicação silenciosa antes de torná-la verbal.
— Mike... — pedi, tentando segurar as lágrimas. — Mike, por favor, não me afaste de novo. Por favor — pedi novamente, encostando minha testa na sua. — Eu sei que você tem medo de perder tudo, e que talvez eu nunca entenda como é estar na sua posição, mas eu... — Suspirei, vendo ele fechar os olhos. — Eu te amo. Eu te amo tanto que eu consigo me imaginar longe de você, mas não consigo fazê-lo. Eu não consigo porque eu não quero fazer nada que me prive de amar você.
— Becca...
— E eu sei que você pensa que as coisas mudaram para sempre — continuei, arrastando minha mão de sua nuca para seus lábios, impedindo-o de continuar. — Só que tudo muda, o tempo todo, e não é porque a situação é horrível que ela vai continuar horrível para sempre. Eu juro que não — prometi, selando seus lábios com os meus de forma rápida.
— Eu sei disso — disse ele, volvendo a juntar nossos lábios salgados com rapidez. — Eu sei. — Mike afastou-se o suficiente para me olhar direito, passando os dedos pelos meus fios soltos e sorrindo fracamente. — Vamos sair daqui, Rebecca — pediu ele, e eu fechei os olhos com a percepção do que ele me pedia.
Aquela era a certeza.
Quis tanto chorar copiosamente que não sei como consegui não fazê-lo, ainda me sentindo estúpida por pensar que ele agiria da forma como meus pais pensavam e por pensar que talvez eu estivesse mesmo errada sobre ele e sobre o que sente por mim. Por pensar que não lutaria de volta, que não me amaria a este ponto, que se recusaria a ficar ao meu lado.
Assenti, ouvindo um riso fraco de sua parte, antes de puxar seu corpo para mim com tanta força que chegou a doer. Abracei-lhe com vontade, mal podendo acreditar que ele realmente houvera sido um poço de coragem. Beijei-lhe o pescoço, o rosto, os lábios de forma frenética e singela, antes de ver que seus olhos refletiam o mesmo amor que os meus.
Mike sequer olhou para os lados, para os olhos curiosos ou os distraídos, ou mesmo para os olhos magoados. Ele pegou minha mão, a qual eu apertei com força desmedida, antes de nos dirigirmos para longe do panorama do início de nosso amor.
Eu esperei por ele, ele esperou por mim. E é claro que podíamos esperar para sempre, se este fosse o caso, mas isto não era saudável. O amor não tem um tipo de controle remoto, que se pode dar uma pausa para depois retomar. O amor não é paciente, ao contrário do que se repercute há eras. Ele não esperaria por nós, ele simplesmente não deixaria de existir.
Ao passo que nos afastávamos daquela festa, daquelas pessoas, daquela casa, Mike foi relaxando a postura aos poucos. Adentramos em seu carro, lado a lado, como devia ter sido sempre. Juntos.
Mike retirou a gravata, arremangou as mangas, e abriu os primeiros botões de sua camisa, antes de ligar o carro. Ele focou os olhos em mim e abriu um daqueles sorrisos cínicos que combinava perfeitamente com ele, e eu quase perdi parte do oxigênio quando percebi que tive a chance de vê-lo de novo. E que o veria sempre.
Dirigimos para longe dali, em silêncio, como cúmplices de um crime de amor do qual nenhum se arrependia. Éramos como Bonnie e Clyde, e nada havia sido tão certo. Nada precisava ser dito, nada precisava ser feito além de estarmos juntos, e nada precisava ser acrescentado à nossa atmosfera apaixonada.
Michael só parou para completar, com um sorriso de canto que lhe trazia marcas bonitas ao rosto:
— Agora nós dois seremos um poço de amor.
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