Made of Fire
56 EXTRA - Amor tóxico
Notas iniciais
A primeira vez que pus os olhos em George foi a primeira vez que ele pôs os olhos em mim.
Cara encantador, eu havia pensado. Claro que eu ainda não o conhecia. Eu ainda não sabia que todo aquele encanto não era destinado à todo mundo e, principalmente, não era destinado à pessoas como eu. O que eu sabia, o que eu pude perceber em um primeiro momento, era que George exalava problema.
Eu soube que ele era um daqueles caras problemáticos, mas e daí? Todo mundo já se envolveu, ao menos uma vez, com um desses.
— Anda comigo? — pedi, encarando os olhos verdes.
Eu esperava que Will esquecesse um tanto do rancor para comigo ao longo dos dias, mas parece que todo ele estava concentrado ali, naquelas orbes lindamente verdes.
— Se eu disser que não, você vai ir embora?
Neguei, em silêncio.
Will havia sido o efeito colateral do meu amor desmedido.
Quando eu o conheci, pela segunda vez, neste mesmo ano, eu pensei que havia encontrado a melhor oportunidade do mundo para me afastar de George. Eu realmente pensei que poderia deixar tudo para trás, e que não haveria consequência alguma. Ingênuo. Só que o carma é uma droga, e eu acabei descobrindo que Will já havia sido a consequência dos meus erros, mesmo sem eu saber.
Caminhei na direção contrária de onde tinha vindo, enxergando todo o céu já alaranjado pelo início do pôr do sol. Will caminhou ao meu lado, em silêncio, embora eu saiba que tudo que ele menos queria era estar ali.
— E então? — perguntou, impaciente.
Suspirei.
— Eu te devo umas desculpas.
— É, eu sei. — Bufou.
Girei o rosto para ele, observando que o franzir estava forte em sua testa e a boca estava torta, indicando que estava desgostoso até a alma. Os olhos verdes sequer pareciam verdes com o laranja em seu rosto.
Desviei o olhar.
— Sei que eu devia ter te contado no momento em que eu liguei os pontos — confessei, engolindo em seco —, mas eu só... — Lembrei do jeitinho tristonho do Will nas semanas que passamos juntos e dos poucos risos que eu conseguia arrancar dele. — Eu não consegui.
— É, deve ter sido muito difícil pra você — ironizou, estalando a língua.
— Eu não espero que entenda — falei, franzindo o cenho.
— Que bom.
Desviei o olhar.
Quando eu fiquei com o Will naquela festa, eu não sabia que ele era o Will, meu amigo de infância. Aquele que eu adorava tirar do sério, porque na verdade, eu tinha uma paixãozinha secreta por ele, sem ao menos perceber. Foi apenas mais tarde que eu soube o que eu sentia, quando eu descobri que Will não seria o único garoto que eu gostaria de tirar do sério e que todos os outros seriam, também, garotos.
Naquela festa, ele era apenas um cara bonito por quem me atraí e que, por puro carma ou destino, resultou ser alguém que eu já conhecia. Talvez realmente as coisas deviam ter acontecido assim, talvez haja um motivo por detrás. Talvez haja alguma explicação decente sobre o fato de eu conhecer a pessoa que trouxe tanto ódio e ciúmes a George a ponto dele planejar aquele tipo de covardia. Eu, certamente, espero que o universo não faça merdas assim sem propósito algum.
É claro que eu fiquei sabendo sobre a história do universitário gay que foi espancado no bosque da universidade por um grupo de homofóbicos. Além de ser parte da comunidade, eu conheço vários amigos que são. Eu estudo Música, e o prédio de Artes & Letras é conhecido pelo mais liberal — e o mais legal, devo admitir — de todo o campus. Todo mundo falava sobre assuntos polêmicos o tempo todo, e quando isto aconteceu, aquele se tornou o assunto do momento, discutido até mesmo nas aulas.
Eu não só conhecia George quando a tragédia aconteceu, como eu já havia até mesmo terminado com ele por haver me apaixonado. Não só eu conhecia George, como eu estava evitando-o ao máximo, ficando com outras pessoas para esquecer dele. Então, é claro que me passou pela cabeça que talvez ele tivesse algo a ver com aquilo. Eu não mais passava tempo com ele, ouvindo suas reclamações e sobre o que ele havia feito nos últimos dias. E eu sabia sobre sua máscara homofóbica, eu sabia sobre seus motivos por detrás dela e eu sabia que ele se sentia na obrigação de demonstrar para os amigos sobre o grande macho alfa que ele é.
Só que eu também sabia que ele nunca havia feito nada assim. Um empurrão, um ou dois socos, talvez, mas sempre com platéia como ele gosta. Então, na mesma época, quando eu perguntei se ele tinha alguma coisa a ver e ele respondeu que não, eu acreditei.
Não me passou pela cabeça que era estranho ele haver se irritado tanto pela minha preocupação antes de me dar uma resposta.
— O que foi? — grunhiu, aproximando o rosto do meu com irritação, depois de eu haver procurado por ele depois de mais uma semana sem vê-lo. — Você tá defendendo o cara? Ele pode muito bem ter feito alguma merda e apanhou por isto, não por ser viado!
Bufou, logo se afastando. Cruzei os braços, trincando a mandíbula. — Eu odeio essa palavra.
George suspirou, deixando os ombros caírem, antes de relaxar o rosto. — Eu sei — resmungou, visto que ele sempre a usava e eu sempre a repreendia. — Não, eu não tive nada a ver com aquilo.
Me lembro até de ter pensado que a violência para com aquele garoto era um sinal de que eu havia feito o correto ao me afastar de George. Era um sinal de que nunca daríamos certo, devido à este ódio que ele exala. Só precisei confirmar com ele que não tinha dedo nele naquilo, e voltei à minha missão de ignorar sua existência. Ou tentar ignorá-la.
Fracassei, é claro, por meses. Eu sempre fracassava quando se tratava de George.
E então, neste ano, quando eu já nem me recordava do acontecimento do bosque do ano anterior, acabei dando de cara com Will novamente. Meu curso se uniu ao dele para a festa dos calouros, já que a universidade havia ficado um tempo sem festas e nós achávamos qualquer desculpa para beber e fazer merda.
Eu reconheci Will da festa e, consequentemente, do beijo, já que na época em que o beijo ocorreu, George não me deixou esquecer que eu fiquei com alguém que não fosse ele. Will não havia sido o único que eu usara pra seguir em frente, naquelas semanas, mas George conhecia Will e foi isto que bastou pra ele virar o demônio reencarnado. É claro que ele não havia mencionado o nome do Will — para que eu não soubesse que ele o conhecia -, mas ele deixou claro que ficou sabendo sobre eu ter seguido em frente e certificou-se de demonstrar seu desagrado.
Quando eu soube que Will também fazia Administração, assim como o George, eu mal tive tempo de processar a possibilidade deles se conhecerem antes de me dar conta que Will é o Will, filho da Sarah. Eu até esqueci sobre o George, porque fiquei tão alegre de revê-lo e tão surpreso de saber que eu havia beijado o Will — o Will! -, depois de tanto querer tê-lo feito na infância, que nada mais importou.
Eu pensei que Will seria a minha salvação. E que coincidências não podem ser apenas coincidências, e que talvez ele houvesse aparecido, sob aquelas circunstâncias estranhas, porque era pra acontecer. Era a nossa oportunidade de estar juntos.
Só que eu estava errado.
— Qual é o seu problema? — briguei, empurrando-o, na traseira de uma das casas noturnas que gosto de frequentar. É claro, depois de ele haver interrompido minha festa para me arrastar para fora como se fosse meu dono. — Eu ando com quem eu quiser!
— Não com ele! — vociferou, gesticulando demais. — Eu odeio — rosnou — aquele garoto!
— Eu não me importo! — berrei, acima do volume da música. — Eu não vou me afastar porque você está dando uma de namorado ciumento! — Aproximei-me o suficiente para prender a gola de sua camiseta nos meus dedos. — Escuta bem o que eu estou dizendo, George. Nós não estamos juntos — neguei —, nós não somos um casal e isto nunca vai acontecer. Nunca. Me deixa em paz!
Só que, quando não era ele atrás de mim, era eu atrás dele. E assim se seguiu por meses.
— Will, você não é o meu tipo — contei, baixinho, depois de mais um esquivo dele.
— Uau! — riu ele, mas eu soube que não havia humor algum. — É mesmo. Eu passo longe de ser um filho da puta, gay enrustido, homofóbico e machista de merda ao mesmo tempo.
Pisquei, engolindo em seco.
É, você passa longe disto.
— Desculpe — resmungou ele, à contragosto, enquanto eu pesava minhas palavras. Havia percebido estar muito na defensiva.
— Eu ia dizer que você não é o meu tipo — continuei, sorrindo fraco —, mas você seria perfeito pra mim. Tudo o que eu preciso. — Will me encarou de canto. — E você é encantador, Will, e eu te conheço desde a infância, e tudo seria perfeito. E eu queria que tudo fosse perfeito.
Will desviou o olhar, chutando uma pedrinha.
— Nenhum relacionamento pode ser perfeito se você não estiver apaixonado pela pessoa.
Pisquei, encarando seu perfil, mas me permiti sorrir com tristeza.
É claro que ele sabia que eu não estava e nem estive apaixonado por ele. Will não é bobo, e com aquele professor do seu lado, ele provavelmente sabe o que é ter alguém apaixonado por ele de verdade.
E eu também sabia. Só que o amor de George sempre foi falho, porque qualquer amor vindo dele é falho. Ele não se ama, então como pode amar alguém mais?
— E nem se eu estiver — murmurei, triste.
As gotas de chuvas acabaram se tornando violentas, ao passo que um temporal caía na rua. Corremos, fechando os guarda-chuvas que de nada serviam, e paramos no porche da minha casa. Enquanto eu tentava acertar a chave na maçaneta, sabendo que minha mãe não estava em casa, George parou em minhas costas, roçando o nariz em minha nuca.
— Sabia que banho de chuva era minha coisa preferida em todo o mundo? — perguntou ele, em um murmúrio, enquanto eu me encolhia pelo arrepio.
Ri, abrindo a porta, entrando com ele de arrasto.
— Agora eu sei — murmurei, alcançando sua boca na minha, sentindo-o sorrir ao envolver minha cintura com apenas um braço. Franzi o cenho, estranhando o beijo calmo e atípico, antes de grudar minha testa na dele e abrir os olhos. — Não é mais?
George sorriu, desviando o olhar pras minhas roupas molhadas. — Não.
Eu não precisei ouvir mais nada, porque ele se certificou de me mostrar o que exatamente ele preferia em todo o mundo agora.
Will focou os olhos verdes em mim, a expressão perturbada. Mas então, deixou-se rir uma segunda vez, mesmo sem achar graça.
— E então, qual é a história? — perguntou, erguendo os ombros. — Vocês são amigos de infância? Vizinhos a vida toda? Ele te salvou de uns bullies quando você estava no colégio e você achou que devia o mundo pra ele? — debochou, estreitando os olhos.
Respirei fundo, tentando lembrar o motivo pelo qual eu estava deixando que ele me tratasse assim. Ah, é mesmo. Eu era o errado.
— Eu só o conheci ano passado. — Will assentiu, nada surpreso, soltando o ar pelo nariz. — Eu estava bêbado, ele foi gentil, me levou até em casa e a gente se beijou. Esta é a história.
Will me olhou com cara de peixe morto. — Gentil?
Foi a minha vez de sorrir sem achar graça.
— Toda moeda tem dois lados, Will.
— Certo — resmungou, desgostoso. — Então as coisas foram bem mais superficiais do que eu imaginava.
Parei de caminhar, virando pra ele.
— Não! — discordei, chateado. — Não tem nada superficial nisto, Will, nada — deixei claro, sentindo-me subitamente oprimido. — As coisas não são apenas preto e branco como você pensa. Não tem nada simples, ou superficial — grunhi —, ou fútil em nada disto. E eu pensei que, dentro de todas as pessoas, você entenderia isto.
Will franziu os lábios, balançando a cabeça.
— Não, não tem nada disto que eu entenda.
— Isso não te dá o direito de me julgar — exclamei, magoado demais. — Você pode ficar bravo comigo o quanto você quiser por eu ter omitido o que eu sabia, por eu ter ficado em silêncio por semanas sobre o episódio de George com você, por eu ter falhado com você como amigo — apontei, vendo-o desviar o olhar. — Mas não pode ficar bravo porque eu me envolvi com uma pessoa que você não gosta. Não pode ficar bravo porque "não entende" — enfatizei — pelo que eu estou passando. Você não tem direito nenhum de julgar meu relacionamento com o George, nenhum!
Um silêncio se abateu naquela rua, que já perdia um tanto da luz do sol. Ficamos nos encarando, os dois irritados, por tempo demais.
Will cruzou os braços, por fim.
— Eu não vou pedir desculpas.
— Eu não estou pedindo que o faça — retruquei, inquieto.
E então, mais silêncio.
Eu ainda podia me lembrar do momento em que liguei os pontos. Aquele momento aterrador.
Foi no dia do meu concerto, aquele pra arrecadar dinheiro pra tão esperada formatura, que agora eu já nem esperava mais. Will revelou haver sido a pessoa que tanto esteve envolvida em debates na minha área da universidade. Ele havia apanhado, e isto houvera acontecido bem na época que eu percebi estar fodidamente apaixonado por George e ter me afastado dele; bem na época em que eu fiquei com vários rapazes, Will incluso, que ironicamente foi com quem George mais se irritou.
E então, recaiu sobre mim: Will havia se assumido, ou melhor, como ele disse, nosso beijo o havia assumido. Will fazia o mesmo curso que George e, embora talvez não fossem colegas de semestre, eles podiam muito bem se conhecer. E se todos houveram descoberto sobre sua sexualidade, George certamente também o sabia.
Meu coração afundou no peito, e mesmo assim, mesmo assim, eu cogitei estar enganado. Tudo podia ser uma grande coincidência. George não podia ter cruzado esta linha, ainda mais por minha causa. Ele era um homofóbico, sim, mas havia vários desses na universidade. Ele jamais faria aquilo, porque jamais havia feito. Ou, ao menos, eu esperava que não.
E então veio a certeza. Ele me viu com Will, a quem tanto detestava, e ele esbarrou na gente de propósito. Aquilo pareceu despertar o pior e o mais doloroso em mim.
Não havia sombra de dúvida: George havia sido o responsável. E eu sabia que Will havia apanhado de um grupo de pessoas, mas naquele instante, eu soube que aquele grupo de homofóbicos não estaria lá se não fosse por ele.
— Você chamou, eu vim — resmungou ele, indicando o próprio celular, desencostando-se da árvore.
— Seu filho da puta! — berrei, dando um soco em seu braço, mas parando por ali pra poder equilibrar minha case e minha mochila. George reclamou.
— O que diabos...? — Esfregou o braço, olhando para os lados.
— Você estava lá! — berrei, tentando não chorar. — Você fez aquilo com ele! — Gesticulei, vendo que a expressão se tornara confusa. — Você o conhecia, provavelmente implicava com ele pelos corredores, e por um acaso foi com ele que eu fiquei naquela festa! — vociferei, mas a voz já não soava mais zangada e sim, embargada pelo choro que logo sairia. A expressão confusa dissipou de seu rosto quando percebeu do que eu falava. — Você o espancou! — falei, mas não saiu mais do que um murmúrio. — E por quê? Por ciúmes?
— Pete, eu não tive nada...
— Nem ouse! — berrei, desviando de suas mãos, vendo-o alargar os olhos e desviá-los para a rua vazia ao lado.
George trincou a mandíbula, balançando a cabeça.
— E o que você quer que eu diga? — perguntou, aproximando-se, irritado. — O que quer de mim?
— Eu quero que me diga qual é o seu problema! — vociferei, empurrando-o com toda a força. — Como pôde? — Empurrei-o de novo, vendo-o fechar os olhos pra controlar a raiva. — Como pôde fazer isto com alguém que é exatamente como você? — Empurrei uma terceira vez, ouvindo o baque de suas costas na árvore.
George tapeou meu braço para longe. — Eu não sou nada como ele.
— Não é mesmo! — gritei, vendo-o desconfortável com meus gritos. Podiámos chamar atenção, mesmo à noite, era esta sua preocupação. — Ele é bom, ele é gentil, ele é corajoso. Você não passa de um covarde! — George inflou as narinas. — Ele é tudo o que você nunca...
— Eu odeio aquele garoto — repetiu, grunhindo, o que já havia dito antes. — E você se atirou pra ele!
— Você não o odeia — neguei, balançando a cabeça. — Você tem inveja dele! — George abriu a boca, mas não deixei-o terminar. — Quem é o próximo? — Gesticulei, ignorando-o. Coloquei a mão no peito, absimado, ao sussurrar: — Eu?
— Eu jamais... — começou ele, a voz falhando. Deu um passo em frente, mas dei outro atrás. — Eu jamais te machucaria.
— Bom, tarde demais.
George fechou a mão no meu braço, com força, olhando mais uma vez ao redor. Puxou-me em direção à floresta ao lado, e eu nem tentei lutar contra, já que não tinha nem forças pra tentar. Deslizou a mão para meu pulso, e então para a minha mão, enlançando-as da mesma forma que me enlaçou em sua vida: agressivamente.
Will bufou.
— Eu jurei pra mim mesmo que não ia querer saber e nem me envolver com sua história de forma alguma — disse ele, chamando minha atenção. Parecia decepcionado consigo mesmo. — Mas tem uma coisa que eu preciso saber. Eu preciso — reforçou, fixando o mar verde em mim. — Pode ser que não mude em nada o que aconteceu, e que não mudaria nada pra você ou pra ele, ou pra qualquer outra pessoa que passou por algo semelhante ao que eu passei — resmungou, gesticulando. Arqueou as sobrancelhas. — Mas pra mim muda, e muito.
Pisquei algumas vezes, dando um passo em frente.
— Eu não sabia que havia sido ele que...
— Eu sei — interrompeu-me, me deixando confuso. — Não é isto. — Balançou a cabeça, e eu quase senti a imensidade daquelas orbes me engolirem com o que veio a seguir: — Por quê?
Engoli em seco, controlando-me pra não correr para longe.
Desviei o olhar.
— Por que ele fez isto? — pediu novamente. — E sim, eu já sei sobre a parte de ser um filho da puta do caralho, mas eu quero saber a outra parte. — Suspirou, aproximando-se ainda mais de mim, atraindo meus olhos para ele. — Ele fez isto porque ficou sabendo que eu havia me exposto beijando um cara em uma festa, e porque os boatos sobre meu envolvimento com o professor já rolavam soltos? — Não. — Ou ele fez isto porque o cara com o qual eu fui pego beijando em uma festa era você?
Desviei o olhar, engolindo o choro que estava querendo vir à tona.
— Como que a resposta disto muda as coisas?
— Só me responde, Peter — insistiu, impaciente. — Ele o fez porque é um escroto e estava com ciúmes ou porque é um escroto e foi movido puramente pela homofobia?
— Qual é a pior? — tentei, pedindo silenciosamente que funcionasse.
— Por quê? — resmungou, chateado. — Pra você dizer o contrário e amenizar as coisas pro lado do seu namorado?
— Você não entende. — Balancei a cabeça, tentando passar tudo o que eu sentia apenas com o olhar. — Eu o amo.
Will provavelmente esperava por aquilo, mas ainda assim a surpresa passou por seus olhos.
— O que é isto? — perguntei, encarando a caixinha quadrada de veludo que me fora entregue nas mãos.
George havia me entregado no minuto que pus os pés para dentro do seu apartamento. Usava só um samba-canção e estava de pés descalços, com cara de sono, me dando as costas para voltar para a cama depois de abrir a porta.
— Não é nada, só um presente — resmungou ele, atirando-se na cama e afundando a cabeça no travesseiro.
Arregalei os olhos, observando-a com atenção, sem coragem de abrir. Nem em outro planeta George me pediria em namoro, mas ainda assim, nem neste planeta ele me daria qualquer espécie de presente em uma caixinha preta de veludo. Deixei o receio de lado e a abri, arqueando as sobrancelhas em seguida.
— Uma chave? — perguntei, pegando-a e girando nos meus dedos. — Você está me dando uma chave para o seu apartamento? — perguntei, chocado, vendo-o abrir os olhos.
George deu de ombros, ainda imóvel na cama, com os olhos em mim.
— É, nada a ver — resmungou ele, ajeitando a cabeça no travesseiro. Mordi o lábio, com o intuito de não sorrir, mas ele percebeu, fazendo o mesmo. Riu-se, apontando para o travesseiro ao lado. — Esses seus cachos já estão por todo meu apartamento mesmo — disse, dando de ombros, ao referir-se aos meus fios que sempre se perdiam por ali.
Segurei o suspiro surpreso quando sua mão se fechou em meu pulso e puxou-me para cima de seu corpo.
Pisquei, voltando à silenciosa e pesada realidade.
— Eu imaginei que você diria algo assim — começou ele, magoado —, mas pensei que isto me faria sentir melhor por você tê-lo acobertado. Estava enganado. — Suspirou, trocando o peso de perna, parecendo desconfortável. Alguma coisa mudou em sua expressão, quase como se estivesse com pena. — Peter, como é que você se meteu nessa?
Suspirei, esfregando o rosto e subindo para a calçada. Will fez o mesmo.
Havíamos parado de caminhar mesmo, e apesar de não estarmos bem no meio da rua, estava começando a escurecer e era bom que estivéssemos longe dos carros.
— Não é minha culpa — falei, me defendendo. — Eu o conheço, Will. Eu sei quem ele é e ele não é quem você pensa. — Will bufou. — E sim, eu preferia mil vezes não saber, eu preferia vê-lo como você o vê, por essa máscara que ele usa todos os dias. Talvez assim você mais fácil romper com tudo e nunca mais olhá-lo na cara — confessei, sentindo-me miserável. — Ele só... Ele está passando pelo mesmo que você e eu passamos. Só que ele não é forte como nós pra encarar a realidade. Ele não tem o apoio que a gente tem, ele não teve a vida que a gente teve.
Will fechou os olhos, mordendo o lábio, parecendo estar recuperando o pouco de paciência que lhe restara.
— Você percebe que está justificando as merdas que um cara violento faz, não é? — perguntou ele, como se estivesse falando com um desmiolado. — Você tem noção do que poderia ter acontecido comigo se ele tivesse me golpeado na cabeça só um pouco mais forte? Ou um pouco mais pro lado? — Fechei os olhos, inspirando fundo. — Eu podia ter morrido! Será que você entende isso?
— É claro que eu entendo! — retruquei, abrindo-os novamente.
— Eu podia ter entrado em coma, ou ter tido um sangramento interno, e se fosse na minha nuca, eu podia ter ficado paralisado! — desabafou, aumentando o tom de voz. — Você está realmente dizendo que está tudo bem pra ele fazer esse tipo de coisa por aí, já que ele sente o mesmo medo que eu senti um dia?
— Não! — Balancei a cabeça, dando um passo em frente. — Não é isto que estou dizendo!
— Só porque nós somos gays, não quer dizer que fazemos parte de um clube onde toda merda que se faz é aceitável ou justificável! — continuou, gesticulando.
— Eu sei! Eu sei! — repeti, rapidamente, sobrepondo minha voz à dele. — Não foi isso que eu quis dizer — baixei a voz, sentido pelo mesmo.
Will desviou o olhar, parecendo ainda mais irritado que no começo. Já sem muita luz na rua, os cabelos não pareciam nem um pouco louros, mas escuros. Eu não podia ver a cor das suas orbes de perfil, mas podia ver a mão cerrada.
— Você não me respondeu.
Pisquei, entendendo na mesma hora sobre o que ele falava. Ele queria saber o motivo de George, mas eu não era capaz de dizer que o motivo sou eu. E que a culpa, tão jogada nele, também era minha.
— O que eu quis dizer é que ele não é perfeito — desconversei, retomando o que falava antes. Will suspirou. — Ele é problemático, toma todas as decisões erradas e só faz merda. Só que ainda por cima, por cima de toda a agressividade dele, e todos os problemas em se relacionar com o resto do mundo, ele ainda tem que lidar com...
Will grunhiu alto, irritado.
— Para de justificar o que ele...
— Eu não estou justificando! — lamuriei, aproximando-me dele. — Eu estou tentando te explicar o meu lado da história, não o dele. — Will, que estava prestes a falar novamente, se calou. — Eu queria ajudá-lo, Will.
George e eu havíamos sido apresentados por amigos de amigos em comum, em uma festa, antes de cada um ir para um lado. Não havia sido nada demais, não houve nenhum tipo de clique ali, e nem paixão à primeira vista. Eu o notei, ele me notou, e logo seguimos com nossa vida.
Na saída, no entanto, eu estava passando mal. Minha cabeça latejava e eu me apoiei em algo para vomitar, mas o vômito não veio. George apareceu em seguida, meio desconfiado, me perguntando por que diabos eu estava apoiado em sua moto e se eu estava tentando roubá-la. Não precisou dois segundos me observando pra perceber que eu estava bêbado.
Inicialmente, eu pensei que ele não sabia sobre minha sexualidade, mas depois ele me contou que havia me visto agarrado com alguém próximo ao banheiro, coisa que eu nem me lembro. Ele sabia sobre mim, mas estávamos longe do campus e, por um momento, ele pensou que pudesse deixar as máscaras de lado e conversar comigo. Ninguém descobriria, deve ser o que ele pensou.
George exalava perigo, mas eu estava bêbado demais para me importar. E George era — puta que pariu — gostoso demais para que eu me importasse. Os olhos escuros estavam sempre desconfiados, como se esperasse que eu pulasse nele a qualquer momento ou algo do tipo, mas isto não o impeliu a me dar as costas. Ao contrário, ele me deu uma carona até em casa.
Naquela rua escura, vazia e silenciosa, ele não hesitou antes de me grudar em sua moto e me beijar como se não houvesse amanhã. Eu lembro de pensar: esse cara tem sorte, eu não cheguei a vomitar. Ele era bruto, rude, apressado. Que todos os deuses me perdoassem, mas George era exatamente o meu tipo de cara.
Mas eu devia saber que todo aquele desespero em seus beijos, em seus toques, em seus olhares, se devia à algo bem mais perturbador do que a superfície demonstrava.
— Eu conheci várias pessoas, vários rapazes — enfatizei — que não haviam saído do armário. E eu queria ajudá-lo, porque eu acabei gostando dele e sabia que ele conseguiria se tivesse um apoio. — Will fez uma careta ao imaginar. — Eu já havia ajudado pessoas nesta situação antes. Eu não sabia sobre o comportamento homofóbico dele, no início, e quando eu soube, eu me tornei ainda mais determinado em reverter a situação. E eu sou bom nisto, eu sou bom com pessoas. Eu podia fazer isto.
— Bom, você falhou — limitou-se a dizer ele, se afastando um pouco para se apoiar em uma árvore.
— Não, eu me apaixonei — corrigi, cruzando os braços.
George pegou meu número de telefone, e nós começamos a conversar por mensagem. Ele não era muito de palavras, mas nos primeiros dias eu já soube sobre o lance: "onde você quer me encontrar, no banco de trás do meu carro ou na traseira de sua casa, quem sabe no meio do mato?".
Não demorou muito pra ele se abrir pra mim, e eu soube que a história era bem mais complicada quando ele se referiu à gente como "aberrações da natureza". E eu sabia do potencial dele justamente por se dignar a conversar comigo a respeito.
— Me explica esta história — pedi, atirando um bombom para ele, de cima da minha cama. — Aberrações?
George revirou os olhos, sentado no chão com a Jujuba em seu colo, minha cadelinha minúscula de sete anos de idade. Aceitou o bombom, e enfiou-o na boca antes que a Jujuba o roubasse.
— Você sabe que não é natural — resmungou ele, ranzinza.
— E você tirou esta verdade absoluta de todo o conhecimento sobre ciência humana que você tem? — debochei, sentando-me direito, como um índio, na cama. — Me explica melhor, então, admnistrador.
— Não era pra existir! — argumentou, de forma precária. — Será que você não entende? Nossos corpos não foram feitos pra encaixar! — Arqueei uma das sobrancelhas, fazendo uma careta. Eu conhecia muitas maneiras de fazer nossos corpos encaixarem. — E nem pra reproduzir!
Revirei os olhos.
— Ora, era isto que você estava tentando fazer ontem à noite? — perguntei, fingindo choque, horrorizado. — Um bebê?
George bufou, mas ficou calado.
— Pessoas estéreis também não podem reproduzir, e quer saber o que mais? Camisinhas impedem a reprodução humana, e você não parece pensar que isto é um pecado, já que tem umas cinco na sua carteira — apontei, enfiando outro bombom na boca.
George abriu e fechou a boca algumas vezes, mas se deixou apenas bufar, na ausência de um argumento. Sorri, vitorioso.
— Ele só precisava de um apoio externo, de alguém que compreendesse sobre o que ele estava passando — contei, vendo que Will parecia atento. — Tudo bem que nossa amizade era colorida, mas eu estava sendo um ombro amigo para ele. E tudo estava correndo bem. — Suspirei, fechando os olhos. — Will, eu não sabia que eu iria me apaixonar, e muito menos que ele também se apaixonaria. Você consegue imaginá-lo apaixonado? — perguntei, e pela careta de nojo e pavor de Will, eu soube a resposta. — Nem eu! Então imagina a minha surpresa quando isto aconteceu.
— Você não vai ir embora — disse ele, e não era uma pergunta. Arqueei as sobrancelhas, terminando de juntar as minhas roupas.
— Não está tão tarde — resmunguei, olhando pela janela, imaginando que ele estivesse preocupado. — A parada não é muito longe daqui.
— Que seja — resmungou ele, levantando. — Eu sei que você não vai estudar. Você vai naquela festa idiota — acusou, erguendo o celular e quase esfregando-o na minha cara. Peguei-o para ver do que se tratava, e era sobre a presença que eu marcara presença no evento, em minha rede social.
— Me surpreende que você tenha visto isto, já que não somos amigos — falei, debochado. George, além de não querer ser visto comigo, ainda não queria que ninguém soubesse que nos conhecíamos nem nas redes sociais. Patético. — Mas sim, eu vou na festa. Sinta-se à vontade pra ir junto.
— Você sabe que eu não pos... — Suspirou, pensando em como continuar.
Aproximei-me dele, julgando-o com o olhar. — Que você não tem as bolas — falei, levando a mão às suas e apertando, vendo que ele engoliu um gemido sôfrego — para ir comigo? — Sorri, maldoso. — Sim, eu sei.
George assassinou-me de, no mínimo, três formas diferentes com o olhar antes que eu o soltasse e desse as costas, procurando minha mochila. Mas sua mão em meu ombro, de forma nada delicada, me fez girar em sua direção e logo sentir o baque, também nada delicado, das minhas costas no balcão do seu apartamento.
— Não me provoca, Peter — avisou ele, irritado, com os olhos nos meus.
A verdade é que eu já estava caindo por ele. O fato dele não querer ser visto comigo não me importava bulhufas no início, ele era só um cara problemático que eu tentava ajudar em troca de uns beijos gostosos. Mas quanto mais o tempo passava, mais machucava em mim o seu desdém. Ao mesmo tempo, quanto mais o tempo passava, menos conversas a gente tinha sobre sair do armário, e mais beijos haviam. E mais temperamental ele se tornava.
E o que era simples, se tornou um redemoinho de puro caos.
Se era difícil saber como George seria apaixonado, eu tinha a resposta. Ele se tornava mil vezes mais intenso, mais carrancudo, mais possessivo. Eu já não era o cara bacana que, por sorte, caiu em sua vida para distribuir uns beijos, dar uns conselhos e ouvir suas lamúrias sem nada em troca. Eu era o cara que havia, sem perceber e sem que ele percebesse, se infiltrado em seu coração. Eu sei disso porque comigo também foi assim.
— Pete... — resmungou ele, quando continuei desafiando-o com o olhar, chateado com a situação. Tentei me afastar mas ele voltou a me prender, e quanto mais irritado eu ficava, mais angustiado ele parecia. Ele sabia que não havia forma de me impedir de ir à festa. — Por favor, Pete, eu só... — Suspirou, levando uma das mãos aos meus cachos e envolveu-os em seus dedos. — Por favor, fica aqui comigo.
É claro que eu já me derretia, porque não havia nada além de genuinidade em suas palavras, em seu tom de voz. Ele queria que eu ficasse ali, tanto que pediu "por favor". George Foley havia pedido "por favor".
— Por quê? — perguntei, descendo o olhar para a sua boca.
No fundo, eu sabia o porquê, mas eu também sabia que ele não diria em voz alta. Ele seria incapaz de verbalizar o quanto detestava a ideia de que eu fosse lá e beijasse outro alguém. Ele passou a sempre dar um jeito de que eu ficasse com ele quando surgia a oportunidade de eu sair pra beijar desconhecidos. Ele não precisava verbalizar, ele já o dizia em atitudes.
Esta foi a minha ruína. Eu já o conhecia bem o suficiente pra saber lê-lo, mesmo do avesso.
George também desceu os olhos para minha boca, em um impasse, mas foi o que bastou para que ele grudasse os lábios nos meus em um beijo afoito, como todos o eram, apertando-me contra ele, reclamando meu corpo para si. E eu amava.
— Eu queria ajudá-lo — repeti, recordando-me de como tudo se complicou —, mas me apaixonar por ele era o oposto disto. Se ele havia progredido um passo, quando nos apaixonamos, ele regrediu dois. Estava funcionando, Will — reforcei, vendo que os olhares se tornaram piedosos em mim. — Eu teria conseguido ajudá-lo, mas eu só fodi com tudo quando me apaixonei. Toda a personalidade temperamental dele triplicou, e ele já não se importava em melhorar, em sair do armário, ele só se importava em estar comigo. Ele se tornou possessivo e agressivo, e ele não deixava que eu me afastasse. Eu tentei largar de mão, mas ele... — Suspirei, piscando pra afastar as lágrimas. — Ele já me tinha. E eu não queria, mas eu sempre voltava pra ele. Eu fui egoísta, e ele também. Nós já não nos importávamos pelo bem um do outro, nós só queríamos estar juntos.
Eu o vi de dentro pra fora e eu me apaixonei por tudo que eu conhecia dele. Se eu nunca tivesse visto, se eu nunca tivesse me apaixonado, eu não teria aceitado os desaforos dele para comigo. Eu teria o colocado nos trilhos e o ensinado sobre as coisas que eu sei, e não me afundado ainda mais em sua vida. E se eu nunca o tivesse conhecido, eu o veria como todos o vêem. Melhor ainda, eu teria dado as costas sem olhar pra trás.
— Tudo bem — interrompeu Will, desencostando-se da árvore. — Eu não entendo, mas eu acredito em você. Ok? Eu acredito em você — setenciou, e tudo que eu pude fazer foi encará-lo. — Só que, Peter... O George que eu conheço e o George que você conhece são a mesma pessoa. Eu concordo que ninguém é cem por cento ruim, eu odeio concordar — enfatizou, torcendo o nariz —, mas eu concordo. Só que você também precisa entender que eu não imaginei coisas, da mesma forma que eu acredito que você não imaginou coisas. — Will caminhou até mim, até que eu pudesse enxergá-lo direito na escassez da luz. — Os dois lados da moeda existem, e os dois lados são reais. Os dois, Peter. O que aconteceu comigo foi real.
Engoli em seco, desviando o olhar.
— Eu sei — admiti, em um sussurro. — Eu sei. A ideia de te encurralar naquele bosque... — Balancei a cabeça, decepcionado com ele. — Ele nunca tinha feito nada assim, eu sei que não. Ele nunca fez nada assim. — Então, confessei: — A culpa foi minha.
Will uniu as sobrancelhas em confusão, inclinando a cabeça levemente como se para me analisar melhor.
— O que é isto? — perguntou ele, quase enfiando a chave na minha cara, depois de me empurrar pra dentro do banheiro.
Ele ficou tão puto que sequer se importou de ser visto comigo, foi até meu prédio, esperou minha aula acabar e me arrastou, na frente de todo mundo, até o banheiro. Este é o George apaixonado. Que ironia.
— Sua chave — falei, tentando manter a minha expressão o mais impassível que pudesse.
— Não — negou ele, balançando a cabeça. — Não. Esta é a sua chave — enfatizou, empurrando-a para mim. — Por que estava na minha caixa de correio?
— Porque eu não preciso mais dela.
Só a Deusa dos Acordes sabe o quanto foi difícil manter-me firme quando percebi a expressão enraivecida se dissipar e dar lugar para uma aflita. Os olhos alargaram-se um tanto e a boca abriu para dar ainda mais espaço para a respiração pesada.
— Peter, o que... — começou ele, em um tom angustiado.
— Isto não é uma brincadeira, George — falei, firme. Eu havia repetido milhares de vezes que aquilo devia ser apenas diversão e ajuda mútua entre amigos, mas estava se tornando algo a mais. Então, eu terminei duas vezes com ele, mas ele não acreditou. — Eu não quero estar com você. Nós já não somos nada — enfatizei, em um grunhido, para disfarçar a voz falha. — Quantas vezes eu vou ter que dizer?
George permaneceu em silêncio por um tempo, analisando meu rosto, como se recém se desse conta da gravidade da situação. É claro que eu tentava afastá-lo por semanas já, mas ele sempre conseguia me render, mesmo que eu exalasse ódio em sua direção. Já não.
— Não! — esbravejou, tão subitamente que cheguei a me encolher por instinto. George segurou ambos meus braços ao forçar que eu o olhasse nos olhos. — Não, Pete! Você... — Suspirou, ignorando o fato de eu tentar desvencilhar-me. — Você não pode fazer isto! Eu não posso te per... — Franzi os lábios, para que não tremessem, vendo-o soltar uma das mãos para erguer a chave aos meus olhos de forma trêmula. Forcei o coração a não se importar com os olhos escuros e marejados ao sussurrar: — Foi um presente.
E, com o restante da minha força, consegui empurrá-lo para longe e dar as costas. Coloquei o máximo de distância entre nós, já não mais engolindo o choro, e mesmo sem olhar atrás, eu soube que ele sequer havia se mexido.
Mordi o lábio.
— Eu sabia que nós seríamos a ruína um do outro, e que estar juntos era ruim para os dois. Eu o forcei para longe de mim com todas as minhas forças. Eu terminei com ele. Eu pus um ponto final. — Will abriu a boca, confuso, mas eu o interrompi: — É claro que ele não aceitou facilmente. Ele ficou doído por isto, porque ele estava perdendo tanto o ombro amigo que eu havia prometido e o apoio que eu o daria quanto a pessoa pela qual ele estava apaixonado. Eu fui um merda com ele neste caso, porque eu não cumpri minha palavra. Eu estava tão focado em esquecê-lo que fui àquela festa. Aquela em que você estava — contei, vendo que as coisas se esclareciam em sua mente. — E ele já te conhecia. Se eu nunca tivesse... — Engoli em seco. — A culpa foi minha, Will.
— Ora, pelo amor de... — começou ele, uma careta aprofundando-se em seu rosto.
— O que aconteceu com você foi culpa minha — interrompi, reforçando o que era verdade.
— Não, não foi — retrucou ele, recomeçando a se irritar. — Foi inteiramente culpa dele e daqueles amigos dele. Você não me bateu, Peter, ele o fez.
Franzi o cenho, analisando suas palavras.
Não, ele não o fez.
Ponderei se faria alguma diferença se Will soubesse disto, mas cheguei à conclusão de que sequer importava. George era, sim, o responsável pela tragédia que aconteceu com o Will, ele só não havia feito parte disto.
— Eu ia cancelar — contou, na mesma fria noite de antes, no meio do bosque, quando ninguém já nos podia ver. Balancei a cabeça, limpando as lágrimas, e desviei mais uma vez de suas mãos.
— E por que não o fez? — murmurei, já não mais impedindo o choro.
George passou as mãos nos próprios fios curtos.
— Eu não podia. Eu não podia, Pete. — Negou freneticamente, balançando a cabeça. — Se eu cancelasse, eles iam...
— Eles iam o quê? — chorei, abrindo os braços. Aproximei-me o suficiente para tentar enxergar os olhos escuros na escassez de luz. — O que foi tão importante pra você para quase matar o Will aqui?
— Eles iam querer saber o motivo — explicou, me deixando ainda mais pálido. — Eles iam pensar que eu sou viado ou que eu sou um maricas por não ter coragem de ir em frente com a minha própria ideia! Ou pior — acrescentou, articulando —, iam pensar que eu tinha alguma coisa com o Will!
— Nossa, que horror! — berrei, debochado. — Que tragédia! "Vamos matar o garoto gay porque eu não posso ouvir um mal-dizer a meu respeito!" — Grunhi alto, empurrando-o novamente. — Você é um monstro!
— Pete, você me conhece. Eu não sou um assassino ou um psicopata. O plano nunca foi matá-lo, pelo amor de deus! — defendeu-se, desviando dos meus golpes. — Era assustá-lo, apenas, pra que ele aprendesse — contou, fazendo com que eu chorasse mais ainda.
— Aprendesse o quê, seu imbecil? — Empurrei-o outra vez, e ele me segurou, mas isso não impediu que eu me debatesse contra seu corpo. — Eu te odeio, George! Eu te odeio! Eu te odeio! Eu te odeio!
— Você não — enfatizou, tentando puxar meu rosto para encará-lo — me odeia. Eu não fiz isto. Pete, eu ia dar uns socos nele, eu não ia levar um taco de baseball — falou, fazendo uma careta. — Quem fez isto foram eles!
Parei de me debater, erguendo o olhar. — Um taco de baseball?
— Sim — confirmou ele, sério. — Estávamos juntos quando eles viram o Will ir em direção à parada. Nós o vimos de longe. Sim — reforçou, a expressão culpada —, a ideia foi minha. Eu disse que Will era gay e que ele andava provocando todo mundo no curso — disse, culpado. Arquejei, sabendo que isto não era verdade. — Eu fiz isso. Só que eles adoraram a ideia e estavam há quase uma semana levando os tacos pra universidade. A gente o seguiu até o bosque, e quando eu vi que eles tiravam aquilo da mochila, eu fiquei com medo. Eu não queria matar ninguém.
Afastei-me em um vulto, empurrando-o, antes de limpar as lágrimas. — O que você está dizendo?
— Eu dei no pé, Peter! — grunhiu ele, curvando o corpo pra ficar com o rosto na altura do meu. — Eu não toquei em um fio de cabelo do Will, porque eu dei no pé! Uma semana depois, quando eu fui até sua casa, eu havia apanhado deles, ok? — Pisquei, lembrando-me do dia que cuidei dos seus ferimentos, da suposta briga de bar. — Por isto eu estava todo machucado, porque eu fui um covarde e não fui em frente com aquilo! Eu não sou — enfatizou, colocando a mão no peito — um monstro. Eu posso ser uma aberração, como você — disse, como se referia à nossa sexualidade —, mas eu não sou um monstro. E sim, pode ser que tenha sido a covardia de acabar matando o moleque e parar na cadeia que me impediu de verdade, e não compaixão pela causa. Mas eu não fui em frente, ok? Eu tive tudo a ver com isto, mas eu não coloquei o garoto no hospital. Eles o fizeram!
— Você não estava lá? — sussurrei, colocando uma mão no peito.
— Não — reforçou ele. — Eu nem ouvi a movimentação, porque eu corri pra longe na hora que eu os vi tirarem os tacos da mochila ao se aproximarem dele. Eu corri, feito um maricas de merda. Um deles até veio atrás de mim, mas eu não olhei pra trás. E eu estava fora do bosque antes mesmo deles chegarem até o Will. Eu não estava lá e eu não fiz parte daquilo.
Minha respiração pesada foi o único que pôde ser ouvido em seguida, no meio daquelas árvores. E o coração, que eu sentia como se sangrasse, praticamente voltou em sitonia ao dele, devido ao alivio que eu jamais diria em palavras.
— Mas foi sua culpa — murmurei, embora me sentindo quase todo aliviado, da cabeça aos pés. Eu não podia ignorar aquilo. — Se não fosse por você, isto nunca teria acontecido com ele. Nunca. E você sabia a identidade de quem o espancou e não fez nada!
— Olha só, Peter, ele nem ficou tão mal! — se defendeu, abrindo os braços. — Ok? Naquela mesma semana, ele estava lá, assistindo às aulas, com o olho roxo! Nem ficar internado ele ficou! Ele ficou bem.
— Sabe por que ele ficou bem, George? — perguntei, em um tom baixo, ao me aproximar um passo. — Porque você teve sorte. Só por isto. — Geroge desviou o olhar, engolindo em seco. — Você teve muita, muita sorte.
Quando eu me aproximei de Will, desde o momento em que as reuniões sobre a festa dos calouros começaram, eu já havia conseguido me afastar completamente de George. Na verdade, ele é que conseguiu se afastar de mim, tamanho o orgulho. E eu agradeci por isto, porque eu sabia que se ele continuasse me perseguindo, eu não resistiria para sempre. Só que eu também sabia que o mesmo acontecia com ele e que, quando eu chamasse, como na noite do concerto, ele apareceria.
E enquanto eu passava tempo com o Will, eu já nem via George. Então, foi um baque saber sobre tudo aquilo, assim, do nada, e não poder contar ao Will, com quem eu passava quase todo o tempo desde que o namorado havia tomado um chá de sumiço. Que bem faria contá-lo nesta altura do campeonato?
Eu só consegui enxergar males, mas eu também não conseguia saber daquilo e continuar agindo como se nada tivesse acontecido, ainda mais por ter sido parcialmente minha culpa. E Will logo descobriu por conta própria.
George havia me estragado, mas eu também havia estragado a ele.
— Isto não é sua culpa — repetiu Will, chateado. — Estar com você deve ter... — Pensou um pouco, com uma careta, e eu percebi que ele estava se esforçando para aquilo. — Sei lá, aumentado a frustração dele? Porque estando contigo provavelmente fez ele perceber que ele podia ter o que quisesse: mais do que a própria liberdade, mas amor — murmurou, conseguindo me deixar surpreso. — E ele não é e nunca foi corajoso pra querer isto o suficiente. Ele só deve ter piorado com você porque, com você, ele compreendeu o que estava perdendo. Ele não compreendia antes. — Mordi o lábio inferior, impedindo que tremesse, mas as traiçoeiras lágrimas embaçaram minha visão. — E sendo fraco do jeito que é, ele continuaria perdendo. E achou que fosse pra mim — murmurou, os olhos desfocados, parecendo recém se dar conta de como funcionou a cabeça do George naquele momento.
George não gostava de como Will encontrou alguém, um professor ainda, que conseguiu o respeito de todos naquela universidade para com sua relação. George odiava ver aquilo de camarote, ainda mais depois de me conhecer e saber que nunca teríamos isto. Então, ele colocou toda sua raiva no Will, mesmo que a surra tenha ocorrido antes mesmo dele assumir o relacionamento com o Richard.
— Me desculpa — pedi, sincero. — Me desculpa, Will, por tudo. Eu nunca...
— É claro que eu desculpo — interrompeu ele, fazendo com que eu engolisse o resto das desculpas que eu houvera planejado por semanas, surpreso. Richard estava certo. — Você não precisa se explicar mais. Você ligou os pontos, mas eu também. Eu sei que você não sabia que havia sido eu que fui espancado e que não sabia sobre o George me empurrando nos corredores do prédio — disse, em um resmungo. — Você não tinha como saber, eu sei disso. E agora que você me contou a história de vocês, tudo que não fazia sentido pra mim se encaixou.
Will forçou um sorriso, e eu limpei a lágrima idiota que escapara do meu olho. Funguei, olhando para longe.
— O tempo que ele vai levar pra estar completamente satisfeito consigo mesmo... Levaria uma vida inteira — sussurrei, podendo até mesmo enxergar isto. — E eu não tenho este tempo para esperar. E eu sei que mereço melhor do que isto, mas... — Coloquei a mão no peito, vendo Will engolir em seco. — Dói com ele, mas dói sem ele também.
Will suspirou.
Haviam vezes em que eu sabia que acabaria não deixando o apartamento de George, então eu levava meus materiais da faculdade. E, é claro, meu violão.
George parecia uma pintura. Nem parecia aquele cara temperamental enquanto dormia. Eu amava vê-lo dormir, mas também odiava. Eu odiava que ele não pudesse relaxar desta forma quando estava acordado.
Os cabelos eram curtos demais para estarem embaraçados, escuros como os seus olhos, e contrastavam com o travesseiro branco. Não usava roupa alguma, enrolado nos lençóis. Os olhos estavam cerrados, a expressão estava tranquila, e um dos braços estava para fora do colchão.
O peitoral musculoso estava à mostra, naquele tom de pele morena, sem pêlo algum nele. O peito subia e descia, calmamente, sem pressa alguma. Era como uma música.
Nem sei em que momento comecei a dedilhar as músicas, misturando-as sem perceber, buscando pela melodia correta. Havia levantado da cama alguns minutos antes e vestido só uma cueca antes de sentar no banco comprido de madeira que havia próximo à varanda, dentro do quarto. Eu tinha as pernas dobradas, e dei um jeito de encaixar o violão ali, ainda podendo vê-lo dormir.
Era noite, mas eu não sabia se já houvera passado da meia-noite, e logo os acordes começaram a tomar a forma de uma música que eu houvera conhecido há pouco tempo. A versão do Sleeping at Last de All Through The Night.
Sorri, fechando os olhos, ao passo que a dedilhava e cantarolava a letra baixinho. — Oh, durante a noite inteira hoje, sabendo que sentimos o mesmo sem precisar dizer — cantarolei, checando se ele ainda estava dormindo antes de voltar os olhos para as cordas. — O mesmo sem precisar dizer...
Não temos passado, não voltaremos atrás
Continue comigo adiante, durante a noite inteira
E assim que começamos, o metrônomo* dispara com um clique
E continua soando durante a noite inteira
Até que chegue a um fim, não existe um fim
Parei de tocar instantaneamente quando olhei para George novamente e ele tinha os olhos abertos. Não havia movido um centímetro, continuando na mesma posição de antes. Barriga para cima, braço caído, o rosto um tanto voltado em minha direção. Mas os olhos escuros estavam em mim, silencioso.
Engoli em seco, piscando algumas vezes, antes de voltar os olhos ao violão e voltar a dedilhar. E, ao passo que retomava à mesma canção, cantando já não mais tão timidamente, percebi que ele ajeitou-se na cama, virando todo o corpo em minha direção.
Durante a noite inteira
Gato de rua está chorando, então outro gato de rua devolve o canto
Durante a noite inteira
Eles já esqueceram de quais vínculos carecem
Oh, debaixo daquelas luzes brancas de rua
Existe uma pequena chance de que eles possam perceber
Cantei até o fim, mais de uma vez, mania minha de encaixar os acordes e repeti-la várias vezes. Mas não tive coragem de estender tanto, porque soava como uma declaração de amor e eu não queria declarar-me.
George nada disse. Os olhos escuros estavam em mim, na penumbra do quarto, com apenas as luzes provindas da rua através da varanda. Em silêncio ele estava quando comecei, em silêncio ele estava quando terminei.
Pisquei, limpando o rosto, quando Will chamou minha atenção.
— Eu pensei muito sobre denunciar o George pelo que ele me fez, e todos os amigos escrotos dele, mas isso nunca foi algo que eu quis. Não é por medo, ou por vergonha, ou por pensar que eu não conseguiria um processo contra ele. Não. — Balançou a cabeça, chamando minha atenção. — O tio Shiori é advogado e ele é muito bom. E ele é família. — Engoli em seco. — Eu nunca quis porque eu nunca fui bom em remoer o passado. Eu sou muito melhor seguindo em frente, e não só habilidosamente, mas psicologicamente, porque eu sempre me sinto melhor em deixar todas essas merdas pra trás. E eu não sinto essa ânsia por justiça com relação ao George porque ela já passou. Ela foi embora junto com os pesadelos e junto com o medo de andar na universidade de mãos dadas com o meu namorado. Eu não posso voltar nisso agora, e ainda mais, é tudo o que eu não preciso no momento. — Inspirou fundo, desviando o olhar da rua já escurecida para mim. — Só que eu gosto de você, Peter, e eu vou ter que ser muito filho da puta porque eu acho que vai te ajudar.
Pisquei, tentando compreender, mas não tive sucesso.
— Do que você está falando?
— Você disse "dói com ele, mas dói sem ele" — falou, desviando o olhar, antes de parecer tomar coragem pra continuar: — Tenho certeza que vai doer muito mais se ele estiver a vida toda arruinada por uma ficha criminal por sua culpa.
— O quê? — balbuciei, chocado.
O que ele estava querendo dizer?
— Eu não quero denunciá-lo. Eu sinto pena do tipo de pessoa que ele é, e no fundo eu sei que ele vai pagar pelo que fez, é chamado "carma" — explicou, arqueando uma das sobrancelhas. — Mas eu vou denunciá-lo se isso te fizer se afastar dele.
— Você quer pôr ele na cadeia pra afastar de mim? — deixei escapar, em um tom mais alto do que esperava, sentindo o coração começar a retumbar dentro do peito.
George não podia ter uma ficha criminal. Ele vem de uma família muito arrogante e cheia de si, e tudo que ele menos precisa é ser deserdado das únicas pessoas que se obrigam a fingir amor por ele.
— Não. — Will negou com a cabeça. — Eu quero que você termine com ele, porque se não o fizer, eu vou denunciá-lo sim.
— Você está me ameaçando? — Coloquei a mão no peito, chocado.
E se eu estava tentando ser paciente e aguentar todo o ódio que Will jogava pra mim, agora esta paciência se esfumava. Não é possível que ele acha que isto tem alguma lógica!
— Sim — afirmou, aproximando-se um tanto de mim. — Você precisa de ajuda, Peter, e eu sei que você não vai atrás dela por conta própria. — Abri a boca, mas ele não me deixou falar. — Minha mãe odiava o Hugh. Ela estava em um relacionamento abusivo diferente do seu. Ela tinha medo dele, e se ele não tivesse ido embora, eu não sei se ela teria tido a coragem de expulsá-lo. Talvez eu ainda estivesse na mesma vida de quando eu era criança, talvez não. Mas você... — disse, sorrindo de forma tristonha. — Você é apaixonado por ele. Você não vai deixá-lo, eu sei que não.
— Então você resolveu me ameaçar? — berrei, chocado. — Will, pelo amor de deus, eu vim aqui pedir desculpas!
— E elas foram perfeitamente aceitas por mim. Eu sei que você sente muito, e eu também sinto — disse ele, colocando a mão no peito de forma semelhante à minha. — Você vai me odiar por isto, mas é o melhor pra você. E eu quero o melhor pra você.
Dei um passo para trás, balançando a cabeça de forma frenética.
— Você não faria isto — afirmei, tentando ler suas expressões. — Não. Você nem quer fazer isto. Você disse que não quer denunciá-lo!
— Não, não quero — confirmou, mas o tom sério que disse começou a me dar pânico. Minha visão turvou com as lágrimas, e eu tentei a todo custo respirar direito. — Mas eu também não quero ser a pessoa que deixou você voltar para os braços de um filho da puta. Eu não sou mais criança, e eu não vou ficar de braços cruzados enquanto vejo isto acontecer.
— Eu não sou a sua mãe! — berrei, me aproximando perigosamente dele, ao apontar um dedo em seu rosto. — Eu mal sou seu amigo! — gritei, sendo tomado pela raiva. — Você não tem obrigação nenhuma aqui e eu não estou pedindo por proteção!
— Bom, talvez eu esteja sendo egoísta. — Deu de ombros, sem se deixar abalar. — Talvez eu pense que afastá-lo de você é uma consequência muito mais eficiente do que vê-lo fazer algum trabalho comunitário pela cidade.
Minha respiração pesou, e eu não conseguia nem pensar em uma solução.
— Você não tem o direito de...
— Não? — interrompeu-me, fechando a cara. — Você está confundindo as coisas, Peter. Ele não tinha direito de fazer o que fez, mas eu tenho o direito de recuperar a droga do meu direito! — esbravejou.
Senti como se o chão escapasse dos meus pés.
Apesar de saber que George e eu nunca funcionaríamos, eu nunca pensei que conseguiríamos ficar longe um do outro. Nunca cogitei a hipótese de ficar afastado dele, porque nunca pareceu possível.
E agora que parecia, agora que Will me encurralava contra isto, percebi que era tudo o que eu menos queria.
Eu não queria me afastar da pessoa que mais amo no mundo.
Ouvi o soluço, antes mesmo de perceber que era meu, quando a visão desembaçou por um instante ao cair mais uma lágrima.
— Will, por favor... — pedi, já não mais impedindo as lágrimas de cair. — Por favor. Eu não posso — falei, vendo que o Will fazia uma careta diferente, como se tivesse impedindo a si mesmo de chorar. — Eu não posso — sussurrei.
— O que é isto? — perguntou ele, com uma careta amarga, depois que ele entrou pela porta.
Como eu tinha uma chave reserva, cheguei no apartamento antes que ele e no tédio — e na fome, resolvi que precisávamos comer algo além de pizza encomendada.
— Nossa janta — respondi, sem olhá-lo novamente, andando de um lado ao outro na cozinha. — Confesso que não sou dos melhores com culinária, então você irá fingir que esta é a melhor janta da sua vida.
George riu, contra todas as reações que esperava dele.
Ergui o olhar, assim que tampei uma das panelas. — O que é tão engraçado? — perguntei, divertido, ao pôr as mãos na cintura.
— Você. — Deu de ombros, soltando aquela mala pesada que ele chama de mochila. — Minha mãe nunca cozinhou pra mim porque é péssima. E você está cozinhando sabendo ser péssimo, mesmo assim. É engraçado — explicou, fazendo com que eu unisse as sobrancelhas. George nunca fala nada sobre sua mãe além de: é uma mulher admirável. Talvez ela não fosse tão admirável assim. — É engraçadinho.
George deu um sorriso de canto, tão singelo que depois de falar, ele se obrigou a sumir com ele, desviando o olhar e tratando de ser rude novamente.
Percebi que Will vacilou por um instante, mas um instante apenas. Com a voz penalizada, finalizou:
— Você merece mais do que isto.
Senti o corpo tremer da cabeça aos pés e não era só raiva. Era medo. Ele realmente estava me ameaçando. Ele realmente estava me jogando neste caminho que eu não queria percorrer.
George podia ser o que me deixava sob os joelhos, de tanta dor, mas era ele quem me ensinou de verdade o que é estar apaixonado por alguém. Ele conseguiu isso, em meio a palavras rabugentas e atitudes brutas, ele quem fez com que eu me encantasse por absolutamente todos os seus defeitos.
Eu não faria isto.
Eu não deixaria.
— Caralho! — exclamei, quando abri a porta de madrugada e deparei-me com George, todo ensanguentado.
Puxei-o para dentro antes que ele dissesse qualquer coisa e ouvi os passos da minha mãe, descendo as escadas. — Oh, meu deus! — exclamou ela, quando viu o estado de George. — O que houve com você, meu anjo? — perguntou, com a mão no peito, ao encarar o rosto inchado de George.
Mamãe o houvera conhecido uma vez e o visto em outra, de saída ali de casa, porque ele a evitava ao máximo. Mas eu expliquei mais ou menos a história de George, deixando de lado o fato de ele andar com um grupo de homofóbicos pela universidade. Ela sentia pena dele e, honestamente, ela tinha razão em sentir.
— Pronto — falei, depois de espantar minha mãe para cima. Eu vi os olhos de George encharcarem com o "meu anjo", usado no tom de mãe dela. Não era difícil saber como aquilo devia fazê-lo sentir. — Agora, é sério, o que houve?
George estava sentado na mesa da sala, enquanto eu estava entre suas pernas tentando consertar o rosto fodido. Estava já sem camisa, aquela coisa imunda de barro e sangue, e seu peitoral já começava a tomar as cores dos golpes. A pálpebra estava tão inchada que pareciam haver dois olhos debaixo dela, a boca estava arrebentada, assim como parte do queixo quadrado, do supercílio, e da têmpora. O nariz deixara de sangrar antes dele chegar ali, então tive que limpar o sangue seco abaixo do mesmo e fazer curativos em seus braços ralados.
George estava estranhamente quieto, e se eu soubesse o motivo dele haver apanhado, eu entenderia. Mas àquele ponto, eu ainda não tinha todas as informações.
— Coisa de bar — disse ele, erguendo os ombros. Estreitei os olhos, estranhando ser uma briga de bar sendo que ele não cheirava à álcool.
— Você está acabado — apontei, desconfiado. — Pensei que fosse bom de briga.
George soltou um som pelo nariz, sem humor. — Eles também o eram.
— Eles? — perguntei, unindo as sobrancelhas. — Quantos?
— Quatro. — Deu de ombros novamente.
— Isto explica. — Balancei a cabeça, incrédulo, terminando de limpar seu rosto. — Qual foi o motivo?
— O motivo? — perguntou, parecendo achar graça. — O motivo é que, quando um merda como eu faz algo bom ou... — Tentou pensar um pouco, trincando a mandíbula. — Ou, ao menos, tenta deixar de fazer algo ruim, ele é punido. Se não por uns marginais, então pela própria vida.
— George — sussurrei, preocupado —, o que você...
— Eu tenho que ir — interrompeu-me, erguendo-se da mesa com agilidade. Antes que eu dissesse algo, ele deixou um beijo singelo em meu rosto, deixando-me ainda mais preocupado.
Procurei por seu olhar, mas ele apenas pegou sua camisa, a vestiu, e pegou sua carteira e telefone acima da mesa. Assim que ele se pôs a andar em direção à porta, o impedi ao fechar minha mão na dele. George abriu a boca pra negar, mas eu apertei, vendo-o me olhar por cima do ombro.
— Fica. — Segurei a mão dele, focando meus olhos nos seus. — Fica. Se você é punido lá fora por tentar ser melhor, não será punido aqui também. Não aqui, não por mim.
Abri a boca, pronto para dizer umas verdades sobre o lado bom de George que faria Will engolir todo o senso de justiça que ele tem. Todas a verdade sobre aquela surra que ele levou, e o fato de George também haver levado uma por não ir em frente com a ideia idiota dele. Porque George, ao contrário dos babacas que fizeram isto com o Will, sabia discernir que realmente era uma ideia idiota.
Abri a boca, pronto para isto, mas nada saiu.
Nada.
Dei as costas, sequer olhando-o por uma segunda vez, antes que eu mudasse de ideia. Dei alguns passos para longe dele, sequer me importando que por este lado da rua, eu teria que percorrer o dobro da distância até em casa.
Will estava fazendo algo odioso, que me fazia sangrar por dentro, mas eu não podia fingir que aquilo não era o que eu queria há tempos.
George e eu éramos como uma droga e um viciado. Eu não queria deixá-lo, porque ele me fazia sentir bem. Eu estava apaixonado. Mas o mal que ele me trazia sequer pesava na balança de tão grande em comparação ao bem. Até o bem que ele fazia brotar em meu peito se transformava ruim.
Amá-lo era algo ruim. E me amar também o causava danos tão grandes que eu não sei se ele podia reparar. Ele podia não ver isto, mas para mim era mais claro que cristal.
Nós só nos trazíamos males. Nós destruíamos um ao outro. E nós também não nos importávamos com isto.
Will não estava fazendo isto por ele, estava fazendo isto por mim. Ele havia praticamente me jogado em direção à uma clínica de reabilitação. Ele tentava me reabilitar.
Parei, olhando para o céu escurecido, penoso.
Olhei para trás, vendo Will da mesma forma, no mesmo local em que o deixei, com os braços caídos ao lado do corpo e o olhar pesado em mim. Voltei, vendo-o dar um passo em frente, com o rosto preocupado ao me encarar.
Por que eu voltava?
— Venha cá, cachinhos — murmurou ele, depois de apagar a lâmpada, ao esticar um dos braços para que eu deitasse por sobre ele. — O que houve?
— Nada — resmunguei, encarando o teto no escuro.
— Nada? — duvidou, olhando-me de canto. — Estamos misteriosos agora? — debochou, apertando-me um pouco contra ele. — O que houve com o "nós somos amigos e podemos contar tudo um pro outro"? Valia só pra mim, pra que você me ouvisse lamuriar sobre opressão na minha infância e deixar escapar um choro?
Girei o rosto para ele, com raiva. — É claro que não, babaca.
— Eu sou babaca agora? — perguntou, ofendido. — Não era isto que você gemia agora há pouco.
— Eu terminei com você — falei, ignorando o que ele dizia. — Eu terminei com você mais de vinte vezes. E, de alguma forma, você me conseguiu exatamente onde você queria. — Girei o rosto novamente, olhando para o teto. — Na sua cama.
George retirou o braço debaixo de mim com tanta força que praticamente me empurrou para o lado. Sentou-se na cama, acendendo o abajur e virou o rosto furioso pra mim.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— É isto que você pensa? — inquiriu, enquanto eu me encolhia. — Já não me conhece? O babaca aqui é você — acusou, apontando um dos dedos pra mim.
— Ah, é? — Sentei também, ficando de frente pra ele. — Por quê? — perguntei, irritado. — Porque eu tenho a obrigação de analisar cada palavrão seu e tirar dali uma declaração de amor? Não! — deixei claro, balançando a cabeça. — Você é um ordinário, e é um bruto, e é um covarde. É isto que eu ouço e é isto que eu enxergo.
George empurrou as cobertas para longe, levantando da cama.
— Ótimo — grunhiu, apontando para a porta. — Então dá o fora.
Cruzei os braços. — Não. Eu não vou "dar o fora". — Neguei. — Você conseguiu a foda fácil que queria, não foi? — debochei, apontando pro meu corpo nu. — Bom pra você. O mínimo que eu mereço é ficar aqui até amanhecer ao invés de sair de madrugada nesta rua perigosa. — Volvi a deitar, tapando-me até o peito.
Obriguei-me a fechar os olhos, e ouvi a respiração pesada de George, indicando que ele continuava em pé, do mesmo jeito.
— Você é meu amigo — disse ele, fazendo com que eu abrisse os olhos. — Não é uma foda fácil. É o meu amigo, o único que tenho — afirmou, sério. Foquei os olhos nele. — Ao menos, foi isso que você me disse desde o princípio.
Engoli em seco, com os olhos no rosto parcialmente escondidos pela penumbra de um lado do quarto e o outro amarelado pela luz do abajur. E eu sabia que eu não esqueceria daquilo jamais. Ele me decepcionava, de novo e de novo e de novo, mas ele nunca havia me prometido o contrário. Eu sim.
Caminhei até estar em frente ao Will, então parei.
Levei a mão à boca, ouvindo mais um soluço ecoar pelas ruas vazias, e vi Will dar mais um passo em minha direção, os olhos exalando impotência. Balancei a cabeça, fechando os olhos e tentando respirar compassadamente de novo.
Fechei nossa distância como um vulto, tomando-o em braços em um abraço forte e desesperado. Apertei-o com agonia, com desalento, com alívio. Solucei mais uma vez, apertando os olhos, sentindo a respiração de Will em meu ombro.
— Obrigado — sussurrei.
No entanto, antes que Will reagisse a ponto de fechar os braços em meu entorno também, eu me afastei. Empurrei-o para longe, e volvi a caminhar na direção contrário, desta vez com rapidez.
Pensei tê-lo ouvido fungar às minhas costas, mas fechei os olhos, e logo minha pernas já não mais caminhavam, mas corriam.
E, ao passo que sentia o vento frio em meu rosto e a garganta seca, e ao passo que as pernas reclamavam pela velocidade, e meu peito parecia explodir com as batidas do meu coração e a respiração pesada, finalmente consegui respirar direito.
Meus pulmões enchiam e esvaziavam, e pela primeira vez em muito tempo, pareciam limpos.
Por um segundo, eu pude sentir que recuperara minha liberdade.
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