Maddie Em Ação

1 A fila da matrícula, T-Rex e o jogo mais perigoso


Notas iniciais
Escolha uma profissão que pague o bastante pra contratar um assassino pela Deep Web.

As noites de fevereiro eram quentes e agradáveis. O pessoal do acampamento estava sentado do lado de fora das barracas, conversando, jogando cartas ou fazendo fila no trailer de cachorro-quente, que ficava aberto 24 horas naquela noite específica, todos os anos.

– Então, como eu dizia, ela sempre foi uma menina estudiosa – a mãe da Maddie contava, enquanto pegava uma carta nova no monte. Uma carta péssima por sinal, mas ela fez cara de paisagem e prosseguiu. – E tem todo esse talento natural pra liderança, sempre comandando a sala e sendo membro do conselho estudantil...

– Oh sim, meu filho fala muito dela– a mãe do Jonas disse entediada.

– Mesmo?

– É, ano após ano ele volta pra casa reclamando de uma garota mandona da turma dele.

– Ha, a Paulinha também– o pai da Paulinha riu. – A sua garota deve ser um demônio!

A mãe da Maddie ficou azeda. Tão azeda que o jogo finalmente virou ao seu favor. Ela jogou a carta inútil, que se tornou útil de repente.

– Paulinha, não é? Me admira que ela tenha conseguido passar de ano. Imagino como ela e o Jonas conseguiram... A propósito: Uno.

O pai da Paulinha sacudiu a cabeça enquanto jogava. –Droga, ela lembrou de falar.

– Pois eles estão na mesma turma desde o primário– a mãe do Jonas resmungou. – Provavelmente a Maddie passou do mesmo jeito que eles. Ah, a propósito: pegue mais quatro cartas.

O pai da Maddie juntou-se ao grupo com uma bandejinha de cachorros quentes. – Tinha esquecido como o T-Rex era bom. Como está indo, meu bem?

– Perdendo há oito rodadas– o pai da Paulinha informou orgulhosamente, batendo o jogo com sua última carta.

– Mesmo? – O pai da Maddie sentou-se bem afastado da esposa. – Deve ser o cansaço. Coma e vá dormir um pouco, meu bem.

O olhar que ela lhe lançou fez ele se debruçar sobre a bandeja, pra não deixar o azedume contaminar os sanduíches.

– Todos temos que descansar– O pai da Paulinha riu descontraído, e pegou um cachorro quente. – Amanhã é um dia cheio. Felizmente, já temos nosso lugar na fila.

A mãe do Jonas deu uma olhada na linha de barracas que se estendia por toda a calçada, dobrava a esquina e contornava o quarteirão inteiro onde se localizava a escola. – É, parece que todos conseguiram um lugar. Onde é que essa fila começa mesmo?

– No portão, eu acho. Amanhã vamos saber. Quem mais quer cachorro quente?

Dias depois, alunos devidamente matriculados e consideravelmente fardados afluíam para dentro da escola como uma enchente barulhenta e preguiçosa.

Era a única escola não privada da cidade. O que é de graça raramente presta, e o lugar não era exceção à regra. Os pais que consideravam seus filhos casos perdidos preferiam não investir na educação deles, e se prestavam a acampar diante da escola apenas para conseguir uma vaga e não gastar um centavo a mais por causa de um pivete cabeça oca. Eles podiam até dizer isso na cara dos filhos, mas jamais admitiam uns para os outros.

Seus filhos eram os melhores. E em caso de dúvida, Maddie era a melhor deles.

Quando criança, Madeleine havia descoberto uma fascinante maneira de conseguir o que queria: no grito. Fazia escândalo, irritava os colegas e chateava os adultos. Então ela cresceu e percebeu logo que tinha que amadurecer a estratégia, ou corria o risco de parecer uma chorona. E assim ela aperfeiçoou suas técnicas e se tornou uma chantagista profissional, exibicionista de carteirinha e maníaca por controle. Podia desestabilizar o inimigo com jogos mentais bem elaborados e era temida por qualquer um que tivesse um segredo bem cabeludo. Mas acima de tudo, tinha a si mesma na conta mais alta possível. Seu ego era simplesmente imbatível.

Os pais dela se referiam a sua personalidade como “única” e “um pouco difícil naquela idade”. Jamais admitiriam que tinham um monstrinho em casa.

Mas justiça seja feita. A escola onde Maddie estudava não era para pessoas comuns. E se o homem é produto do meio, uma garota como ela certeza é a criatura mais provável de se adaptar e sobreviver.

E quem sabe, subir ao topo da cadeia alimentar.

Assim que chegou à escola, Maddie correu para o mastro da bandeira no pátio. Tirou o símbolo nacional e o trocou por um pano preto, com um grande “M” pintado em vermelho sangue.

– Eu mando nessa bodega– ela declarou num megafone, antes de ser levada para a secretaria. –Lembrem-se disso, plebeus.

A coordenadora tinha um sorriso parafusado no rosto. Bagunçou os cabelos curtos e brancos da garota, menos como um cumprimento e mais como se quisesse escalpelá-la. – Então princesinha, mais alguma presepada pra hoje? Deu trabalho hastear a bandeira de volta. Que coisa era aquilo, uma toalha de banho?

– Era do papai– ela ajeitou os cabelos emburrada, e empinou o nariz. –Acho que eles entenderam o recado. Posso ir pra aula agora? Esse zoológico não funciona sem mim.

– Certo, minha leoazinha albina de Madagascar. Está liberada, e como é o primeiro dia, não vou por isso em seu boletim.

– Suponho que devo agradecer à senhora? –ela lhe encarou em desafio.

– É sempre bom dever uma aos poderosos, certo? –a coordenadora lhe piscou um olho.

Depois que Maddie saiu, a mulher virou-se para o assistente sentado em outra mesa.

– Quanto tempo até essa criatura se formar? – perguntou, desparafusando o sorriso com a palma da mão na testa.

– Mais dois anos, se continuar passando direto.

– Oh Deus, permita que ela passe.

– Sabe, ouvi dizer que dá pra contratar um assassino de aluguel na Deep Web.

A coordenadora o encarou, indignada. – Tem noção do quanto eu ganho aqui, rapaz? Mal dá pra pagar a internet.

– Você pode pegar o sinal do T-Rex daqui, é aberto.

– Não é lindo um trailer de lanches ter wifi, e a escola em frente não?

Os alunos já estavam tão acostumados às demonstrações de poder de Maddie que alguns até se curvavam em reverência ao passar por ela, mais por costume do que por deboche. Ela seguiu em seu passo imperial enquanto pôde, porque assim que cruzou a porta da sala, sua compostura tremeu nas bases.

Metade dos alunos estava na internet de seus celulares. Sem cadernos. Um ou outro usando farda. A outra metade... Bem, provavelmente estava em casa dormindo.

Ela bufou, o rosto vermelho. – É o primeiro dia. Como vocês se atrevem? Vocês são a minha turma, mostrem um pouco de dignidade!

– Sossega o facho– disse uma garota. – Só tô aqui pela net do T-Rex e pelo sanduba do T-Rex.

– Você sabe que os professores nunca dão aula na primeira semana, majestade. Agora fecha a matraca.

– Comprados com lanches baratos e internet? Por que vocês não criam um pouco de juízo?

– Claro– um garoto disse, atrás dela. – A gente faz isso e te ensina depois. Agora sai do caminho.

Um burburinho zombeteiro percorreu a sala. Maddie voltou-se e estreitou o olhar assassino.

– Tente me tirar do caminho, Jonas.

– Cuidado, um gafanhoto.

– Onde?! –Ela pulou para o lado, afobada, cedendo passagem.

Ele entrou com as mãos por trás da cabeça. – Continua maluca. Que maravilha.

Como esperado, não houve aula em nenhum dos horários. Antes do intervalo a coordenadora apareceu na sala para fazer a votação do líder da turma. Ninguém queria a responsabilidade, e Maddie queria por todos eles. Era assim que conseguia o cargo todos os anos, se aproveitando da preguiça dos colegas.

– Isso faz de você membro do conselho estudantil mais uma vez – a coordenadora suspirou, e parafusou seu sorriso. – Bem, isso é tudo por hoje, turma.

– A rainha está morta– os alunos disseram em coro, sem desgrudar os olhos da tela do celular. – Longa vida à rainha.

Maddie levantou-se e olhou arrogante para a coordenadora, que assentiu e foi embora antes de ter um colapso.

– Boa escolha mais uma vez, pessoas– ela comentou, voltando ao seu lugar.

– Que escolha? Só você é louca de querer essa tralha.

– Você nunca vão entender o que é ter responsabilidades.

– Com fé em Deus.

O intervalo era a grande atividade da escola na primeira semana de aulas. Os de coração fraco permaneciam em segurança nas salas, enquanto seus colegas tomavam o pátio para o jogo mais perigoso praticado por uma turma de alunos do ensino médio.

Era no pátio principal, o mais amplo de todos, porque a escola não tinha quadra de esportes. E o tal jogo mais perigoso de todos... Bem, ele não tinha um nome, nem é possível explicar muito bem do que se trata. Tudo depende de qual time está ganhando.

Naqueles primeiro cinco minutos, por exemplo, o grupo de vôlei tinha transformado o jogo em vôlei. Ou seja, era impossível para o grupo de futebol jogar futebol naquele momento. A menos que um deles pegasse a bola no ar, jogasse no chão e começassem a chutar uns para os outros. Às vezes, na mudança súbita do esporte, um jogador ou outro levava uma cotovelada, joelhada ou era pisoteado; mas fosse qual fosse o jogo, uma coisa se sabia: apenas os fortes jogavam.

Maddie não negava a dolorosa verdade de que tinha o físico menos apropriado para esportes tão combativos como os do intervalo, mas nunca deixou de participar de cada batalha diária. Tinha os joelhos e cotovelos cheios de cicatrizes de guerras passadas. Cada derrota tinha lhe fortalecido de um jeito especial, e hoje ela era uma grande mestra das trapaças e do jogo sujo. Rápida e leve, podia roubar a bola dos brutamontes e repassar para os companheiros que ela considerava mais aptos a mudar o jogo. Quase sempre era ela quem dizia qual seria o jogo da vez.

A bola foi rebatida por Paulinha, a mais atlética da turma. O jogo corria sem muitas vítimas e sem esportes paralelos, de modo que os que não haviam desistido de jogar e simplesmente ficavam assistindo, resolveram entrar nos times, o que deixava cada lado com mais ou menos 50 pessoas. Maddie observava satisfeita o seu time entregar a bola para o outro lado, quando o objeto pousou entre duas mãos e ali ficou, parada.

– É pra rebater, imbecil– alguém reclamou.

Eles viram o garoto abrir caminho entre os companheiros. Era magrinho como Maddie, porém mais alto. Seu sorriso demoníaco fez Maddie ranger os dentes.

Ivan. Seu maior inimigo.

– Não, quando o jogo é queimada.

Antes que Maddie pudesse sequer pensar, a bola veio voando como um míssil e atingiu sua cabeça, derrubando-a na hora.

Aquilo fez o time dela rugir de ódio e partir para o ataque. Não porque queriam vingar sua capitã, líder e rainha, mas porque derrubar Maddie dava o triplo de pontos para o lado inimigo. Eles só tinham mais dez minutos para ao menos diminuir a diferença, antes do sinal tocar.

Quando Maddie acordou, estava largada na poltrona da diretora.

– Confortável?

Ah, maldita voz dos infernos.

– O que você faz aqui? – ela esfregou a testa dolorida, sentindo que um galo estava a caminho.

– Fui eu quem te trouxe, retardada– Ivan respondeu tranquilamente, sentado sobre a mesa diante dela. – Seu time tem as prioridades no lugar, hein. Quase venceram a gente no beisebol antes do sinal tocar.

– Beisebol? –ela resmungou indignada. –Quem foi que mudou o jogo depois de você?

– Sei lá. Uma galera se infiltrou e achamos mais divertido jogar com eles. A gente venceu, de qualquer maneira. Mas, você não tá esquecendo o mais importante?

– O que é?

– Seu time. Te largou desmaiada e continuou jogando. Se eu não te trouxesse, a mulher da limpeza ia acabar te varrendo depois da aula.

– Idiota. Todo mundo sabe que a mulher da limpeza não varre nada.

Ivan sacudiu a cabeça. –Sobrou pra mim, a pessoa que você menos gosta na escola, te salvar. Isso não te diz alguma coisa sobre os seus companheiros?

Maddie levantou-se da poltrona, recuperando o ar imperioso. De pé era da mesma altura de Ivan, com ele sentado na mesa.

– Meus companheiros têm as prioridades no lugar, você mesmo disse. Não podem ser derrotados sem lutar, mesmo que a líder deles caia. Além do mais, você tá errado. Você é a pessoa que eu menos gosto na galáxia.

Ele riu. –Bom, parece que vai ter que me aturar um pouco mais esse ano, já que insiste em participar do conselho.

– Esse é o seu último ano, se a sua cabeça oca lhe permitir passar. Posso aguentar isso.

Maddie ia saindo da sala, quando ele segurou seu braço.

– Deve ser difícil, uma pessoa como você ter que se submeter a uma autoridade maior. O líder do conselho.

Aquele maldito sorriso demoníaco. Ela puxou o braço e o esfregou, como se estivesse manchado por algo radioativo. Com as impurezas do próprio inferno.

– Espero que isso satisfaça o seu ego minúsculo. Seu verme.

A coordenadora acabava de chegar na diretoria quando Maddie passou voando por ela, deixando um rastro de ódio atrás de si.

– Ela está melhor? – indagou a Ivan, seriamente preocupada. Uma criança machucada em seu turno não era o que ela gostaria de ter no currículo, mesmo que fosse Maddie.

– Tá brincando– Ivan gracejou. – Essa guria parece que saiu de um desenho animado. Acho que esse vai ser outro ano interessante.

“É,” ela pensou, observando Ivan e os companheiros deixarem a escola, e o local repentinamente ficar vazio sob o sol do meio-dia. “Mais um ano interessante. Só espero sobreviver a ele.”

Notas finais
Essa não é uma história movida a reviews ou recomendações, mas se você achar que ela merece, eu ficaria agradecida se você pudesse deixar uma delas. Ou as duas. Não não, eu não sou exigente. Mas deixe uma review, por favor.
Ah, e não caiam no conto da Deep Web. É uma babaquice perigosa. Até porque, se qualquer coisa que o Google não pode rastrear é da Deep Web, basta fazer um blog fechado a acessos e se sentir o fodão =D
Beijos de luz :***