Mad Z
1 Libertando-se
Minha sala era a ultima do corredor. O corredor era o ultimo, do ultimo andar no subsolo. Não sei ao certo quantos eram, mas lembro de ter contado seis lances de escada na subida até o térreo.
Naquele dia, as amarras pareciam mais fortes, mas nada que eu não pudesse suportar, afinal, já havia cerca de um ano que estava naquele lugar, naquela situação.
As luzes piscavam vermelhas no outro lado da pequena janela de vidro da porta do meu “quarto”. Um alarme irritante desparou e, depois de quase uma hora com aquele som repetitivo de sirene, ouço um “boom”. — Parece que algo, aqui, bem perto do meu quarto, acaba de explodir… — Ri sozinho. O melhor de tudo, é que depois da explosão, o som da sirene diminuiu. Só a ouvia ao longe. Provavel que tenha danificado alguma caixa de som na parede de meu corredor.
A lâmpada do quarto ainda balançava com o impacto da explosão lá fora. Eu, sentado em minha cama velha e desforrada, aliás, a única coisa que havia e meu quarto era aquela maldita cama de hastes enferrujadas que rangiam cada vez que em piscava os olhos, percebi que com aquele impacto, algo também se chocou contra minha porta. Me levantei e caminhei lentamente para tentar ver pela janelinha de vidro o que poderia ser, pois o que bateu na porta, ainda estava lá. Dava para ver que o feixe de luz que entrava por baixo da porta fora interrompido e bloqueado por algo.
Pela janelinha de vidro, só podia ver os pés. Os pés de alguém que estava caído lá, bem em frente a meu quarto. Mais uma vez, sorri. Algo de interessante estava realmente acontecendo.
Ainda de lá de dentro, consegui ouvir gemidos do outro lado e, ao longe, gritos e berros de dor e desespero, até que também passei a ouvir passos de alguém em uma corrida alucinada. Me esforcei, grudando a cara no vidro para tentar ver algo e o que vi, foi aquele cara. Ah, como eu odiava aquele cara… e agora, olha só, ele está vindo me visitar com tanta pressa. Acho que meus olhos brilharam com a emoção. Ele gritava tanto que não pude me conter e comecei a rir muito lá de dentro.
-Doutor!!! Doutor Robert, acorde! Por favor, acorde! — Ele gritava abaixado. Então o Doutor Robert era quem estava caído lá. Merda, o velho era a única pessoa daquele maldito lugar por quem eu tinha o mínimo de consideração.
Percebi que ele sacudia um molho de chaves em suas mãos. Tremia de uma forma, como se mil volts passassem por seu corpo. Afinal, por alguma razão, ele abria a minha porta. Estaria me libertando? Eu duvido muito. Ele encontra a chave certa, mas só aí percebo o motivo da correria: Outros dois enfermeiros vinham a seu encontro, porém, estes estavam cheios de sanguem em seus jalecos. A enfermeira Karen, tinha um buraco enorme no pescoço. Uma ferida tão grande e profunda que se podia ver em detalhes os músculos, veias e tendões jorrando sangue em seu ombro. O enfermeiro Jake, era outro chato. Vivia com o Jenkins me perturbando e torturando. Lembro que os dois me levaram ao tratamento de choque diversas vezes e eles se divertiam muito com aquilo. Jenkins era o enfermeiro que estava abrindo minha porta e, ele conseguiu destrancar, mas não conseguiu abrir. Seu amiguinho de profissão e parceiro de tortura, Jake, lhe agarrou pelo braço direito. Eu posicionei meu corpo contra a porta, empurrando de volta. Em verdade vos digo, o desespero dá muita força a um ser humano. Ele empurrou com tudo o que tinha. Eu voei longe e a porta abriu, porém, quase que lamentavelmente, ele caiu logo na entrada, talvez tenha tropeçado no corpo do velho doutor Robert, mas o que mais interessa, é que ali, bem na minha porta, seu amigo Jake o escalava pela cintura e, de maneira bizarra, desferiu-lhe uma mordida na barriga, na altura do umbigo. Me levantei em meio a gargalhadas e me aproximei. Notei que a enfermeira também adentrava e o mordeu direto no pescoço. Nossa, como ele gritava.
Me agachei ali mesmo, bem perto dos enfermeiros “carnívoros” e também do rosto dele.
- Nossa, que destino heim? Eu diria que tentei avisar, mas pra você eu realmente não quis tentar. Na verdade, eu sempre sonhei em ver o dia que isso fosse acontecer…- Falava enquanto sorria e o observava.
— Por favor, me ajuda! — Tentava falar enquanto se engasgava no próprio sangue.
— Ajudar? Você merece muito mais do que isso. Lembra das torturas? Lembra das altas voltagens lançadas diretamente em meu crânio? — Me levantei e pisei em sua face. — Agora vou sair e você vai morrer de uma forma um tanto dolorosa e, se eu tiver sorte, bem lenta.
— Aah! Seu louco miserável! — tosse — Eu vou te matar!!
— Louco? Eu? HA, HA, HA! Você diz isso por causa da minha camisa de força? Ou diz isso pelo estado ao qual vocês mesmos me levaram a estar? Eu não sou louco. Nunca estive mais lúcido. E finalmente, pelo menos isso, é algo pelo que te agradeço, a minha lúcida loucura. — passei por cima dele. Tentei evitar esbarrar nos enfermeiros, não queria atrapalhar sua refeição. Também não queria que eles viessem atrás de mim, é lógico.
Em frente, o extenso corredor de grunhidos e sons estranhos. Portas brancas iguais à minha e várias pessoas como eu, presas no abraço de suas camisas de cintos, travas e botões, porém, com uma única diferença. Desta vez, eu estava sem a companhia dos doutores ou enfermeiros. Para trás, ficou um dos homens a quem eu mais odiei durante minha estadia naquele lugar tosco. O deixei, junto com meu ódio e em meio a gemidos, afogando-se no próprio sangue, enquanto era devorado vivo.
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