Mad World
1 Capítulo único
Notas iniciais
— Como você pôde? — berrei de olhos fechados. Eu não queria olhar para a cara dele. Minhas mãos subiram até minha cabeça e puxaram meus cabelos como se tentassem extrair a memória para fora da minha mente. Eram tantas lembranças.
— Bella, me perdoe. Por favor, me perdoe — pediu desesperado. Sua voz quebrada com arrependimento. Ah, eu conseguia sentir que ele se arrependera, sabia que ele estava sendo sincero. Eu o conhecia muito bem. Mas isso não significava que a minha dor seria menor. Eu o senti se aproximar e abri os olhos. Suas mãos levemente estendidas, as palmas para cima. — Por favor... — Os olhos verdes estavam úmidos, fazendo com que brilhassem ainda mais.
— Senhorita, o que deseja? — O homem alto e engravatado perguntou. Se eu dissesse que naquele momento a única coisa que eu desejava era ele nu em cima de mim nessa mesma mesa, na frente do restante dos clientes e das minhas duas melhores amigas e minha mãe, eu seria muito precipitada?
Minha mãe pigarreou. Eu lancei um olhar para ela, que estava com uma sobrancelha arqueada. Quando voltei meu rosto novamente para o homem segurando um bloco de notas, vi que ele estava tentando esconder um riso. Duas esmeraldas brilhantes no lugar dos olhos.
Ele tocou meu pulso docemente. Um pedido.
— Não! — solucei sacudindo os braços e me afastando enojada. Coloquei as mãos no rosto balançando a cabeça e senti a parede da sala atrás de mim. Não havia percebido que tinha me afastado tanto assim. — Eu nunca pensei que isso fosse acontecer... Não com você... — sussurrei. Minha voz estava fraca e os soluços interrompiam meu discurso. Fiquei com raiva.
Raiva de mim mesma por me deixar levar. Por acreditar. Por amar tanto. Por não conseguir disfarçar. Por deixar que as lágrimas corressem livremente. Gritei. Bati a cabeça na parede.
— Eu sei que eu fiz besteira, eu sei que estraguei tudo. Eu fui um completo idiota, um canalha... Eu... Eu não mereço você — ele disse. E o que ele disse doeu ainda mais, mais do qualquer coisa que ele tenha feito. Uma lágrima finalmente escapou de seus olhos e ele os fechou sacudindo a cabeça. Isso me enfureceu, ele não tinha o direito de chorar. Quis bater nele. Foi o que eu fiz. — Eu sei! — ele gritou agora com a bochecha vermelha. — Eu sei disso! Eu sei disso tudo. Mas eu ainda te amo! Eu não consigo viver sem você... Por favor, Bella... Por favor... Me dê mais uma chance, só mais uma. Vamos... Vamos tentar outra vez — suplicou se ajoelhando no chão. Eu gritei.
— Por quê? Por que você fez isso, Edward? — doeu dizer o seu nome. — Eu pensei... Eu pensei que estivesse feliz comigo.
—Isabella Marie Swan — ele chamou ajoelhado na areia branquinha. O mar atrás dele batia em seus pés e voltava. Seu peito estava descoberto e a água salgada pingava de seu cabelo. Ele levantou a palma da mão e eu pude ver a alga que ele estava mexendo já há algum tempo formando um círculo, como um anel. Eu o encarei. — Quer casar comigo?
Eu ri.
— Louco, levanta já daí. Nós só temos dezoito anos. Por acaso está pensando que eu estou grávida?
— Ouch, Bella. Eu te pedi em casamento e você recusa rindo? Isso fere meu ego — ele levantou fazendo beicinho. Então sorriu e me beijou. — Tudo bem. Eu vou guardar isso daqui — ele balançou a alga. — E te entregar no momento certo.
Tudo bem, eu disse. Duvidava que aquilo fosse durar por muito tempo.
A porta da frente bateu e meu filho entrou correndo e gritando:
— Mamãe, mamãe! Olha o que eu fiz na escola! — ele balançava um pedaço de papel na mãozinha pequena. Eu não havia ouvido o carro da minha cunhada. Limpei meu rosto rapidamente com as costas da mão, mas sabia que não adiantaria nada. Edward levantou e virou de costas tentando se recompor. — Sou eu, você e o papai! E esse aqui é o Tot, o cachorrinho que vocês disseram que me dariam no meu aniversário — ele abriu um sorriso enorme que morreu assim que viu que eu estava chorando. Eu odiei Edward por isso, e me odiei ainda mais. — Mamãe? ‘Cê ‘tá chorando? Por quê? — os olhos curiosos iguais ao do pai me questionaram.
— Hey, Bells, desculpe, não consegui segurar a peste. Você sabe como ele é. Tudo... — minha cunhada, Alice, parou de falar quando notou a situação tensa e meu rosto inchado.
— Pai? Por que a mamãe ‘tá chorando? ‘Cê num disse que a gente não podia deixar ela chorar? ‘Cês tão brigando? — meu filho ficou com os olhos úmidos quando viu que seu pai também estava chorando.
— Hey, não, campeão! Não, nós não estamos... — Edward começou com a voz rouca, mas eu o interrompi.
— Nick, olha pra mim, filho. A mamãe está bem, ok? Eu vou ficar bem, não se preocupe — ajoelhei-me em sua frente e dei um pequeno sorriso que não chegou aos olhos. — Olha só, por que não vai com a tia Alice tomar um sorvete, hein?
— Claro! Nicholas! Nick, vem com a tia, vem? De chocolate, o que acha? — Ele correu de volta para Alice que se abaixou e o pegou no colo. Lançando-me um último olhar preocupado e encarando seu irmão depois, ela se virou em direção à saída. Porém, eu ainda podia ouvi-los.
— Por que a mamãe ‘tá chorando, tia Lice? Meus pais ‘tão brigando? — A voz de criança, tão cheia de preocupação, perguntou e eu deixei escapar um soluço.
— Não, querido! — Alice negou. Sua voz horrorizada. Ela não sabia o que dizer. — Eles só estão... Só estão brincando!
Como eu queria que fosse brincadeira, uma piada.
O desenho ficou no chão da sala, eu o peguei. Três bonecos palitinhos e uma bola marrom, que imaginei ser o tal cachorro, encontravam-se dentro de um coração azul. Eu solucei e senti uma mão em meu ombro.
Eu chorava na frente do espelho, apoiada na bancada da pia do banheiro. Edward deve ter ouvido o barulho, porque abriu a porta preocupado.
— Bella? O que houve? — perguntou com a voz baixa e a mão grande no meu ombro, tentando me virar para que pudesse me olhar nos olhos. Ele ainda não havia visto.
Eu ri e solucei ao mesmo tempo. Limpei meu rosto com a mão esquerda e me virei, levantando a direita com o pequeno bastão branco com duas tirinhas coloridas entre nós dois. Suas sobrancelhas arquearam, depois franziram, então ele correu e pegou a caixinha com as instruções em cima da pia. É claro que ele não saberia o significado das duas tirinhas. Após alguns segundos seus olhos dobraram de tamanho e seus lábios se separaram alguns milímetros. Eu soltei uma risada com a sua troca de expressões faciais. Quando me ouviu rindo, ele me encarou e entendeu que eu estava chorando de felicidade. O sorriso dele foi o mais lindo do mundo.
Os olhos tristes me encararam, nenhum resquício de sorriso, suas feições envelhecidas. O sussurro do meu nome se perdeu nos lábios dele.
Nós estávamos muito próximos e a dor era tanta... Meu corpo me impelia a procurar refúgio no dele, como havia feito por muitas vezes. Ele se aproximou mais, sua testa encostou-se à minha e então seu nariz ao meu. A boca dele estava perto demais da minha e tudo que eu queria era o abrigo de seus lábios para que eu pudesse esquecer tudo.
Mas o meu santuário não era mais imaculado. Eu me afastei.
Ver o meu filho com olhos molhados me trouxe de volta. Não importava o quanto doía, eu tinha que me recuperar e seguir em frente por ele, qualquer que fosse o caminho que eu escolhesse seguir. Eu levantei e fui para a cozinha. Edward não me seguiu, talvez ele não soubesse se podia.
Retirei a jarra de água da geladeira e me servi, encontrando a aliança dourada no meu dedo anelar.
Edward procurou no bolso do terno com uma mão trêmula. Ele estava nervoso. Eu não entendi o que ele estava fazendo, as alianças estavam com Seth, meu irmão caçula.
— Eu disse que guardaria isso para te dar no momento certo, Bella.
O círculo verde que ele havia feito dois anos atrás estava enrolado em um saquinho transparente de cozinha. A alga estava seca e o saquinho, verde, por causa do tempo, mas ela estava lá. Eu ri e algumas lágrimas caíram.
— Eu te amo! — ambos dissemos. Edward colocou a aliança verde no meu dedo. Tentou. Por ter secado, o círculo diminuiu e não cabia mais. Seu rosto franziu.
— O importante é que você lembrou e guardou por todo esse tempo — sorri e o beijei levemente, empurrando o mindinho através do anel logo depois. — Mas eu quero a outra também, que vá durar para sempre — falei brincalhona, mas ele foi até o meu irmão e pegou a aliança dourada, colocando-a no meu dedo anelar com um sorriso.
Eu derramei a água na mesa, mas meu rosto também estava molhado. Novamente. A aliança verde não durara para sempre e, pelo visto, nosso casamento também não. No entanto, a dourada ainda estava ali. Acariciei o anel da mão esquerda. Agora a decisão era minha. Seria eu quem decidiria o rumo do nosso relacionamento, se ele se desfaria como fez a primeira aliança, ou se seguiria firme e forte como a segunda.
Eu senti a presença dele e o encarei. Edward também olhava para a minha aliança. A dele ainda estava em sua mão, que estava fechada em punho, como se dissesse que ela nunca sairia de lá. Mas eu ainda me lembrava da mesma mão com o anel dourado na cintura dela. Nua. Os dois. No escritório dele. Sacudi minha cabeça e apoiei meus cotovelos na bancada, enterrando minha cabeça em minhas mãos, apertando as palmas nos meus olhos. Tentava não ver, não lembrar, mas a imagem continuava lá.
Eu lavava meu cabelo, de costas para a porta do banheiro, quando levei um susto com a porta de vidro do chuveiro abrindo e duas mãos acariciando da cintura até o meu ventre. Eu gritei e ele riu roucamente em meu ouvido.
— Idiota! Você sabe que eu odeio quando faz isso! — Dei um tapa em suas mãos.
— Odeia é? Achei que gostasse... Me enganei então... — ele roçou os lábios no meu pescoço, nuca e ombros. Fiquei arrepiada. Ele sorriu. — Ou não.
Edward me virou e me encostou contra o ladrilho, beijando-me ardentemente. Suas mãos viajaram da minha cintura até minha perna direita, levantando-a e a encaixando em sua cintura. Depois fez o mesmo com a outra, pressionando-me cada vez mais contra a parede molhada.
E então nós caímos.
Edward gemeu. Eu caí por cima dele e, por isso, não senti tanto, mas meus joelhos bateram no chão e estavam doendo muito, eu só conseguia imaginar o que ele estava sentindo. Ele riu fracamente.
— Nos filmes isso dá certo — Eu ri também e o beijei levemente.
—Eu te amo! E sempre vou te amar.
E era verdade. Ainda era. Eu ainda o amava. E sempre iria. Porque apenas pensar em não estar mais ao seu lado doía como nunca. Pensar em ter que conviver com ele como se eu fosse indiferente, vendo-o todos os finais de semana, entregando meu filho a ele e depois indo embora... Era absurdo. Seria um mundo completamente louco. Um pedaço de mim morria a cada pensamento desses.
Eu o encarei na porta da cozinha e ele entendeu.
Edward havia errado feio. Por causa desse erro nós nunca mais seríamos os mesmos. Ele sabia disso. Eu sabia disso. Mas ainda seríamos melhores juntos do que separados. No final... Eu sempre seria dele.
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