O barulho das ondas quebrando nas rochas e o cheiro de maresia davam paz e tranqüilidade a uma praia deserta, escondida entre rochas e árvores. O cheiro de madeira queimada que brotava de uma fogueira e seu calor eram acolhedores. As toras que um dia foram troncos majestosos agora serviam como bancos e estavam dispostos em um círculo em volta da fogueira que radiava seu calor pela praia vazia. O luar era a única luz além da chama amarela e gritante, a escuridão reinava, mas o mar era como um espelho e refletia a luz da lua. Até o presente momento as estrelas eram as únicas testemunhas de tamanha beleza, mas escondidos entre as sombras da mata que cercava a faixa de areia clara estavam dois vultos que observavam o palco vazio.

Uma menina bonita com a pele pálida e cabelos extremamente pretos de feições tristes subia sem muita dificuldade as pedras altas que negavam acesso ao local da reunião. Ela servia de guia para outras pessoas, todos adolescentes, que assim como a garota usavam trajes pretos. Vestidos, meias, calças, blusas, gravatas, suspensórios, coturnos e até a maquiagem usada por todos os jovens era preta. Logo o enxame de gente ocupou todos os lugares e até a areia serviu de assento para alguns dos meninos presentes.

Por último e não menos importante chegava Henrique acompanhado de sua namorada para a cerimônia que aconteceria em torno das labaredas flamejantes. Como um apresentador digno, ele se posicionou em frente à roda com Fernanda ao seu lado como se fossem os próprios rei e rainha falando ao povo, com a voz alta anunciou a atração principal.

- Senhoras e senhores bem vindos ao conciliábulo*. Quero dividir com meus irmãos de clã algo misterioso, noturno, macabro com atração pela morte. Alguém que viu o que mais nenhuma alma existente na face terrestre viu. Que já esteve condenado a sofrer por uma eternidade no mais sangrento dos lugares e conseguiu sair do Hades. Tenho o prazer de apresentar Caleb.

Por um breve instante nada ocorreu, mas com uma lufada de ar a fumaça começou a tomar forma e se transformar em um rapaz que aparentava ter seus dezenove anos. Ele usava uma roupa que lembrava em muitos aspectos a roupa de um mágico. Cartola preta de veludo, camisa social branca com um colete preto por cima, gravata borboleta vermelho sangue, calça social preta, sapatos lustrados, luvas brancas, e casaca preta com lapela de cetim. Ele estava de cabeça baixa e fitava os pés. Segurando a aba do chapéu iniciou a história:

- Deixe-me contar uma história de arrepiar. Sobre uma coisa que eu vi e vivi.¹– Nessa hora ele levantou o rosto e mostrou seu semblante para todos os espectadores. Tinha a pele pálida, tão branca quanto um espectro transparente; o cabelo liso da cor da areia escura que recebia as lambidas da água salgada; olhos penetrantes verdes como o brilho liberado no último raio de sol quando uma alma volta do mundo dos mortos com manchas da cor do mais puro mel, uma cicatriz reta na base da sobrancelha que emoldurava o olhar amedrontador, olhar esse que define uma alma já experiente para um rapaz tão moço. Sua voz era grossa e rouca, mas ao mesmo tempo doce e angelical que cativava até a pessoa mais esnobe e arrogante. Depois de uma pausa dramática o lindo jovem tornou a falar.

“Uma noite vagando pelos pantanais

Eu tinha bebido um drink, nada mais

Eu estava divagando, aproveitando a brilhante luz da lua

Olhando as estrelas

Não percebi a presença tão perto de mim

Observando cada movimento meu

Com medo eu cai de joelhos

Enquanto alguém correu de trás das árvores

Levou-me para um lugar profano

E foi lá que eu cai em desgraça

Então eles me invocaram para juntar-me a eles

À dança dos mortos”¹

A última frase foi gritada. O fogo agora bruxuleava e dançava no ritmo das batidas do coração. A voz que recitava formava um eco pela praia e atravessava o corpo dos ouvintes. Todos bem atentos a tudo que o transmissor passava a eles, a cada detalhe, com olhos abertos e ouvidos focados.

“Para dentro do círculo de fogo eu os segui

Para o centro eu fui levado

Como se o tempo tivesse parado

Eu ainda estava entorpecido pelo medo, mas eu ainda queria ir

E as chamas do fogo não me feriram

Enquanto eu andava sobre o carvão

E eu senti que estava em transe

E meu espírito foi levado de mim.”¹

Ele se movimentava de acordo com o vento como se ambos fossem um só. A fumaça que anteriormente tinha dado origem a ele agora criava vida e de vários pontos do centro do círculo se via pessoas, mas não pessoas comuns, se enxergava por elas, eram transparentes, não tocavam o chão com os pés e sim levitavam. Estavam paradas olhando, com seus rostos cadavéricos, para a forma de carne e osso que se mexia graciosamente por entre eles.

“Se alguém ao menos tivesse a chance

De testemunhar o que aconteceu comigo

E eu dancei e eu pulei e eu cantei com eles

Todos tinham a morte em seus olhos

Figuras sem vida todos eles eram mortos vivos

Eles vieram do inferno

Enquanto eu dançava com os mortos

Meu espírito livre estava rindo e uivando para mim

Sob meu corpo morto vivo apenas dançava o círculo dos mortos.”¹

Juntamente com seus movimentos bruscos os fantasmas dançavam, balançando suas vestes de outras épocas; saias rodadas, espartilhos, cachos, camisolões, capas... Todos em transe.

“Até que chegue a hora de nos reunirmos

Meu espírito voltou para mim

Eu não sabia se estava vivo ou morto

Enquanto os outros juntavam-se a mim

Por sorte um barulho começou

E tirou a atenção de todos de mim

Quando eles desviaram o olhar de mim

Foi o momento em que fugi”¹

Um barulho assustador saiu do nada e ecoava pela assembléia, o público começou a sentir medo. Um medo inexplicável tomava conta de todos. Cabeças se viravam para todos os lados tentando achar de onde vinha os gemidos de dor, os sussurros, os chamados.

“Corri como nunca mais rápido que o vento

Mas eu não olhei para trás

Uma coisa que eu não me atreveria

Era olhar apenas para frente

Quando você sabe que seu tempo deve voltar

Você sabe que estará preparado pra isso

Diga seu último adeus para todos

Beba e reze por isso

Quando você está dormindo quando você está deitado em sua cama”¹

Ele corria entre as figuras e elas agora estavam enlouquecidas, agonizavam, se recurvavam, se contorciam.

“E você acorda de seus sonhos para ir dançar com os mortos

Quando você está dormindo quando você está deitado em sua cama

E você acorda de seus sonhos para ir dançar com os mortos

Sobre este dia eu acho que nunca saberei

Por que eles me deixaram partir

Mas eu nunca mais dançarei”¹

Um grito mais alto que qualquer som que estivesse sendo ouvido cortou o ar. Todos os olhos se voltaram para a dona do grito. Era a menina que servira de guia, tinha em volta do pescoço as mãos furiosas de um dos espíritos. Ela olhava fixamente para os olhos dele e neles ela viu coisas tão tenebrosas que a mais sã das pessoas enlouqueceria.

“Até que eu dance com os mortos.”¹

A última frase foi dita e como em um passe de mágica as mãos do condenado afrouxaram libertando a donzela do aperto da morte. As almas pecadoras sumiram, voltaram a ser fumaça no espaço. Em pânico, jovens aterrorizados saíram as pressas, sem olhar uma única vez para trás. Restavam apenas quatro seres vivos na roda. O fogo era uma chama em extinção. Ele olhava a madeira em brasa e cutucava um carvão com a ponta do sapato.

- Eu tenho que te cumprimentar pelo ótimo trabalho. Você é um mágico incrível. Está aqui seu pagamento. – Dizia o todo soberano Henrique passando um rolo grosso de dinheiro.

- Eu que agradeço.

- Dê um bom pagamento a essa garota. A sua ajudante.

- Ela vai ficar bem? – Fernanda dizia preocupada.

- Vai sim. Deixa que eu cuido dela.

Eles se retiraram e deixaram o rapaz pensativo com a garota em estado de choque. Quando voltou a si lembrou que a garota ainda estava lá sentada olhando o vazio do oceano. Ele voltou e parou na frente dela. Agachou-se e olhou atentamente para o rosto dela. Os olhos azuis piscina eram vagos, o nariz pequeno, lábios carnudos e de cor de carmim, bochecha rosada apesar da pele pálida, os fios sedosos de cabelo negro como a noite eram picotados de um jeito cruel. Mesmo com a expressão vazia ela era linda.

- Vem. Vou cuidar de você.

Apagou a fogueira e arrastou a garota para fora da praia, mas antes de dar as costas por completo aquele lugar não deixou de notar as figuras escondidas na orla da pequena floresta. Espectadoras não pagantes, mas teve a leve certeza que ainda as conheceria.

Notas finais
1 - música do Iron Maiden (Dance of death)
* Assembleia secreta.