Macabro - 1.0
8 Capítulo 7
Caleb ouviu batidas surdas na porta. Abriu os olhos sonolentos e fitou o relógio. Um pouco mais das duas horas da madrugada e havia um infeliz batendo na porta. Não tinha esquecido nenhum compromisso profissional, não tinha família e muito menos namorada.
Levantou-se ainda transtornado e seguiu arrastando os pés no assoalho gasto de madeira. Parou em frente à porta e hesitou. Talvez quem quer que fosse iria embora se não atendesse, mas as batidas continuaram e logo os vizinhos acordariam também. Abriu e estranhou; a sua frente estava Linda com olheiras enormes e cara de noite mal dormida – se é que ela dormiu essa noite. Pensou seriamente ser um sonho até que a garota fez menção de falar.
— O que você está fazendo aqui? – ele disse antes que ela falasse. Com sorte ela mudaria de ideia e o deixaria em paz.
— Henrique me deu seu endereço e eu preciso falar com você urgentemente.
— É tão urgente que não podia esperar até amanhã? Ou por acaso não sabe que horas são? – sendo grosso ele tinha certeza que ela desistiria.
— É sim! – linda entrou sem esperar pelo convite.
Caleb apenas olhou enquanto a menina inconveniente invadia sua humilde residência. Balbuciou algo parecido com um “pode entrar” estrangulado em sua garganta. Ela avaliava a kit net sem deixar de reparar nas diferenças que tinham com a sua casa luxuosa. A cama de desquitado ficava bem no meio do cômodo, um rack com uma televisão de tudo, uma poltrona gasta, o armário antigo e uma mesa com livros e agendas velhas dividiam o mesmo espaço. A cozinha era separada apenas por uma meia parede e quase não havia nada nela. E uma segunda porta que estava entreaberta devia dar no banheiro.
— A que devo sua visita? – Caleb falava fechando a porta atrás de si.
— Como eu paro o que está acontecendo? – ela foi direta ao assunto.
— Não para!
— Então você vai morrer junto com a gente...
— Não, eu não vou. Não faço parte do círculo. Fui apenas o mediador, o cerimonialista.
Ela começou a balançar a cabeça e a conter as lágrimas a que vinha contendo desde o encontro com Fernanda. Havia tantas perguntas que queria fazer e que precisavam se feitas. Não sabia o que dizer e nem a quem recorrer, a única coisa que ela conseguia fazer agora era olhá-lo suplicando por informações.
— Por favor! Eu estou desesperada e você é o único que pode me dar uma explicação do que está acontecendo. – se fosse necessário se ajoelharia aos pés dele.
— Eu vou pegar um copo de água para você. Pode se sentar.
Só então ela reparou na tintura desgastada das paredes e a infiltração no canto do teto. Não era possível a família dele não reclamar do jeito que ele levava a vida. Ou pedir para ele arrumar um emprego decente que não fosse o de “animar” festinhas de abobalhados riquinhos. Quando voltou a si ele já estava lhe entregando o copo.
-Eu não pretendia seguir até o fim com o ritual, mas você cortou a mão e eu não tinha ideia de que ainda fosse...
— Essa parte eu já conheço. Eu quero saber como é possível isso acontecer de verdade, como eu paro, como você se envolveu com esse tipo de coisa e qualquer coisa que possa me levar a mínima compreensão do que diados está acontecendo. – ela o interrompeu e falou tudo de uma vez só antes que não conseguisse.
O menino vez sinal para que ela sentasse. Pegou um banco na pequena cozinha e se sentou de frente para ela. A noite seria longo e não tinha previsão de termino tão cedo.
Ela sentiu uma leve pontada de dor no rosto dele que rapidamente sumiu.
— Lembra do dia da praia? – ela afirmou com a cabeça e ele continuou – Não são efeitos especiais ou truques de câmera como todos pensam. Depois que se passa pelo o que passei se pode fazer aquilo ou coisas como no dia do ritual e muito mais. A Sofia vai ser só mais uma como eu e acredite: ela vai ser pior. E como eu sei disso?
Ele fez uma pausa demorada demais para o gosto de Linda.
“Eu já passei pelo o que ela está passando agora. Já tive que fazer o que ela está fazendo com você e os seus amigos. E mesmo que não queiramos somos obrigados a terminar o que os outros começaram por nós. Eu a conheci; a Sofia é mimada, egoísta, egocêntrica e aposto que no caso dela ela vai matar todos vocês com muito prazer”.
— Como a conheceu se ela morreu nos anos 20? Como é possível você ter passado pelo o que ela passou se está aqui falando comigo e a Sofia está morta? – ela questionava com o coração a mil.
— Eu morava com os meus pais até os 17 anos. E um belo dia eu me vi num cenário devastador de tuberculose. Primeiro foi meu pai e nas duas semanas seguintes eu tive que cuidar da minha mãe moribunda. Ela não durou muito. Sempre fui um garoto criado ali na barra da saia da mãe. Não sabia fazer nada, tentei arrumar um emprego, mas não consegui nada. Não tive como manter a casa e acabei indo morar na rua.
Por um momento Linda se sentiu egoísta, dizia ter problemas enquanto algumas pessoas tinham problemas de verdade e muito mais graves.
“Fiquei doente também, já estava a ponto de tossir sangue e quando achei que era o meu fim uma mulher muito simpática me ajudou. Acolheu-me como filho, levou-me para dentro da casa dela e salvou minha vida com uns óleos e poções tirados do livro dela. Fiquei grato, pois devia minha vida a ela e passei a fazer tudo por aquela mulher. A Alma tinha uma vida muito agitada, festas cheias de bebidas, jogos e todos os tipos de pecado que possa imaginar. Onde quer que ela fosse eu ia atrás e não demorou muito para me viciar também. Num desses clubes eu conheci a Sofia e ela era a maior safada. Tinha um noivo e o traia com todos os homens que cruzassem seu caminho. E tenho que admitir que fui um deles”.
O rapaz se levantou e pegou uma das agendas que estava na mesa.
“Um dia o noivo descobriu e a matou a facadas naquela sala que você viu. Já os meus pecados foram outros e passei a ser possessivo. Agia como um cão de guarda quando alguém chegava perto de Alma. Um dia o homem da vez era mais forte que eu e mais esperto também. Nós brigamos por ela e ele venceu. Fiquei cego pelo ódio e pelo ciúme e peguei uma arma para matá-lo. E o fiz, porém ele tinha um irmão vingativo que veio atrás de mim. Fui pego de surpresa e levei um tiro no coração, morri praticamente na hora, entretanto não passei tanto tempo morto. Alma fez o mesmo ritual que fiz com você e eu voltei. Não queria. Eu estava literalmente no inferno e me arrependia dos meus pecados. Havia sido um tolo ao me deixar levar pela jogatina, bebedeiras e as prostitutas bonitas e fáceis. Ela usou quatro moças e eu as matei em três dias. Conforme eu as matava mais forte ficava e mais revoltado. No fim acabei matando a Alma também pelo o que me fez”.
Linda o olhava sem saber se acreditava.
— E tudo isso aconteceu a mais de 80 anos, quase 90.
Ela o olhava com dúvida. Era difícil processar toda aquela informação. Ali na frente dela estava um rapaz de 19 anos e não um homem centenário. Ela reparou pela primeira vez que ele estava sem camisa, só com uma calça de moletom. Na testa uma cicatriz de alguma briga e no peito um sinal arredondado de onde devia ser a marca do tiro. A cabeça dela girava, olhava para todos os cantos procurando uma explicação melhor e quando seu olhar cruzou com o dele ela teve certeza que era verdade. O olhar não mentia, podia ver a dor e os anos de experiências só na forma dele olhar.
— O Henrique sabe? – só conseguiu formular isso.
— Não. Eu fico dois ou três anos no lugar e depois me mudo. Já tinha feito esse tipo de ritual, mas nunca os finalizei. Sinto muito, quebrei a minha promessa de não fazer isso com ninguém. Foi o Henrique que escolheu qual o “truque” ele achava mais interessante para fazer e assustar vocês que já estavam acostumados.
— Não tem nada que se possa fazer, né?
Ele apenas negou com um imperceptível aceno de cabeça. A menina se levantou e caminhou até a porta. Ele a seguiu com o olhar e deixou que saísse. Nada mudaria a fato que ela e os amigos estavam fadados ao pior dos destinos.
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