Macabro - 1.0
4 Capítulo 3
E daí que ela se cortou? Nada ia acontecer! O ritual já havia terminado e meninas na idade dela não são mais virgens hoje em dia. A chata da Sofia não retornaria.
Era só o que se passava pela cabeça de Caleb que tentava converse-se de que daria tudo certo. Ele sabia como esse tipo de coisa acabava e nunca era bem. Sentir medo a essa altura de sua vida era bobagem e sem sentido.
Naquela noite ele não dormiu, virou-se e virou-se na cama repetidas vezes passando as cenas na casa como um filme sem fim pela sua mente. Talvez já fosse hora dele ir embora de novo, sair do país e encontrar um lugar em que as pessoas não o conheçam.
Ainda não morou na Japão, quem sabe se der bem lá, muito jovens gostam do lado sobrenatural da vida ou da morte. Grécia também é um bom lugar, mas está meio falido e é possível que não exista tanta gente disposta a pagar pelos serviços dele. A terra do sol nascente sem dúvida é a melhor opção agora.
A noite avançava e o Caleb não foi o único a não pegar no sono. Fernanda continuava impressionada com os acontecimentos da madrugada. Ficou sentada na cama navegando na internet a procura de alguma página que fala sobre o tema de ressurreição após anos de morte.
— É bom você dormir um pouco, nós temos que almoçar amanhã com os seus pais e desse jeito você vai acabar caindo de cara dentro do prato. – o Henrique dizia sonolento ao lado dela no colchão.
— Eu sei que não senti aquilo sozinha! Você também sentiu e não quer falar. Da mesma forma que Linda e Rafael.
— Foi coisa da sua cabeça cansada, já tava tarde e sabe muito bem como são os efeitos especiais do Caleb. – ele a tranqüilizava como sempre fazia quando ela sentia medo.
A garota fechou o computador e a deixou de lado.
— Está certo. Vou dormir.
Parecia tradição passear pela cidade durante algumas poucas semanas para se despedir quando ia embora. Sempre fazia isso. Claro que evitaria o bairro do casarão abandonado.
Pagou o ingresso do museu e subiu as escadas cobertas por carpete vermelho e zanzou pelos corredores sem rumo. Escolheu virar a direita no salão principal e sair em um dos corredores das reproduções de estátuas gregas. Parou em cada uma de cada na fileira de cada lado. Sentada no chão de frente pra uma estátua sem braços e sem cabeça, porém com grandes assas estava a menina que assistiu seu show sem pagar. Tinha quase uma semana que não a via e quase não a viu agora. Estava atrás da escultura do meio do caminho desenhando entretida e sem se importar pelos olhares de curiosidade de quem passava.
A nova atração para ele era vê-la rabiscar formas na prancheta de folhas A3 sem notá-lo. O movimento da mão dela com o lápis e depois passar os dedos por cima para esfumar e dar sombra e volume ao esboço negro o levava para outro plano, uma simples lembrança distante.
Depois de vários movimentos de pescoço ela notou um par de tênis all star parados do seu lado. Os olhos castanhos subiram pelas pernas e passaram pelo tronco até chegar ao rosto já conhecido.
— Eu te conheço! É o lesado! Eu ainda não paguei pela apresentação na praia. – a garota falou brincando com a cara dele.
— E você deve ser a Linda. Não tive chance de me apresentar. Caleb, prazer! – ele sentou junto dela no chão gelado de ladrilhos.
— Sou Linda. – deu a mão esquerda para apertar.
— Dizem que as pessoas que cumprimentam com a mão esquerda são bruxas. – falou sério inclinando a cabeça.
— A direita está suja. Se fizer questão que seja com a direita... – o loiro pegou a mão já estendida e beijou — eu posso mudar.
— Pode terminar sua reprodução que eu espero. – o rapaz a encorajou a continuar.
Ficou ali olhando o jeito como o cabelo caia no rosto dela ao se mexer, como ela mordia o lábio inferior e depois passava a língua no de cima. Ele nem se deu conta que ela tinha terminado e estava parada olhando para ele do mesmo modo que avaliava o objeto na frente deles.
Ela passou as mãos pelos fios escuros e os prendeu com o lápis que usava antes deixando vários soltos. Balançou os dedos na frente dele e os estalou. Caleb despertou do transe e reparou que há anos não encantava-se tanto por alguém como agora.
— Quer ir ao Amarelinho? É do outro lado da praça. – falou com um sorriso lateral lindo.
— Eu sei onde fica. Venho aqui sempre que tenho tempo. – ela deu de ombros.
— Ainda não respondeu. Quer ir ou não? – insistiu.
— Como você adivinhou que estou com fome? – fez charminho – Eu aceito o seu convite, senhor cavaleiro.
Ele levantou e a ajudou a ficar de pé. Saíram do museu em silêncio, atravessaram a rua e depois a outra perpendicular, passaram pela câmera dos vereadores e entraram no bar. O garçom os levou até uma mesa, ela deixou a bolsa e foi no banheiro lavar a mão, quando voltou ele já estava com o cardápio fazendo o pedido.
— E a senhorita vai beber o quê? – o moço perguntou.
— Refrigerante. – depois que o homem se retirou ela perguntou – O quê você pediu?
— O cozido. Sabia que primeiro se chamou Café Rivera? O prédio por ser amarelo deu o nome final. Foi construído em 1922. – ele se perdia em pensamentos.
Linda ficou fascinada com a forma que ele falava da cidade e sua história. Gostava desse tipo de coisa, pessoas que se importava com o lugar onde vivem são raras.
— Você gosta de história? Seus olhos brilham quando você fala. – ela comentou, entretanto foi impedida de continuar quando o garçom chegou.
Caleb terminou de comer primeiro e se perguntou por que ela o prendia tanto. Qual o feitiço que o atraia para ela como a gravidade? As duas horas que passou com ela o deixaram entorpecido e ao mesmo tempo vivo. Vivo de novo como não era há séculos. Os gestos mais comuns e corriqueiros dela não ficaram despercebidos como o fato dela passar a mão pela nuca para tirar o cabelo ou prestar atenção em tudo a sua volta.
— Eu sei que é chato esperar alguém acabar de comer. Desculpe, sou lerda.
— Não por isso.
Depois que pagaram à conta ficaram um tempo no banco da praça. Linda tirou um envelope da bolsa e pegou os papeis para ler.
— Gostei dos efeitos especiais. Não sei como você fez para convencer o Jonathan aceitar ser jogado contra a parede... – e se perdeu na leitura.
— Obrigada. Só que não conto meus segredos para ninguém.
— Fernanda me ligou dois dias depois e perguntou se eu também senti algo estranho na hora que eu me cortei.
— E o que você respondeu? – ele também sentiu e pensou ter sido coisa da imaginação dele.
— Que tive sim uma sensação estranha como se algo muito ruim fosse acontecer. – ela disse por fim.
— Falando nisso, sua mão já melhorou? – ele se lembrou do detalhe desastroso.
— Bastante e tenho uma coisa que te pertence. – pegou o lenço na bolsa e o devolveu.
— Você ficou andando com o meu lenço?
— Foi no caso de encontrar ou a Nanda ou o Henrique. – ela voltou a ler.
A sensação de angústia do dia seis voltou ao ler as folhas enviadas pela amiga. Relatava uma série de casos esquisitos e assustadores envolvendo grupos de amigos. Todos morriam cada um de um jeito entre acidentes inexplicáveis e suicídios improváveis. Algumas garotas relatavam que um espírito aparecia para elas com pertences de seus amigos que eram os próximos a morrer. Logo depois essas meninas também se tornavam vítimas do complexo caso.
Aconteceram inúmeras vezes e tinham registros de três séculos atrás. O número de pessoas em cada caso variava entre três e doce. Em um diário encontrado a pessoa narrava que as fatalidades começavam depois de um ritual estranho para trazer uma pessoa morta de volta a vida.
“Eu, uma virgem, doei meu sangue para banhar objetos pessoais de um homem que morreu. Cortei meu braço e deixei que me usassem, agora ele vem atrás de mim e não posso evitar. Ontem ele apareceu segurando o laço de fita que Laura usa sempre e hoje recebi a noticia que ela morreu afogada na banheira depois de desmaiar”.
Um pequeno trecho estava entre as folhas. As palavras reviraram o estômago dela que parou de ler imediatamente.
— Você já viu isso? – ela perguntou e passou para ele.
Caleb passou pelas folhas brevemente, pois já sabia o que tinha nelas da mesma forma que sabia como todos os casos terminavam e da mesma forma que...
— O que eu mais conheço aconteceu nos anos 20. Quatro moças fizeram o ritual do ressurgimento e morreram em três dias. A virgem que doou o sangue dela foi a última a morrer, durante esse tempo alegou ver um rapaz novo que ela conheceu enquanto ele ainda era vivo e que ele precisava das vidas delas para voltar para a dele.
— Não foi efeito visual, não é? – ela dizia transtornada.
— A Sofia existiu mesmo. Eu não fui até o fim no ritual, nenhuma virgem deu sangue...
— Eu me cortei! – ela interrompeu o raciocínio dele.
— Jura? Virgem? – ele balançou a cabeça negativamente – Nada vai acontecer. Eu finalizei sem o sacrifício de sangue, você viu quando ela sumiu. Estava furiosa por eu brincar daquele jeito com ela. Nunca quis trazê-la de volta.
— Espero que realmente ela não volte para me matar ou matar meus amigos. – ela o fuzilava com o olhar.
— Já tem quase uma semana e nada ocorreu. Não vai mais acontecer. – ele garantia sem certeza de nada e com um único pensamento: chegar em casa e pesquisar.
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