Henrique e Fernanda adoram dar suas festinhas macabras para filhinhos de papais ricos e quase sempre contratam Caleb para ser – digamos dessa forma por falta de um termo melhor – mestre de cerimônia de seus encontros góticos.

Já se passava um ano que não viam seus antigos amigos de ensino médio e antes de se tornarem mercenários da publicidade eles costumavam participar de confraternizações pequenas com os tais amigos onde contavam histórias de terror ou reproduziam alguma coisa aterrorizante.

Há algum tempo eles não tinham mais pessoas companheiras por perto e amizades fazem falta. Porque não promover uma das antigas reuniões chamando todos eles?

- Já faz um bom tempo. – dizia Nanda folheando uma revista qualquer.

- Um ano, eu sei, eu estava lá. Tenho um lugar em mente, ainda não foi usado e podemos estreá-lo desse modo. – Henrique saia do banheiro com a toalha enrolada na cintura.

Os dois moravam juntos a uns seis meses, desde que lucraram mais com os eventos.

- Posso mandar um torpedo convidando todo mundo e com o dia, hora e endereço. Isso é claro se ainda tiverem os mesmos números de telefone.

- Manda também por e-mail. – ele já olhava o calendário e procurava a melhor data para semana que vem.

Detalhes acertados e funcionários contratados só faltava uma coisa para ser um sucesso total, as pessoas comparecerem. A última vez que estavam juntos, uma semana depois da formatura, houve uma briga e alguns tomaram partido, outros se abstiveram. Podia acontecer de ninguém aparecer ou brigarem de novo lá na hora e se tornar um fiasco.


Linda estava sentada no museu, um dos seus lugares favoritos do mundo todo, reproduzindo uma estátua de Apolo, tarefa para sua aula de artes. Ouviu o telefone tocar um alerta de mensagem recebida. Um homem que olhava outra escultura a repreendeu com o olhar e ela sentiu a pele do rosto corar. Acontecia com muita facilidade, não gostava de muita atenção.

O e-mail vinha de um outro bem conhecido. Um ano atrás ela passou por uma fase um tanto complicada. Sua mãe tinha morrido e seu pai casado de novo em um curto período, então ela participava dos encontros promovidos a cada quinze dias para fazer coisas sobrenaturais ou vandalizar lugares privados.

O convite enviado por Fernanda dizia que rolaria um dos antigos encontros, dava a data e a hora com um endereço em anexo. Ela não fazia mais aquilo, não era mais rebelde. Sua psicóloga não aconselharia a relembrar esses momentos.

- Eu não vou! – pensou alto demais.

- Se a senhorita não sabe ficar em silêncio não devia freqüentar museus. – o mesmo homem com cara de esnobe de antes falou ríspido.

- E se o senhor não sabe conviver com as pessoas não deveria sair na rua. – ela adorava dar respostas grossas a algumas pessoas e aquele cidadão tinha acabado de entrar para a longa lista dela.

Linda arrumou o seu material e se retirou do museu entrando no metrô logo depois. Não foi a única a ganhar um convite daquele. Outras moças e rapazes de dezenove e vinte anos paravam seus afazeres e conversas para olhar o nostálgico recado.


“Você também recebeu?” perguntou Rafael no MSN.

“Recebi, mas não vou” respondeu sem muito interesse na conversa e nele.

Ele tinha sido um bom amigo e já não se falavam há meses. Nada pessoal só que ela queria esquecer aqueles indivíduos em particular. Seu pai não dava mais credito a própria filha e não queria voltar a isola-se na casa da tia em Milão. O certo era ficar em casa e não sair no dia marcado.


O barulho dos talheres caros batendo de leve em pratos de mesmo valor era ensurdecedor. A comida descia pesada na garganta e seus olhos vagavam pela sala recém decorada com móveis modernos, os anteriores a esses tinham sidos descartados pela madrasta que não fazia nenhuma questão da presença dela naquela casa.

Até que Milão não era de todo uma má opção. Ficar distante de tudo aqui podia ser calmante, o verdadeiro problema é ficar distante de tudo, tudo mesmo. Não tinha nada lá a fizesse feliz e nem aqui, só as próprias pinturas e desenhos.

- Vi que você saiu de novo hoje para pintar na praia. – a madrasta falou a palavra pintar com desdém desmedido.

- Sai – respostas curtas, quase nunca passavam e cinco palavras.

- Ninguém ganha a vida pintando. Não existe um pintor que tenha feito sucesso em vida. Você devia sair mais, nos acompanhar nas festas, conhecer um rapaz bonito e rico...

- Como você? E dar o golpe do baú em algum otário como o meu pai? Não, obrigada só que não faz o meu estilo.

- Olha como fala com ela. – o homem sentado em silêncio o jantar inteiro agora abriu a boca.

- Eu só estava dizendo que sempre que encontro com a mãe do Rafael ela diz que o filho pergunta por você e eu sei que ele é um bom garoto e de boa família.

- Com licença. – Linda sentia-se enjoada com a falsidade da mulher que ocupava o lugar da mãe dela na mesa.

Ficou lendo no quarto um livro que já tinha lido duas vezes esse mês. O olhar corria das páginas ao celular na escrivania. Seu consciente dizia que não e seu inconsciente gritava de curiosidade. Não lhe custaria nada dar uma rápida passada por lá e revê-los.

Pegou o celular e verificou a hora e o endereço:

Rua 15 de Agosto, 13

11h, dia 6, sexta feira.

Trocou de roupa, pegou a chave do carro e saiu da garagem bem localizada na zona sul. Se corresse não chegaria mais de dez minutos atrasada. Ligou o GPS e seguiu pelas ruas até parar em uma casa abandonada. Um casarão meio destruído e caindo aos pedaços, devia ser invasão de propriedade entrar ali. Como sempre a adrenalina correu pelas veias e a sensação de estar viva de novo a dominou.

O único veículo que reconhecia na rua era uma moto kawasaki ninja que pertencia ao Henrique da um ano e meio. Estacionou o carro perto do portão de ferro enferrujado da casa. Entrou devagar pela brecha da corrente no portão que rangeu um pouco com a força que ela fez sobre ele. No segundo andar dava para ver uma fraca luz pela janela, provavelmente velas. O mata na entrada estava alto e no meio do jardim um busto esculpido. O cheiro de incenso de cravo era forte e impregnava o ar.

Ao subir os três degraus da varanda a madeira podre reclamou e fez com que Linda hesitasse, entretanto o momento não durou mais que cinco segundos e continuou em frente. Na porta ela sabia muito bem que tinha que bater duas vezes devagar seguidas por três batidas rápidas e mais duas devagar. Sempre foi assim quando era em algum local fechado e não mudaria agora.

Passos foram ouvidos do outro lado da porta de madeira desbotada com o passar dos anos. Uma das portas duplas se abriu e deu passagem a menina. Deu três passos curtos e parou, a escuridão muito densa dificultava a visão e sem uma fonte mínima de luz não tinha como continuar. Sabia como ninguém o estado que casas antigas e mal conservadas ficavam com o tempo e era perigoso andar sozinha pelo espaço que não conhecia.

Do seu lado direito um brilho amarelo ascendeu e chamando sua atenção. Fernanda iluminava o próprio rosto ficando com um ar assustador por causa da maquiagem exagerada e da pele excessivamente cheia de pó de arroz. Linda riu sem vontade e esperou por alguma piadinha sem graça.

- Está sete minutos atrasada, os outros chegaram na hora ou até mais cedo. Eu só ia te esperar por mais cinco minutos. – Nanda reclamava feito uma criança turrona. Sempre foi assim.

- Desculpe Alteza, meu grave erro! – Linda fala seriamente com um toque de comédia – Não voltarei a cometer este pecado rainha das trevas.

- Siga-me! – a gótica passou à dianteira e aumentou o facho da lanterna clareando o caminho. Dirigiu-se para a escada e subiu devagar, cada pisada produzia um barulho desagradável.

O andar superior estava mais claro com velas e pequenas lamparinas dispostas por todo o ambiente. O cômodo escolhido para a reunião foi uma sala de música com piano de calda e gramofone, estante com discos e partitura e alguns sofás e poltronas retiradas do lugar anterior e colocadas nos cantos. No meio um grande tapete empoeirado com uma macha estranha nele.

Olhando em torno viu os oito integrantes da pequena “gangue” de arruaceiros e um rapaz loiro que não conhecia bebendo no gargalo da garrafa de cerveja. Rafael se aproximou e a abraçou.

- Pensei que você não viria.

- Eu também. – disse meio sem graça por ter chamada a atenção do bando.

- Você mudou bastante. – Lucas trazia um copo para entregar a Linda – Pode beber, tem maracujá e cachaça.

- E você não mudou nada. – ela falava rindo um pouco. Lucas era um garoto gorducho desde criança, e não tinha alterado esse fato. Ao lado dele estava Bia, uma estudante de química com intelecto suficiente para saber que eles não eram boa companhia, mesmo assim a ruiva continuava a ser amiga deles.

Mais distante do grupo estava Daniel que brigou com o Jonathan no verão passado. Ambos com estilo de playboy, o motivo da discussão foi banal, tão infantil que metade deles não lembrava mais a causa. Sandrinha sempre chapada curtia uma onda perto do H.

Conversaram e colocaram os assuntos em dia, depois de um tempo Linda se afastou um pouco e ficou brincando com a borda do copo de plástico até ver o quadro que estava encima da lareira de uma moça loira e de cabelos chanel com uma faixa de pena na lateral com os olhos azul safira, colar cumprido de pérolas e vestido de franja. Ficou presa ali e nem notou que Caleb estava atrás dela.

- Foi a última dona da casa! – ele sussurrou no ouvido dela a sobressaltando – Sofia Augusta Pelitz, morreu em 1922 bem no meio do tapete aos 20 aninhos. Dizem que foi o namorado ciumento que a esfaqueou varias vezes e depois se matou com um tiro na cabeça.

- Histórias de terror não me assustam – se virou para ele o reconhecendo – mas você é um bom contador desse tipo de história.

- Como sabe que é isso que eu faço melhor?

- Te vi na praia, umas duas semanas atrás. Os efeitos eram muito bons só que usar uma tradução de dance of death do Iron Maiden foi meio fraca. Um monte de falsos roqueiros rebeldes. – ela disse reparando em Rafael que os olhava seriamente.

- Vejo que você conhece. O que eu posso fazer se meu repertorio está ficando um pouco batido? – ele também reparou o jeito como eram observados – E assistiu a meu show sem pagar, me sinto lesado.

- Quer que eu pague?

- Por você e por quem estava com ta acompanhando naquele dia.

- Eu estava sozinha. – uma ruga de confusão se gerou na testa dela – Não tinha mais ninguém comigo.

Ele deixou passar, sabia o que tinha visto: duas figuras indistintas. Se ela queria esconder a pessoa não era problema dele. Quando verificou as horas já eram 01h55min e o “ritual” tinha horário exato.

Henrique foi bem claro ao dizer que queria ver fantasmas e uma possível cerimônia para trazer a pessoa morta de volta ao reino dos vivos. O cerimonialista não faria para valer, visto que ele passou por um rito desses e sabe o que acontece nesses casos.

Foi posto alguns objetos pessoas da vítima de assassinato no centro de um círculo de velas juntamente com um retrato em preto e branco da mesma. Eles se dispuseram em volta dando as mãos enquanto Caleb começava a falar exatamente as 02h02minh da manhã.

- Daremos início ao nosso ritual! O ritual do ressurgimento é muito complexo e de difícil execução. – com um livro na mão começou a ler um texto em outra língua – Eu sou o portador da chave da porta que liga as almas aos seus corpos.

Um vento inexplicável correu por entre eles e saias e cabelos soltos balançavam descontrolados. As chamas das velas dançavam freneticamente e ruídos de piso de madeira velha eram escutados no andar de baixo. O medo tomou Sandrinha que reproduzia gemidos baixos de angústia.

- Eu quero um objeto antigo que seja da mesma época da falecida, porém que não seja dela. – Caleb bradou e no mesmo instante o medalhão de Linda se soltou do pescoço dela e rolou até os pés dele se juntando as pertences de Sofia.

Linda tentou soltar as mãos e não conseguiu sair da roda. Uma energia os prendia enquanto tentavam largar o elo que os unia. Um relâmpago caiu e iluminou o cômodo antes escuro. O clarão revelou uma imagem que ninguém esperava. No meio deles estava o espectro da morta com a mesma roupa da pintura e suja do próprio sangue parada encarando o ritualista.

Sandrinha que até agora só gemia começou a gritar e se debater. Jonathan tentou atravessar a roda e foi jogado do outro lado da sala só com o olhar furiosa da Loira. Caleb fechou o livro que tinha consigo com uma força exagerada criando eco na sala e levando todo o fenômeno sobrenatural com o som. O vento parou; sandrinha não gritava mais e eles não estavam presos.

Depois de socorrer o garoto ferido eles partiam da mansão outrora bonita. Linda ficou por último junto com Caleb, Rafael e o casal enamorado.

– Eu já estou indo. – a morena anunciou.

– Pode me dar carona? – Rafael nunca perdia a oportunidade de ficar sozinho com ela.

– Claro! – antes de ir para o corredor lembrou do cordão que caiu do pescoço e voltou para pegá-lo.

Andou por cima do tapete até chegar às coisas que ainda estavam no chão. Ao se inclinar esticou o braço e deu mais um passo depositando o peso do corpo naquele pé. A madeira do assoalho cedeu e levantou entrando na mão dela que emitiu um som característico de dor seguido de um palavrão caprichado, o reflexo a fez recuar e esticar o corpo. As gotas de sangue escarlate caíram por cima dos artefatos sujando a maioria.

- Não! – Caleb gritou apreensivo.

Um pulso magnético percorreu a sala vazia e os jovens se entreolharam. Caleb avançou ao encontro da machucada e sacou um lenço no bolso da calça de linho. Pegou na mão dela e retirou o pedaço cortante que ficou preso e enrolou o lenço na mão dela.

- Pensei que mais ninguém usasse lenço hoje em dia. – ela falou brincando.

- Digamos que sou um rapaz antiquado. – ele se abaixou e pegou o medalhão com o nome Linda gravado o limpou e devolveu para o lugar de onde tinha saído.

Os dois puderam sentir, quase que palpável, a raiva que crescia no garoto enciumado.

- Eu tenho que ir, já está tarde e devem ter dado por minha falta. Obrigada pela ajuda.

Linda saiu seguida por Rafael e a única coisa que desejava era ir para casa, tomar um banho e dormir. Passou todo o caminho de volta pensando na incrível cena que tinha visto naquela noite, naquele lugar distante e medonho.

Notas finais
Oi gente, mais um capítulo saindo do forno.