Ma Poésie Lobscurité
1 Solitude
Uma sala isolada, submersa em sombras e iluminada por uma única chama a dançar, emanava do mais puro sopro de melancolia. Alimentava-se o dono de tal lugar de todas as divinas maldições que o mundo poderia lhe oferecer. Arfava, abafado e escuro. Chorava... Suas lágrimas de piche a manchar sua negra capa de grosso tecido. Quanto lhe doía? O que lhe doía? Seu coração vazio, preenchido de medo e ocultismo, como aquele local. Sem vida. Um mínimo sinal de algo vivo ali não havia. Mas queria que estivesse ali. Jamais estaria...
- A luz de velas permite encontrar seu verdadeiro Eu em meio à escuridão... – Queria acreditar em suas palavras, em cada uma delas. As letras pairavam no ar, ricocheteavam nas paredes como um eco profundo. Martelavam sua caixa craniana, a fazendo tilintar como metal em vidro. E doía, doía demais... Solidão tamanha que não suportaria... E assim, chorava mais.
Então, tomou em mãos um pedaço de papel rasgado e uma velha lapiseira. Podia manter-se isolado, mas possuía material escolar, estudava. Começou a prender as palavras que torturavam-no tanto entre as linhas, pensando que assim, talvez, não saltariam em seus tímpanos para estourá-los novamente.Suas letras finas e pequenas delineavam formas poéticas, para quem as visse. A ele, apenas desabafo. Após um suspiro arrastado, a folha preenchida, releu o que havia feito. Novamente as lágrimas brotaram em seus olhos azulados. Levantou-se e saiu da sala.
Demasiado tristes eram seus dias, que passavam de maneira vagarosa. Baixo a capa preta, uma peruca escura, um rosto desolado. Suas mãos trêmulas e frias, enroladas em um gato amaldiçoado. Lábios torcidos em uma linha fina, fantasmagórica. Levaria todos à sua volta ao repugno, mas não se importava. Passou frente ao quadro de avisos do colégio. “Junte-se ao Clube de Literatura e ajude-nos a escrever sua vida! Alegre os dias de todos aqui presentes, deposite aqui sua ajuda! Só não esqueça de assinar, com nome artístico ou pseudônimo. Agradeço-lhes desde já!”. Uma flecha vermelha indicava uma pequena caixa de doações, fechada por todos os lados, com um espaço para depositar a doação. Papéis eram o que ali havia. Hesitou. Retirou dali uma caneta – amarrada por uma corda à caixa – e pegou seu pedaço de caderno rasgado. O assinou e o passou pela pequena fresta no topo da caixa. Havia feito sua boa ação do dia, mesmo que, para ele, não contribuísse com nada. Assim, deu as costas, cabisbaixo, e voltou para sua sala em profunda depressão.
Na Terceira Sala de Música dar-se-ia o início a mais uma atração. Todos vestidos com trajes de garçons e maids, esperando por suas clientes. Meia hora e nada. Aonde teriam ido todas as garotas? Estariam atrasadas? Teriam se esquecido do Host-Bu? Talvez não. Kyoya girava a lapiseira entre os dedos, impaciente – era notável. Todos permaneciam nervosos, até que Haruhi se pronunciou.
- Melhor ir procurá-las...
- Não. Se um membro sair e elas estiverem aqui, podemos perder clientes. – Reclamou Kyoya, frio e calculista.
- Como?! Se não vieram até agora, não vão mais aparecer! – Bufou em resposta, enquanto abria os braços e os alçava no ar.
- Aquiete-se, Haruhi. Podemos ter um dia de folga...
- Mas estou com foooome... – Reclamou Honey, agarrando-se a Mori, que sequer o fitava.
- Já sei! – Tamaki bateu as mãos espalmadas sobre a mesa de chá, com um típico olhar determinado. – Vamos todos procura-las! Assim, se vierem, a sala estará vazia.
- Então irei me trocar. – Haruhi deu de ombros, indo ao vestiário. Após todos com seus típicos uniformes, saíram em bando à procura das garotas. Andaram todo o vasto colégio, chegando ao segundo andar, aonde ouviram gritos histéricos. Entreolharam-se e para lá correram. Um alvoroço, gente demais numa sala só. Não puderam sequer entrar. Uma delas – em especial, Renge – se desvencilhou da multidão e saiu, com um papel rasgado em mãos. De tão empolgadas, as outras mal notaram a saída da amiga, ficando a suspirar e se exaltar.
- O que houve, Renge-chan?
- Um poeta misterioso! Ahhh, linhas tão cheias de amor e tristeza; a necessidade do toque humano... Um romancista!
- Está falando mesmo japonês, Renge? – Disse Hikaru, em uníssono a Kaoru.
- Mas é claro! Hoje de manhã um anjo nos abençoou com sua filosofia, a nós, ao Clube de Literatura! Veja com seus próprios olhos uma palavra dos céus! – Assim a garota entregou o pedaço de folha a um dos gêmeos, que começou a rir descontroladamente.
- Haha, que melação!
- É mesmo, Hikaru!
- Oras! – Renge fez menção de tomar o papel da mão dos gêmeos, mas Kyoya o fez de imediato. Tamaki juntou-se a ele e o leu. Um sorriso esperançoso brotou em seus lábios ao ler aquelas linhas, logo em más intenções.
“ Salva-te, ó alma iludidaPerdida em urros e sussurros do mais puro amor
Platônico! De bom grado,
Que faz cômico minha dor!
Solidão esquecida
Abandonar-me-ia ao menos esta vez?
Em que não posso suportar mais teus encantos
Talvez.
Ó, escuridão desmedida
Amaldiçoa-me o quanto puder
Ama e suporta-me aquele que tiver coragem
Ajuda-me quem morte quiser...”
- Quem foi que escreveu isso? – Perguntou o moreno, ajeitando os óculos sobre a fronte.
- Apenas as paredes saberão! Em suma, não sei.
- E as outras...?
- Parecem apaixonadas pelo escritor misterioso. Bom para o Clube, hohohoho! – E emitiu mais uma de suas pegajosas risadas.
- Fui passado para trás por um indivíduo secreto?! Um nada?! – Tamaki rosnou para os outros.
- Todos fomos. A não ser que desmascaremos o cara, nada irá o impedir de roubar todas as nossas clientes sem ao menos dar as caras... – Completou Hikaru.
- Ou melhor... – Recuperou-se o louro de sua crise – Podemos fazê-lo se juntar ao Host-bu. Garanto que conseguiremos muitas clientes, muito mais lucros...
- Lucros? – Exclamou Kyoya – Ei, Rengue, pode nos dizer quando a carta foi deixada?
- Hoje mesmo, antes das aulas começarem... E a pessoa foi rápida, pois não havia ninguém no corredor naquela hora.
- O-kee. – Disse Tamaki. – Vamos inverstigar. Algum plano, mamãe?
- Podemos comparar caligrafias, olhar todas as pessoas que depositaram cartas pelas câmeras de vigilância da escola ou... fazer vigília em frente ao quadro de avisos, para descobrir quem postou.
- Obaa! Vamos ser detetives desuuu! – Rodopiou Honey, abraçado ao coelhinho.
- Está certo! – Tamaki virou-se para o grupo, com o papel em mãos. – Vamos montar guarda amanhã, para descobrir esse poeta!
- Por quê tenho um mal pressentimento...? – A garota morena suspirou, dando a todos as costas e voltando à sala de música.
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