Ma Chérie

19 Viajando


Notas iniciais
Gente, eu fui pra uma praia passar a virada e lá não tinha internet t.t voltei para casa só agora e já to postando o capítulo. Eu fiz lá, não deu pra me concentrar muito porque todo vizinho resolveu ligar o som bem alto tocando cada música que eu não prefiro comentar. Então eu não curti muito o capítulo, é mais um momento de transição e tudo o mais.

Pov Liz

Estava conferindo se estava tudo corretamente organizado em minha mala pela milésima vez. O medo de esquecer alguma coisa sempre me deixava com uma leve obsessão de conferir tudo repetidas vezes. Escutei duas batidas educadas na porta, quando a abri deparei-me com uma garota oriental com uma expressão impaciente.

–Vamos logo Liz, eu gosto de chegar à rodoviária meia hora antes para evitar imprevistos! – Anne reclamou de minha demora.

–Oui, oui, já estou fechando a mala e... Victoria não chegou ainda? – perguntei mordiscando o meu lábio hesitante.

–Disse que já está no ônibus, você vai conseguir se despedir dela – Anne disse e revirou os olhos – Sinceramente quando aquela for te pedir em namoro já vai estar na hora de pedir em casamento.

Meu rosto ferveu com a simples menção de um casamento entre mim e aquela morena brasileira encantadora. Nas ultimas semanas a nossa relação estava ficando cada vez mais estável, porém ainda mais intensa. Ainda assim Victoria ainda não falava em nada que fosse relacionado a um compromisso. Eu não sabia como abordar o assunto sem gerar uma discussão e isso era o que eu menos almejava no momento. Não podia negar que estar ali, morando no Brasil e convivendo com pessoas tão diferentes estava me mudando aos poucos. Segundo Victoria eu já não estava tão fresca, havia me acostumado com as coisas mais simples e práticas. Muito de minhas raízes europeias ainda permanecia e eu duvidava que conseguisse mudar, porém isso não era importante, mas sim o fato de que ali estava se tornando cada vez mais o meu lar.

Era final de outubro e com ele chegou o simpósio ao qual ocorreria na UERJ. Anne havia me convidado para acompanha-la e ver como a dança poderia fazer diferença na apresentação dos trabalhos realizados pela região. Eu não resisti à oportunidade, mas também hesitava sempre que pensava que deixaria Victoria por quatro dias. Isso me irritava um pouco. Costumava me vangloriar de minha independência, de que poderia fazer tudo o que quisesse desde que mantivesse a classe a civilidade, porém ali estava eu hesitando de ir a algum lugar por causa de alguém.

Soltando um suspiro cansado, fui fechar a minha mala depois de dar uma última checada. Eu havia lutado durante horas para conseguir colocar tudo o que era necessário em uma única mala. Isso foi um terrível desafio para uma mulher como eu, acostumada a viajar por dois dias e levar facilmente duas malas enormes apenas para garantir que teria de tudo a minha disposição. Quando finalmente saí do meu quarto vi Anne erguer as mãos para o alto e quase cantar aleluia. Aquela japonesinha sabia como ser dramática.

–Nós só vamos...

–Consegui!

Anne nunca conseguiu terminar de dizer o que pretendia, Victoria rompeu a porta de uma maneira tão desesperada que eu acabei rindo. Ela estava ofegante como se tivesse corrido pelas escadas ao invés de usar o elevador. A maior preocupação dela era de ir trabalhar e não conseguir voltar a tempo de se despedir, tinha até pensado em faltar, porém a convenci do contrário. Ela ofegava e mostrava o dedo do meio para alguma piadinha que Anne tinha feito, mas ao olhar para mim lançou-me o seu lindo sorriso.

–Você está linda! – ela exclamou com sinceridade.

Sorri e sem jeito coloquei parte de meu cabelo atrás da orelha. Ela sempre conseguia me deixar daquele jeito quando vinha com seus sorrisos, elogios sinceros e diretos. Victoria avançou e pegou minha mão, me fazendo dar uma volta e consequentemente fazendo a barra de meu vestido vermelho erguer-se por causa de seu tecido leve.

–Onde eu coloquei minhas algemas? Vou te prender e você não vai! – Victoria falou um tanto sério, como se considerasse mesmo fazer aquilo.

–Nem vem, ela vai ser minha por quatro dias! – Anne logo me puxou para longe de Vic que prontamente fez uma careta.

–Eu já começo a me arrepender de não ir – Victoria reclamou fazendo um beicinho involuntário.

–Você precisa guardar suas folgas, não esqueça que vamos para o Festival Primavera lá da Bahia – Anne lembrou em tom de ameaça.

Elas duas falavam sobre esse festival desde o inicio da semana, quando Pierre em um jantar entre amigos deixou escapar que queria ir para o evento. Seria logo em novembro e ele já estava procurando por uma pousada para nós quatro. Victoria estava mais do que animada para ir ao festival desde que descobriu que um de seus cantores favoritos estaria lá. Acho que se chamava Nando Reis. Desde então ela estava fazendo todos os desejos de sua chefe para poder conseguir as folgas de sexta e segunda-feira.

–Vou deixar vocês duas se despedirem, mas apenas dez minutos! – Anne avisou e caminhou em direção à porta – Estarei aqui fora contando o tempo, não podemos nos atrasar.

Anne odiava atrasos. Assim que a nossa vizinha saiu, Victoria se aproximou a passos largos e me agarrou de supetão, jogando nossos corpos no sofá e me abraçando com força. Eu estaria rindo se não soubesse que só sentiria meu coração disparando daquele jeito novamente apenas em quatro longos dias. Ela escondeu o rosto em meu pescoço e passou o primeiro minuto ali, parecendo querer gravar o calor de meu corpo perto do dela.

–Eu já estou com saudades – ela falou tentando esconder o tom choroso.

–São apenas quatro dias, irá passar rápido mon amour – falei acariciando o cabelo escuro dela gentilmente.

–Então tenho de te dar um beijo que não irá se esquecer durante quatro dias!

Antes que eu falasse qualquer coisa aquela boca estava sobre a minha. Nunca pensei que um dia iria sentir as mesmas sensações que lia nos romances quando adolescente. Mas minha barriga parecia ter mil borboletas e o mundo parecia girar enquanto Vic beijava-me com uma vontade enlouquecedora. Não me importei em deixa-la comandar o beijo, afinal estava tomando todo o meu ar em questão de segundos. Apenas retribuía realizando movimentos com a língua que tornava o nosso beijo ainda mais sincronizado e malditamente delicioso. Eu estava tão distraída que quando uma almofada atingiu minha cabeça eu tomei um tremendo susto.

–Mas que inferno Anne! – Victoria quase gritou.

–Já se passaram quinze minutos e vocês nem estavam me escutando! – Anne se defendeu.

Quinze minutos? Como pudera ser tão rápido um beijo que provavelmente foi demorado? Respirei fundo e senti meus lábios inchados, o que comprovava que o beijo teve mesmo toda aquela duração. Levantei do sofá quase sem conseguir me desvencilhar dos braços de Victoria que teimosamente ainda me seguravam até o ultimo instante.

–Eu deveria ir com vocês até a rodoviária – ela resmungou também levantando.

Non, já conversamos sobre isso – neguei prontamente – Ficará tarde demais para você voltar sozinha, é perigoso!

Mesmo ficando emburrada com isso, Victoria nos acompanhou até o ponto de ônibus, o tempo todo com a mão entrelaçada a minha. Enquanto o ônibus não vinha, ela falava dos lugares que eu deveria conhecer no Rio de Janeiro e fazia Anne prometer que ficaria de olho em mim para que eu não me perdesse. Eu adorava aquela proteção toda, mas não poderia revelar o quanto.

Je ne suis pas criança, Victoria! – exclamei tentando implicar um tom irritado a minha voz.

–Acho bom você entrar em aulas de francês logo Vic – Anne comentou ao meu lado – E olha lá, nosso ônibus está vindo!

–Eu não preciso de francês, eu consigo ler os olhos dela! – Victoria falou apenas para contrariar a amiga.

–Sim, quero só ver se vai entender os gemidos dela quando estiverem na cama!

Aquilo fez com que eu ficasse vermelha como um pimentão e, para minha adorável surpresa, Vic também tivera suas bochechas e pescoço tomados por aquele tom de vergonha. Antes que pudéssemos falar qualquer coisa, Anne segurou em meu braço e começou a me puxar. Victoria me acompanhou e ainda conseguiu roubar um selinho antes que eu entrasse definitivamente no ônibus.

–Francamente, não sei por que ela não fez a proposta ainda – Anne falou impaciente.

–De verdade, acho que ela apenas precisa de tempo para aceitar a ideia – argumentei enquanto puxava minha mala pelo corredor do veículo e achava finalmente um acento.

–Você já está começando a entendê-la, isso é bom!

Suspirei e passei o resto do caminho em silêncio, perdida em divagações em como aquele meu romance era no mínimo inusitado. Eu era uma garota que fugiu de casa, que tinha um sangue nobre e que cresceu na nata da sociedade europeia. Victoria era uma brasileira desleixada, que gostava de curtir a vida e era verdadeiramente espontânea. De alguma forma o destino nos havia colocado juntas e um amor começava a surgir. Estava aprendendo, pouco a pouco, que o amor que eu idealizava era um pouco diferente do que realmente acontecia.

Chegamos à rodoviária bem no horário, o ônibus fora mais lerdo que nos planos de Anne, o que resultou em uma correria para conseguir pegar as passagens e embarcar. Quando finalmente estávamos lá dentro Anne começou a falar de outros eventos de dança que havia participado e contou até mesmo de seus primeiros grupos de dança quando ainda estava no colegial.

–Eu adorava dançar – ela disse em determinado momento – Porque não exigia nada de mim além da expressão de minhas emoções através de meu corpo. Claro, um pouco de disciplina, um pouco de regras, mas ainda assim uma forma de libertação.

–É o mesmo que eu sinto – concordei em um suspiro – Eram tantas regras a serem seguidos, tantos padrões comportamentais a serem repetidos.

–Meus pais são bem tradicionais, ainda mais o meu pai. Ele tinha todo o meu futuro planejado nos mínimos detalhes – Anne contou e seu olhar se tornou um pouco distante – Não o culpo, meu avô era ainda mais exigente. Mas eu precisava seguir meus próprios passos, no meu próprio ritmo.

–Fazer seu próprio caminho – acrescentei e suspirei – e lidar com as consequências. Acho que é isso que se chama independência, certo?

Anne sorriu com cumplicidade. Naquele momento percebi o quanto tínhamos em comum além da paixão pela dança. Sabia pouco sobre aquela garota, mas reconhecia o tom amargo de uma infância e adolescência sendo controlada pelos pais e parentes.

–E como você conheceu a Victoria? – indaguei curiosa.

–Ah essa é uma boa história – Anne ria antes mesmo de começar – Eu já estava no prédio e já estava feliz da vida porque o antigo vizinho era um pé no saco, não me deixava escutar música alta para poder dançar. De inicio Victoria estava mais quieta, estava triste por ter saído de casa da forma que saiu. Só vim a conversar mesmo com ela quando nos encontramos de novo em um bar. Ela já estava alterada e me desafiou para uma competição de viradas de tequila. Eu nada sabia daquela garota, mas quando um ex meu apareceu para me encher o saco a Vic prontamente disse que estava comigo.

–O que? – perguntei completamente surpresa, Anne e Vic pareciam tão irmãs que era impossível imaginar algum tipo de relacionamento entre elas.

–Calma que vai piorar, ele não acreditou e então aquela vadia me deu um beijo. Tipo um selinho. Eu fiquei tão chocada que fiquei paralisada, o idiota do Igor foi afastado por ela e tudo o que eu lembro depois foi de ter dado um tapa na cara dela.

Eu não consegui conter o riso ao imaginar aquela cena em minha mente. Talvez eu devesse sentir ciúme, mas era da Anne que estava falando, de alguma forma eu tinha a plena certeza de que nada acontecia entre as amigas e vizinhas.

–Depois não nos falamos direito, até nos encontrarmos em outra balada e eu estava em outra encrenca com outro garoto – Anne continuou – Ela estava lá e de última hora me aproximei e disse que estava com a Victoria. Nunca vou esquecer a cara dela de indignação, mas logo cooperou e me fez pagar todas as suas próximas rodadas. Desde então ficamos amigas e ficamos do jeito que estamos hoje.

Continuamos a conversar durante alguns minutos até que ela caiu no sono, embalada pelo ritmo do ônibus. Eu não conseguiria dormir, nunca antes havia passado tanto tempo dentro de um veículo como aquele, ou melhor, nunca havia viajado tanto tempo a não ser de avião. Eu mal sabia o que esperar dessa viagem, mas sabia que a sensação que apertava o meu peito era a mais pura saudade, inexplicável já que só havia passado poucas horas desde que tinha visto Victoria. Porém só confirmava o que eu já sabia: eu estava perdidamente apaixonada pela brasileira.

Notas finais
Próximo capítulo personagem novo! Espero que gostem ;3