Ma Chérie
21 Nicoly
Notas iniciais
POV Liz
Eu já havia participado de muitos eventos similares a simpósios e congressos. Mas nada se comparava ao que eu estava vendo ali na UERJ. Era muito simples, diria até mesmo que desorganizado em algumas coisas, carentes de um aparato tecnológico melhor. Mas os temas e os debates eram tão ricos! E os trabalhos que eram feitos? Eu não pude deixar de me emocionar com o depoimento pessoal de uma garotinha cega que encontrou na dança a forma de se expressar com o corpo e superar a depressão. A participação da psicóloga para explicar como a dança ajudava com a saúde mental dos deficientes foi brilhante!
Não pude deixar de me aproximar da diretora da ONG que promovia as aulas para os deficientes e parabeniza-la com todo o vigor que minhas palavras requintadas poderia permitir. Ela ficou tímida, envergonhada, mas com um enorme sorriso orgulhoso. Convidou-me até a ir à organização, passando-me um cartão de visitas para que pudesse ver de perto o que era feito. Chegou a comentar a necessidade de voluntários e eu não podia negar que senti um enorme anseio de fazer parte de algo tão bonito e importante, por mais simples que fosse.
Fiquei tão distraída nessa conversa com a diretora, que perdi a noção de tempo. Quando percebi a falha que estava cometendo senti meu coração disparar. Em minha mente vinha o enorme sermão que meu pai daria caso eu chegasse atrasada para algum encontro, deixando-me acuada e culpada. Por isso fiz uma rápida e educada despedida, prometendo aparecer algum dia na ONG.
Assim, praticamente corri, na medida do que era considerado elegante, óbvio, para alcançar o ponto de encontro com Anne. Porém qual a minha enorme surpresa ao deparar-me com Nicoly Laurel Sinclair, a minha monitora de português quando eu e Pierre decidimos tomar aulas dessa língua. Uma bastarda de uma família nobre, que causou um enorme escândalo ao preferir a família brasileira de classe média à assumir o império de empresas do Conde Sinclair, seu avô. Ah, aquela loira era definitivamente uma das minhas pessoas favoritas em todo o mundo!
Porém encontra-la ali foi um choque. Ainda mais quando ela quase revelou que eu era da nobreza europeia para Anne. Guardar esse detalhe estava me corroendo, um segredo que pesava a cada dia que passava. Meu medo? De que ao descobrirem de quem eu era filha, tudo mudasse, que eles me vissem diferente, que me odiassem por estar mentindo. Eu ainda não poderia simplesmente me aproximar e dizer: “Excusez-moi, eu queria dizer que eu sou filha do Duque Roux e que o jantar já está servido”.
–O que você aprontou? – Nicoly perguntou ao meu lado, chamando minha atenção para o momento atual.
–Podemos ir para um lugar mais reservado? – pedi um pouco sem jeito, com o olhar baixo.
–Meu apartamento não é longe e Amara e Luana, minhas colegas de quarto, não vão estar lá tão cedo – Nicoly propôs.
Apenas acenei com a cabeça, aceitando a sugestão. Seguimos em silêncio até um ponto de ônibus, eu estava agradecendo mentalmente por não ser um horário de pico. Se em Santa Mônica as coisas já eram levemente complicadas com o transporte público, na capital era ainda pior.
–Ok, eu não estou aguentando de curiosidade – Nicoly começou assim que sentamos no ônibus – Ao menos me diga onde está?
–Santa Mônica, uma cidade perto daqui – respondi arrumando minha postura – Como mademoiselle Anne mesmo informou, estou trabalhando como professora de dança em uma escola de dança.
–Meu Deus – Nicoly murmurou incrédula e começou a rir – Definitivamente vou querer saber essa história com todos os detalhes possíveis. Então você está com o Pierre?
–Você sabe que ele está aqui? Por que ele não me informou nada?
–Ah, quando ele veio pro Brasil, depois de mim, chegamos a ficar em contato, mas então mudei para Porto Alegre, voltei para o Rio faz um ano e meio apenas. Ai você sabe como eu sou, acabei me esquecendo de avisar a ele.
Soltei um riso baixo, compreendendo bem o que Nicoly estava falando com uma careta no rosto. Ela era sem sombras de dúvidas a pessoa mais sem sentido que eu conhecia. Por vezes ela era capaz de parar tudo o que estava fazendo para ficar observando algo que achou bonito e quer desenhar. Ou então desviar completamente o caminho que estava fazendo por ter encontrado algo mais interessante, esquecendo-se completamente de seu destino original.
Felizmente o apartamento dela era realmente perto, não demoramos quinze minutos dentro do ônibus. O lugar era em um edifício que deveria ter por volta de dez andares. Passamos por um porteiro distraído e seguimos pela escada mesmo, já que Nic alegou que o elevador demorava demais e o apartamento ficava no terceiro andar. Assim que entramos, eu poderia passar a tarde inteira descrevendo aquele lugar.
Todas as paredes estavam com desenhos artísticos. A da sala de estar possuía a mais vibrante, uma pintura de uma garota com um livro nas mãos, como se estivesse realmente sentada de lado no chão e do livro saltando diversas imagens que se mesclavam. Criaturas fantásticas, corações, guerreiros, notas musicais e várias outras pinturas que saiam do livro. Na parede onde estava a televisão e um aparelho de som havia pinturas monocromáticas e com belos efeitos de sombras de uma banda e coisas relativas a música, com um ar meio retro. Na cozinha havia coisas mais fofas, como borboletas com cores vibrantes, flores e traços ondulados de várias cores. Em uma das paredes onde se encontrava a mesa para jantar, havia um desenho do corpo humano, mas com todos os órgãos a mostra, ao seu lado o desenho perfeito de um coração humano.
–Ah, Amara faz medicina, fiz o desenho pra ajudar ela a estudar. Vou fazer a de um cérebro quando ela estiver pegando neuroanatomia – Nic comentou como se fosse nada demais.
–Você ainda desenha muito bem, très magnifique! – elogiei sincera, ainda sem conseguir captar todos os desenhos que haviam nas paredes.
–É o que eu faço quando estou com tédio e sem vontade de sair de casa – ela deu de ombros – Quer beber algo? Eu acho que ainda tem suco na geladeira.
–Oui, merci – agradeci prontamente – Na verdade... Estou com um pouco de fome, poderíamos pedir algo, evidentemente que eu pagaria.
–Deixe disso! Tem alguns cookies aqui, ao menos da última vez que eu olhei tinha.
Nicoly foi pegar a comida e pediu para que eu sentasse no sofá branco que havia na sala. Assim o fim, mas não tive de esperar muito, logo ela chegava com uma bandeja com cookies de chocolate e suco de manga. Servimo-nos e ela não esperou nem que eu desse a minha segunda mordida para exigir que eu explicasse o que estava acontecendo. Respirei fundo e comecei a contar a história desde o princípio, do pedido de casamento arranjado até a minha vinda ao simpósio. Claro que ela abriu um verdadeiro interrogatório sobre Victoria e como tudo aconteceu. Eu corei diversas vezes, sentia borboletas em meu estômago revirando de saudades de minha brasileira enquanto falava sobre ela. Eu não conseguia conter o ar bobo que tinha, ou o tom apaixonado e admirado quando ia falar de algo que ela fez e me impressionou.
–Mas você não contou a ela sobre suas origens – Nicoly deduziu ao ver que em nenhum momento eu não comentei sobre essa questão.
–Não – neguei encolhendo meus ombros e abaixando o olhar culpada – Eu... Eu não sei se devo ou como devo contar isso. Eu tenho tanto medo da reação dela! E se ela me deixar por causa disso? – meu coração disparou e eu arfei com a simples ideia, erguendo meu olhar prontamente – Eu não posso perdê-la Nic! Não agora que eu a encontrei!
–Calma, entendi – Nicoly falou mansamente – Mas ainda acho que ela deve saber sobre esse pequeno detalhe. Se ela descobrir por outros, seria ainda pior, não acha?
Soltei um longo suspiro, certamente que seria terrivelmente pior se Victoria descobrisse por outros o meu segredo. Passei a mão pelo cabelo nervosa, mas antes que o assunto se prolongasse, meu celular vibrou constantemente, denunciando uma nova chamada. Peguei o aparelho e vi que era Anne. Atendi prontamente.
–Salut, Anne – falei assim que a chamada foi aceita.
–Vou ser bem direta – Anne começou – Victoria me ligou perguntando sobre você, parece que ela tentava ligar para você e não conseguia, caía direto na caixa. Eu consegui só na terceira vez e isso porque meu próprio sinal está terrível. Então ela meio que percebeu que eu deixei você sozinha com uma garota e que eu não sei onde você está. Estou me sentindo culpada pelo jeito que ela ficou. Poderia me dizer onde você está?
–Estou na casa da Nicoly – expliquei e mordi o lábio inferior – Será que eu a deixei preocupada?
–Se ela souber que você está sozinha na casa de uma garota gostosa como a Nicoly ela estaria com um puta ciúme, e não preocupada – Anne riu alto – Eu ainda poderia zoar dizendo que Nic e Vic são apelidos muito parecidos!
–Non! – exclamei prontamente – Nicoly é apenas uma amiga! Je jure devant Dieu!
–Eu sei, mas a Vic não sabe – Anne continuou a atormentar e a rir – Mas enfim, vai demorar?
–É a japinha? – Nicoly abriu um enorme sorriso, exibindo suas covinhas sapecas – A chame para cá, podemos pedir pizza para o jantar!
Olhei para Nicoly arqueando as sobrancelhas. Porque eu tinha a sensação de que seus olhos de safira estavam mais brilhantes apenas com a hipótese da pequena Anne vim para cá?
–Qual é, vai ser divertido – Nic deu de ombros – Aprece-se e chame logo ela. Assim podemos conversar mais sobre o simpósio e outras coisas.
–Oui – acabei concordando, o que haveria demais – Anne, mademoiselle Nicoly está convidando você a sua residência para jantar pizza, apesar de eu nunca considerar isso uma refeição decente a ser feita.
–Ah – Anne soltou uma expressão de surpresa – Diga a ela para pedir de frango catupiry para mim e com borda de cream chease. E que ela que vai pagar a minha parte, é o que eu mereço por ter sequestrado a minha amiga, ok?
Ri baixinho e repassei o recado, Nicoly soltou uma gargalhada que provavelmente foi escutada por Anne, pois ela também riu. Passei o endereço da garota loira para Anne antes de desligar. Nic foi pedir a pizza enquanto eu rapidamente discava os números de Victoria. Minha barriga revirava em expectativa em escutar a sua voz, mas meu coração estava vacilante em sua reação. A saudade era imensa, afinal eu estava acostumada a vê-la todos os dias, em todas as noites. Raramente ela estava saindo sem mim agora, o que deixava nosso tempo ainda mais entrelaçado.
–Elizabeth Aimeé! – Victoria exclamou assim que atendeu a chamada.
–Salut, mon amour – atendi hesitante – Pardon, aqui não estava com o sinal bom.
–Onde você está? – ela exigiu saber, tentando parecer calma, mas eu sabia que ela estava apenas tentando.
–Permitiria que eu explicasse a situação desde o princípio? Assim evitaria pequenas interpretações errôneas – comecei de maneira delicada.
–Não estou gostando disso, só para deixar claro desde já – ela resmungou e suspirou – Mas fale logo o que aconteceu.
–Eu encontrei uma amiga de minha adolescência aqui – expliquei em um tom calmo – Nicoly foi minha mentora de português nas aulas que eu e Pierre estávamos frequentando. Ela era brasileira e estava concluindo o ensino médio na Europa, porém retornou assim que terminou o último ano. Foi por puro acaso que nos encontramos no simpósio, ela estava com mademoiselle Anne.
–E por que a Anne não está com você? – Victoria perguntou, mas seu tom já estava mais tranquilo, apesar de poder notar a desconfiança ocasionada pelo ciúme.
–Anne foi delicada e perceptível o suficiente para compreender que eu precisava de um tempo com minha antiga amiga para podermos conversar. Ela provavelmente se sentiria deslocada e preferiu buscar algo para fazer por si mesma.
–Típico dela, aquela baixinha odeia se sentir excluída. Ok, um voto de confiança nessa Nicoly, só me diga que ela é feia e eu me sentirei melhor.
–Oui, ela é feia – disse em tom risonho – Mas digo apenas porque você pediu que a definisse assim.
–Vai me dizer que para completar você está com uma garota bonita?!
–Segundo a Anne a poucos minutos atrás a estava classificando como uma gostosa loira – provoquei propositalmente, eu tinha de admitir que a achava fofo soltando aqueles suspiros e gemidos frustrados no celular.
–Anne disse que eu era gostosa? – Nicoly apareceu segurando o seu celular, sorrindo convencida.
–Oui, com todas as letras desse adjetivo – confirmei e ri baixinho – Mas não diga que as repeti, ou ela me matará a mordidas.
–Com certeza vai – Victoria falou no celular e pareceu respirar fundo – Estou chegando em casa agora. É deprimente não poder dizer “Ma chérie, cheguei” quando abro a porta. Advinha qual vai ser o meu jantar?
–Não diga que vai ser miojo!
–Eu o digo apenas porque você pediu que eu não dissesse – ela rebateu com a mesma brincadeira que eu fiz antes.
–Victoria!
–Viu? Isso que acontece quando você não está aqui – Victoria choramingou um pouco e riu – Deus, estou tão dependente de você que chega a ser vergonhoso.
–Acho que na verdade você está com saudades de mim – comentei em um tom mais baixo.
–Você não faz ideia do quanto – Victoria murmurou de maneira intensa, me fazendo morder o lábio e fechar os olhos – Sinto sua falta, Liz.
–Falta só mais três dias – tentei convencer a mim mesma.
–Só três dias – ela repetiu de maneira irônica e suspirou – Preciso tomar um banho, cozinhar um delicioso miojo de frango caipira e trabalhar em uma arte nova. Você pode me ligar quando chegar a seu hotel? Ai poderá me contar como foi no simpósio sem atrapalhar nada.
–Oui – aceitei, mas não queria realmente desligar – Ligarei e ficarei conversando com você até que durma, Anne provavelmente ficará escutando música com seus fones de ouvido.
–Ou escutando a conversa e fazendo comentários intrometidos.
–Ou isso – rimos juntas e depois fez-se alguns segundos de silêncio – Temos de desligar, não é?
–Sim... Até mais tarde, mon ange.
Victoria desligou e eu deixei um suspiro escapar enquanto ficava encarando o celular. A saudade começava a aumentar sempre que eu percebia que não poderia olhá-la e beijá-la naquela noite por ser tão fofa. Ergui meu olhar e vi que Nicoly tinha um caderno sobre as mãos e rabiscava, alternando os olhares de mim para a folha.
–O que está desenhando? – perguntei curiosa.
–Você – Nicoly sorriu grande – O jeito que seus olhos brilharam o tempo todo e ficava sorrindo que nem uma idiota apaixonada. É realmente lindo encontrar alguém que está nesse estado, apesar de levemente engraçado, porque está sorrindo até agora – ela olhou para o papel e revirou os olhos – Mas também é muito difícil captar isso em um desenho rápido, é muito mais intenso do que consigo transmitir.
Ela jogou o caderno sobre a mesa perdendo o interesse sobre o desenho. Prontamente levantei e me aproximei para olhar. Assim que pude vislumbrar o rascunho que ela fazia, meus olhos se arregalaram em surpresa. Ali havia todo o meu rosto, até mesmo uma forma incompleta de um celular em meu ouvido. O desenho realístico parecia absorver todos os meus detalhes, principalmente dos olhos e da boca que tinha aquele sorriso meio de lado. Estava incompleto, apenas com algumas partes com sombras e com apenas o cabelo que moldava o meu rosto, inclusive a minha franja. Ainda assim, para o pouco tempo que ela teve para fazer aquilo, era surpreendente.
–Você fica mais bonita apaixonada do que está ai no papel – Nicoly comentou e deu de ombros, a companhia tocou – Opa, espero que seja a japonesinha!
Ela saltou da cadeira e foi atender quase saltitante. Mas era o entregador de pizza, foi realmente engraçado a ver perdendo a animação instantaneamente. Acho que o próprio entregador ficou sem jeito com aquela reação. Ela colocou a pizza sobre a mesa e mais uma vez a companhia tocou, Nicoly foi atender mais tranquila, mas dessa vez era Anne.
–Admita, você estava morrendo de saudades minhas e não aguentou a primeira oportunidade para me ver novamente – Anne dizia enquanto entrava sem esperar por um convite.
–Ah sim, a loira gostosa aqui admite isso – Nicoly provocou de volta.
Anne arregalou os olhos, mesmo para a sua versão de olhinhos puxados orientais, e olhou para mim. De repente meu desenho criou um interesse ainda maior, pois foi ali onde repousei minha atenção para evitar encará-la e denunciar a minha garfe. Mas ao que parece, ela ignorou e logo estava vindo para comer a pizza, alegando estar morrendo de fome.
Nicoly guardou o seu caderno e serviu a mesa da maneira correta, ao que parecia certos costumes arduamente aprendidos não eram esquecidos tão facilmente. O resto da noite foi realmente divertida. Comemos bastante até me sentir estourando de tão cheia, a pizza estava deliciosa, apesar de ainda não considerar aquela uma refeição apropriada. Nicoly e Anne ficavam se provocando o tempo todo, mas de uma maneira completamente inteligente e engraçada, arrancando altas risadas de todos nós. Saímos de lá antes mesmo das companheiras de apartamento de Nicoly chegar, mas não sem antes prometer que iriamos ao simpósio juntas no dia seguinte.
Assim como prometi, liguei para Victoria assim que terminei de tomar banho e deitei na cama do hotel. Como a brasileira previu, Anne ficou escutando boa parte da conversa e soltando alfinetadas e comentários desnecessários, mas logo foi escutar música para dormir. Contei tudo sobre o meu dia para Victoria e ela fez o mesmo, falando até mesmo da nova arte que deveria fazer. Em verdade, só desligamos quando Victoria já não aguentava mais manter-se acordada, o dia exaustivo dela no trabalho a estava consumindo e eu lamentava não estar lá para aplicar uma massagem.
Faltavam apenas três dias para poder retornar, apenas três longos dias.
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