Ma Chérie

16 Jardim de Santa Mônica


Notas iniciais
Gente! Primeiro que eu nem vou falar dessa manutenção do Nyah né? Segundo, eu viajei pro festival primavera que acontece em Morro de São Paulo (não é em SP não, é um lugar na Bahia mesmo q). Teve show de Ju Moraes, Nando Reis e Carlinhos Brown a beira mar! Foi lindo lindo, eu quero voltar pra lá! t-t Mas enfim, ta aqui mais um capítulo para vocês, perdão a demora! Ah, vou fazer de tudo pra postar o capítulo antes de minha viagem pra Niterói, é semana que vem!

Pov Vic

Outubro havia chegado com duas datas que eu mais adorava durante o ano: dia das crianças e halloween. Geralmente na primeira semana desse mês eu já estaria planejando as festas, procurando uma fantasia sexy e pentelhando como se fosse uma adolescente novamente. Mas nada disso aconteceu. Eu estava com uma aflição cada vez mais crescente, já que desde o dia do churrasco na casa de Pierre nada demais havia acontecido. E já era quinta-feira.

Naqueles últimos dias Elizabeth estava chegando mais tarde em casa, ao que parecia estava dando aulas extras depois do seu expediente. Quando chegava ao apartamento estava com um sorriso cansado e tendo de aturar minhas comidas instantâneas ou algo bastante simples. Passávamos uma hora ou duas juntas assistindo televisão ou conversando. Eu não tinha coragem de fazer algo a mais, apesar de tudo eu não tinha tanta percepção do momento certo para fazer as coisas e isso me deixava acuada. Precisava fazer algo urgentemente e isso estava me matando! E o pior? Henrique ainda cheirava a ameaça para mim. Uma das primeiras coisas que fiz na segunda-feira assim que cheguei ao apartamento foi perguntar do garoto para a minha ruiva. Ela deu de ombros e apenas disse que ele não tinha ido. Porém terça-feira ela havia chegado um pouco hesitante e revelado, com todo o seu jeito gentil e diplomático, que ele tinha ido procura-la para pedir desculpas e até convidado para sair como sinal de “paz”. Minha sorte foi que Elizabeth inventou que estaria ocupada naquele final de semana.

Eu precisava fazer algo, só não sabia o que! Cortejar já não era mais fácil quanto parecia a princípio, não quando o destino de meu coração estava em jogo. Soltei um longo suspiro e fiquei olhando para a tela de meu computador dividindo minha atenção na produção de uma arte gráfica e os problemas que estava enfrentando. Encontrava-me tão distraída que não notei quando Aline, minha chefe, apareceu ao meu lado e me chamou. Assim eu tomei um baita de um susto quando ela bateu no espaço da mesa ao lado de meu teclado, me fazendo pular na cadeira e levar prontamente a mão para o peito.

–Ai que porra... Aline! – os restos das palavras de xingamentos morreram assim que eu vi quem era.

–Em que mundo você estava? – inquiriu minha patroa entre curiosa e irritada – Te chamei umas três vezes!

–Desculpa, foi mal – pedi com sinceridade, pigarrei para tentar me concertar e a encarei com um sorriso descarado – Em que eu posso ajudar a minha linda, morena e gostosa chefezinha?

Ela revirou os olhos tentando não sorrir. Aline era bissexual, mas casada e mãe de uma garotinha de cinco anos. Dirigia todo aquele lugar com mãos de ferro, não aceitando um erro sequer ou atrasos. Mas era uma das pessoas mais justas e direitas que eu conhecia, além de ficar linda com aquele terninho feminino.

–Estou querendo que você pegue um trabalho extra, para um amigo que está tentando abrir uma empresa no Rio. Preciso que faça isso agora, transfira o seu trabalho para o Davi – Aline começou a falar naquele tom mandão que já era natural dela – Preciso que seja rápida e criativa.

–Posso tentar negociar? – ousei pedir arqueando uma sobrancelha.

–Tente.

–Se eu conseguir adiantar e terminar antes, eu posso ter à tarde de sábado livre?

Uma boa forma de começar algo com minha menina era tendo um tempo livre para ela. Começar a trabalhar às oito horas da manhã e chegar ao apartamento às sete e meia da noite não ajudava em nada a ter um momento diferente com Liz. Aline olhou-me franzindo o cenho, com uma expressão curiosa, cruzou os braços antes de me perguntar:

–O que está acontecendo? Você nunca pediu algo similar e está diferente. Preciso saber como anda meus melhores funcionários.

–Ah querida, é o de sempre, o que acaba com a vida de alguém. Uma mulher que apareceu em minha vida – não hesitei em contar, afinal eu era simples assim, direta e sem rodeios – Fique surpresa, eu deixo, pois eu estou cortejando uma garota.

–Cortejo? Isso ainda existe Deus do céu? – Aline riu, chamando a atenção dos empregados mais próximos já que geralmente ela era séria – E o que está planejando para o sábado?

–Estou aceitando sugestões – admiti a olhando com interesse – A mulher é... Completamente diferente. Educada, gentil, menininha, burguesinha, delicada e extremamente bonita.

–Onde você achou uma mulher assim?

–Caiu em meus braços, literalmente! – ri com a lembrança e fiz meu melhor bico pidão – Por favor, me ajuda, eu também estou sofrendo com concorrência, um morenão está de olho nela.

–Isso não é de minha conta e nem faz parte de meu trabalho, mas de uma mulher tentando ajudar a outra... Faça algo simples e que a impressione ao mesmo tempo, aproveite que está fazendo um bom clima esses dias e leve ela para passear ao ar livre e...

–Um piquenique no parque! – exclamei quando a ideia estalou em minha mente, sorri grande e quase pulei para abraçar minha chefa – Santo prefeito que reformou aquele lugar, lá está lindo e perfeito para passar uma boa tarde tranquila.

–Agora que está decidida – Aline respirou fundo e assumiu a sua expressão profissional – Acho que você tem muito que fazer, srta. Carvalho.

Abri um enorme sorriso, toda aquela sensação ruim que estava sumindo desapareceu agora que eu tinha pelo menos um norte para seguir. Fui com Aline para seu escritório encontrar com o tal amigo dela, um senhor simpático e mineiro que estava planejando abrir o seu primeiro negócio. Passei a maior parte de minha tarde ali, planejando coisas junto com o homem que escutava todas as minhas ideias com paciência e me mantendo nas linhas de seus critérios. Esse tipo de coisa geralmente não era tão “intensa”, mas como ele havia reduzido o meu tempo ele ficava ao meu lado vendo-me fazer os esboços. Tive de mandar uma mensagem para Liz avisando que chegaria um pouco tarde naquele dia, afinal, como minha patroa mesmo disse, eu tinha muito trabalho para fazer.

(...)

–Aqui está o CD com todos os slogans e banners, além das imagens originais – entreguei a mídia dentro de uma capa transparente – Você pode passar em qualquer gráfica e mandar imprimir nos tamanhos, para não esquecer os padrões coloquei todos eles dentro de um bloco de notas ok?

O senhor sorriu enorme, apesar de ter uma aparência cansada. Isso se espelhava em mim, apesar de ser finalmente sábado eu havia passado dois dias fazendo um trabalho completo. Cheguei a levar o trabalho para casa e a única coisa boa que recebi como recompensa com isso, além do restante do sábado livre, foi uma delicada massagem que Liz aplicou em meus ombros.

–Obrigada Vic – ele agradeceu e deixou um suspiro acabar – Agora eu vou indo, estou doido para voltar para casa.

–Faça uma boa viagem e mande um abraço para a sua mulher – disse com certa cumplicidade, afinal por passar muito tempo com o homem eu havia descoberto algumas coisas de sua própria história – E faça a surpresa que eu lhe disse, uma flor com uma boa história sempre dá um bom resultado.

–Sinto que terei de contratar um lobisomem para a minha – ele riu mais uma vez ao lembrar-se da minha história sobre o roubo da flor de lis.

Acabei por rir junto com ele e o acompanhei até a porta. Quando ele finalmente saiu eu ergui os braços para o alto como se estivesse louvando a Deus por tudo aquilo tivesse terminado. Estalei meu pescoço e fui beber um pouco de água, na volta dei uma parada no escritório de Aline, dando uma pequena batida na porta antes de entrar.

–Chefe mais linda – falei como de costume e ela apenas disse um “diga” sem nem ao menos desviar os olhos do computador – Já terminei com seu amigo, estou indo para casa.

–Obrigada, Vic – Aline desviou o olhar e sorriu brevemente – Aproveite a sua tarde.

Acenei com a cabeça e não tardei a sair dali, estava louca para chegar ao apartamento e provocar uma surpresa em Liz, já que eu não tinha revelado meus planos ainda. Estava tão animada que não me importei tanto em pegar um ônibus lotado, o que realmente significava alguma coisa. Assim que me aproximei da porta, escutei o som ecoando lá dentro e já estava sorrindo, imaginando que Liz estivesse dançando. Ah como eu adorava estar certa! Assim que eu abri a porta deparei-me com uma ruiva usando roupas curtas já que estava fazendo um calor infernal naquele sábado. Um shortinho, blusa que mostrava parte da barriga, pés descalços e cabelo vermelho preso em um coque no alto da cabeça. Elizabeth segurava uma vassoura e estava cantando e dançando, ora fazendo do objeto um microfone, ora fingindo que era um parceiro. A música que tocava era em francês, eu não saberia dizer nada sobre isso a não ser que era um pop agitado. Em um giro ao redor da vassoura, ela finalmente me viu parada na porta e paralisou de vez, ficando extremamente vermelha.

Não consegui evitar um riso, entrei finalmente e fechei a porta atrás de mim com o pé ao mesmo tempo em que Liz corria para desligar o aparelho de som sobre o balcão da cozinha. Ela voltou ainda vermelha e com um olhar cor de chocolate envergonhado.

–O que faz aqui? Digo, é tão cedo! Aconteceu algo no trabalho, chérie? – ela perguntou um tanto nervosa.

–Sim, eu consegui minha tarde livre – expliquei sorrindo grande – Estava planejando sair com você. Geralmente só temos o dia de domingo para aproveitar e a maioria das coisas está parada demais ou fechadas. Então fiz um trabalho extra para minha chefinha linda e consegui esse tempo livre.

–Est-ce vrai? – ela perguntou subitamente animada, parecendo esquecer que segundos atrás dançava com uma vassoura – Iremos sair em um encontro?!

–Se você colocar as coisas desse jeito vai me deixar nervosa – disse sincera, deixando meus ombros caírem – Mas nós vamos sair sim, eu vou tomar um banho e me arrumar, em meia hora já podemos ir.

–O que eu devo vestir? Para onde iremos?

–Pode vestir algo leve, mas não tão curto – acrescentei rapidamente – Vamos passear um pouco.

Liz acenou com a cabeça e foi para o quarto. Suspirei aliviada por ela não ter sentido o meu controle automático em suas roupas. Não queria que ninguém ficasse olhando para aquelas pernas definidas por causa da dança. Geralmente eu costumava me irritar com essas pessoas que tentam controlar suas namoradas até na maneira de se vestir, ou os outros que julgam a personalidade pelo que você veste. Mas aquela frase havia saído tão automaticamente e com um sentimento de posse encoberto que quase me fez sentir um pouco de culpa. Quase.

Tomei um banho um tanto quanto demorado em comparação ao meu padrão. Obviamente eu queria estar completamente cheirosa para aquele passeio. Ou encontro. Meu coração saltou dentro de meu peito parecendo querer entalar em minha garganta, pois quase perdi o meu ar quando aceitei que estava saindo em um encontro com Elizabeth. Suspirei e balancei a cabeça, não podia deixar isso me abalar ou ficaria nervosa e faria tudo errado. Assim quando terminei o meu banho segui para o meu quarto deixando a toalha em um canto. Escolhi uma roupa simples, short quadriculado em tom de vermelho e linhas duplas pretas, uma blusa canoa branca sem estampas caída sobre meu ombro esquerdo e sandálias rasteiras. Passei apenas delineador nos olhos para destaca-los, coloquei uma pulseira e colar prateado e pronto.

–Vic? – Liz bateu em minha porta.

–Entre.

Ela abriu a porta e eu poderia apostar que meus olhos estavam brilhando. Liz usava um vestido esverdeado e com apenas um palmo acima do joelho. Era tomara que caia, com detalhes de flores brancas na parte superior. O cabelo ruivo estava trançado e jogado por sobre um ombro, dando-lhe um ar ainda mais fofo. Por mais ingênua que Liz pudesse parecer, ela não deixou de notar meu olhar intenso e logo suas bochechas ficaram avermelhadas.

–Você poderia passar o protetor na parte de minhas costas, s'il vous plaît? – ela pediu em um tom baixo, denunciando como estava sem jeito, mas ainda assim apresentava o seu modo educado.

–Venha cá – chamei sem conseguir conter um sorriso mais malicioso.

Ela aproximou e eu apontei a cama para que ela pudesse sentar de costas para mim. Elizabeth sempre reclamou do calor e do sol que fazia ali, tendo de aumentar o fator do protetor solar que costumava usar. Realmente, se não fosse esse singelo cuidado que ela tinha consigo mesma, aquela pele bastante branquinha iria sofrer e ficar vermelha e com aquela ardência incomoda. Mordi o canto do lábio e despejei um pouco do protetor em minha palma, esfregando uma na outra antes de respirar fundo e tocar a pele de Liz, espalhando o conteúdo branco. Deus do céu, ela era tão macia e delicada! Tive de morder minha língua para não emitir nenhum som estranho, mas não pude evitar que, no meio daquele processo de espalhar o protetor eu não aproveitasse para tocá-la. Comecei pelos ombros, espalhei um pouco mais abaixo, voltei e toquei o pescoço... E a vi arrepiar e ficar levemente tensa. Sorri de lado e dessa vez não resisti ao impulso de deslizar a ponta de meus dedos pelo braço dela, a provocando ainda mais.

–Mon ange – murmurei perto de seu ouvido, escutei um suspiro e sorri ainda mais – Acabei.

–M-merci – Liz saltou na cama e não me olhou, mas eu sabia que ela estava vermelha – Só vou guardar isso aqui e poderemos ir.

Ela não esperou por qualquer sinal meu, saiu do quarto e entrou no próprio fechando a porta. Balancei a cabeça enquanto sorria, apesar de tudo Elizabeth era similar a uma garotinha descobrindo o romance entre duas pessoas. Segui para a sala e me joguei no sofá para espera-la, pensando com um sorriso de lado em como era estranho ser o primeiro amor de alguém. Liz retornou recuperada, com aquele sorriso que a fazia parecer uma verdadeira musa. Levantei e peguei apenas as chaves de casa, quando saíamos Liz carregava uma bolsa e de quebra levava minhas próprias coisas já que eu não usava de jeito nenhum esse acessório.

–Para onde vamos? – Liz perguntou curiosa quando entramos no elevador.

–Não vou estragar a surpresa – respondi com um sorriso travesso.

–Espero que esteja ciente de que esse é o nosso primeiro encontro, mademoiselle – Elizabeth disse usando aquele tom polido, mas sorrindo sabendo que aquilo iria me afetar.

–Não coloque as coisas assim, só vamos passar a tarde juntas em um lugar diferente e bonito! – disse começando a ficar nervosa – Não é pra ser um encontro, não planejei para ser assim porque é simples demais e...

–Vic – Liz interrompeu-me, mas sua voz era carinhosa – Passar a tarde junto com você era o que eu mais queria. Estou feliz.

Olhei para ela e tive certeza que estava falando a verdade. Seu sorriso sem jeito, as bochechas levemente coradas por causa da declaração e os olhos castanhos brilhando... Deus, aquela garota realmente existia? Não tive tempo de receber a resposta divina, as portas do elevador se abriram e Liz saiu na frente. Respirei fundo tentando controlar-me, já tive alguns encontros em minha vida, aquele poderia dar certo também. Estava me convencendo disso enquanto seguia Elizabeth para fora do edifício quando tive toda a minha estrutura abalada. Parado ali no portão conversando com o porteiro da garagem estava um moreno que vivia atormentando a minha vida. Sim, Henrique estava lá, segurando um buquê de rosas brancas e todo produzido em uma calça jeans e blusa de grife. Elizabeth congelou no lugar e lançou um olhar em dúvida para mim. Minha vontade foi de pegá-la no colo e voltar para o nosso apartamento onde eu sabia que ele não poderia nos alcançar.

–Ah! Liz, Vic! – era tarde demais, Henrique nos avistou e estava acenando.

Respirei fundo. Eu não poderia ser vencida tão fácil assim e muito menos demonstrar que estava com medo. Havia perdido o jeito de tentar ter algo sério, mas nunca era tarde demais para se aprender a lutar por alguém, não é? Ao menos era isso o que minha mente tentava me convencer naquele momento. Caminhei até Liz, segurei em sua mão e não pude negar o alívio que eu senti quando ela entrelaçou nossos dedos, como se dissesse sem necessidade de palavras que estava ali comigo. Fomos juntas até a frente do edifício, Elizabeth cumprimentou o porteiro usando de sua educação singular enquanto eu encarava Henrique com um falso sorriso.

–Desculpa cara, estamos de saída – falei fingindo certo pesar.

–Ah... Eu posso passar aqui mais tarde, ia convidar a Liz para ir ao cinema comigo e...

–Fizemos planos para o dia todo – o cortei prontamente, e logo me lembrei de sorrir para fingir que estava tudo normal.

–Bem, então aceite isso Liz, pensei em entregar de uma forma mais tradicional e não aqui no meio da rua – Henrique me ignorou e aproximou oferecendo o buquê.

Elizabeth teve de soltar minha mão para pegar as rosas, fechei minhas mãos em punhos e desviei os olhos enquanto a ruiva ao meu lado sorria educadamente para o garoto apaixonado a sua frente.

–Merci, Henrique – Liz agradeceu – Monsieur Antônio, poderia levar essas rosas até o apartamento de Anne e dizer para ela guarda-las enquanto estou fora?

Antônio, o porteiro, prontamente saiu de sua cabine e veio pegar as rosas. Ele morria de amores pelo jeito meigo e educado da Liz, que sempre o cumprimentava e conversava antes de sair e quando chegava. Henrique olhava para minha ruiva com um jeito bobo, igual eu faria caso não estivesse de braços cruzados lutando para não transparecer meu incomodo.

–Para onde vocês estão indo? – Henrique perguntou mais animado – Eu posso ir já que estou de carro e...

–Não Henrique – neguei prontamente, recebendo um olhar dos dois – Desculpa cara, mas estamos indo em um encontro.

–Vão encontrar alguém?

Ele era idiota ou estava fingindo que não havia entendido? Estava prestes a dar uma resposta nada delicada quando a mão de Elizabeth tocou meu braço. A olhei e o seu olhar achocolatado estava firme, de certa forma entendi que ela queria assumir a partir dali.

–Pardon, Henrique, mas estou com Victoria – ela disse em um tom ameno e gentil – Alias, acho que temos de nos apressar ou perderemos o nosso ônibus. Tenha uma boa tarde, ela está realmente linda para ser desperdiçada.

Se não fosse aquele tom educado eu poderia jurar que aquela ultima frase foi um golpe irônico no garoto. Elizabeth pegou em minha mão e começou a me levar até o ponto de ônibus, mesmo sem saber para onde iriamos. Olhei para trás e vi Henrique nos encarando confuso e com certo peso no olhar. Se me senti culpada? Nem um pouco, Elizabeth havia acabado de assegurar que ficasse entendido que estávamos juntas! Tudo bem que tecnicamente não estávamos, não com um compromisso sério, mas de que importava isso naquele momento?! Era um Henrique a menos em minha vida! Ao menos assim esperava.

–Que sorte – falei assim que chegamos ao ponto – Nosso ônibus já está vindo!

Demorou pouco para que entrássemos no ônibus e já estivéssemos a caminho do Jardim de Santa Mônica. Ficava em uma área mais residencial do que comercial, por isso levaria cerca de meia-hora a quarenta minutos para que chegássemos lá. Felizmente conseguimos lugares para sentarmos juntas, Elizabeth sempre adorava ir sentada no lado da janela. Passamos alguns minutos em silêncio, eu perdida em meus pensamentos sobre o encontro e o Henrique.

–Está pensando demais – Elizabeth notou pousando a mão sobre a minha – Está chateada pelo que aconteceu?

–Não, acho que não – admiti e encostei no banco – Eu sabia que ele não iria desistir e ainda acho que não vai.

–Ao menos você pode admitir que isto é um encontro – Liz brincou dando um sorriso singelo – E devo assumir que aprecio o modo como fica sem jeito quando pensa que está em algo mais íntimo do que um simples passeio.

–É algo bobo ma chérie, um encontro exige um plano romântico e tudo o que eu pensei foi em um piquenique no Jardim de Santa Mônica, ele foi reformado recentemente e está realmente bonito por lá.

–E quem disse que para mim isso não é o suficiente?

Abri a boca para responder, mas aquele sorriso encantador e o jeito como ela me olhava com sincera felicidade, fez morrer qualquer palavra que eu quisesse pronunciar. Flagrei-me sorrindo de volta, com as bochechas quentes provavelmente coradas. Se ela dizia que estava bom as simples coisas, quem seria eu para continuar contestando? Demoramos apenas mais um pouco para finalmente descer no ponto mais próximo do Jardim. Assim que saímos do ônibus, automaticamente minha mão foi em busca da de Liz. Era algo tão natural que eu só percebi o que fiz quando senti os dedos dela entrelaçando com os meus. Tentei disfarçar o sorriso, um trabalho em vão já que meus músculos faciais pareciam ganhar uma natureza própria, uma bem boba e apaixonada.

–Venha, temos de comprar umas coisas – chamei a levando até um supermercado no final da esquina – Como foi tudo tumultuado eu não consegui pegar as coisas para um piquenique antes, então vamos comprar agora. Até porque eu não sabia o que você gostaria.

–Pensei que não apreciasse fazer compras comigo – Liz falou sem esconder a surpresa.

–É uma meia-verdade. Também gosto de ficar com você, então se eu tiver de ir às compras, que seja.

Antes mesmo de lançar um olhar para a ruiva ao meu lado eu já estava sorrindo. Como imaginei, as bochechas estavam coradas e o olhar desviava do meu demonstrando de uma maneira fofa o quanto ela havia gostado e ficado sem jeito com o que tinha dito. Se pudesse, a abraçaria e morderia ali mesmo. Mas havíamos entrado no supermercado que estava até um pouco movimentado, ao que parecia não fui à única de ter a ideia de ir ao Jardim àquele fim de semana. Prontamente guiei Liz até as prateleiras de salgadinho, pegando meus sacos de calorias até que eles foram tirados bruscamente de mim.

–É um piquenique – Elizabeth falava naquele tom polido e ao mesmo tempo repreendedor – E ele deve ser feito com frutas, sucos, sanduiches naturais e talvez algumas guloseimas que caiam bem.

–É só sentar na grama e comer Liz! – exclamei pegando novamente outro pacote de salgadinho.

–Bien sûr que non! – ela retirou novamente o pacote de minhas mãos e começou a me empurrar com em direção ao frízer com sucos – Se tivesse me informado de seus planos, teria preparado um suco mais natural, mas veja tem até de morango!

Revirei os olhos e balancei a cabeça clamando por um pouco mais de paciência. Vê-la animada escolhendo as coisas e falando do quão social poderia ser um piquenique deveria compensar tudo. Mas assim que ela ficou distraída escolhendo alguns cachos de uvas, de fininho fui até a prateleira, peguei três salgadinhos diferentes e praticamente corri para o caixa para poder pagar antes que Elizabeth me pegasse em flagrante. Assim que eu retornei com um sorriso vitorioso brincando em meus lábios, enfrentei um duro olhar achocolatado que recriminava meus atos. Dei de ombros e aproximei um pouco mais da bela ruiva que segurava um pacote de morangos.

–Nada me separa de meus salgadinhos, mon ange – expliquei e meio que de surpresa, apliquei um rápido beijo no pescoço dela. Foi impossível não sorrir travessa ao vê-la recuar vermelha e olhando para os lados.

–Ok, ok! – ela disse em desistência e fingindo interesse nos morangos, apesar de seu rosto estar quase na mesma tonalidade daquelas frutas.

Terminamos nossas compras e quase tivemos uma discussão sobre quem iria pagar as coisas, afinal eu havia tido a ideia daquele encontro, consequentemente eu deveria pagar tudo. Mas Liz começou um discurso veemente sobre direitos iguais e de que a minha ideia era retrógada e machista que eu simplesmente aceitei dividir a conta para não prolongar ainda mais o monólogo dela. Apesar de acha-la ainda mais linda quando ficava determinada a convencer-me de algo, a fome estava falando mais alto. Eu saí carregando as sacolas, depois disso precisamos apenas andar um pouco para finalmente entrar na rua que dava um lindo vislumbre do Jardim de Santa Mônica.

Era uma área circular e muito bem cuidada, com áreas com grama verde e árvores de tamanho médio, mas que produzia boas sombras. No centro do lugar havia uma bela fonte, que há existia desde sempre, mas que foi reformada e posta para funcionar apenas no novo mandato do prefeito. Perto da fonte havia bancos de madeira e cimento e perto deles havia um belo jardim com flores e arbustos que tinha até algumas formas. Liz deu alguns passos a frente parecendo encantada com o lugar, havia juntado as mãos a frente do corpo e parecia querer suspirar. Ela era mesmo uma representação fiel de uma garota apaixonada, que ficava deslumbrada com uma paisagem daquelas. Porém quando ela virou para mim, estava com um enorme e mais bonito sorriso, um que parecia golpear-me e paralisar no lugar. Que ela fosse a mulher mais boba deste planeta, mas definitivamente era a mais linda.

–Vamos, vamos! – ela chamou animada, vindo segurar em meu braço – Ali, debaixo daquela árvore.

Deixei que ela me guiasse até o lugar. O Jardim estava movimentado, havia famílias fazendo piquenique, crianças brincando correndo ao redor da fonte e até uns casais de adolescentes. Assim que chegamos ao lugar escolhido por Liz, ela pegou uma das sacolas para retirar a toalha que havia comprado. A observei abrir e esticar com certa dificuldade o pano, mas o olhar e semblante determinado e ao mesmo tempo teimoso alertava-me que eu não deveria ajudar. Já havia percebido que Elizabeth não era qualquer mulher, imaginava que na Europa talvez fosse até uma menina rica, afinal mal tinha conhecimento de algumas coisas universalmente populares. Saber disso apenas alertava-me que eu pouco sabia sobre a história daquela que estava roubando-me os pensamentos e coração. Porém também acreditava que tudo vinha ao seu tempo, não queria pressioná-la a me contar as coisas.

Assim que a ruiva terminou o seu trabalho, sentei sobre a toalha esticada e comecei a desfazer as sacolas. Liz sentou a minha frente, com as pernas dobradas para o lado mantendo uma postura decente para quem usava um vestido. À medida que eu ia retirando as frutas e vasilhas, ela ia arrumando tudo perfeitamente.

–Agora, meu salgadinho! – falei feito uma criança feliz ao pegar o primeiro pacote.

A escutei resmungar baixo e ignorei, apenas abri e me deliciei com aquele sabor artificial e cheio de calorias. Liz pegou algumas uvas, mas logo que pós a primeira na boca fez uma delicada careta, provavelmente pegando uma uva azeda. Não segurei o riso ou a provocação:

–Viu? Salgadinhos sempre serão gostosos, não há erro!

–Nem todas são assim – Liz disse teimosa e ao por outra uva na boca tentou lutar contra outra careta sem obter sucesso – Tudo bem, desisto das uvas.

–Você parece já ter feito muito isso – comentei distraída – Fazer piqueniques, saber o que deve ter e não ter...

–Oui, minha mãe adorava isso, sempre o fazíamos quando eu era pequena. Houve uma vez que foi perto de um lindo lago, eu e Cassie competíamos para ver quem conseguia encontrar mais tipos diferente de peixes já que a água era translucida.

Sempre que falava de sua mãe ou da irmã, Liz adquiria um brilho e um sorriso automaticamente, apesar de ter um ar saudoso em sua voz. Aquilo foi o suficiente para engatarmos em uma conversa sobre nossas infâncias. Eu a fiz rir com histórias da época em que eu passava na fazenda de meu avô, aprontando feito um moleque e ao mesmo tempo detestando ficar presa naquele fim de mundo. Apesar de nossas claras e evidentes diferenças, havia algo que nos conectava como uma forte química. Nossos olhares se encontravam, sorrisos eram correspondidos e uma sensação inusitada de tranquilidade nos acompanhava, mesmo que por muitas vezes meu coração acelerasse por motivos bobos. Em um dado momento Liz levantou para jogar fora as coisas que havíamos usados, mas quando ela retornou consegui puxá-la para sentar ao meu lado, de modo que eu pudesse passar um braço ao redor da cintura dela e ficar bem pertinho.

–O tempo passa tão rápido quando nos distraímos – Liz comentou olhando para o céu que começava a dar sinais do entardecer.

–Fazia tempo que eu não me sentia assim – comentei a fitando de perfil.

–Assim como? – ela indagou curiosa, tornando o rosto em minha direção.

–Em paz.

Meus olhos azulados fixaram nos olhos castanhos dela e parecia não mais conseguir desviar. Nenhuma palavra era dita, nenhum som parecia ser escutado. Naquele momento eu me sentia envolvida por uma energia invisível que me atraia em direção a ela, que me fazia pensar e querer apenas a ela. Estava começando a inclinar meu rosto em uma clara intenção de beijo quando Liz virou o rosto arfando.

–Não, é errado um beijo assim em público – ela explicou com a voz falha e baixa.

–Você tem vergonha? – perguntei sentindo que um balde de água fria havia caído sobre mim.

–Non, non! – Liz falou rapidamente, virando para mim e segurando minha mão – Eu só não acho correto um beijo em público, não com tanto gente podendo ver, é algo íntimo. Eu... Eu acho que um beijo deve ser especial, particular e único todas as vezes que ele acontecer.

–É só um beijo Liz e...

–Eu sei que irá dizer que é só coisa de meu jeito tolo e romântico – ela me interrompeu, porém levou minha mão até o peito, sobre o próprio coração. Deus o coração dela estava tão disparado! – Mas mademoiselle Victoria tem um efeito sobre mim sem nem ter seus lábios tocando os meus, imagino que quando os tomar para si eu irei encontrar-me envolta em um mundo que eu poderei delegar ser apenas meu e seu.

Aquelas palavras pareciam ser ditas de um livro romântico. Eu não saberia explicar o que aconteceu comigo naquele momento, eu me vi emersa naquele tom decidido, baixo e levemente rouco. Determinado a me convencer de que aquele mundo que ela prometia com um brilho no olhar poderia realmente existir. Naquele momento eu acreditei nisso. Tive de respirar fundo para lembrar de que meu pulmão precisava de oxigênio. Olhei por sobre o ombro dela e fingi uma cara de surpresa.

–O que é aquilo?!

–O que?

Ela virou rapidamente o rosto como um ato automático da curiosidade humana. Aproveitei a chance de aproximar mais meu rosto, assim quando ela virou o dela confusa, estávamos tão próximas que eu pude facilmente encostar meus lábios nos dela em um beijo rápido e roubado. Afastei com um enorme sorriso no rosto ao vê-la completamente vermelha.

–Coisas do destino, beijos roubados sempre acontecem – contei com um sorriso bobo no rosto – Agora vamos?

–Já vamos? – ela perguntou ainda parecendo distraída depois do beijo.

–Sim, afinal eu só poderia te beijar e ter um mundo só nosso quando estivermos em casa.

Levantei e ofereci a mão para ajudar Liz, ela olhou-me e foi lentamente abrindo um sorriso, um que foi fazendo meu coração disparar ao compasso em que a mão delicada segurava a minha. A puxei para mim a levantando em um único movimento. Liz ficou tão próxima a mim que novamente senti aquele desejo insano de beijá-la. Porém tudo o que fiz foi depositar um longo beijo em sua bochecha. Eu desejava, mais do que nunca, estar em casa naquele instante.

Notas finais
Beijos meus amores, até o próximo capítulo. ah, eu vou responder os outros reviews o mais rápido possível, prometo!