Ma Chérie
30 Desafio
Notas iniciais
Pov Liz
Terminei de arrumar a mesa do café da manhã e fui destrancar a porta do apartamento para o caso de Anne queira se juntar a nós, como geralmente o fazia. Depois disso fui até o quarto de Victoria, bati uma vez e não escutei nenhum movimento. Revirei os olhos sabendo que ela estaria ainda dormindo preguiçosamente. Abri a porta e minha teoria se provou tentadoramente certa.
Lá estava ela, estirada na cama de uma maneira completamente desleixada. Abraçada firmemente a um travesseiro, o lençol cobrindo apenas metade do corpo e com uma perna do lado de fora. O cabelo castanho escuro estava maior do que da primeira vez em que a vi, atingindo uma altura abaixo do ombro. A boca entreaberta, murmurando coisas enquanto sonhava. Todo o meu plano de dar um sermão nela desapareceu assim quando vi essa imagem a minha frente. Até porque saberia que ela estava um pouco chateada por eu ter, mais uma vez, ter recusado dormir com ela.
Aproximei silenciosamente da cama e engatinhei sobre o colchão até ter aquele corpo abaixo do meu. Coloquei o cabelo dela para o lado, começando a dar beijinhos suaves sobre a bochecha finalmente exposta.
–Bonjour mon amour – murmurei quando a senti despertando.
–Sai, eu estou com sono – ela reclamou prontamente, abraçando mais forte o travesseiro.
–Irá se atrasar mon ange – a lembrei descendo os beijinhos para o pescoço dela – E eu fiz um bom café da manhã, irá esfriar.
–Eu não estaria com sono se você estivesse dormindo aqui comigo – Victoria resmungou baixo – Fiquei muito mal sem ter seu corpo quentinho perto do meu. Você é a vilã da história, pode se sentir pra baixo, eu deixo.
Ri daquele drama todo. Mas eu já sabia como dobrar aquela ferinha dengosa, então bastou uma trilha lenta de beijos até a orelha dela e uma mordidinha suave em seu lóbulo para a escutar suspirar.
–Você sabe que não vou dormir com você quando estiver em meu período – aleguei com a voz manhosa – Mas veja pelo lado positivo, já está no fim.
–Graças a Deus – Vic louvou e virou o corpo em direção ao meu – Vou levantar, me arrumar e depois te dar um puta beijo de bom dia, ok?
–Oui, não vou fugir, prometo – disse rindo e levantando.
Vi Victoria se espreguiçando e fazendo um sonzinho engraçado ao mesmo tempo. Então ela saltou e foi para o banheiro dentro de seu quarto. Só então eu sai do aposento e prontamente me deparei com Anne já sentada a seu lugar na mesa comendo a sua parte do café da manhã.
–Bonjour, Anne – a cumprimentei animadamente.
–A Vic ainda estava dormindo não é? – Anne chutou ao não ver a brasileira ao meu lado – Sabe, sinceramente não sei como ela sobrevivia sem você antes. Ou como eu vivia sem seu café da manhã e jantar.
–Uma vida desregrada e sem nenhum agrado das coisas simples que podem ser aproveitadas saudavelmente – respondi me sentando a sua frente e servindo um copo com suco de manga.
–Resumidamente, uma merda.
Revirei os olhos perante a necessidade de sempre se expressar com esse tipo de palavra. Porém, já estava tão acostumada que não me incomodava realmente. Victoria apareceu logo depois, arrumada e tomada banho. Anne estava no meio de seu cumprimento quando a brasileira morena apenas resmungou, segurou meu rosto e o virou em sua direção. Ela inclinou e prontamente tomou minha boca em um beijo longo e impetuoso. Vic tirou-me desse mundo tão rapidamente que eu mal lembrei que Anne estava ali, bem a nossa frente, presenciando um beijo íntimo e gostoso, oh sim muito gostoso. Ela envolvia nossas línguas, dançava com os lábios nos meus e mordia meu lábio sabendo que aquilo me tiraria da orbita. Era o seu beijo de bom dia.
–Já chega, já passaram dois minutos! Vocês não respiram não? – Anne reclamou.
–Bom dia meu anjo – Vic murmurou contra meus lábios, abrindo um enorme sorriso e sentou ao meu lado – E você é a intrusa aqui Anne, não reclame!
–Intrusa? Eu já me considerava parte da família! – Anne pôs a mão sobre o peito fazendo uma bela expressão de indignação – Depois de tudo o que eu fiz para juntar vocês duas!
–Mademoiselle é sempre bem-vinda ao nosso apartamento – disse ainda um tanto arfante, mas com um sorriso bobo no rosto – Não deveria me beijar dessa forma na frente dos outros, Victoria. Causa desconforto para os outros e...
–Que se dane, é meu beijo de bom dia na minha casa – Victoria resmungou se servindo, mas logo abriu um sorriso sacana – Mas veja, a Anne levou minutos para reclamar, devia estar olhando para fazer o mesmo com a loira dela.
Anne ficou extremamente vermelha e eu não pude conter um sorriso. Elas estavam ainda mais juntas desde a visita surpresa de Nicoly. Sabia disso pois eram raros os momentos agora em que Anne desgrudava de seu celular, salvo quando estava dando aula.
–Falar nisso, ela vem amanhã para cá e nós vamos para o 7 Sin, e quando digo nós estou incluindo vocês duas e toda a galera – Anne avisou apontando o garfo em nossa direção.
–Faz tempo que não saímos para lá – Victoria ponderou e me fitou – Mas só vou se você quiser ir.
–Victoria Carvalho negando festa. Nunca pensei que esse dia chegaria – Anne fingiu surpresa.
–Depois que você encontra o amor de sua vida as coisas vão meio que mudando – Victoria deu de ombros – Eu sei que se eu fosse iria beber, eu posso estar terrivelmente apaixonada, mas faz parte de minha personalidade fazer algumas cantadas mesmo sem perceber, isso poderia me colocar em encrenca – não pude deixar de revirar os olhos para isso – E não tem tanta graça quando a única mulher que você quer beijar está longe. Acabaria ficando sozinha também, todo mundo sabe que aquele lugar é mais para caçada do que para se divertir entre amigos, em um momento todo mundo teria alguém.
–Isso sim foi surpreendente, você fez uma lavagem cerebral nela, Liz! – Anne dessa vez estava mesmo surpresa.
–Só não quero perder ou chatear o meu amor – Vic disse toda manhosa, inclinando em minha direção para dar beijos em minha bochecha – Eu sei que sou irritantemente boba apaixonada, mas ela gosta.
–Nós iremos – decidi sabendo que não poderia dizer não depois do que Victoria tinha acabado de falar – Agora que tal não nos atrasarmos para variar?
Tomamos o café rapidamente para não correr o risco de perder o ônibus. Sinceramente, estava ponderando com certo cuidado a possibilidade de tirar a carteira de motorista. Logo, iria precisar comprar meu próprio veículo, sendo muito mais prático e cômodo do que ficar dependendo de um transporte público que, convenhamos, não estava em suas melhores condições.
Saímos as três juntas, como já era rotineiro, Vic reclamando de que teria de terminar um trabalho complicado porque o cliente sempre mudava de ideia e nunca se decidia. Anne tentava piorar a situação, enquanto eu a consolava prometendo uma boa massagem quando tivéssemos em casa.
(...)
Eu estava terminando uma de minhas aulas, daquela vez não deu tempo para as costumeiras apresentações independentes. Nosso tempo estava sendo totalmente dedicado para o evento cultural de dança que a escola de dança realizava anualmente na praça principal de Santa Mônica. Uma forma de divulgar a escola e ao mesmo tempo promover a dança em si, além de ser algo extremamente divertido para os estudantes. O evento aconteceria em meados de dezembro e, apesar de ter muito estilo livre durante a sua programação, havia apresentações ensaiadas sendo preparadas em todas as modalidades em que a escola tinha especialidade.
Não iria mentir e enganar-me afirmando que estava tudo bem. Estava deveras nervosa, seria a primeira vez em que montaria uma coreografia para ser exibida a público. Além de ser a nova professora, tive de lidar sozinha com a coreografia contemporânea e ajudar Anne com a de jazz, enquanto a japa lidava com a de hip-hop sozinha. Nada comparado ao trabalho que Iara e Wagner estavam tendo com o restante das modalidades.
Estava saindo da sala e desligando as luzes já que esta era realmente a minha última turma. Porém esse meu leve atraso ofereceu-me a oportunidade de escutar uma conversa que beirava a intrigante e revoltante ao mesmo tempo. No corredor eu escutava as vozes de Duda e a de algum outro rapaz.
–Mas é claro que essas dancinhas é para mocinhas, Duda! – o outro rapaz debochava – Vai dizer que você não é mocinha?
–O fato de ser gay e gostar de dança contemporânea e jazz não quer dizer que os outros garotos que também gostam sejam! – A voz de Duda estava cada vez mais afetada – Isso é um absurdo bofe!
–Diga o que quiser, hip-hop não deixa de ser mais difícil e complexo, precisa de força! – o outro rapaz persistia em sua ideia.
Fui aproximando-me lentamente, quase ao mesmo tempo em que Anne saia de sua sala com o cenho franzido, provavelmente tendo escutado alguma coisa daquela infame conversa.
–Por mais que eu aprecie o seu belo tanquinho, você está redondamente enganado meu querido! Não se precisa de um físico para se poder dançar, hello honey!
Quando perto o suficiente, pude ver Duda com uma pose até mesmo engraçada, uma mão na cintura, o casaco rosa amarrado na cintura, um pé contendo a maior parte de seu peso. O outro rapaz a sua frente era moreno, cabelo arrepiado, um cavanhaque no rosto. Seu físico era mesmo definido, com seus braços tonificados a mostra e peitoral demarcado pela blusa soada que ele usava, provavelmente neste estado por causa dos treinos de dança.
–Bruno, o que está dizendo? – Anne interferiu na conversa.
–Ah finalmente alguém para defender minha causa! – Duda exclamou batendo com as mãos ao lado do corpo.
–Só estou dizendo que o hip-hop é mais coisa... Como posso colocar sem parecer preconceito? Mais máscula. Há uma certa agressividade em alguns passos – Bruno, o rapaz moreno, colocou com cuidado e deu de ombros – É a minha opinião.
–Movimentos mais rápidos e que expressão um sentimento forte como no hip-hop não justifica que a dança contemporânea por ser mais sutil e suave não tenha sentimentos fortes como a agressividade, monsieur Bruno – falei polidamente.
–Ainda não consigo ver isso, professora – Bruno continuou indiferente – É dança para mulherzinha mesmo.
Duda bufou de forma aguda e Anne arqueava as sobrancelhas. Será que concordava de certa forma com essas premissas? Revirei os olhos e uma ideia atravessou a minha mente.
–Tenho uma proposta a fazer, monsieur – falei com um sorriso de lado – Temos as apresentações do evento cultural, certamente que o monsieur é um rapaz que sabe dançar muito bem o hip-hop com toda a sua masculinidade.
–Ele é um dos meus melhores alunos – Anne concordou se intrometendo pela primeira vez.
–Magnifique! – meu sorriso aumentou mais – Talvez possa até estender um pouco mais o meu desafio. Será que o monsieur conseguiria me ensinar uma coreografia de hip-hop? Assim como o Duda ensaiaria uma coreografia de dança contemporânea com a mademoiselle Anne.
–O que? – Anne virou para mim – Liz não me mete em suas loucuras, onde que eu vou ter tempo?!
–Anne – falei o nome dela com um forte sotaque francês – Você é uma professora e tem de dar o exemplo de que qualquer um pode dançar o que quiser. Da mesma forma que ele me ensinará hip-hop, também terei de fazer uma coreografia para que monsieur Bruno dance no estilo contemporâneo. Você fará o mesmo com madame Duda.
–Ai que eu adoro quando ela me chama de madame! – Duda suspirou.
–Eu não vou dançar isso! – Bruno cruzou os braços.
–Está amarelando? – Anne provocou o aluno – Não esperava que você fosse correr de uma dança.
–Não daria tempo para apresentar em dezembro! – Bruno se defendeu.
–Por isso as coreografias seriam apenas de um minuto, um minuto e meio, não uma música inteira – Anne ponderou.
–Oui, nada é impossível se houver dedicação. Monsieur Bruno irá aceitar o desafio?
–Eu estou dentro – Duda ergueu uma mão e sorriu debochado para o Bruno – Foge franguinho, assim eu fico até mais macho do que você aceitando o desafio.
–Eu aceito – Bruno resmungou descruzando os braços.
–Então estenderemos o nosso turno aqui por uma hora depois das aulas – propus – Para que haja tempo para cada par criar duas coreografias e ensaiar.
–Eu te odeio, só pra constar – Anne choramingou.
–Próxima aula já traremos as ideias, d'accord?
Eles acabaram por concordar. No ônibus Anne continuava reclamando de como isso ficaria mais puxado ainda. Eu não negava ou contradizia esse fato, pois eu já sentia minha mente fervilhando com as ideias e imaginava o quanto chegaria cansada em casa.
–Victoria não vai gostar nada de você passando uma hora a mais com o Bruno – Anne ria enquanto entravamos no prédio – Essa provavelmente vai ser a melhor parte.
–Mon amour não é incoerente, ela não me proibiria de realizar o desafio – comentei e fiz uma breve careta – Mas provavelmente ela irá reclamar e fazer aquele bico que irei morder.
–Eu já ia dizer que queria ver você contando para ela, mas já que você descobriu que para dobrar a Vic só precisa dar o carinho certo, quero nem está perto quando vocês começarem a trocar salivas.
–Como está a Nic? – ataquei propositalmente.
Anne ficou completamente desconcertada, levemente corada e não conteve um suspiro ao contar como estava aguardando a chegada da garota loira no dia seguinte.
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