Ma Chérie

38 Chegando na fazenda


Notas iniciais
Eu tenho de melhorar meus títulos, eu sei! Olha só quem não ta demorando? Era pra ter postado antes, mas o problema com a internet continua, por sorte ela resolveu estabilizar por agora, espero que continue assim! QUERO DEDICAR ESSE CAPÍTULO PRA JÚLIA, ELA FAZ ANIVERSÁRIO *OOO* Obrigada meu anjo, por todas as indicações Faberry que já me fez (sim, to viciando tarde nesse casal, mas melhor do que nunca) e por escutar todas as minhas ideias loucas e compartilhar a dor de fazer shipper de casal que quase nunca da certo (SALVO PRINCESS COMMANDER ♥).

Pov Liz.

Victoria estava uma pilha de nervos. Era tão nítido o jeitinho acuado dela que o meu mais profundo desejo era o de trancá-la dentro de casa e impedir de passar o natal perto daquelas pessoas que só a julgaram e machucaram. Entretanto, uma parte de mim queria acreditar que isso era importante para ela devido a importância que a avó tinha. Eu já havia sentido a dor de perder alguém para a morte, sabia como podia ser atormentador o desejo de dizer um último adeus ou algumas últimas palavras. Mesmo depois de tanto tempo, as vezes me pegava imaginando como seria mais um dia com minha mãe, ou o que ela diria sobre as atitudes que eu estava apresentando.

Eu preparava minha mente e coração para enfrentar pessoas pelas quais eu nutria um sentimento corrosivo sem nem ao menos conhece-las. Só de ter a ciência de como fizeram a minha menina sofrer, eu me flagrava lutando bravamente para que a raiva não se transformasse em ódio gratuito. Eu defenderia a minha morena com tudo o que eu tinha e faria questão de exibir o quanto ela me fazia feliz, me amando daquela forma perfeita mesmo com seus defeitos.

Quando a véspera de Natal finalmente chegou, estávamos viajando para a cidade do Rio de Janeiro. Anne tomou a frente, pois sabia que a amiga não teria condições de providenciar tudo da maneira mais correta, conseguiu pegar emprestado o carro de Nicoly com a promessa de que logo pela manhã do dia 26 estaríamos de volta e ficaríamos até o ano novo. Durante o trajeto de ônibus até a capital Victoria ficou enjoada, reclamando dos movimentos irregulares que a poltrona convencional proporcionava. Minha sorte era ter Pierre ao meu lado para me distrair durante as horas, ou meu foco seria apenas Victoria e ficaria em igual sintonia nos sintomas, apenas por ela estar sentindo algo tão ruim e eu almejar compartilhar seus anseios. Chegamos cedo no apartamento de Nicoly para que Anne tomasse para si a responsabilidade de dirigir o carro da namorada, ou futura namorada no caso.

–Tome cuidado com o trânsito – Nicoly pediu tentando aparentar calmaria, mas seu olhar era preocupado sobre a japonesa – Qualquer coisa obrigue Victoria a dirigir.

–Do jeito nervoso que ela está, aí que aconteceria um acidente – Anne provocou – Melhor o Pie.

–Eu não estou nervosa! – Victoria praticamente rosnou a resposta.

Nicoly revirou os olhos e se despediu da japonesa com um beijo demorado e cheio de promessas do que aconteceria quando ela retornasse. Anne tentava a todo custo conter os suspiros, mas foi completamente derrotada ao tentar disfarçar o sorriso bobo. Pierre fez alguma provocação, recebendo um olhar assassino oriental e um belo tapa estalado em seu braço. Os dois foram na frente, enquanto eu e Victoria íamos no banco traseiro.

Foi uma longa viagem por causa do trânsito intenso ocasionado pelo feriado. Anne e Pierre não paravam de falar sobre os mais diversos assuntos. Tentei me inteirar de algumas discussões, mas minha atenção dessa vez foi irrevogavelmente voltada a Victoria. Minha morena tomou calmantes e passou a maior parte do tempo cochilando, reclamando e se balançando de maneira nervosa quando notava, mais uma vez, que estava indo visitar a família. Passei aquelas horas a mantendo perto de mim, distraindo a mente dela, até mesmo a ninando com cantigas em francês. Por um tempo dava certo, mas pareceu piorar quando adentramos a estrada de chão que nos levaria até a fazenda de seu avô.

–Merda, merda! – Victoria resmungou inclinando o corpo para frente, sua respiração ficando gradualmente irregular – Eu não acredito que estou fazendo isso!

–Olha, precisamos resolver isso antes de chegarmos lá – Anne parou o carro no encostamento, tirou o cinto e virou o corpo em nossa direção – Victoria, quem paga a merda de suas contas?

–Isso não tem nada a ver Ann...

–Quem é que paga?! – Anne insistiu em um tom quase rude.

–Sou eu.

–De quem é aquele apartamento?

–Meu...

–Você é uma mulher independente, dona de seu nariz e da língua, podendo escolher onde quer enfiar – Anne disse enfática – Claro que agora é apenas na boca da Liz, com todo o respeito. Mas você não deve satisfação para mais ninguém naquele lugar. Talvez respeito a sua avó já que ela é bem maneira, mas enquanto eles não respeitarem você, você não vai dever nenhum tipo de satisfação ou explicação.

–Eu sei bem pouco desse drama todo – Pierre também argumentou – Mas tenho certeza de que você não é mais uma adolescente perdida, Vic. É uma das poucas mulheres que eu respeito e confio.

Apesar de não achar nada adequado o modo agressivo que Anne tentava confortar Victoria, pareceu ter seu efeito desejado. A brasileira morena ficou em silêncio por alguns segundos, respirou fundo e ajeitou a postura. Sorri de lado, orgulhosa por vê-la tomando coragem para algo que seria extremamente difícil. Peguei sua mão e entrelacei nossos dedos, conquistando a sua atenção com o ato singelo.

–Você não está sozinha, ma chèrie – falei.

Ela apertou minha palma e pediu para que Anne prosseguisse, ensinando a japonesa os caminhos que deveria ir a partir dali. Levou menos de uma hora para ultrapassarmos a entrada da fazenda, formado por um belo e alto cercado e um arco de madeira. Os vastos campos verdes já podiam ser vistos por todos os lados, com pouca aglomeração de árvores, salvo o lado mais a oeste onde parecia ter uma espécie de floresta.

A casa da fazenda era uma verdadeira mansão. Pude enxerga-la ao longe em todo seu glorioso estilo colonial. O jogo de cores era claro, mas com detalhes em azul. O caminho principal era adornado com um belo jardim e arbustos que formavam uma pequena parede, tornando o lugar do interior carioca um verdadeiro encanto do campo. Quando nos aproximamos, já podíamos ver crianças brincando pelo gramado da varanda, correndo atrás de um cachorro pastor alemão. Algumas pessoas estavam sentadas em bancos de madeira a frente da casa e praticamente todos ficaram intrigadas com o carro desconhecido que estacionava por perto.

–Minha avó Maria está ali – Victoria suspirou, mas logo trincou a mandíbula quando uma mulher de cabelos grisalhos saiu para a varanda – E aquela é minha mãe... Dona Helena envelheceu – ela respirou fundo e lançou um olhar para nós – Melhor eu sair primeiro ok?

–Vai lá jogar a bomba de sua presença – Anne incentivou.

Antes que ela saísse, segurei em seu rosto encaixando nossos lábios em um beijo delicado, murmurando um “tudo vai dar certo” para só então deixa-la sair. Victoria respirou fundo antes de abrir a porta e deixa-la entreaberta. Seria engraçado a reação generalizada que ela causou, mas a seriedade da situação não permitia nenhum nível de humor. As mulheres silenciaram-se, os homens arregalaram os olhos incrédulos. A senhora que ela apontou como Maria colocou as mãos sobre os lábios e chorou prontamente ao ver a neta, mas era visível que eram lágrimas de felicidade. Ao contrário da outra mulher que estava ao seu lado, pois o copo que estava em sua mão logo encontrou o destino no chão, quebrando-se em um som abafado pois caiu sobre a grama.

–Minha menina! – Maria exclamou emocionada.

Victoria deu apenas cinco passos para longe do carro antes de ser esmagada pelos frágeis braços da senhora. Eu vi minha garota estremecer e retribuir aquele carinho de maneira intensa, os ombros arriando em um sinal de que estava baixando a guarda.

–O que você faz aqui?! – Helena, mãe de Victoria, quase gritou.

Os ombros tornaram a ficar tenso e eu nunca vi Vic daquele jeito tão defensivo. Maria afastou-se com um olhar reprovador em direção a filha.

–Eu fui convidada – Victoria disse ainda tensa.

–E fui eu quem a chamei – Maria disse e seu tom tornou-se firme, digna de uma matriarca – E minha neta será bem tratada em minha casa, quem ousar desrespeitá-la em qualquer momento dormirá com os porcos! Estou falando veementemente sério!

–Isso é um absurdo, eu deveria ter sido consultada e---

–Irmã!

Um homem interrompeu o discurso indignado de Helena, um de pele mais morena do que a de Victoria, mas com iguais olhos azuis. Seu jeito jovial deixava a aparentar que tinha quase a mesma idade que a irmã ou um pouco menos. Ele era bonito, de porte magro e rosto fácil de apreciar, mas os braços possuíam as definições evidentes de quem cuidava do corpo em exercícios físicos.

–Murilo! – Vic o cumprimentou em igual animação.

Os dois praticamente se jogaram nos braços um do outro. Em minhas observações mentais de tudo o que Victoria me contou sobre o seu passado, havia um espaço reservado de que Murilo era um dos meus cunhados que eu apreciaria conhecer. Foi aquele garoto que ajudou a minha namorada em seu momento mais frágil e delicado.

–Sua vadia de quinta! Você não tinha permissão de sumir desse jeito! – ele brigou prontamente, ao que parecia era mesmo um costume usar de palavras pejorativas para se expressar com alguém – Nem avisou que vinha!

–Quis fazer uma surpresa – Victoria riu um pouco nervosa e virou para Maria – Vó, eu trouxe dois amigos e alguém especial para mim. Espero que não tenha problemas.

–Imagina menina! Nesse tamanho de casa cabe todo mundo e mais um pouco! – Maria dizia com simplicidade e simpatia – Mas escutei algo sobre pessoa especial?

–Ah... Bem... É que...

–Agora é a parte que ela pifa ao ter de contar a vovozinha que tem uma namorada – Anne disse dentro do carro, fazendo Pierre rir – Deus, era para ter pegado mesmo uma pipoca, você está vendo as caras e bocas que os outros estão fazendo?

–Poderia ter me avisado, eu teria providenciado! – Pierre acrescentou.

–...É minha namor... Não, não, é a mulher de minha vida – Victoria dizia totalmente sem jeito, mas sorrindo de canto.

–Você está namorando uma garota e trouxe ela?! – um homem que aparentava ter ao menos trinta anos apareceu – Sério que você fez algo assim em pleno natal?!

–Ei Vic – outro garoto, mais branco do que todos os outros – Uma namorada hein mana? Aposto que é uma daquelas caipiras da cidade que você está morando. Ou louca, só sendo uma louca para namorar você Vic!

–Cale essa boca antes de falar da Liz! – Victoria estourou prontamente.

–Crianças! – Maria falou ainda mais alto.

Quando vi as mãos de Victoria fechando em punhos, sabia que tinha de agir e parar de ficar apenas assistindo. Tomei ar reunindo a coragem que parecia não possuir e sai do carro de maneira naturalmente elegante. Para aquela viagem eu tinha me vestido com esmero, afinal nada melhor do que ter uma boa aparência para enfrentar seu inimigo, não dando brechas para comentários de baixa estima. Trajava um vestido cor creme de aparência simples, mas com detalhes que o deixavam elegante, as alças caídas deixavam meus ombros livres. Nos meus pés botinhas escuras e sem salto, já que imaginava ter de pisar em gramado e em terreno desnivelado. Meu cabelo ruivo tinha deixado solto, mas dediquei um bom tempo para conseguir deixa-lo com ondas mais definidas por pelo menos um dia. No rosto uma maquiagem suave para combinar com o clima do campo e acessórios dourados.

Assim que o barulho da porta do carro ressoou pelo ambiente quando a empurrei, os olhos que variavam de azul ao castanho me encararam. Os garotos que pareciam ser irmãos de Victoria não conseguiram nem ao menos disfarçar o queixo caído, enquanto a avó dela abria um enorme sorriso acolhedor.

–Acaba com eles Liz! – escutei Anne falar antes de me afastar do carro.

E eu acabaria com cada um se fosse necessário. Essa determinação me fez ter um andar confiante, apesar de elegante. Sabia que meu jeito deixava claro que eu não estava intimidada com a atenção que estava adquirindo com todos aqueles pares de olhos sobre mim. Aproximei-me de Victoria, a essa altura ela tinha olhado por sobre o ombro e exibia o seu sorriso convencido.

Pardon – pedi polidamente parando ao lado de minha namorada – Mas creio ter escutado falarem sobre mim e não pude conter o ímpeto de me apresentar. Sou Elizabeth, porém mesmo sem um grau de intimidade gostaria de ser chamada de Liz, parece menos formal – voltei a atenção para Victoria, sentindo um formigar no peito pelo jeito que ela me olhava — Ma chèrie, poderia me indicar quem é quem? Você não extrapolou quando disse que tinha uma família grande.

–Claro – o sorriso dela apenas aumentou – Esse é meu irmão mais novo, o Murilo – ela apontou para o único que sorria para mim, ele acenou com a cabeça em cumprimento – depois de mim e Vero vem o William – ela apontou para o de tez mais pálida, ele me encarava incrédulo e ainda sem reação – E o babaca, digo, o segundo mais velho é o João Paulo, ou JP. Ainda falta o primogênito, que é o Thiago – o sorriso de Victoria se tornou mais caloroso – E claro, a pessoa mais bonita da família, a minha vó Maria.

A senhora me surpreendeu ao abrir os braços e me puxar para dentro deles. Se eu achava esse tipo de cumprimento invasivo normalmente, aquele era ainda mais peculiar. Era dotado de um calor único, um calor maternal e que exalava felicidade. Eu entendia agora toda a admiração que Victoria parecia ter com sua matriarca.

–Vocês dois vão querer ficar cozinhando dentro do carro? – Victoria indagou olhando para trás.

–Eu estava apreciando o show de camarote e gastando a gasolina de Nicoly com o ar-condicionado – Anne disse divertida saindo do carro.

–Aquela é minha amiga e vizinha, Anne – Victoria prosseguiu as apresentações – E o amigo de Liz, Pierre. Antes que perguntem, Liz e Pierre não são brasileiros, apesar do Pierre já está alguns anos aqui.

–CUNHADA!

O chamado eufórico de Veronica rompeu o lugar. Ela saiu velozmente de dentro da casa e logo estava ao nosso lado, me abraçando de maneira animada. Antes que eu pudesse me recuperar, ela estava segurando firmemente o rosto de Victoria e a beijou forte na bochecha mesmo que a minha namorada tentasse escapar.

–Se essa teimosa ta aqui vó, é por causa da Liz, vou logo dizendo – Veronica falava como se contasse uma travessura da irmã.

–Não fiz nada demais, Veronique – cheguei a comentar.

–Você sabia disso?! – Helena se manifestou finalmente, olhando para a filha sem esconder a decepção.

–Claro, fui eu quem fui chama-la e quase apanhei por aparecer de surpresa. Foi uma ordem da vó, mãe! E sabe do que mais? Eu to com uma puta saudade de minha irmã, já passou tanto tempo que essa briguinha não tem mais lógica nenhuma.

–Finalmente alguém escutou o que eu vivo dizendo! – Murilo exclamou bem expressivo.

–Vocês...!

–Helena, respire – Maria interrompeu a filha suavemente – Eles estão aqui e vão passar o natal conosco. Fim. Agora voltarei a ser a boa anfitriã, devem estar famintos depois dessa viagem longa! Murilo e Will, levem as bagagens deles para os quartos de hospedes. Querida, imagino que queria que sua namorada durma em seu quarto, certo?

–Sim – Victoria nem hesitou em aceitar.

–Perfeito – Maria sorriu e lançou um olhar cortante para João Paulo e Helena, impedindo que eles comentassem qualquer coisa – Agora vamos sair desse sol e calor, os outros ainda tem de descobrir essa surpresa.

–Yas vai amar conhecer melhor a tia dela! Vai dar um nó na cabecinha da minha bebê ver duas de sua mãe – Veronica ria.

O casarão parecia ainda maior por dentro. Veronica liderava o caminho já que Maria estava ocupada demais conversando com Anne e Pierre, provavelmente buscando informações clandestinas sobre a neta. Victoria segurava minha mão fortemente, nossos dedos entrelaçados chamavam a atenção... Ou seria apenas a minha presença e cabelo avermelhado? Passamos por duas salas antes de alcançarmos a cozinha muito bem equipada. Em todos os cômodos sempre existia um aglomerado de pessoas que variavam de idades, desde criancinhas, adolescentes e adultos.

Na cozinha um senhor se lambuzava junto com uma criança que era uma verdadeira miniatura de Victoria. Ou melhor dizendo, de Veronica. Tinha a pele bronzeadinha, provavelmente por estar aproveitando o verão brasileiro. Os olhos eram enormes e de um azul estupidamente lindo. O cabelo escuro estava molhado, deixando com as pontas levemente enroladas. Era uma das crianças mais lindas que eu já vi! Do outro lado da cozinha, próximo da geladeira, estava uma garota jovem bebendo suco, mas que quase engasgou quando nos viu.

–Tia Vic! – ela exclamou.

–Vô! Vô! Tem duas mamães! – Yasmin dizia assustada, deixando até cair o doce que segurava.

–Victoria? – o senhor chamou surpreso, seus olhos lacrimejaram, mas ele não chorou. Pelo contrário, abriu um sorriso de covinhas charmosas mesmo para a idade avançada – Bem-vinda de volta filha!

–Princesinha da mãe, essa daqui é a minha irmã, lembra que eu contei sobre ela? – Veronica pegou Yasmin no colo – Eu te mostrei fotos, lembra?

–AAAAH! – a criança fez um alto som e uma linda expressão de compreensão – É a tia que mora muuuuito longe e que por isso não podia nos ver.

A criança ainda falava algumas palavras emboladas, mas conseguia construir as frases muito bem. Deveria ter por volta dos cinco ou seis anos e era encantadora. Um outro homem entrou na sala, seu semblante confuso e o seu olhar mantido para trás como se andasse e observasse algo ao mesmo tempo.

–Vero, porque está todo mundo agitado e... OPA! Victoria! Agora está explicado!

–Oi Arthur – Victoria cumprimentou o rapaz – Tudo bem cunhado?

–Estou surpreso – ele admitiu com um sorriso sem jeito.

–Amor, você pode levar Yas para brincar com as crianças? Conhecendo a família que tenho logo isso daqui lota apenas para saberem mais do que está acontecendo.

–Triste mania de olhar a vida dos outros – a jovem resmungou.

–Não quer nem saber quem é aquela ruiva ali? – Veronica provocou apontando para mim.

–Do jeito que a Vic ta se apoiando nela, deve ser namorada ou coisa muito próxima disso – a garota deu de ombros e sorriu grande – Isso ai tia, pegou uma bem gata, não me decepcionou.

–Isso é jeito de falar menina? – o senhor criticou.

–É verdade vô! – ela se defendeu – Olha como ela é linda e você sabe que pra tia Vic ta aqui, segurando ela na frente de todo mundo deve ser alguém importante. Só não deduz quem não quer ou ta cego.

–Sempre adorei essa menina – Victoria riu – Senti sua falta Isabella.

–Claro que sentiu, sou sua sobrinha favorita – Isabella jogou o cabelo para o lado em falsa prepotência, mas logo fazia uma careta – Mas você me deixou sozinha, tive de lidar com a vida sem minha tia favorita também.

–Eu pensei que era a sua tia favorita! – Veronica se fez de ofendida, colocando a mão dramaticamente sobre o peito.

–Péssimo gosto em fazer a Vic sua pessoa favorita – Anne alfinetou não conseguindo mais ficar quieta.

–Aqui amores, um lanche rapidinho, sentem-se!

Enquanto havia toda aquela conversa, Maria agilmente preparou mistos quentes para todos nós. Pierre e Anne não se fizeram de rogados, devoravam a comida sem se importa em estarem em um ambiente estranho. Sentamos ao redor do balcão que eu poderia apostar ser propositalmente grande para aguentar todo aquele número grande de membros da família. Victoria refez as apresentações para o seu avô e sobrinha, revelando o nome daquele senhor simpático como Alonso.

Treinada para lidar com várias pessoas ao mesmo tempo graças aos eventos sociais da alta sociedade europeia, eu conseguia absorver boa parte da conversa paralela que acontecia. Apesar disso, era muita informação acontecendo ao mesmo tempo, pessoas se aproximando com nomes típicos daquele lugar. Cochichos, especulações, olhares acusadores, olhares saudosos. Aquela enorme família foi pega de surpresa e agora nós éramos o alvo de suas conversas e preconceitos no mais puro sentido da palavra. Eles não nos conheciam e muito menos sabiam como Victoria era, do quanto tinha crescido e no que tinha se tornado.

Mas surpreendentemente, Victoria permaneceu sem se alterar até aquele momento. As vezes se exaltava por um comentário ou outro, por causa de uma provocação de algum familiar ou implicância de Anne. Era nítido que quem ousava se aproximar naquele momento era apenas aqueles parentes que aceitavam minimamente a condição e a novidade.

De toda aquela confusão, apenas uma certeza se findava: aquele seria um longo natal.

Notas finais
Gente, a família da Victoria é do interior e a coisa mais comum é que são famílias enoooormes. Eu vou tentar fazer uma imagem com a árvore familiar da Vic para vocês não se perderem, já que eu fiz isso em um papel para que eu mesma não me perdesse! E olha, preparem coração pros próximos capítulos.