Ma Chérie

41 A nossa dança


Notas iniciais
Um capítulo bem suave depois de tanta... intensidade (?) Pelo título já é perceptível que há uma dança. Eu tive de colocar essa dança depois de assistir O DANÇARINO DO DESERTO. Eu não achei um vídeo que mostrasse a dança, infelizmente. Então peço desculpas desde já se não ficar compreensível o que eu quis passar. Também queria agradecer a cada review mandando no capítulo anterior. Eu estou levando um tempo para responder todo mundo, pois quero responder ao nível. Cada comentário foi importante e vocês me fizeram amar ainda mais MC por cada um deles, por me mostrarem como a fic pode fazer uma pequena diferença. Mesmo que pequena, ainda é uma diferença!

Pov Liz

O estábulo era simples, mas completo. Assim que nos aproximamos da instalação onde estariam os cavalos, um senhor muito moreno e de cabelos longos o suficiente para estarem amarrados em um rústico rabo-de-cavalo baixo, já nos esperava. Haviam dois cavalos ali, um tão marrom que eu poderia apostar que a depender da hora do dia o sol faria seu pelo torna-se avermelhado. O outro era de um escuro tão intenso que beirava ao azul, mas as patas eram brancas e com cabelo.

–Negresco! – Victoria exclamou assim que avistou a nossa montaria – Eu não acredito, olha como esse bicho está enorme!

–Faz muito tempo que você não vem aqui – o homem abriu um sorriso enorme – Lembro de quando você vinha cheia de trancinhas e aparelho nos dentes olhar o Negresco amamentar.

–Não precisava manter uma memória tão ruim – Victoria prontamente fez uma careta antes de correr e literalmente jogar-se nos braços do outro – Senti sua falta J.!

–Olhe que a mocinha não ta merecendo nem um ‘a’ de bondade, não pode esquecer dos velhos desse jeito não – Jeronimo fazia um grande teatro ao afastar Victoria, a morena logo tratava de fazer o seu melhor beicinho – E nem venha de manha mocinha! – ela persistiu no beicinho – Isso ta ficando realmente esquisito, funcionava melhor quando você tinha cinco anos sabe?

Victoria bufou, mas logo ria facilmente. Isso me fazia sorrir e imaginar exatamente uma garotinha menor correndo por aqueles vastos campos, de cabelos escuros e enormes olhos azuis. Victoria e Jeronimo prorrogaram as provocações até que pigarrei para chamar a atenção, a vontade de cavalgar fazia me atrever a interromper o reencontro!

–Oh sim – Victoria abriu um sorriso do tamanho do mundo – Já está sabendo? Estou namorando uma dama!

–Óbvio que as fofocas já chegaram até na roça, mocinha – Jeronimo riu abertamente – Mas olha, só vendo pra acreditar que uma coisa como você arranjou uma dona tão deslumbrante.

–Vou dizer pra Sra. Marcia que você ta achando outras mulheres deslumbrantes por ai – Victoria cruzou os braços.

–Ela vai é concordar comigo! Olha que belezura de mulher! Com todo perdão pelos modos, senhorita.

O homem logo tratou de ratificar o seu jeito tão aberto em falar aquelas coisas. Abri um sorriso e apenas acenei com a cabeça em um gesto de simpatia.

–Sinto-me lisonjeada na verdade monsieur Jerronimo – disse e fiz uma breve careta por não conseguir pronunciar o nome corretamente.

–Agora vamos que Dona Helena me deixou ordens claras de selar o Negresco e a Pocahontas. Precisará de ajuda senhorita?

No, eu sei montar, merci pela gentileza monsieur.

Naturalmente Victoria se aproximou do alazão negro e o montou com uma certa dificuldade, coisa de quem não o fazia por tantos anos. Mas assim que estava sentada sobre a sela, o sorriso que brincava nos lábios cheios de minha amada não tinha mais tamanho. Vê-la assim, tão contente, fazia considerar brilhante a fuga de Helena ao propor um passeio a cavalo.

–Certeza de que pode lidar com isso? – Victoria fez o cavalo trotar suavemente aproximando da égua marrom.

Arqueei uma sobrancelha ao sentir o leve tom de desafio disfarçado no olhar azulado da brasileira. De maneira convencida, aproximei do animal e com um único e hábil movimento eu a montei com graça e leveza. Jeronimo não segurou a gargalhada debochada, Victoria deixou o queixo cair e mostrou-me a língua como uma verdadeira criança faria.

–Vamos, não vou deixar você me zoar por causa disso – Victoria fingiu-se de brava.

–Jamais faria um ato tão infantil de acusar você de ter um julgamento precipitado sobre minhas capacidades mon amour – disse em um tom educado e falsamente inocente.

–Eu realmente gostei dela! – Jeronimo riu – Volte antes das dez mocinha, ou seu avô coloca o meu na reta.

Victoria bateu continência e incitou o seu cavalo a começar o trote. Eu a acompanhei facilmente para fora daquela área, seguindo um pouco em paralelo a um cercado que parecia de segurança. Mas bastou atravessarmos um enorme portão aberto de madeira que Victoria incentivou o seu alazão a aumentar o ritmo do trote, seu corpo se erguendo enquanto ela abria os braços e gritava animadamente para a natureza.

–Meu Deus que saudades desse ar puro e desse cheiro de grama!

Naquele exato momento o sol havia se movido apenas um pouco acima do horizonte. Ainda era cedo e o dia clareava, as luzes ainda “frias” das primeiras horas da manhã abraçavam Victoria a deixando ainda mais linda e suave. Ela tinha escolhido uma roupa similar a minha, colocando uma calça jeans agarrada as suas pernas, botas de cano médio, uma blusa cinza com outra blusa xadrez por cima com os botões abertos. Eu também estava de calça justa, botas, mas havia escolhido por uma blusa mais solta e de cor azul clara. Havia prendido os meus cabelos em um rabo-de-cavalo simples, pois desconfiava que logo iria fazer um calor digno do Rio de Janeiro.

–Eu amava cavalgar – Victoria revelou assim que me aproximei – Havia momentos que só isso me acalmava, eu amava passar as férias escolares aqui ao invés de viajar para longe.

–Então não haveria alguém melhor do que ma chèrie para mostrar-me os melhores lugares, certo?

O sorriso de Victoria rasgou mais uma vez seu rosto. Em um movimento de cabeça que pedia para que eu a acompanhasse, Victoria começou a cavalgar em um ritmo constante.

A fazenda era enorme, pois além da criação de cavalo ainda existia pequenas plantações para consumo próprio e cultivo bovino. Os campos eram vastos e bem cuidados, apesar de haver sinais de que sofreram recentemente por uma seca. Victoria passou por todo o caminho contando-me histórias de sua infância, relembrando os melhores momentos ao lado de seus primos e irmãos.

Contou-me de sua eterna rivalidade com William, que era apenas três anos mais velho, pois costumavam dizer que ela era mais moleque do que o garoto. Então se desafiavam a fazer de tudo, desde coisas nojentas — como encontrar minhocas e quem conseguiria comer mais sem vomitar ou desistir – a disputas esportivas como jogos de futebol na quadra improvisada perto da fazenda. Falava de como adorava roubar os biscoitos de gomas que sua mãe e sua avó preparavam para os finais de semana.

Escutar isso me encantava, pois mostrava-me que aquela leveza que ela tinha em si vinha boa parte dessa criação solta, apesar de tão regrada e punitiva em determinados assuntos. Ela teve exatamente tudo o que eu nunca tive quando criança. Liberdade de correr e se sujar, de gritar alto e brigar com seus irmãos mais velhos pelo brinquedo que queria. Enfiar as mãos na terra, brincar de barro e cuidar dos animais como qualquer outro empregado. Ela podia fazer isso tudo e depois voltar para casa onde todos estariam a esperando com uma grande bagunça, pois assim era uma família tão grande quanto aquela.

–Vem, acho que dá tempo de irmos a um lugar! – Victoria disse de repente.

O sol já estava mais ao alto denunciando o quanto nosso passeio estava demorando. Victoria manuseou o Negresco em direção a floresta, achando uma trilha espaçosa que daria para que daria facilmente para os cavalos atravessarem contanto que fossem enfileirados. Assim coube a brasileira de guiar o nosso caminho.

–Isso é o som de água? – identifiquei poucos minutos depois.

–Sim, vamos para perto de uma cachoeira muito linda! Espero que continue do mesmo jeito que anos atrás – Victoria dizia prestando a atenção no caminho.

Levou apenas alguns minutos para o barulho de água se tornasse ainda mais forte. O cheiro de grama molhada também se tornava ainda mais intenso denunciando que estávamos bem próximas. No entanto, quando finalmente vi aquela obra da natureza, o meu queixo caiu considerável centímetros. Não era uma cachoeira de que alta, porém larga. As águas desabavam com força em um rio de poucas formações rochosas por entre as correntezas, mas a água era tão cristalina que podíamos ver pequenos peixes e o piso com pedrinhas.

Victoria tinha um enorme sorriso quando desceu de seu alazão, o amarrando em um tronco. Ela se aproximou e eu não neguei a sua ajuda para descer da égua, era gentil da parte dela. A brasileira também amarrou a minha montaria e me puxou pela mão para perto da margem do rio.

–Eu vinha para cá sempre que queria ficar sozinha – Victoria revelou enquanto andava – Há um outro lago onde o pessoal costuma pescar por diversão, e uma outra cachoeira que é maior e com rio mais fundo, essa é a mais popular pois os garotos ficam pulando do alto.

–Mas aqui é lindo – contestei ainda encantada com o lugar.

–Ah, bem, eu declarei o lugar como meu e batia em todo mundo que viesse para cá sem minha permissão – Victoria riu travessa – Vamos tomar um banho antes de voltarmos!

Pardon? Banho? Mas não trouxemos nada para isso!

–Não precisamos, vamos nadar nuas.

Meu rosto esquentou só com a ideia de entrar naquele lugar sem nenhum tecido cobrindo o meu corpo. Tão exposta em um lugar tão aberto! Recuei prontamente, meu eu tão treinado para manter o pudor recusando veementemente aquela ideia.

No, no! Isso é indecente, mademoiselle! – neguei firmemente e meus olhos se abriram como nunca antes ao ver Victoria tirando as botas – Victoria!

–Ninguém vai ver – ela sorria sapeca e divertida – Ou você tira a roupa, ou eu vou arrancá-las de você!

–Você não se atreveria!

Mon ange, tudo o que eu sempre quero fazer é tirar sua roupa! Vamos, se aventure comigo, a água deve estar bem fresca e deliciosa – ao perceber que eu ainda estava hesitante, Victoria aproximou a passos largos não me dando chance de fugir para longe – Você não vai se arrepender, eu prometo.

Os olhos azuis estavam ainda mais claros que o comum. Maldito oceano azulado, pois ela estava me fitando de um jeito que me deixava desnorteada e a sua mercê. Engoli em seco sentindo meu rosto esquentar ainda mais quando levei minhas mãos para a borda de minha blusa. O sorriso de Victoria tornou a nascer naqueles lábios perfeitos e sem quebrar o contato de nossos olhos ela começou a se despir lentamente. Mesmo tremula, também fui tirando a minha roupa.

Despida e exposta, abaixei o rosto sentindo uma timidez absurda. Estava no meio da natureza sem nada cobrindo o meu corpo, oferecendo cada traço de mim para ser analisado e exibido. Mas assim também estava Victoria. A pele morena, o corpo naturalmente magro e perfeito, diferente do meu que tinha uma musculatura mais definida por causa da dança.

–Vem.

Foi o único chamado dela. A brasileira pegou minha mão e me puxou calmamente para o rio, sendo a primeira a entrar. Meu corpo inteiro arrepiou quando meu pé afundou na água gelada, mas a sensação fria logo se tornou bem-vinda por conta do calor que estava fazendo. Victoria soltou minha mão para fazer um mergulho gracioso, submergindo no meio das águas de maneira gloriosa. Mal percebi quando mordi o meu lábio enquanto a admirava e percebia mais uma vez o quanto aquela morena era linda.

Notando minha hesitação e minha insistente timidez, Victoria poderia ter se aproximado e dito palavras galantes, que me derretessem e dessem confiança. Porém tudo o que ela fez foi um movimento brusco na água que jorrou água em minha direção! Surpresa e indignada com aquele atrevimento, soltei uma exclamação irritada e incrédula.

–Por que fez isso?! – mais água foi jogada em minha direção – Pare! – Victoria riu e se aproximou para fazer os jatos ficarem mais fortes quando jogou pela terceira vez – VICTORIA!

Bati a mão com força na água, fazendo espirrar várias gotas ao redor. Victoria gargalhou de meu ato mimado deixando-me ainda mais irritada. Sem conseguir lidar com aquele ato infantil dela, resmunguei e dei as costas disposta a sair daquele rio, vestir minhas roupas e cavalgar de volta a casa grande. Mas antes que eu desse mais do que cinco passos, um braço moreno circulou minha cintura e me puxou com tudo para trás, fazendo meus pés perderem o apoio.

–Não vai sair! – Victoria dizia com tom divertido – Estou atacando você e você faz nada? As damas europeias não sabem se defender?!

–É ultrajante essa suposição, em primeiro lugar não estaria nem dentro desse contexto pra---!

Eu não consegui terminar a frase, Victoria segurou-me mais firme e impulsionou meu corpo para cima, me jogando literalmente para frente. Caí de vez na água, mesmo que não tivesse alcançado uma altura considerável, eu subi cuspindo água da boca e arfando. Meu cabelo vermelho estava todo a frente de meu rosto e a minha respiração irregular. E o que minha namorada fazia? Gargalhava como se estivesse na melhor das brincadeiras. Rosnei indignada, furiosa. Além de me tratar daquela forma a brasileira se divertia as minhas custas!

Sem pensar, comecei a jogar água nela também a pegando de surpresa. Um ataque muito bem-sucedido já que ela ria a plenos pulmões, recebendo um jato de água bem no rosto, se engasgando no minuto seguinte. Aproveitei a minha chance e joguei para cima qualquer regra de boa postura, aquilo dali era uma guerra e eu não deixaria que ela continuasse com aquela postura superior. Antes que Victoria se recuperasse, saltei sobre o seu corpo, usando o ombro dela para conseguir apoio para cima e com a outra mão empurrando a cabeça para baixo. Ela deve ter bebido quase um litro de água já que estava tossindo quando tentei afoga-la.

Quando conseguiu escapar e ergueu o corpo, o olhar azulado estava com um brilho que causou um calafrio em meu corpo. Uma presa sabe o momento certo em que deve fugir da ameaça. Não pensei duas vezes em tentar correr e até soltei um gritinho de medo. Mas Victoria era bem hábil naquele rio e logo estava se vingando, me imobilizando e se jogando na água comigo fazendo crescer um certo desespero dentro de mim por não ter nenhum modo de emergir por vontade própria.

–Diga que desiste! – Victoria exigiu assim que levantamos.

Jamé! – gritei orgulhosa.

Escutei a risada divertida dela. Aquilo foi só o início, pois no fim estávamos apenas brincando uma com a outra. Jogávamos água uma na outra, fazíamos apostas bobas de como quem aguentava mais tempo embaixo da água. Era algo infantil, mas me flagrei me divertindo de um jeito tão livre e intimo como nunca havia me permitido. Afinal de contas, ainda estávamos nuas e agora não restava nenhum resquício de timidez ou pudor.

No fim estávamos envolvidas uma na outra, nos beijando embaixo da água. Victoria segurava em uma das poucas rochas que havia dentro do rio para manter nossos corpos embaixo da água. Eu me agarrava a ela enquanto dominava o beijo até o nosso fôlego acabar. Quando emergimos, Victoria encostava as costas na rocha e ofegava. Eu estava rindo baixo e feliz, meu peito subindo e descendo denunciando a minha respiração irregular. Havia sido uma das melhores experiências de beijo que tinha experimentado.

–Isso foi bom – Victoria disse arfante.

Magnifique – murmurei aconchegando meu corpo ao dela – Eu estou tão feliz que poderia dançar.

–Então dance – ela falou simplesmente.

–Só se dançar comigo.

–Sabe que eu não sei...

–Sabe que eu sou uma professora paciente. Você não vai se arrepender, eu prometo.

Parafraseei a mesma frase que no fim havia me convencido. Victoria percebeu, sorriu de lado e deu de ombros. Animada, a segurei e puxei mais para o centro do rio, onde a água batia um pouco abaixo de meu seio.

–Dançar envolve muitas questões – falei serena, parando a frente dela – Mas uma delas é a liberdade corporal. Você se movimenta de maneira livre, sem temor, sem se segurar. Ninguém precisa entender o que você está fazendo, contanto que sintam o que você quer passar.

–E o que você está sentindo?

Aquela era a pergunta certa. Segurei o rosto dela com uma mão enquanto com a outra erguia a palma dela a deixando reta, como se estivesse prestes a fazer um juramento. Com a mesma mão livre, deixei a centímetros da dela, mas nunca fazendo contato.

–Eu estou sentindo que estou transbordando – murmurei, a emoção do momento fazendo com que meu sotaque francês se tornasse mais presente – Transbordando de sentimentos tão bons que convergem em uma energia. Amour – fitei aqueles olhos percebendo o efeito da água cristalina refletida na íris azulada – Você é minha fonte, você vai me conduzir e eu vou te seguir de maneira cega, deixando que meu corpo extravase o sentimento através dos movimentos.

–E-eu não sei se consigo fazer isso – Victoria acuou um pouco – Parece tão... tão sério e íntimo.

–Por isso faço apenas com você, mon amour – murmurei e sorri apaixonada – Estou nua, exposta, entregue e apaixonada. Não precisamos de música, deixe que a natureza faça o seu papel nisso, pense no momento, sinta toda a minha confiança em você ao te seguir.

Afastei um pouco depois de fazer uma carícia no rosto dela. Quando movi minha mão erguida, segurei um sorriso ao perceber que quase sem notar Victoria seguiu o meu movimento. Ela estava conectada, envolvida e até preocupada com a responsabilidade. Levei nossas mãos para próxima de meu rosto. Abaixei a minha e quando ela ia fazer o mesmo com a dela fiz um leve momento de negação com o rosto. Victoria franziu o cenho, dei um pequeno sorriso encorajador e voltei meus olhos para a palma a centímetros de meu rosto. Precisei de apenas alguns segundos para deixar-me levar pela sensação, de me concentrar e me entregar totalmente a ela.

Victoria arfou. Ela moveu a mão para frente lentamente, fazendo-me inclinar para trás para obedecer a regra da distância entre meu rosto e a palma da mão dela. Ela puxou a mão para trás, fazendo-me inclinar meu corpo para frente suavemente. Vic levou a mão dela para mais próximo de si, deixando nossos rostos bem próximos. Em um vislumbre, eu quase perdi o fôlego ao perceber a intensidade do olhar azulado sobre mim. Ela estava me admirando como nunca fez antes, seus olhos pareciam faiscar fascinados.

Então a mão moveu-se para cima, fazendo um breve movimento de concha como se estivesse me elevando. Fiquei nas pontas dos pés, a postura de dançarina perfeita. Mas então Victoria me surpreendeu ao trocar rapidamente de mão e fez um movimento que me obrigou a seguir o comando institivamente. Meu corpo girou, me deixando de costas para a garota, mas tão próximas que eu ainda sentia a respiração dela em meu pescoço. Ela se moveu para ficar ao meu lado, o corpo virado na direção contrária. Puxou levemente a mão para trás me fazendo ir suavemente para frente, mas no momento seguinte me fez ir para trás em um ritmo mais rápido.

Victoria me guiava, me comandava. Eu a seguia cegamente, deixando que meus passos escondidos pela água me fizessem dançar com mais leveza do que nunca. Ela me fez girar, quase mergulhar e depois levantar. Ela não percebia, mas ao me fazer me movimentar desse jeito, ela se posicionava ao meu redor, se movia junto comigo. Confiava de que eu seguiria o seu comando, dançando e me deixando levar; da mesma forma que eu confiava nela para entregar esse poder sobre mim.

Em um momento, ela me fez inclinar o tronco para trás quase formando um arco. Meu corpo curvou até meu cabelo estar quase submergido por completo na água corrente. Eu sentia a corrente da água o movimentando. Escutava o barulho da queda da cachoeira como a sinfonia natural daquela dança. Tinha noção de que meu corpo estava totalmente exposto e molhado pelo rio, a temperatura solar beijando a minha pele exposta. Porém, mais do que isso, eu sentia cada fibra de meu ser livre, extravasando aquela energia apaixonada e quase sufocante. Escutei Victoria ofegar alto e logo ela retrocedia a mão, fazendo meu corpo retornar a postura correta.

Ela deu um passo a frente, seu corpo quase roçando o meu. Ela retirou a mão de meu rosto e a ergueu ao seu lado como eu tinha feito inicialmente. Obedeci o comando mudo, erguendo minha palma de frente a dela. O olhar azulado focalizou nossas palmas a centímetros de distância e logo eu também olhava para elas.

–Isso foi além do que eu posso descrever, Aimeé – meu corpo estremeceu forte quando ela me chamou assim – Mas a dança não está completa. Eu não guio você sozinha, pois você também me guia. Ainda mais aqui, nesse ambiente que se tornou tão hostil e você me fez enfrentar de cabeça erguida – bem devagar, Victoria colou nossas palmas e foi entrelaçando dedo por dedo vagarosamente – Juntas. Eu e você. É assim que a dança se torna perfeita, nossa dança.

Quando voltamos a nos fitar eu via amor, eu via carinho, eu via confiança. Como não me derreter e amar aquela garota mais do que eu conseguia compreender? Ali, naquele momento, ela era Victoria a mulher de minha vida. Não importava que ela fosse uma garota, que fosse uma trabalhadora que ganhava menos do que seu esforço merecia. Não importava se ela não tinha o carro do próximo ano, um apartamento grande ou até mesmo uma mansão. O essencial era que ali eu tinha encontrado o amor, puro no sentimento, carregado no desejo, avassalador em sua intensidade. Ele não tinha escolhido um europeu de pele branca, cabelos loiros e olhos claros, rico e bem educado. Ele me deu a pessoa que iria me completar e me fazer brincar nua feito uma criança.

–Eu amo você – Victoria murmurou carregada de emoção.

Je t’aime – murmurei em igual intensidade.

Ela sorriu. O sorriso mais lindo e que fazia meu mundo perder todo o eixo para se encaixar ao dela. Suspirei alto e esse pareceu ser o sinal para que Victoria me beijasse. Um contato casto e delicado, um que selava o momento com chave de ouro.

Notas finais
De novo, desculpas se a cena de dança não deu para imaginar, mas ela ficou perturbando minha mente que eu tive de encaixá-la aqui de alguma forma! Eu sou terrível em descrever a dança porque são muitos movimentos em poucos segundos, por isso trabalho colocando hiperlinks no meio da história. Mas dessa vez não foi possível. Porém, conseguiram sentir a mensagem da dança? Isso que é importante. A conexão, a entrega, a responsabilidade de conduzir e se deixar conduzir! Espero que isso, pelo menos, tenha ficado bastante elucidado.