Ma Chérie

36 Survivor


Notas iniciais
Então, hoje não é feriado né? Mas estou voltando! E dessa vez estou voltando com força total, porque já tenho cinco capítulos prontos. A paixão por MC retornou com força arrebatadora e, pra quem acompanha desde o início, sabe que minha relação com essa fic é bem complexa. Eu prometo não decepcionar vocês, então, por favor, não me matem! Eu ia dividir esse capítulo em 2, mas preferi manter em um só pro golpe ser mais profundo.

Pov Victoria

Aquilo simplesmente não poderia estar acontecendo. Depois de tantos anos, depois de ter finalmente superado, como ela podia simplesmente aparecer assim na minha casa e estar conversando com minha Liz?

Veronica não devia estar ali. Deveria estar na capital sendo a filha perfeita, casada com um cara maneiro e cuidando da pequena Yasmin... Quantos anos minha sobrinha deveria ter agora?

–Já acabou? – perguntei de maneira rude e mal contendo a raiva – Porque você já pode ir e voltar pro lugar de onde veio.

–Olha, calma ok? – finalmente minha gêmea soltava aquela postura de superior que a maldita sempre carregava – Eu vim em paz.

–Não deveria nem ter vindo! – vociferei sentindo cada veia de meu corpo pulsando forte.

–Você não dá notícia a quase um ano inteiro! – Veronica respondeu em igual tom.

Porque eles haviam deixado claro que eu não fazia mais parte daquela família. A raiva, a mágoa, o ressentimento... Tudo parecia voltar de uma vez e se personificar naquela imagem cuspida de mim mesma. Porém antes que eu começasse a brigar de verdade, eu vi vermelho. Mas não um vermelho derivado da ira, mas sim minha delicada Elizabeth colocando-se à minha frente. Os olhos castanhos que sempre estavam carinhosos e vívidos mostravam-se preocupados, as mãos de dedos finos segurava em meus ombros e a proximidade dela me impedia de ver minha irmã completamente.

–Victoria – ela pronunciou em um timbre baixo e firme – Você há pouco tempo estava com a pressão oscilando por causa do trabalho. Respire fundo, vamos lidar com essa situação, ok?

Oh sim, a porra do trabalho estava me consumindo porque eu não conseguia simplesmente não fazer as coisas bem feitas. O que me fazia levar projetos para casa, ter insônia e problemas com minha pressão. Além do estresse que parecia ser curado apenas quando Liz começava a me mimar. Se eu estava ficando dependente dela? Definitivamente. E isso se provava pelo simples fato dela ter conseguido exatamente o que pretendia. Respirei fundo, apertei meus olhos com força e desviei o olhar daquela figura que tanto me feria.

–Você tem de ir embora, Veronica – falei o mais fria que conseguia.

–Não até conversarmos – ela respondeu teimosamente.

–Não temos o que conversar! – comecei a me exaltar novamente.

–Mademoiselle Vero... Verroo... – Liz se esforçava em pronunciar o nome de minha irmã do jeito certo, ela sempre sentia dificuldade com nomes que tinham forma própria em sua língua – Mademoiselle Veronique – ela desistiu e falou de uma maneira totalmente francesa, o que fez minha irmã arquear as sobrancelhas – Você poderia retornar amanhã? As condições do momento não propiciam uma conversa civilizada, então seria uma boa estratégia se retirar e retornar quando Victoria parecer não querer voar em seu pescoço.

–Isso nunca vai acontecer, ela sempre quer isso – Veronica cruzou os braços – Eu conheço minha irmã, se não falarmos agora ela nunca vai deixar, capaz de fugir de novo. Sua especialidade não é maninha? Simplesmente fugir e desaparecer!

–Cale a boca que você não sabe de porra nenhuma! – eu explodi e só não avancei contra minha gêmea porque Liz estava a minha frente.

–Eu não vou sair daqui! – Veronica persistiu.

–Você pode ter sido sempre a mais inteligente, mas sabe que eu sempre fui a mais forte. Quer que eu te obrigue?!

–Sem violência, Victoria – Liz alegou firme e respirou fundo – Podemos entrar em um acordo? Veronique ficará em meu quarto enquanto você se acalma no seu e amanhã as coisas podem ser conversadas de maneira mais branda e...

–Não! – gritei forte, pela primeira vez elevava o tom de voz daquela forma com Liz, o que a assustou – Ela não vai ficar em meu apartamento!

–Nosso apartamento! – Liz acrescentou prontamente tentando manter-se firme.

–Ok, então vocês duas ficam aqui, eu saio!

Não era a atitude mais correta ou mais madura. Eu só não conseguia ficar ali, estava sufocando e surtando a cada milésimo de segundo que passava. Então eu fiz exatamente o que Veronica me acusou. Eu sai da casa o mais rápido que eu consegui, dando as costas para Elizabeth e qualquer chamado seu, passando pela porta de maneira brusca e me deparando com a única pessoa com que eu poderia contar no momento.

–O que ta pegando? – Anne perguntou tentando olhar por sobre o meu ombro.

Minha vizinha e amiga estava com a porta entreaberta, a bolsa ainda em seu ombro denunciando que ela tinha acabado de chegar. Sem responder e com certa urgência, a segurei, empurrei para dentro do apartamento dela e entrei junto. O mais rápido que eu consegui fechei a porta com força como se pudesse por uma barreira entre eu e Veronica. Quando eu senti a madeira barrando a entrada de qualquer pessoa do outro lado, eu finalmente me permiti desabar. Colei as costas contra a madeira e fui deslizando enquanto minha respiração ficava cada vez mais errada e minha visão ficando levemente turva, denunciando um princípio de ataque de pânico.

–Ai meu Deus – Anne percebeu a seriedade de meu estado – Vic, respira sua filha da puta, respira! Você precisa oxigenar o cérebro – a japa abaixou a minha frente, buscando o meu olhar com certo desespero – Puxa o ar pelo nariz e solte pela boca!

–E-eu não consigo! – meu peito começava a querer explodir, eu simplesmente não conseguia controlar!

–Consegue sim, olhe para mim e siga meus movimentos!

Anne segurava com força em meus ombros, seus olhos puxados não largando os meus em nenhum momento. Ela fazia a técnica de respiração e eu lutava para seguir os mesmos movimentos. Mas era a coisa mais complicada que eu fiz na vida, não quando aquelas memórias infernais voltavam tão vívidas em minha mente. Todas as dificuldades, tudo o que eu perdi, tudo o que eu tive de passar para chegar até ali... Para simplesmente desabar quando minha irmã gêmea surgisse a minha frente. Quando finalmente consegui respirar direito e descartar um verdadeiro ataque, foi o momento em que eu chorei.

Chorei alto, como uma criança que temia pelo bicho papão debaixo da cama e ficava escutando coisas dentro do armário. Eu mal percebi quando Anne me levou para o seu quarto, ou quando batidas fortes vieram da porta. Nada disso parecia ser capaz de estourar a bolha que eu deixei que crescesse ao meu redor. A sensação que eu tinha era que eu estava chorando tudo o que eu não tinha chorado por todos aqueles anos, mas que diferente das outras vezes eu estava com mais medo do que nunca. Medo de perder tudo o que eu havia conquistado até ali, de ter errado e por ser tão fraca.

Quando parei, finalmente notei que estava deitada com a cabeça sobre as pernas de Anne, a japonesa me acolhia em silêncio, afagando minhas costas, murmurando palavras de carinho. Talvez por isso não tenha surtado de maneira pior tendo indícios de um novo ataque de pânico ou crise. Respirei fundo odiando o meu nariz entupido por causa do pranto, sentindo meus olhos ardendo e o rosto inchado. Sentei sobre a cama, esfreguei o meu rosto molhado com as mãos e finalmente encarei a minha amiga.

–Não precisa falar nada agora – Anne disse suavemente.

–Eu sei – soltei um suspiro e finalmente comecei a explicar – Lembra que eu disse que tinha muitos parentes e até mesmo uma gêmea?

–Você estava falando sério? Estávamos na quinta rodada quando você pela primeira vez começou a falar um pouco de sua família. Você nunca toca nesse assunto.

–Sim, eu estava séria. Veronica apareceu de repente no meu apartamento querendo conversar. Tentei mandar embora, mas a vadia sempre foi muito teimosa e sempre quis as coisas do jeito dela – apertei as mãos em punho e desviei o olhar, estava me sentindo tão pequena e frágil! – Eu comecei a lembrar de tudo e... Bem, surtei. Apenas fugi de casa quando Liz sugeriu que ela ficasse e conversássemos amanhã.

–Liz apareceu bem preocupada – Anne avisou.

–Ela apareceu? – indaguei confusa.

–Sim, disse que tentou tirar a garota de lá de todas as maneiras que conhecia, mas que ela simplesmente se trancou no quarto dela se recusando a sair – Anne contou e franziu o cenho – Nossa ela é mesmo inconveniente e teimosa.

–É a Vero – deixei meus ombros caírem – Eu não quero falar com ela Anne, eu não quero mais nada vindo deles. Eles me chutaram, me mandaram embora, então por que não me deixar no meu canto?

–Eu não sei, talvez você descubra se conversar com ela? Ei, não me olhe assim! É só uma sugestão, até porque... faz quanto tempo que você não fala com alguém da família?

–Um ano mais ou menos – lembrei sentindo um frio congelante dentro de mim, cai de vez sobre o colchão e respirei fundo – Amanhã eu converso com ela, posso dormir aqui?

–Claro que sim, só vá tomar um banho e vista uma das minhas blusonas, que deve ficar normal em você já que você tem esse tamanho todo.

–Você que é uma tampinha!

Anne me empurrou fingindo uma cara brava e eu sorri de leve. Como planejado eu fui tomar um longo banho e acabei vestindo uma daquelas blusas folgadas que Anne usava quando queria dançar street. Preferi ficar sozinha deitada no sofá, recusando mais afagos que viriam de uma amiga, primeiro precisava colocar minha mente no lugar.

Veronica tinha seus defeitos, suas manias, sua pose... Mas nem sempre tivemos essa relação tão conflituosa. Pelo contrário, éramos como todos irmãos gêmeos, com uma ligação tão poderosa que parecia que liamos os pensamentos uma da outra. Quando crianças aprontávamos terrivelmente, uma fingindo ser a outra, confundindo até mesmo os nossos pais de tão idênticas que nós éramos. Na escola chegávamos a fazer a prova uma da outra, pois sabíamos escrever de maneira igual. Quando começamos a nos interessar por garotos, mais por parte dela, fazíamos um teste de troca, pois uma tinha de aprovar a escolha da outra ficando pelo menos uma vez com a pessoa eleita e...

Saltei do sofá com o coração disparado. Eu havia deixado Liz sozinha com Veronica?! Puta merda! Mais rápido do que quando eu entrei ali, eu abri a porta do apartamento de Anne e voei para o da frente, o abrindo e praticamente invadindo. Eu estava literalmente correndo, quase me jogando contra a porta do meu quarto que estava entreaberta.

Meu corpo ferveu quando eu vi Elizabeth em pé em um canto com o travesseiro a frente do corpo como se estivesse se defendendo, os olhos castanhos bem abertos na mais pura surpresa. Veronica estava do outro lado da cama, usando uma das camisolas de Liz que ela teve a cara de pau de pegar. Sorria divertida e arqueava uma sobrancelha quando me viu romper no recinto.

–Eu não acredito que você estava fazendo isso! – eu gritei para Veronica.

–É tradição! – ela alegou erguendo as mãos em rendição – Mesmo ela sendo uma garota, eu tinha de fazer a tradição como sempre fazíamos antes.

–Ela é minha mulher, está ouvindo?! – esbravejei realmente irritada, apontando acusadoramente para Vero – Não se atreva nunca a pensar que Elizabeth era como qualquer caso de colegial que eu me obrigava a ter só pra parecer normal. Você pode ter nenhuma merda de respeito por mim, mas vai ter por ela, está ouvindo Veronica?!

Pela primeira vez em muito tempo eu vi Veronica realmente surpresa e de guarda baixa. Ela me fitava de maneira incrédula enquanto eu defendia Liz daquela situação ridícula. O que minha irmã estava pensando? Que eu ainda era aquela adolescente assustada e que traria qualquer uma para morar comigo?!

–Você realmente a ama – ela disse totalmente surpresa.

–Isso não é da sua conta, minha vida não é mais de seu interesse – respondi de maneira grosseira – Agora faça o favor de voltar para porra do quarto, já entendi que não vai sair daqui hoje, mas amanhã eu coloco fogo em você se for preciso!

Veronica suspirou e saiu pacificamente do quarto, batendo a porta assim que a transpassou. Pousei a mão sobre o cabelo e o puxei levemente, fechando os olhos sem acreditar naquelas últimas horas. Mas enquanto estava assim, braços me envolveram e puxaram para perto, o cheiro e o calor de Liz me envolvendo no segundo seguinte. Suspirei toda mole, a abraçando tão forte quanto possível, enterrando o meu rosto em seu pescoço como se assim pudesse me esconder do mundo feio e cruel.

–Desculpe por isso – eu pedi estremecendo – Ela tentou algo com você?

–Ela só se aproximou de uma maneira estranha, acho que estava tentando ser sedutora – Liz respondeu de maneira sincera.

–Impossível – acabei rindo sem humor – A Veronica é o símbolo da mulher heterossexual, não consegue ficar com mulher nem bêbada.

–Mas já passou e... OH MON DIEU!

Liz pulou para longe de mim, mais pálida do que nunca, os olhos bem abertos e as mãos sobre os lábios como se tivesse feito a pior coisa do mundo. Ela estava assustada e se afastava rapidamente.

–Désolé-moi! C'était un accident! – Liz dizia de maneira agitada, começando a andar de um lado para o outro, o acento francês forte como sempre ficava nesses momentos – Eu não sabia que você não era você! Eu pensei que era a minha Vic!

–O que você está querendo dizer? – questionei mais confusa do que nunca.

–Eu cheguei em casa e a Veronique estava vendo televisão e levantou. E eu não sabia que ela era ela, eu pensei que era a minha Vic porque eu cheguei tão agitada e feliz do dia que tive na academia! – Liz disparou, nervosa como eu nunca tinha presenciado, suas mãos tremiam e ela simplesmente não parava – Então eu fui cumprimentar ela como se fosse você...

–E...?

–Eu a beijei pensando que era você! – Liz disse chorosa.

Ela estava com um olhar tão culpado que nenhuma outra mulher teria ao dizer que estava transando com o seu melhor amigo. Liz pousou as mãos sobre o rosto como se pudesse esconder-se da vergonha. Eu? Estava em estado de choque e processamento.

–Você beijou a Veronica pensando que era eu... Um beijo de língua?

–Não! Um selinho! Você... Ela... Não reagiu e eu me afastei prontamente. Eu não sabia! – Liz estava prestes a chorar.

Mas diferente de tudo o que era esperado, eu comecei a rir. Liz paralisou e me fitou como se questionasse silenciosamente se eu era uma louca. Porém não havia como não rir! Veronica era mesmo a pessoa mais hetero que eu conhecia na vida, apesar de saber brincar com a sexualidade alheia, ela jamais aceitava um beijo que fosse vindo de uma garota. E Liz simplesmente a beijou do nada!

–Você está bem? – Liz se aproximou temerosa e confusa.

–Meu amor, eu pagaria tudo para ver a cara da Vero no momento que você a beijou – disse tentando parar de rir, mas era impossível.

–Não está zangada? Eu... Eu beijei outra pessoa!

Se ela reagia assim a um selinho, agora eu tinha certeza absoluta que Liz nunca me trairia e, se o fizesse, eu saberia no segundo que seus olhos cruzassem os meus. O que eu naquela altura do campeonato nem acreditava mais que fosse acontecer.

–Foi só um selinho, não é? Em minha irmã e pensando que era eu – falei dando de ombros – Um selinho não é beijo.

–Um selinho não é beijo – Liz repetiu como que para absorver, mas então mudou completamente a expressão, passando a ficar irritada e ameaçadora – Você sai dando selinhos com esse tipo de pensamento, mademoiselle?

–O que? Não!

–Mas acabou de afirmar de maneira bem tranquila que selinho não é beijo!

Como o jogo podia virar tão rápido assim? Deus, isso era tão louco! Desistindo de buscar qualquer tipo de compreensão, eu fiz o que mais queria no momento. Ri baixo e avancei em direção a Liz, a pegando no colo em um movimento rápido e a jogando na cama. Ela soltou um gritinho delicado de surpresa, mas antes que processasse tudo o que estava acontecendo, eu subi em seu corpo sentando sobre o seu quadril.

–Minha boca nunca encontrou o de nenhuma outra garota desde que eu percebi que eu queria só você – disse com toda a sinceridade que eu poderia ter – E se não fosse pelas circunstâncias eu não aceitaria que esses lábios encostassem em outra pessoa que senão eu. Ficaria bem brava e possessa de ciúmes.

Liz suspirou parecendo aceitar aquilo e em movimentos lentos foi sentando na cama, me mantendo em seu colo até estarmos sentadas uma de frente para a outra. Só naquele momento eu percebi o quanto tinha sido idiota a minha vontade de ficar sozinha, pois só de estar perto daquela garota eu me sentia um pouco melhor.

–Seria egoísmo pedir que fique, pois não conseguiria dormir com você tão longe e sofrendo? – Liz indagou em um tom baixo.

–Eu não vou sair daqui – eu prometi pousando minha testa na dela – Desculpe, eu reagi muito mal. Eu só... Fui pega de surpresa.

–Eu apreciaria saber o que está acontecendo... Mas não agora, eu só quero você perto de mim para cuidar e proteger.

–Você me proteger? Com esses braços finos?

–Não me subestime, quando se trata de você eu faria qualquer loucura mon amour. Quero que se sinta segura comigo, assim como eu me sinto com você.

Eu queria dizer que não precisava, que bastava ela estar por perto... Mas por toda a minha vida eu havia sido atacada de alguma forma e escutar aquilo vindo da pessoa mais importante de minha vida, tinha me abalado de uma forma tão forte e profunda que tudo o que me restou foi abraça-la com força.

Nós duas nos deitamos, uma agarrada a outra enquanto Elizabeth se dedicava a carinhos suaves em meu cabelo. Estava cansada, muito cansada, mas ainda assim o sono não vinha me abençoar. Algo dentro de mim martelava e me incomodava profundamente, aquela sensação de que estava mantendo algo importante fora do conhecimento da mulher que estava acolhendo meu sofrimento sem questionar nada.

–Aimeé? – chamei em um sussurro, apenas para checar se Liz estava acordada.

–Oui? – ela respondeu em igual tom.

–Eles me expulsaram de casa.

Meu coração se apertou ao admitir isso em voz alta. Eu nunca havia contado minha história a alguém, nem mesmo para Anne. Evitava a todo custo aquelas lembranças, pois era quando eu me tornava mais frágil. A sensação de abandono e desamparo sempre me sufocava quando pensava em minha família. Então, por mais que parecesse forte na maior parte do tempo, uma carioca malandra e esperta, havia aquela parte de mim que eu escondia com todas as minhas forças, pois me sentia exatamente o contrário. Eu me sentia fraca.

–Por você gostar de garotas? – Liz indagou o mais delicado que conseguia.

Respirei fundo sabendo que não seria fácil contar aquilo, mas sendo completamente necessário no meu ponto de vista. Ergui o rosto e deitei de lado, deixando meu corpo virado em direção ao dela. Logo Elizabeth imitava a minha posição, deixando o rosto a altura do meu. Nossos olhos se fitavam facilmente e nos castanhos dela eu encontrei toda a segurança que precisava para expor todo o meu coração ferido.

–Sim, porque eu sou lésbica – afirmei e fechei os olhos quando as lembranças vieram – Eu sabia esconder muito bem as coisas. De início eu tentei negar todo o desejo que tinha por garotas, reprimia isso a ponto de sofrer achando que eu estava errada e suja por pensar em como a bunda de Laura Vasconcelos era linda, ou de como a pele morena de Thais Lacerda era chamativa.

–Você notou isso muito cedo?

Abri os olhos notando o tom sereno de Liz. Ela não estava ciumenta quando mencionei os atributos de garotas da minha antiga escola. Pelo contrário, seu olhar era compreensivo e calmo, aguardando tudo o que eu quisesse dizer.

–Quando eu tinha doze anos dei o meu primeiro beijo em um garoto. Foi algo normal, senti nada de diferente, talvez um pouco de nojo porque para mim, naquela época, foi algo nojento tanta saliva – comentei e até sorri com a lembrança – Mas aos quatorze beijei a primeira garota. Era na brincadeira verdade ou consequência, minha irmã não estava porque era apenas com pessoas do clube de vôlei que eu fazia parte na época. Foi totalmente diferente. Não haviam apenas borboletas em meu estômago, era uma verdadeira tempestade. Desde então passei compreender porque passava mais tempo olhando as garotas do que me importando com os garotos. E eu sofri por causa disso, porque eu não me aceitava. Deus, a agressão começou por mim mesma, pois eu não conseguia me aceitar de forma alguma.

Meus lábios se fecharam fortemente por um momento. A confusão de se perceber lésbica em pleno início da adolescência fodia com toda a moral com que os jovens eram criados naquela época. Família tradicional, o preconceito escancarado, os mandamentos cristãos de que gostar de pessoas do mesmo sexo como pecado.

–Minha família é do interior. Até hoje meu avô toca uma fazenda e tem uma criação de cavalos e bovinos. No interior o conservadorismo é ainda mais forte e certas costumes são bem diferentes. Uma delas era o de trabalhar desde cedo, assim quando consegui um estágio renumerado de meio período mudei muito. Eu tinha responsabilidades e me sentia mais dona de mim, o suficiente para ligar um foda-se para o mundo, eu não conseguia mudar meus desejos, por mais que eu rezasse e implorasse a Deus por isso... Então só me restava cair na tentação e seguir eles – respirei fundo e recebi um carinho gentil em meu braço, isso incrivelmente era reconfortante – Comecei a ficar com garotas escondido, era uma aventura sem tamanho e estava tudo bem. Às vezes me forçava a ficar com um garoto, parte para disfarçar, parte para pensar se me curava.

–Se curar?! – o olhar espantado dela me fez sorrir.

–Ainda me achava uma pecadora e isso me sufocava, mesmo passando a me dar mais liberdade isso tinha como consequência aumentar ainda mais o sentimento de culpa. Era tanta culpa que eu acho que realmente enlouqueci por um tempo.

–Isso parece ser tão... Tão cruel Vic!

–É assim com a maioria dos jovens que crescem em meio a um ambiente religioso, ou que tem apenas o medo de serem descobertos e sofrerem as consequências disso. Eu passava dias trancada em meu quarto fingindo estudar, mas estava chorando e pensando seriamente o quanto eu era errada. Isso acontecia principalmente depois de ter ficado com alguém, seja homem ou mulher. Homem por eu não conseguir gostar, mulher por eu gostar tanto e querer continuar desse jeito quando sabia que ninguém iria aceitar.

–Como isso mudou?

–Demorou bastante – suspirei e busquei a mão dela, como se assim conseguisse um apoio maior – Mesmo depois deles terem descoberto e ter vindo para cá, eu ainda guardava um pouco desses pensamentos. Foi só com o tempo e minha total independência que eu mudei minha forma de pensar.

–Posso... posso perguntar como eles descobriram?

–Foi um descuido, havia essa garota, a Luna. Ela me atraia de uma forma intensa, eu não conseguia resistir. Foi difícil convencê-la a “pecar” junto comigo, mas quando o fiz me sentia nas nuvens. Se nada tivesse acontecido talvez até me apaixonasse por ela. Porém esse tesão todo que ferrou tudo. Éramos para fazer apenas um trabalho de química e eu não resisti a provoca-la até estarmos sem blusa no sofá aos beijos quentes.

–Hum, Victoria, poderia evitar os detalhes? – ela pediu desviando um pouco o olhar.

–Desculpe – sorri de lado sabendo que também ficaria incomodada no lugar dela, mas logo o meu sorriso morria – Só que um de meus irmãos voltou mais cedo para casa e nos flagrou. Foi um verdadeiro escândalo porque o infeliz não conseguiu manter segredo. Naquele mesmo dia eu recebia todos os ataques possíveis das pessoas que eu mais amava. Minha mãe me xingou de todos os nomes que você puder imaginar, dizia que sentia nojo de mim. Meu pai me bateu quando eu disse com todas as letras que gostava de garotas.

–Ninguém fez nada para te ajudar?!

–Murilo impediu que meu pai continuasse me batendo, acho que ele salvou minha vida algumas vezes. Ele foi o mais compreensivo, não parou de falar comigo como todos os outros e até pedia algumas dicas de conquista. Eu o amei com todas as forças por salvar minha sanidade. Mas enfim... Eles só esperaram que eu terminasse o último ano do colegial, o que era em dois meses. Nesse meio tempo eles tentaram me “salvar”. Me mandaram para um psicólogo, mas eles não sabiam que o cara tentava me ajudar de verdade ao invés de me dizer o quão errado era a minha condição. Me obrigaram a ir para a igreja, me trancaram no quarto, me bateram, me humilharam. Disso tudo talvez a reação de Veronica que tenha me doido mais.

–O que ela fez? – o tom preocupado e alarmado dela a fez sussurrar a pergunta.

–Ignorou – engoli em seco – Vero sempre foi minha alma gêmea, fazíamos tudo juntas, pensávamos juntas. Ela não aceitou o fato disso ser diferente dela. Ela fingia que isso não acontecia e seguia fingindo também não ver nada do que meus pais faziam. Uma vez estourei com ela, mas apenas para escutar que isso era uma fase, que logo eu voltaria ao normal para fazermos as coisas como antes. Perguntou-me se eu não sabia o quanto ELA estava sofrendo por eu ter me afastado dessa forma. Ela tentava me empurrar garotos, certa vez chegou a me trancar em um quarto em uma festa com um garoto dizendo que eu estava afim dele e que ele poderia aproveitar a chance.

Sem conseguir conter a agitação que cresceu dentro de meu peito, sentei na cama e cruzei as pernas em estilo indiano. Liz também sentou, colocou os cabelos vermelhos atrás da orelha e esperou paciente.

–Veja Liz, eu não podia mudar de verdade... porque eu sou assim. Tudo o que eu poderia fazer para me manter naquela família era me comportar da maneira que eles esperavam e fingir ser o que eu não era. A situação toda era tão sufocante que eu não voltei atrás. Certa noite meu pai me jogou duas malas e disse que ou eu tentava me endireitar ou eu não era mais a filha dele. Naquela noite eu fiz as malas, peguei toda a minha reserva em dinheiro graças aos estágios e bolsas, e sai daquela casa.

–Você... Você... Mon Dieu! – Liz colocou as mãos sobre minhas pernas – Eu não consigo imaginar o quanto deve ter sido difícil.

–Eu não quero falar sobre essa parte, foi tão difícil quanto ver minha família ter dado as costas – respirei fundo apenas para conter as lágrimas – Eu só tive um anjo nisso tudo, que foi uma ex namorada de meu tio Davi. Ela me encontrou, contei um pouco de minha história e ela me ofereceu meu primeiro emprego. Depois disso consegui passar na universidade e lutei por todas as bolsas e auxílios que o governo podia oferecer, pois senão eu não conseguiria me sustentar ou até mesmo sobreviver. Vivi na residência estudantil da universidade, participava de pesquisas e programas de extensão remunerados. Saia de casa as cinco da manhã e voltava tarde da noite, ainda tendo de estudar as outras matérias do programa curricular padrão. Me formei e me mudei para cá quando recebi a proposta de trabalho de minha chefinha. Ela participava a distância de um projeto que eu era bolsista e facilitou um pouco minha vida.

–E... e sua família?

–Eu geralmente entrava em contato com meus irmãos, muito mais com Murilo. Mas nunca mais entrei naquela casa ou participei de algum evento familiar. Não fui ao casamento de Veronica, pois meu pai me proibiu. As vezes via alguns primos e me atualizava dos acontecimentos, mas quando me mudei para cá o contato diminuiu bastante até não existir mais. Faz um ano que nem ao menos ligo para alguém e, bem, eles também não ligam para mim. Com o tempo alguns até foram aceitando a ideia de que tinha um parente e uma irmã lésbica, faziam piadas sem graça e me provocavam, mas... Não existe mais uma ligação familiar de fato.

Percebi que finalmente chorava quando Liz tocou meu rosto limpando minhas lágrimas silenciosas. Já não era aquele pranto desesperado de mais cedo, meu choro era derivado apenas daquela tristeza pelas coisas que aconteceram. Por ter perdido uma família e ter tido de sobreviver em um mundo que muitas vezes era cruel. Em meio aos carinhos em meu rosto Elizabeth se esgueirou para meu colo, sentando sobre minhas pernas enquanto me fazia fita-la. Os olhos castanhos brilhavam emocionados, ela mesma tinha chorado um pouco e eu percebia isso pelo rastro molhado em suas bochechas.

–Merci, mon amour, por ter me contado sua história mesmo a machucando lembrar dela – Liz falava carinhosa e respirou fundo – Eu não sabia que era possível, mas eu amo você ainda mais. Pela mulher incrível que você é.

–Eu não sou, eu...

–É a mulher mais incrível que eu conheço. Eu sinto orgulho de pensar que você é minha namorada e que alguém como você me ama. Você é uma guerreira e viveu grandes batalhas, sei que venceu a maioria delas porque você está aqui, independente e fazendo sua própria vida devendo explicações apenas a si mesma – ela parou e me beijou de maneira delicada, apenas um roçar de bocas – Eu amo quem você é, eu amo cada pedacinho seu.

Eu não consegui me conter ao tremer forte e abraça-la com tudo o que eu tinha. Essa era a primeira vez que eu me sentia amparada em anos. Elizabeth me conhecia como ninguém e dizia me amar mesmo assim. Para alguém com minhas feridas, esse era o mais perfeito dos balsamos.

Notas finais
Tcharam, alguém sempre tem de ter um passado complicado em minhas fics né? Eu tento escapar disso, mas não dá! >