Ma Chérie

3 Capítulo 3: Reencontro


Notas iniciais
Então suas lindas, nesse capítulo vocês vão saber como a Liz é apaixonante com seu jeito de ser sz

POV Liz

Fazia cerca de três horas que eu e Pierre estávamos procurando e buscando algum lugar em que eu pudesse ficar em definitivo. Eram poucas as opções que haviam me agradado minimamente. Eu não queria um lugar luxuoso, obviamente, porém não iria aceitar qualquer coisa apenas por estar em uma situação delicada! Isso resultou em nós dois cansados e indo em direção a um restaurante naquela mesma praça onde havia parado mais cedo. Assim que entramos muitos dos olhares foram direcionados a nós dois, porém ambos estávamos acostumados com esse tipo de coisa. Retirei meus óculos escuros e os coloquei pendurado em minha blusa, seguindo Pierre até uma mesa. Ele rapidamente sentou e eu pressionei meus lábios segurando o ímpeto de reclamar de seus modos. Afinal o cavalheiro deveria puxar a cadeira para a dama. O fiz sozinha e ajeitei discretamente a minha blusa.

-Estou faminto! – falou Pierre em português, havíamos decidido falar apenas nessa língua para que eu pudesse treinar.

Aprender a falar outras línguas era crucial para uma criança que nascia em uma sociedade como a que eu cresci. Meu pai vivia viajando e consequentemente levava a mim e a Cassie em suas viagens para demonstrar a família unida e nobre que possuía. Agora eu sabia que muitas das coisas que ele nos ordenou fazer eram apenas para manter a imagem do nome Bellamy.

-Estou em igual modo – revelei e peguei o cardápio bastante simplório, apenas plastificado e com os itens posto em uma lista seguida – Hum, conheço bem pouco da culinária, terei de confiar em você.

Ele sorriu divertido exibindo as suas charmosas covinhas e chamou o garçom com um assovio. O homem com um simples uniforme se aproximou e meu amigo pediu filé a parmegiana, uma cerveja para ele e um suco de laranja para mim. O lugar era bastante barulhento, as mesas bem simples e a ventilação eram apenas por ventiladores postos em locais não muito estratégicos. Porém, ainda assim, o preço parecia muito bom e adequado para a minha nova situação. Antes que uma conversa fosse construída, o celular de Pierre tocou e ele pegou o aparelho.

-Número desconhecido, deve ser algum contato – ele ponderou em voz alta e atendeu a ligação – Alô. Sim é o Pierre. Ah sei sim quem é você, está tudo bem? Também estou! Sério isso?! – a animação dele crescia ainda mais – Poderia vim até o Restaurante aqui no Rio Vermelho para conversamos? Estou com ela bem aqui na minha frente. Ah, ótimo, estarei esperando.

O olhei curiosa, já que ele havia mencionado que eu estava a sua frente. O rapaz estava com um sorriso de orelha a orelha, o primeiro que havia visto durante toda aquela manhã.

-Parece que encontrei um lugar para você ficar. Uma garota do lugar onde trabalho está querendo dividir o apartamento com alguém. Já vi o lugar, é bem arrumado e sei que irá gostar – Pierre explicou.

- Dieu, merci! – exclamei aliviada – Ela virá aqui?

-Sim, mas... Tem um problema – Pierre foi abaixando os ombros – Não é bem um problema, mas é importante que você saiba – o encarei completamente desconfiada e fiz um gesto para que ele continuasse – Bem, ela gosta de garotas no sentido carnal da coisa. Nunca a vi com nenhum garoto e é até popular entre as meninas.

Arqueei uma sobrancelha surpresa e confusa com a nova informação. Nunca havia imaginado que iria um dia dividir um apartamento com alguém e que esse alguém acima de tudo seria uma lésbica. Porém também não imaginava que um dia iria fugir de casa e estar em uma cidadezinha do Brasil. Tombei levemente a cabeça para o lado e abri um sorriso.

-Mas você também não gosta de homens? Ainda continua sendo meu amigo – argumentei com meu habitual tom polido e revirei os olhos – Tia Amélia assumiu um caso com a Baronesa de Howthorne. Antes ela chamou eu e Cassie para explicar a sua situação e fez um belo discurso sobre o amor não ter preconceitos, mas sim a sociedade.

-Uou, a baronesa tinha um ar tão gélido, a chamávamos de Coração de Pedra lembra? Ah sim, mas depois do que eu estou fazendo acho que mereço uma promoção para melhor amigo que você vai encontrar na vida – Pierre tratou de acrescentar.

Ri baixinho e pedi licença para ir ao banheiro. Precisava retocar um pouco a maquiagem e lavar minhas mãos. Estava acostumada a usar luvas em Genebra, mesmo que fossem finas. Porém ali parecia inconcebível e fora de moda utilizar de algo desse tipo, então não era surpresa estar sentido as minhas mãos sujas. Assim que entrei tive um novo vislumbre de meu reflexo no espelho. Eu estava completamente diferente de alguns dias atrás. Meu cabelo estava cortado e com uma franja que eu não possuía, meus olhos apesar de aparentar ainda o cansaço possuíam um brilho singelo de determinação. Minhas roupas eram as mais simples que eu pude encontrar dentro da única mala que havia trazido comigo. Abri um sorriso satisfeito, estava começando a acreditar que eu poderia mesmo viver essa nova vida se tivesse fé e um pouco de dedicação.

Demorei apenas dez minutos ali dentro. Quando estava retornando notei uma silhueta familiar sentada na cadeira ao lado de Pierre, mas ainda assim de costas para mim. Semicerrei meus olhos em busca de algo que me fizesse lembrar quem era aquela garota. Ela usava roupas simples e tinha cabelos castanhos escuros e um corte em camadas que lhe dava um ar moderno e sexy. Parecia igual ao da garota do ônibus...

-Victoria?!

Assim que chamei o nome a garota virou o corpo e olhou-me tão surpresa quanto eu, mas logo estava abrindo aquele sorriso divertido. O que ela estava fazendo ali? A tinha encontrado algumas horas antes e a tinha comparado como um anjo simpático em meu caminho. Tão solicita com uma estranha, Vic tinha me ensinado algumas coisas e sido tão gentil que era um alívio saber que havia pessoas que ainda eram educadas com desconhecidos. Ela levantou da cadeira e veio em minha direção. Eu já esperava pelos dois beijinhos, mas aquele costume era tão intimo e estranho que não consegui me impedir de avermelhar. Aquilo a fez sorri ainda mais e foi impossível não pensar, mais uma vez, que ela tinha um lindo sorriso.

-Não acredito que nos encontramos mais uma vez tão rápido! – Victoria exclamava naquela agitação contagiante que tinha – Veio almoçar?

-Na verdade, ela é a minha amiga que estava te falando – Pierre falou ainda sentado, observando curioso aquele encontro.

-Não acredito! – Victoria falou alto e se afastou rindo – Só pode ser destino!

-O que está acontecendo? – perguntei confusa, observando Victoria sentar-se novamente, acabei fazendo o mesmo – Vocês dois se conhecem?

-Estou surpreso de vocês duas se conhecerem! – Pierre riu.

-Nos encontramos no ônibus até aqui – Vic explicou.

-Você veio de ônibus? – Pierre ficou sério rapidamente – Elizabeth! Eu disse que era para você pegar um táxi!

-Eu só pensei que tenho de me acostumar com as novas situações, não poderei evitar para sempre um transporte público e suas devidas dificuldades – defendi-me de forma civilizada, fitando Pierre sem temor, afinal era uma dama criada na política – Então desconsiderei seu conselho ao ponderar sobre questões que podem ser significativas a minha estadia aqui.

Pierre resmungou e esticou as mãos como em sinal de rendição. O garçom chegou com os pratos e talheres, depositando um a frente de Pierre e posteriormente outro a minha. Porém colocou os talheres encima do prato e o copo de qualquer jeito! Servindo o suco de uma forma completamente errada. Mordisquei meu lábio inferior e esperei para que ele saísse para prontamente começar a arrumar as coisas de acordo como mandava a etiqueta, usando até mesmo do guardanapo barato que estava na mesa. Quando me dei por satisfeita deixei um principio de um sorriso escapar e ergui meu olhar, deparei-me com Victoria e Pierre me observando. A morena riu parecendo achar divertida a minha atitude e Pierre apenas sorria.

-Fiz algo errado? – questionei em dúvida.

-Ela é uma burguesinha? – Victoria perguntou para Pierre.

-De certa forma, a educação dela foi bastante rígida – Pierre explicou e ajeitou um pouco as suas coisas – Pode almoçar conosco Vic, o prato sempre vem com poção suficiente para três pessoas. Dividimos a conta e aproveitamos para conversar.

-Por mim tudo bem – ela aceitou com um rápido sorriso e chamou o garçom com um aceno de mão – Pode trazer outro prato para mim?

Aquilo era intrigante. Não eram necessárias nenhuma formalidade, ela simplesmente havia chegado e sem um convite propriamente dito estava para dividir a nossa refeição. Mais uma vez lembrava-me que além de estar em uma realidade de classe média, também estava em outro país com costumes completamente diferentes!

-Voltando um pouco ao tema principal. Almeja dividir sua casa, mademoiselle Victoria? – indaguei virando levemente meu corpo em sua direção.

-Só Victoria ou Vic – pediu ela e deu um sorriso sem jeito, um que franzia o seu nariz – É um pouco estranho ser chamada de mademoiselle. E respondendo sua pergunta, já faz um tempo que eu estou procurando alguém, meu apartamento tem dois quartos com suítes e é espaçoso, sem muito custo com energia e água. Porém é meio complicado por motivos, como posso dizer...

-Pierre contou-me de sua preferência – a cortei de maneira delicada – Eu não me importo com quem você sai, isso são questões pessoais suas.

-Exato! É justamente alguém que pense assim que eu preciso! – Vic ficou animada – E também aviso que não tenho o hábito de leva-las até minha casa, é meio que contra as regras.

-É mais seguro assim – concordou Pierre com um sorriso maroto – Elas não descobrem onde ficam sua casa para poderem perseguir ou se acham importantes demais pensando que podem retornar a qualquer momento.

-Bem nessa linha de pensamento – riu Vic concordando com meu amigo.

Franzi o cenho incomodada com a colocação. Porém nada disse, sabia que para a maioria das pessoas normais estava virando costume a tradição do “ficar” apenas. Desviei o olhar e tentei me concentrar em outra coisa e não deixar transparecer demais a minha contrariedade com o que eles pensavam.

-Ei, o que foi? – Vic indagou em um tom ameno.

-Hum? – olhei para ela confusa.

-Ficou mais séria – ela observou.

-Fiquei? – tentei desconversar, de maneira distraída ajeitei a franja que caia sobre meus olhos.

Ela me fitou com intensidade e só naquele momento dei-me conta de que a tonalidade de azul de seus olhos era realmente muito bonita. Não era um azul claro, mas profundo e hipnotizante. Deixei escapar um suspiro e balancei levemente os ombros.

-Só não concordo muito com esse tipo de pensamento – tentei explicar de maneira simples.

-Verdade! – Pierre riu e se inclinou como se fosse contar um segredo – A princesinha ruiva é muito romântica.

-Sério? – Victoria parecia surpresa.

-Quando se tornou tão surpreendente acreditar no amor e achar fugaz o ato de ficar com pessoas sem nem mal saber seu nome completo? Ter uma noite, usar seu corpo para um prazer momentâneo e ficar apenas nisso? – defendi-me e ergui meu queixo de maneira orgulhosa – Isso são momentos que podem ser considerados até desnecessários já que muitos mal se lembram deles posteriormente, fazem uma coleção de lembranças falhas e não algo que irá se recordar pelo resto de sua vida.

-Quase me senti culpada. Quase – Victoria comentou fazendo Pierre ri de forma abafada.

-Podemos mudar de assunto? Sinto-me incomodada de falar particularidades – disse levemente chateada por não levarem a sério algo que eu acreditava.

-Acostume-se, ma chérie – Pierre comentou – Os assuntos mais falados em qualquer lugar é politica, futebol, novela e sexo.

-Prefiro manter-me inábil a ter todos esses tipos de conhecimento.

Felizmente, o filé havia chegado encerrando aquele assunto que me incomodava. Observei os dois começarem a se servirem e pressionei meus lábios incerta, afinal em toda a minha vida fui servida pelos empregados da mansão onde morava. Vendo o meu embate, Pierre sorriu solidário e serviu um pedaço para mim sem dar maiores importâncias para isso. A conversa fluiu em direção a acertos mais voltados ao apartamento de Victoria, ela explicava um pouco sobre a política do edifício, sobre como era o local e alguns de seus próprios costumes. Não parecia tão difícil quanto havia cogitado inicialmente. O preço também estava bastante acessível, poderia me manter por alguns meses. Porém não iria me satisfazer com essa falsa segurança. Meu próximo desafio apenas se aproximava: seria necessário procurar por um emprego.