Ma Chérie
2 Capítulo 2: Santa Mônica
Notas iniciais
POV Victoria
Poderia ser setembro, mas em Santa Mônica o verão já estava sendo anunciado como se já fosse carnaval. O dia amanheceu quente e levemente abafado, o que poderia significar chuva a qualquer momento. A preguiça parecia querer pregar-me na cama, porém bastou olhar para o relógio digital na cabeceira de minha cama que meu corpo pulou desajeitado para fora do colchão. Se eu não corresse iria perder o ônibus para o trabalho! O resultado disso foi um rápido banho gelado, uma simples regata preta e uma calça jeans e uma torrada presa entre meus dentes como meu café da manhã enquanto corria para o ponto. Definitivamente eu tinha de parar de por o despertador no modo soneca!
Por sorte eu havia conseguido chegar ao ponto de ônibus, que por acaso estava lotado naquela manhã de quarta-feira. Santa Mônica era uma cidade do interior com aspectos de uma cidade grande. Tinha pequenas indústrias, comércio e muitos espaços para lazer. Ficava há umas cinco horas do Rio de Janeiro quando as pistas estavam com um bom movimento. Para mim era a cidade perfeita para se viver. Relativamente pequena e sem muito do estresse de cidade grande.
–Quase que você não consegue ein Vic!
Virei em direção da voz irônica e abri um grande sorriso. Anna era filha de japoneses e minha vizinha de apartamento, era uma graça de menina com seu cabelo escuro cortado em estilo Chanel e olhos puxadinhos. Ela era muito menor que eu, tendo seus 1,64 de altura. Sempre pegávamos o mesmo ônibus todas as manhãs, já que ela era professora da Escola de Dança que ficava enfrente ao meu trabalho.
–Anne, sua má, poderia ter me acordado! – exclamei fazendo um bico contrariado.
–Eu estava atrasada, pensei que você já tivesse saído já que estava tudo silencioso. Mas acho que é possível acontecer um apocalipse do que você chegar aqui no ponto adiantada – Anne falou com o seu jeito teatral de se expressar.
Acabei rindo já que não poderia nem ao menos desmentir aqueles fatos. Nosso ônibus chegou e como era um dos que ia até o centro da cidade logo se formou uma grande aglomeração de pessoas para entrar por uma estreita porta. Felizmente consegui entrar antes que ficasse apertado demais, pegando um lugar à frente e pondo minha bolsa no banco ao lado para guardar o acento para Anne. Porém quando o ônibus começou a se movimentar e nem sinal de minha vizinha, olhei para trás e a encontrei sentada ao lado de um belo moreno. Revirei meus olhos e já estava voltando a minha posição normal quando o veículo fez uma curva mais fechada jogando todos para o lado. O resultado? Senti alguém caindo encima de mim de forma desastrada! A primeira coisa que notei eram os fios ruivos que bateram em minha face, depois tratei de ajudar a garota ao meu lado a se ajeitar, retirando a minha mochila e a segurando para manter o equilíbrio naquele movimento todo do ônibus.
–Pardon, senhorita!
A voz era suave e delicada, porém com um tom obviamente educado. Olhei para a garota que estava com o rosto virado, mas era impossível não notar aquele corpo! Ela usava uma calça jeans clara e que se ajustava as coxas bem definidas, a blusinha azul possuía um laço que mostrava claramente a cintura fina que ela possuía além de valorizar aqueles seios de tamanho médio. A pele alva exalava o cheiro de um hidratante floral e o cabelo ruivo ia um pouco abaixo dos ombros em um corte em V.
–Peço desculpas mais uma vez, eu cheguei a machucar você? – então ela olhou para mim, falando aquele português com um forte sotaque francês.
Ficar impressionada era o mínimo que eu poderia dizer. Aquele rosto era muito lindo! A boca bem desenhada e com um batom de cor suavemente rosada, o lápis que contornava os olhos cor de chocolate e a franja de lado que lhe dava um ar ainda mais inocente e belo.
–Senhorita? – ela tornou a perguntar, agora franzindo o cenho.
–Ah! Oi – falei sem jeito e tratei de abrir um sorriso para disfarçar que estava babando – Não foi nada, isso acontece direto. Pode ficar sentada ai, estava guardando para minha amiga, mas ela ficou mais atrás.
–Merci! Agradeço a gentileza – a ruiva sorriu evidentemente aliviada.
Ela ajeitou-se melhor no assento, cruzando as pernas de forma discreta, ficando com os ombros eretos e depositando uma mão sobre o joelho e a outra se apoiou na barra de ferro na lateral. A encarei surpresa, esperando que em algum momento aquela postura tão correta se desfizesse, mas isso não aconteceu mesmo quando o ônibus fez uma nova curva mais acentuada.
–Você não é daqui. – fiz a afirmação constatando o óbvio.
–Não – ela negou e lançou-me um olhar um tanto confuso, como se analisasse bem suas palavras – Acabei de me mudar.
–Para onde está indo? – puxei conversa, estava extremamente curiosa!
–Encontrar um amigo na... Na... Hum – a garota franziu o cenho enquanto pensava e quando se lembrou do lugar seu sorriso foi automático – Praça do Rio Vermelho, se não me engano é no centro da cidade.
–É sim, eu trabalho por lá. Quando chegarmos ao ponto certo eu te aviso, que tal? Então pode relaxar que vai demorar uns quarenta minutos por causa do trânsito.
–Merci novamente – ela abriu um sorriso resplandecente e depois fez uma pequena careta – Pardon! Eu não me apresentei, eu me chamo Elizabeth, mas pode me chamar apenas de Liz.
–Sou Victoria, mas me chame de Vic.
Ofereci minha mão como cumprimento e ela a pegou em um aperto suave. Por puro costume aproximei para dar os dois beijinhos no rosto dela, mas a garota corou forte tendo sua pele branca tingida pelo vermelho desde o pescoço até as bochechas. Extremamente fofa! Abri um sorriso culpado e passei a mão em meu cabelo sem jeito.
–Desculpa, é que por aqui se cumprimenta com dois beijinhos – expliquei para ela.
–Oh – ela deixou escapar com um tom de compreensão, voltou a ajeitar-se – Se não for muito incomodo, poderia perguntar-te algo?
Em toda a minha vida nunca havia encontrado alguém que falasse daquela maneira educada. Não na escola, no trabalho, em minha família. Fazia-me sentir impressionada, mas ao mesmo tempo mais desajeitada do que nunca.
–Claro, fala ai – respondi de maneira simpática.
–Meu português é muito ruim? – ela indagou em um jeito acuado e hesitante.
–Claro que não, eu estou te entendendo e você a mim, havendo comunicação é isso que importa. Mas seu sotaque é bem evidente, é francesa?
–Nasci em Lyon – ela concordou e ficou um pouco mais séria.
–E o que veio fazer aqui no Brasil? Ainda mais no interior! É a trabalho? Já sei, é uma modelo e está a passeio não é?
Eu não sabia se estava me intrometendo demais, porém a minha curiosidade falava mais alto do que tudo.
–Modelo? – Liz repetiu olhando-me confusa.
–Sim, modelo. Passarela, fotos, fama, essas coisas – expliquei tentando me fazer clara.
–Eu entendi isso, mas porque...
–Porque você é linda – respondi simplesmente e a vi corar novamente, ri baixo com aquela reação – Desculpe, eu sou assim, falo sem pensar o que me faz fazer muitas perguntas e dizer coisas sem medidas.
–Tudo bem. Eu poderia resumir tudo explicando que um amigo me disse que aqui no Brasil seus sonhos podem se realizar. Portanto pareceu-me uma excelente ideia vim para cá.
–Muita boa sorte! – respondi rindo – Não sei como os gringos veem esse país, mas tem muita miséria também viu!
–Acho que em todo lugar, mademoiselle Vic, por trás de uma pintura sempre há os esboços que são jogados fora e escondidos.
Liz falou aquilo tão naturalmente que não houve dúvidas de que ela não estava tentando me impressionar ou parecer inteligente, apenas o era. Continuamos a conversar por todo o caminho sobre o Brasil e mais especificamente de Santa Mônica. Eu a alertei sobre os bairros perigosos, os locais legais de ir e mais baratos. Ela era sempre educada, sem perder aquela postura e com um sorriso gentil sempre a brincar naqueles lábios bem desenhados. Mal notei quando chegamos ao ponto na Praça do Rio Vermelho. Quase deixei escapar um suspiro resignado pelo tempo ter passado tão rápido, queria ter tido a chance de conversar mais com aquela garota.
–Merci Victoria – Liz disse assim que nós duas nos encontramos fora do ônibus – Você me ajudou bastante.
–Só toma cuidado, nem todo mundo é gente boa como eu, ou legal e simpática – falei em um tom de brincadeira apenas para vê-la sorrir, o que deu em um resultado positivo – Se cuida ta Liz?
Novamente na despedida dei-lhe dois beijinhos e da mesma forma ela ficou corada e sem jeito, mas mantinha um sorriso lindo. Ela acenou em despedida e seguiu para a faixa para atravessar. Eu fiquei ali a observando até senti alguém cutucando a minha cintura, dei um pulo em susto e soltei um resmungo ao ver que era apenas a Anne.
–Calma, não é um assalto! – Anne ria e logo apontava de forma discreta para a ruiva que atravessava a rua com um andar que mais parecia flutuar – Quem é aquela ali?! É muito linda!
–Conheci agora, ela caiu em meus braços, literalmente! – expliquei rindo – Se chama Liz e acabou de mudar, ficamos conversando o caminho todo. Velho, ela é a garota mais educada e elegante que eu já conheci!
–Tudo bem que seus padrões não são os melhores – Anne provocou – Mas rolou alguma química?
Não era nenhum segredo de que eu era uma homossexual assumida. Era um dos motivos de ter mudado de cidade, ter saído do Rio de Janeiro e agora estar ali em Santa Mônica, meus pais não aceitaram muito bem ter uma filha que ficava com outras garotas. Porém a pergunta de Anne me fez erguer uma sobrancelha, eu havia ficado encantada com a garota e em nenhum momento soltei alguma cantada.
–Eu não sei se ela é, não deu tempo – resolvi responder apenas isso, dei de ombros e abri um sorriso maroto – Quem sabe não a encontro qualquer outro dia desses?
Tivemos de nos separar, eu fui em direção ao prédio de publicidade, propaganda e eventos chamado Criative. Eu havia feito cursos de design gráfico e visual, trabalhava junto a uma equipe produzindo desenhos gráficos e criando propagandas. Amava o que fazia, apesar de não receber da forma correta, o ambiente de trabalho compensava. Assim que entrei fui cumprimentando as pessoas e segui para o elevador em direção ao terceiro andar. Estava apenas quinze minutos atrasada, o que era nenhuma novidade.
–Vic, você já terminou a arte do sr. Oliveira? – Aline, minha chefe, foi logo perguntando.
–Fiz em casa, patroa! – respondi com um sorriso – Vou enviar para seu e-mail para dar uma checada.
Ela acenou em aprovação e logo eu estava me jogando em minha mesa e ligando meu computador para iniciar meu trabalho. Eu me distraia facilmente ali, fazer algo que você gostava ajudava a diminuir ainda mais o estresse que poderia ser causado no dia-a-dia. Estava terminando de fazer um banner para um evento quando escutei o barulho de rodas vindo em minha direção. Ergui o meu olhar e vi Davi deslizando com sua cadeira em minha direção.
–Hey Vic – ele cumprimentou com um sorriso – Já está terminando?
–Sim, já – respondi sabendo que ele estava mais querendo saber se estava atrapalhando ou não, Davi era o mais velho da equipe, porém o mais criativo – Precisa de algo?
–Você conhece o Pierre não é? O da equipe de fotografia.
Era meio impossível não conhecer o Pierre. Ele era um homem bonito e charmoso que qualquer mulher da empresa e Santa Mônica parecia suspirar. Já havia ido para algumas festas com uma turma em que ele estava, conhecia pouco já que trabalhávamos em áreas diferentes e eu curtia garotas.
–Claro que sim, o que tem o cara? – perguntei curiosa.
–Ele parece está procurando um apartamento para uma amiga. Ai lembrei que você quer uma colega de quarto para economizar nas despesas de casa – Davi explicou e pegou o celular – Vou te dar o número dele, ai você conversa com o próprio! Pensei que poderia ser uma boa para você.
–Claro! Faz tempo que estou procurando alguém para dividir quarto, mas não queria por em anuncio para não aceitar qualquer uma!
Era complicado encontrar uma garota que quisesse apenas dividir o apartamento e que não tivesse preconceito. Eu conseguia manter meu apartamento de uma maneira tranquila até, porém queria começar a economizar e como meu querido lar possuía dois quartos havia pensado nessa possibilidade e falado com alguns amigos. Parecia que finalmente estava tendo algum resultado! Peguei meu próprio celular e anotei o número que Davi passou, iria liga-lo na hora do almoço para ter tempo de conversar tranquilamente com ele.
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