Ma Chérie
14 Capítulo 14: Depois da dança
Notas iniciais
Parabéns linda, apesar de estar ficando idosa sz kkkkkkkkk
POV Vic
Ao mesmo tempo em que eu queria tomar um rápido banho, também almejava demorar ali apenas para poder por meus pensamentos em ordem. O que estava se tornando uma tarefa extremamente difícil quando ainda tinha o gosto de Liz em minha boca. Era difícil de acreditar que tudo aquilo tinha acontecido. O momento romântico, o beijo e a entrega de Elizabeth, aquele sentimento absurdo de que eu estava finalmente completa. Eu havia crescido em uma realidade em que isso só acontecia nas novelas e em livros com romance meloso demais. Porém ali estava eu, suspirando de amores por uma ruiva que era o meu oposto em muitos quesitos.
Desliguei o chuveiro desistindo de tentar compreender o que estava acontecendo. Simplesmente estava e eu seria a maior idiota do mundo se não o aproveitasse. Assim que eu saí do banheiro a pressa em voltar a ver Elizabeth me fez vestir a primeira roupa que apareceu pela frente: um shortinho de algodão e uma camiseta sem estampas. Estava para ir ao encontro de minha ruiva quando parei de supetão no lugar e retornei apenas para ajeitar o cabelo. Ora essa, eu não poderia aparecer para a mulher mais encantadora de qualquer jeito! Parei no exato momento em que eu pensei isso, revirei os olhos para mim mesma e finalmente saí do quarto sem acreditar que estava ficando boba aquele ponto.
-Liz, seja o que for que esteja preparando está cheirando muito bem! – comentei sentindo o cheiro de algum molho delicioso.
Porém mal havia terminado de falar e escutei risadas. Sim, no plural! Andei rapidamente até a minha cozinha para me deparar com Anne sentada em um banco perto do balcão, sorrindo de uma maneira convencida para mim. Eu estava pronta para agradecer pelo que ela fez quando a raiva por ter me enganado falou mais rápido. Anne conhecia-me muito bem para entender que o olhar que lhe lancei era perigoso, pois logo a vizinha levantou e começou a se afastar.
-Você tem noção de que eu quase morri por culpa de sua brincadeira?! – briguei com ela usando um tom um pouco alto.
Comecei a me aproximar a passos rápidos e automaticamente Anne se afastava correndo de mim. Ela foi até a mesa e deu a volta, ficando do lado oposto ao meu.
-Foi por uma boa causa, admita! – Anne falou rindo, mas assim que eu avancei pela esquerda ela fugiu pela direita – Eu deveria era ganhar o prêmio de melhor amiga do ano!
-Sim, mas só depois de ter o que merece por ter me enganado!
Eu já ia começar a correr atrás dela quando escutei um pigarrear alto para chamar atenção. Olhei para o lado e vi Elizabeth parada ao lado do balcão com os braços cruzados e nos encarando como se fosse uma mãe prestes a dar uma bronca em suas crianças teimosas.
-Poderiam parar com atitudes infantilizadas e ajudar-me a por a mesa? Já terminei de preparar algumas panquecas e imagino que estejas com fome – ela pediu com aquele jeitinho educado e sotaque francês.
Eu poderia agarrá-la ali mesmo. Pisquei várias vezes para tirar o pensamento da mente já que Anne estava ali para estragar esse tipo de plano. Fuzilei a minha amiga com os olhos e fui pegar os pratos para por a mesa.
-O que está fazendo aqui? Não tem outras pessoas para atrapalhar não? – perguntei um pouco mal-humorada.
-Não, vocês são as melhores – Anne disse com um sorriso maroto – Até porque queria ver no que deu o meu plano, como sua ruiva estava cozinhando decidi ficar já que a comida dela é maravilhosa. É o mínimo que vocês duas poderiam fazer por mim.
Pelo canto do olho pude perceber Liz ficando corada ao escutar “sua ruiva”, ela tentou disfarçar dando as costas e mexendo na comida que já estava pronta. Sorri de lado com a reação dela e com a simples ideia dela ser realmente minha ruiva, mas ao olhar para Anne e a ver sorrindo de maneiro debochado tornei a ficar séria novamente.
-Isso vai ter volta – murmurei para que só ela escutasse.
Anne simplesmente deu de ombros e foi ajudar Elizabeth a trazer nossas panquecas. Por puro costume nos sentamos em nossos lugares costumeiros, eu de frente para Liz e Anne na cabeceira. A mesa era pequena, com cinco lugares apenas, mas eu daria tudo para estar apenas eu e a ruiva naquele momento. Eu fui a primeira a me servir e um pequeno silêncio reinou no ambiente. Elizabeth estava mantendo sua postura, mas eu a conhecia o suficiente para perceber como evitava olhar para Anne ou até mesmo para mim, provavelmente tímida depois de tudo o que aconteceu.
-Ok, eu só tenho uma pergunta, a faço e vou comer lá em casa – Anne falou também se servindo, mas logo parou e olhou para Elizabeth – Diga-me Liz, você já era lésbica ou se descobriu agora?
A coitada quase engasgou com a comida. Estava para levantar e ir ajuda-la quando ela pareceu recuperar-se do susto. Liz endireitou a postura e olhou de mim para Anne e respirou fundo. Infelizmente aquela era uma questão que eu também estava curiosa para saber e mesmo que os olhos cor de chocolate implorassem por ajuda, eu nada fiz.
-Eu nunca gostei de alguém antes, não dessa forma – Liz revelou tentando manter o tom de sua voz calmo, mas suas bochechas iam ficando cada vez mais avermelhadas – Já pratiquei o flerte ou tive momentos de gracejos antes, mas... Dessa forma eu... eu...
-Então não há problemas que eu seja uma mulher? – perguntei sem conseguir segurar, mesmo que no fundo eu temesse um pouco a resposta que ela daria.
-Talvez eu ficasse mais assustada, caso não tivesse conversado com minha tia. Ela desafiou a todos por uma mulher – Liz explicou e deixou escapar um pequeno sorriso – Antes de ir a público ela conversou comigo, disse que era importante que as pessoas com quem nos importamos entendesse primeiro, antes do escândalo explodir.
-E por causa dessa sua tia você não está com medo ou algo parecido? – Anne indagou entre curiosa e preocupada.
-Ela me ensinou que amor é amor, mademoiselle Anne. Está mais do que óbvio que por causa de nossa cultura nenhum homem ou mulher é preparado para ser homossexual. Mas se eu for agarra-me ao preconceito e ao medo de ser julgada, como poderei viver tudo aquilo no qual acredito e tanto defendo? Há muitas coisas que eu não entendo, mas que sinto de um jeito que nunca senti antes.
Liz poderia ser uma garota ingênua quando se tratava do amor, mas naquele momento eu percebi o quanto isso a tornava uma mulher corajosa e forte. Quantas em seu lugar não surtariam? Por Deus, eu mesma havia surtado e negado o meu desejo por mulheres, até entender que eu era simplesmente assim, sem escolhas. Olhei para Anne e abri o meu sorriso mais falso.
-Será que agora você pode tirar seu traseiro de minha casa para que eu possa jantar com minha garota em paz? – exigi sem nenhuma delicadeza.
Liz ficou completamente vermelha enquanto Anne levantava rindo e carregando o seu prato. Também levantei apenas para ter certeza de fechar a porta e trancá-la. Quando me vi livre daquele incomodo cantarolei “aleluia” e voltei rapidamente para o meu lugar. Dessa vez a fome me fez dar duas garfadas naquela panqueca antes de olhar para Elizabeth. Ela fitava-me de uma maneira boba, ainda com o rosto corado e um sorriso tímido no rosto.
-Sua garota? – ela repetiu.
-Bem... Sim, talvez eu... Não sei. – disse um pouco hesitante, mas apenas por não saber como por tudo aquilo em palavras, então apenas respirei fundo e a fitei de maneira sincera – Eu não sei bem como lidar com isso tudo, nós duas e isso que está acontecendo... Também é novo para mim.
Ela tentou conter o sorriso, o que foi um verdadeiro fracasso. Sorri também e dessa vez o silêncio que prosseguiu foi reconfortante e eu diria até que necessário. Afinal eu sabia que precisávamos conversar, mas o que eu poderia dizer a ela? Fiquei pensando nisso por um bom tempo, até mesmo quando formos lavar os pratos nada comentei sobre algo relacionado a nós duas. Porém não houve escapatória quando Elizabeth virou o corpo para mim e me olhou um pouco hesitante, era chegada hora de tentar por em palavras tudo o que estava acontecendo. Segurei em sua mão e delicadamente a puxei para a sala, sentei no sofá e não precisei de nenhuma indicação para que a ruiva sentasse ao meu lado.
-Isso é mais complicado do que eu esperava – falei fitando nossas mãos – Pulamos muitas etapas importantes, sabia?
-Pulamos? – Liz indagou um pouco confusa, quando a fitei ela tinha o cenho franzido.
-Sim, moramos juntas e somos amigas – tentei explicar enquanto virava meu corpo em sua direção, sentando de lado no sofá e cruzando minhas pernas – Eu passo mais tempo com você agora do que com qualquer outra pessoa.
-Isso é ruim? – a ruiva pareceu cada vez mais hesitante, a falta de experiência no assunto parecia cada vez mais explícita em seu olhar.
-Sim e não – respondi, mordi o canto do lábio e soltei a respiração, não havia um modo de falar aquilo sem ser do meu jeito, ou seja, de uma maneira bem direta – Se você não quiser me ver, estiver de saco cheio de mim ou coisa parecida não vai poder me evitar ou dizer que não quer ver meu lindo corpo nem pintado de ouro.
-Ah, entendo agora – Liz fez uma expressão de compreensão – A questão de espaço no relacionamento. E se formos parar para pensar, as coisas fluíram de uma forma mais acelerada pelo fato de termos tanto contato dentro de casa.
-Exatamente. Então é difícil para eu admitir isso, mas eu acredito que você só gosta de mim – disse fazendo uma careta, o coração apertado diante de uma hipótese tão real – Mas apenas isso, talvez nem esteja realmente apaixonada ainda.
-Não pode dizer isso! – Elizabeth exclamou agitada e indignada, seu sotaque francês sempre ficava mais acentuado nesses momentos – Eu não faria aquilo tudo se não estivesse sentindo algo por você!
-Eu sei que sente algo por mim. Mas você é inexperiente nisso, mon ange – tentei explicar e apertei a mão dela, apenas com medo inconsciente de que ela se afastasse – Você pode estar encantada com as coisas novas por aqui, comigo e com meu beijo, seu desejo pode estar aflorando agora e a curiosidade também ajuda. Nem eu e nem você podemos ter certeza do que você sente.
-Isso é um ultraje! Eu sei o que é o amor, eu o defendo com todas as minhas forças e---
-Jamais o sentiu antes, não é? Então como pode ter certeza de que o que você sente por mim seja algo parecido com o que você tanto preza?
Elizabeth fitou-me ainda com raiva, depois hesitante e por fim encolheu no sofá, soltando a minha mão apenas para cruzar os braços embaixo dos seios. Ela estava zangada e fazendo aquele beicinho tentador e fofo que me fazia querer beijá-la e ao mesmo tempo apertar suas bochechas. Passei a mão pelo meu cabelo tentando por minhas intenções em ordem, precisava ser bastante clara com aquela mulher, pois tudo o que eu menos queria era que ela estivesse confusa em relação a tudo o que estava acontecendo. Preferia errar por deixar claras as coisas do que me iludir por falta de informação e explicações.
-Não estou dizendo que isso é errado, é apenas esperado. Não faz nem dois meses que nos conhecemos, Aimeé – chama-la pelo segundo nome sempre parecia surtir algum tipo de efeito, ela voltou a me fitar com atenção – Eu vou ter certeza de que você estará apaixonada por mim. Porque eu não vou deixar de tentar conquista-la, eu vou continuar até que esteja perdidamente caída por mim!
Para tirar aquele ar sério que havia nos tomado, pisquei o olho de um jeito sedutor enquanto abria um sorriso divertido. Liz revirou os olhos, mas tinha um principio de sorriso no canto de seus lábios e suas bochechas avermelharam um pouco. Toquei seus braços e de um jeito delicado comecei a desdobrá-los e aproveitei para deslizar tocando aquela pele macia até minha palma encontrar a dela.
-Eu não sei como fazer isso da maneira certa, estou improvisando aqui ok? – falei e a senti entrelaçando nossos dedos – Então para manter pelo menos certo nível de privacidade, seu quarto será sagrado. Não vou entrar lá de jeito nenhum, poderá usá-lo como refúgio se for necessário.
-Eu agradeço por isso – Liz suspirou e sorriu mais abertamente – Obrigada por pensar em mim – mas então o sorriso dela morreu rapidamente e eu a vi ficar tensa – Então... O que temos agora?
-Essa é uma boa pergunta, mas... Argh, odeio ter de fazer a coisa certa – fechei a minha expressão zangada com minha ideia, mas sem ter outra alternativa – Não podemos ter compromisso ainda, não por agora, não até podermos definir isso que temos melhor.
-Isso quer dizer que você pode ficar com outras? – Liz olhou-me com um brilho intenso e tentou afastar minhas mãos, mas eu as segurei firme – Você está querendo apenas brincar comigo, Victoria?
-Jamais, Elizabeth – disse de maneira firme – Eu não vou ficar com mais ninguém, não até ter esgotado todas as minhas energias e tentativas de fazer você se apaixonar por mim. Eu tenho certeza do que eu quero e decidi arriscar quando comecei a cortejá-la.
-Por que você pode ter tanta certeza do que quer e eu não?!
-Porque você é ingênua e acredita em um amor utópico – falei de forma sincera – Admito que é uma coisa linda a maneira que você pensa, mas não se iluda pensando que não vamos brigar, que não vamos ter conflitos e que o destino vai pregar muitas peças. Eu preciso ter certeza de que conquistei você para saber que eu não estou arriscando-me por uma curiosidade ou paixonite.
-Então no fim você só está sendo egoísta! – Liz finalmente levantou e pós as mãos na cintura assumindo uma postura de briga – Está querendo ter certeza de que VOCÊ não vai se machucar, querendo impor suas hipóteses sobre meus sentimentos.
-Sim, talvez – admiti encolhendo no sofá e estremecendo, aquela não deveria ser uma conversa mais amena e cheia de romantismo? – Eu sou realista Liz, você uma sonhadora.
-Então eu vou provar para você que o amor não é esse monstro que você acredita!
A determinação e convicção dela me fez estremecer. Tudo bem, eu poderia me encaixar no perfil de pessoas que não eram fãs do amor por medo do sofrimento. Mas ali a minha frente estava uma linda ruiva, de mãos na cintura me fitando com fervor e seriedade enquanto falava de um amor que para mim já parecia não existir mais. Pensei em negar, em dizer que apaixonar era diferente de amar, cheguei a abrir meus lábios para argumentar... Porém travei. Naquele momento eu descobri o quão difícil era dizer não para Liz quando ela assumia esse tipo de postura.
-Tudo bem – disse em um tom de derrota e a vi abrir um sorriso vitorioso – Eu estou sentindo que os dias mais loucos de minha vida estão se aproximando.
-Eu tenho certeza – Elizabeth presenteou-me com o seu sorriso soberbo.
-Acho que alguém está merecendo perder essa postura superior.
Levantei com um sorriso maroto que exibia todas as minhas segundas e terceiras intensões. Isso foi suficiente para fazer Liz recuar em direção ao corredor.
-Meu quarto, eu vou ir para o meu...
Eu fui mais rápida ao avançar a passos largos, a segurar pela cintura e empurrar da forma mais delicada possível até a parede do corredor. Liz arfou e segurou meus ombros, começando a me empurrar, mas bastou colar meu corpo ao dela para que escutasse um frágil suspiro.
-Você disse que não teríamos nada – ela acusou.
-Isso não quer dizer que eu não vá usar meus antigos métodos de conquista – murmurei perto do ouvido dela, sorrindo ao vê-la arrepiar – E se você quer ir ao seu quarto, mereço ao menos um beijo de boa noite.
Antes que ela respondesse mordisquei o lóbulo da orelha e o puxei suavemente até que se soltasse de meus dentes. As mãos dela em meus ombros aumentaram a pressão do aperto, mas não me afastaram. Fiz uma trilha demorada do ouvido até o queixo onde eu mordi suavemente e ergui meu olhar até prender-me no olhar dela.
-Boa noite, ma chérie – sussurrei.
Inclinei e deixei meus lábios bem próximos dos dela, mas não a beijei. Ela suspirou com a tensão que havia criado deixando aquele hálito doce roçar minha pele. Engoli em seco controlando todos os meus impulsos, desviei minha boca para o lado e depositei um longo selinho no canto dos lábios dela. Afastei-me devagar recebendo um olhar intrigado e escuro de Liz, todos os sinais de que ela queria um pouco mais estavam ali, mas tudo o que eu fiz foi abrir um sorriso sapeca e ir para o meu próprio quarto. Esperava que aquela provocação valesse a pena, pois todo o meu corpo gritava para que eu voltasse lá e desse um beijo que acabasse com todo o meu oxigênio. Porém ainda era cedo para algo assim, ao menos por enquanto.
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