Maître de Marionnettes (Hiatus)
7 La Première Marionnette
Notas iniciais
− Onde você vai, maman? − indagou Bèlle sentada em frente da lareira.
A mulher a encarou desconcertada, o rosto perdeu a cor e seus lábios tremiam levemente enquanto buscava por uma resposta convincente. Mabelle encaminhou-se até a garotinha e beijou-lhe a testa com ternura acariciando seu rosto inocente.
− Maman tem que sair, mas lembre-se de que eu amo você, amo muito. − murmurou com a voz embargada.
− Mas sair para onde? − a menina insistiu observando com curiosidade as lágrimas que caiam em cascata pelo rosto da mãe.
− Não posso dizer, mon amor, mas eu prometo que eu volto. Eu volto para buscar você e a Tris e nós seremos muito felizes, ok?
Mabelle depositou um beijo casto na testa da criança e apanhou sua maleta saindo da casa a passos silenciosos. Tris apareceu no topo da escada nesse instante e dirigiu-se a irmã abraçando-a afetuosamente e beijando sua testa:
− Pépé estava certo, Sig. Ela não gosta da gente, deixe que vá.
As imagens foram engolidas de repente e substituídas por outras memórias.
− Ela nos deixou. − murmurou Pierre tentando manter-se controlado.
− Eu já imaginava − disse Joseph Mortensen em resposta.
− Se ela voltar, o que eu duvido, mas caso aconteça... Ela não tem permissão para chegar perto das minhas filhas! − exclamou imperioso e saiu do escritório batendo a porta com fúria.
Do lado de fora Zabèle e Beatrice o observavam com receio, não costumavam ver o pai assim, agindo como se fosse seu avô, mas logo ele era todo beijos e abraços com as duas, de modo que elas esqueceram-se em um piscar de olhos de tudo o que haviam escutado atrás da porta.
As gargalhadas infantis tomavam conta da enorme mansão enchendo o endurecido coração de Joseph Mortensen de ternura, as pequenas corriam para lá e para cá balançando seus vestidos e sendo perseguidas pelo pai que corria para todo lado atrás das meninas. Todos riam e era como se eles fossem uma família realmente feliz.
Zabèle acordou, os olhos cansados, olhou no relógio e levantou-se depressa. Tinha de se arrumar para mais um velório.
***
Nos momentos mais difíceis é que um líder deve mostrar a sua liderança. Quando todos estão no chão, ele deve se erguer para suportar os seus servos. É uma tarefa difícil e, por vezes, insuportável, mas é uma das exigências para garantir que o povo continue seguindo em frente. A morte é algo com que um bom líder tem de lidar diversas vezes durante a sua jornada e Joseph Mortensen sabia exatamente o que era isso. Ele havia lidado com a morte centenas de vezes e, no entanto, não sabia como continuar firme naquela situação. Aquele momento em que perdia o que possuía de mais precioso e precisava continuar sendo forte.
A grande caixa preta se erguia em frente aos seus olhos e ele lutava com todas as forças contra as sensações que o invadiam com fúria. Tudo o que o velho senhor desejava naquele momento era arrancar a cabeça de Hector com as suas próprias mãos, no entanto, permaneceu irredutível e jogou uma rosa branca no buraco dentro da terra. Sua rosa acomodou-se ao lado da rosa vermelha jogada por Zabèle, que assim como ele, não chorava. Nem uma lágrima sequer. Todos os sentimentos da jovem senhorita estavam enterrados no mais profundo iceberg. Não era um comportamento bem visto pela sociedade, mas mais do que suficiente para a futura sucessora do Capitaine:
− Senhor, é meu dever informá-lo de que temos uma assembléia em meia hora. − avisou Leroy com toda a cautela.
− Avise a eles que irei me atrasar, preciso levar Zabèle para casa primeiro... − começou em um suspiro, mas foi interrompido pela neta que falava em tom imperativo.
− Eu vou! − exclamou.
O velho a encarou consternado:
− Esse... Não é o tipo de lugar que gostaria de frequentar. − murmurou.
− Gostando ou não, esse é o meu legado e acho que já está mais do que na hora de aprender a controlar o navio. − disse friamente e saiu andando na direção da limusine.
Zabèle precipitou-se para o interior do veículo cor de betume e seu avô a acompanhou logo em seguida, o motorista bateu a porta e encaminhou-se para a cabine, que era isolada de todo o resto. No banco de trás, não se falava. O silêncio imperava como um verdadeiro rei. Bèlle podia ver através do vidro traseiro da limusine dois carros os seguindo, era a escolta. Em algum momento eles se dispersariam para não chamar a atenção das autoridades, mas nunca ficariam muito distantes, afinal, o Capitaine e toda a sua família eram constantes vítimas de ameaças, por motivos mais do que razoáveis.
Fora por isso que Beatrice morrera.
E também porque ela vivia se metendo em encrenca.
Sig apoiou a cabeça no vidro e observou enquanto pedacinhos de céu tocavam a película. O barulho da chuva invadia seus ouvidos e lhe proporcionavam uma calma que ela nunca tivera anteriormente. De repente ela se viu lamentando a sua vida, arrependendo-se daqueles estúpidos trotes que fizera na noite anterior com a sua irmã. Talvez se elas tivessem permanecido em casa, se tivessem se contentado com um filme e uma pipoca, sua vida não teria se tornado tão repentinamente um inferno. Talvez... O mais incômodo era viver na incerteza de que os ataques da Máfia do Dragão terminariam por ali.
Não demorou para que a limusine parasse e só, então, Zabèle se deu conta de que haviam chego à sede da Máfia, uma casa no meio de uma área não urbanizada que pertencia a algum membro da organização, que ela tinha certeza de que não era seu avô por conta de todas aquelas questões de seguranças e etc. Logo a porta do veículo se abriu e ela se apressou a acompanhar seu avô para o lado de fora:
− Não se afaste de mim em hipótese alguma − começou o Capitaine enquanto caminhavam pelo solo íngreme até a entrada da casa −, e não dê confiança ao Lafayette, ele é um canastrão!
Bèlle teria sorrido com aquela observação se não estivessem passando por um momento tão crítico como o presente.
− Você se sentará na primeira poltrona à minha direita, já combinei tudo com o Leroy. Não os encare, não os contrarie e sempre mantenha um ar de superioridade. Se vai mesmo entrar nesse negócio eles terão de aprender que, além de respeitá-la, eles devem temê-la.
− Eu tenho permissão para falar? − indagou sarcástica.
Joseph Mortensen não respondeu, apenas continuou seu caminho.
Ambos, avô e neta, atravessaram a porta adentrando em um salão onde havia apenas uma longa mesa retangular circundada de cadeiras ocupadas, com exceção de duas, aquelas que pertenciam a Joseph e Zabèle. Sig ainda pôde reparar em um bar um pouco afastado, mas não teve tempo de ver mais nada, pois logo seu avô estava lhe empurrando para o seu lugar.
− Boa tarde, senhores. Desculpem-me o atraso, mas penso que é do conhecimento de todos o motivo deste.
Bèlle havia sido alertada para não encará-los, mas não conseguiu evitar de satisfazer sua curiosidade olhando curiosamente para as feições daquelas pessoas ao redor da mesa. À sua frente estava Angus Leroy, o conseiller, o homem de cabelos de algodão responsável por auxiliar seu avô em suas principais decisões; ao lado deste estava um homem de cerca de quarenta anos de idade, cabelos escuros, olhos castanhos e barba negra, à sua frente havia uma plaquinha o identificando por Thierry Lafayette, o olhar do homem cruzou com o olhar de Sig e ela entendeu isso como um bom sinal para se dedicar a encarar o tampo de madeira da mesa.
− Minhas sinceras condolências, senhor. − murmurou o grisalho Fontaine. Sig achava que aquele homem tinha alguma ligação com Armand, mas não sabia exatamente qual seria essa ligação.
Mortensen agradeceu com a cabeça e voltou-se para os papéis a sua frente, que continham a pauta daquela reunião. Ele suspirou profundamente, ergueu-se de sua cadeira na cabeceira da mesa e apoiou as pontas dos dedos no tampo da mesma encarando os membros daquela assembléia.
− A pauta de hoje não precisa ser lida, meus amigos − começou displicente −, nosso único objetivo hoje é encontrar uma forma de aniquilar o Dragão e todos aqueles répteis nojentos!
***
Zabèle nunca estivera em uma das reuniões da Máfia, de modo que não tinha nenhuma ideia à respeito do tempo de duração da mesma. Passaram-se uma hora, duas horas, três horas e seu avô ainda estava discutindo estratégias com os Charpentiers. Fournier, o membro principal deste escalão, esboçava as suas opiniões e os resultados à respeito das investigações:
− Com todo o respeito a sua falecida neta, senhor, mas... O atentado dela aos estabelecimentos de que tínhamos conhecimento pode nos ter prejudicado nesse quesito. Eles podem fazer uma movimentação a qualquer momento, não posso manter meus homens naquele território.
Bèlle manteve sua cabeça abaixada, queria ter forças ou argumentos para rebater a 'acusação' de Fournier, mas não tinha porque sabia que ele estava certo. Que tipo de coisa ela poderia dizer? 'Eu e minha irmã queríamos nos divertir e irritar o nosso avô'. Sig só conseguiu pensar em como haviam sido bobas, mas mesmo assim não conseguiu se arrepender de nada, afinal, estivera com Freud e nada poderia ser mais importante que isso.
− Fornieur está certo, precisamos de tempo para consolidar os ataques. − pronunciou-se Legrand e pela primeira vez Bèlle reparou em sua tia ranzinza com quem a relação se resumia a algumas libras de presente de aniversário.
Mortensen deu um suspiro e voltou-se para Leroy buscando um conselho.
− Precisamos ser cautelosos, senhor. − aconselhou Leroy calmamente.
O Capitaine apenas suspirou e assentiu com a cabeça.
− Levem o tempo necessário, mas tragam esse homem para mim! − murmurou. − E com vida. − acrescentou retirando-se do salão.
Zabèle ficou estática por um momento, seu avô havia dito para que ela não se afastasse dele em nenhum instante, mas mesmo assim, ele o fizera. A jovem engoliu em seco e estava pronta para seguir o velho quando foi impedida pela mão enrugada de Leroy:
− Deixe que ele respire, minha jovem. Ele não vai ser uma boa companhia nesse momento − murmurou gentilmente.
Ela pensou em retrucar, mas obedeceu e sentou-se no seu lugar novamente.
Bèlle tivera um dia cheio. Compromissos, enterros, pessoas. Mas naquele momento ela finalmente tinha tempo para pensar sobre o que acontecera. Ela finalmente teve tempo para perceber que alguém havia atirado em sua irmã e que ela realmente queria vingança por isso. E ela se viu no meio daquele bando de mafiosos que planejavam meticulosamente a vingança contra o assassinato de Beatrice. Seu coração gelou, ela queria matar.
Vagando para fora de seu devaneio Bèlle reparou em um homem de terno cinzento entrando pela porta dos fundos e se dirigindo a Garrett Fournier. O homem cochichou alguma coisa no ouvido de seu superior que voltou-se para ele interessado. Antes que Bèlle tivesse tempo de morder a língua já estava falando em um tom de voz que permitia que todos a ouvissem:
− O que está havendo?
Fournier voltou-se para ela surpreso e trocou olhares apreensivos com Leroy como se pedisse permissão para dirigir-lhe a palavra, como efeito a um sinal positivo ele suspirou e murmurou em voz grave:
− É sobre a investigação do assassinato da sua irmã. A perícia acha que encontrou alguma coisa.
Ela não questionou a respeito do envolvimento da polícia naquele assunto, sabia que haviam muitos 'homens da lei' e detentores de outras tantas qualidades que eram integrantes da máfia e não havia motivos para questionar aquelas decisões.
− Que coisa? − prosseguiu tentando parecer bastante segura de si, mas sabendo que seu rosto devia estar da cor de papel e sua mão suava como ela achava que não era possível.
− Ahn... − o homem engoliu em seco. − Não estou certo de ter permissão para lhe responder, senhorita. − respondeu com submissão.
Bèlle respirou fundo, era como se houvesse um nó em sua garganta.
− Eu... − ela parou. − Sr. Leroy pode me informar se o Excelentíssimo Senhor Joseph Mortensen me concede a permissão para me envolver diretamente nas investigações que dizem respeito ao assassinato da minha irmã, que só se encontra em seu estado atual por conta do estúpido show de mágica que ele patrocina todas as noites? − indagou com ousadia, de modo que o velho conselheiro só soube fitá-la desconcertado por alguns instantes.
O velho Salazar retornou ao recinto e encarou a neta desgostoso.
− Devia dedicar-se mais aos seus estudos e menos aos interesses dessa organização, Zabèle.
− Infelizmente, essa não é uma questão de escolha, eu nasci na família errada e vou seguir pelo caminho errado, isso é muito claro para mim, senhor.
Zabèle teve impressão de que seu avô se segurava para não lhe bater ali naquele instante, a veia de sua testa pulsava e ele estava levemente rosado, mas ao invés disso, ele esboçou um sorriso fraco e consentiu:
− Fournier e Dupont, acompanhem-na até as evidências e contem cada detalhe que ela mereça saber. − ordenou e os três deixaram o salão.
Zabèle foi conduzida a um laboratório, onde haviam várias bancadas e aparelhos eletrônicos por toda parte. Em um extremo do local um garoto de pouco mais de dezoito anos de idade visualizava alguma coisa em um computador, tinha cabelos loiros, olhos escuros e pele clara. Ele levou um susto quando Fournier se pronunciou:
− Dubois, será que pode mostrar a boneca para a nossa visitante?
O garoto engoliu em seco e fitou Zabèle com espanto, mas ela procurou não encará-lo nos olhos para que as coisas não ficassem ainda mais complicadas. Ao som da palavra 'boneca' Bèlle ficou extremamente curiosa, mas quando viu, de fato, o objeto seus olhos se encheram de um brilho intenso.
− Ela estava no local de onde nós supomos que o assassino tenha atirado − explicou pacientemente.
Dubois sacudia uma espécie de marionete dentro de um saco de plástico, com cuidado ele retirou o objeto de dentro do plástico com duas pinças gigantes e indicou para que Bèlle se aproximasse da bancada. A marionete vestia um short preto, sobretudo da mesma cor e cartola, a jovem engoliu em seco. Na altura do peito havia um pequeno objeto transpassando o corpo da marionete, era a representação da bala que atingira Beatrice. Dubois apanhou uma lupa e aproximou daquele pequeno objeto:
− Leia.
Bèlle aproximou a cabeça e ajustou a visão para ler as letras miúdas:
Maître de Marionnettes.
***
Aquelas palavras ainda soavam em sua cabeça. Zabèle e os outros haviam entendido aquilo como uma assinatura, mas quem poderia ser o indivíduo que se intitulara 'Mestre das Marionetes'? E mais, o que aquilo realmente significava? Os investigadores tinham certeza de que aquilo tinha alguma relação com a Máfia do Dragão, mas não conseguiam explicar com clareza qual ligação seria aquela. Bèlle estava perdida em seus pensamentos, lutando para encontrar evidências que lhe empurrassem para o culpado.
Repentinamente, ela tropeçou em alguma coisa e seu corpo foi jogado para cima de um corpo que ela nem sequer notara. Os braços fortes impediram que ela caísse e apenas pelo cheiro de nicotina ela podia supor que se tratava dele. Chermont a encarava com seus belíssimos olhos azuis que eram capazes de hipnotizar as criaturas mais seguras de si:
− Tome cuidado. − murmurou o guarda-costas com calma, e a ajudou a se recompor.
Fazia algum tempo que Bèlle vinha reparando na forma como Chermont a olhava e não estava absolutamente certa se gostava daquilo. Sabia que gostava muito dele, mas vivia em um mundo onde a vida pessoal jamais deveria se misturar com a vida profissional ou poderiam haver grandes consequências. Fora assim com Mabelle e por isso ela se achou no direito de abandonar as próprias filhas. Por causa de um futuro incerto com o homem errado.
− Eu estou bem. − garantiu com a voz rouca e subiu as escadas as pressas.
Zabèle entrou em seu quarto e trancou a porta. Viu algumas peças de roupa jogadas em cima da cama, mas não se importou, andou diretamente até a sacada e apoiou-se no peitoral olhando a vista. Lá longe ela via o horizonte, uma linha qualquer que por algum motivo fazia com que as pessoas tivessem longos momentos de divagação. E nesse instante ela pensou no que estava fazendo no mês anterior, seu avô lhe mostrara algumas fotos de membros da máfia que dariam bons maridos. Nesta lista estavam Garrett Fournier, Thierry Lafayette e Armand Chevreuse, os dois primeiros com cargos respeitáveis, o último com uma herança genética privilegiada. Ele jamais iria lhe sugerir Chermont como marido porque ele não tinha o melhor cargo ou algum parente de prestígio, ele era só ele. Sozinho no mundo. Exatamente como ela sempre se sentia naquele lugar vazio:
− Até que enfim voltou! − murmurou uma voz às suas costas.
Bèlle apenas deu de ombros.
− Eu estive em uma assembléia. − respondeu com um suspiro.
A dona da voz deu uma risadinha e continuou nas sombras das cortinas.
− E você chorou?
Zabèle não conseguiu deixar de sorrir.
− Fiz melhor, eu entrei para a equipe de investigação da morte da minha querida irmãzinha! − disse animada e voltou-se para encarar o vulto branco enrolado nas cortinas.
− Aprendeu melhor do que eu pensava, hein! − caçoou a outra.
Bèlle a fitou com um olhar misterioso.
− Eu vou vingar você, Freud!
A outra sorriu e ajeitou a máscara branca no rosto.
− Não existe nenhuma Freud aqui, meu nome agora é Psiquê.
Fale com o autor