Todos os dias, eu acordava às 5h da manhã, tomava meu café e ia trabalhar. No trajeto, comia uma maçã verde suculenta e azeda. Odiava essa rotina, pois até voltar para casa, meu dia era tortuosamente chato. Não gostava do meu trabalho, das pessoas com quem tinha que conviver minimamente, nem mesmo do trajeto ou da hora do almoço. No entanto, chegar em casa e poder comer outra maçã verde era satisfatório. Brincar com meus cachorros e jogar jogos online era o que me trazia alegria.

Em uma manhã, acordei chorando. Sentada na cama, sem vontade alguma de me levantar, as lágrimas não paravam de cair. Cheddar, meu cachorro, pulou na cama e sentou-se de frente para mim, fitando-me com seus olhos redondos e brilhantes. Parecia que ele queria me dizer algo. Enquanto isso, Parmesão voltou da cozinha, trazendo uma maçã verde para mim. Tomada pela felicidade que meus cães me proporcionavam, abri um sorriso e comi a maçã. No entanto, algo era diferente. A maçã não estava azeda como uma maçã verde deveria ser. Ela tinha um leve sabor doce, e um líquido mais espesso escorreu dela.

Decidi levantar e cumprir meu dever como todos os outros dias. Ao chegar no trabalho, algo estranho aconteceu. A secretária rasgou um sorriso que, aos meus olhos, parecia sangrar. Enquanto eu caminhava pelos corredores do prédio, outras pessoas também tinham sorrisos rasgados bem no meio de seus rostos, com sangue escorrendo do centro da boca até o pescoço. Pensei que poderia ser algo da minha cabeça, cansada de ver todas as pessoas e mentalmente criticá-las todos os dias.

Mais uma vez em casa, pude ser genuinamente feliz com a presença de Cheddar e Parmesão. No entanto, o estranho acontecimento do dia continuava em minha mente. Eu via aquelas imagens e sorria por um instante, com pensamentos sombrios rondando minha mente. Seria bom arrancar a falsa felicidade dessas pessoas, arrancar com minha boca, retirar esses sorrisos fingidos com meus dentes e ver o sangue escorrendo de suas bocas, revelando a verdade por trás de cada um. Ninguém é tão feliz todos os dias. Os olhos dizem muito mais do que a boca, que sorri falsamente. Afinal, eles não teriam mais a boca para sorrir, nem sorrisos falsos nem sorrisos políticos. Voltei do meu "transe" e fui fazer minhas coisas: brincar com meus cães e ficar no computador jogando.

Ao acordar na manhã seguinte, Cheddar já estava em cima da cama novamente, e Parmesão trouxe outra maçã verde para mim, devidamente higienizada. Ao comer a maçã, senti a mesma sensação, mas ainda mais intensa. Era extremamente doce, e o líquido era mais espesso e tinha uma tonalidade rosada. Isso despertou um desejo ainda maior em mim, e eu queria mais e mais. Meus cães se sentaram ao meu lado, observando-me de maneira estranha, mas eu não dei muita importância e continuei comendo. Infelizmente, minhas maçãs acabaram, então corri para o mercado mais próximo de casa, vestida apenas com meu pijama. Cheddar e Parmesão me acompanharam. Ao entrar no mercado e deparar com uma grande quantidade de maçãs, impulsivamente comecei a comê-las ali mesmo. Percebi que todos ao meu redor me olhavam, mas nenhum ousava se aproximar, pois Cheddar e Parmesão não permitiam que ninguém me tocasse. Logo, os cães começaram a comer as maçãs comigo e a lamber meus braços, já que eu estava encharcada com o líquido que escorria das maçãs. Era incrível como elas estavam deliciosas, e nenhuma delas conseguia satisfazer meu desejo.

Não me lembro por quanto tempo fiquei ali, imóvel, apenas comendo as maçãs como um lobo faminto que encontrara galinhas após dias sem comer. Mas, em certo momento, um apito estridente atingiu meus ouvidos, deixando-me extremamente irritada com o som. Olhei para o lado e vi policiais pedindo que eu prestasse atenção neles. Alguns tentavam conter os cachorros com laços de captura. Desesperada, continuei comendo as maçãs verdes com ainda mais voracidade, sentindo a presença dos homens que se aproximavam para me deter. Em um estado de fúria e frenesi, debatia-me e gritava para que não prendessem meus cachorros, mas continuava a comer as maçãs. Até que, finalmente, fui contida. Afinal, eu era apenas uma mulher de 1,50m e 50kg, incapaz de escapar dos homens que me seguravam brutalmente. Um senhor, aparentemente um médico, aproximou-se enquanto eu era amarrada com cordas cortantes. Ele aplicou uma injeção em meu braço, e lentamente eu vi... eu vi o que estava fazendo, vi detalhadamente tudo o que estava acontecendo.

As maçãs verdes eram os sorrisos das pessoas. Eu não tinha sonhado. Era real. Eu realmente arranquei os sorrisos falsos dos rostos das pessoas que cruzavam meu caminho. Agora eu entendia o sabor adocicado das maçãs e a razão para o líquido espesso. Em mim havia sangue, havia sangue nos cães que beberam do mesmo líquido que escorria dos corpos das pessoas que jaziam pelo chão. Hoje estou aqui, presa em minha mente. Esse é um sonho recorrente, febril e dolorido. Apenas eu sei o que vivi, apenas meus cães sabem o que aconteceu ali.

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